Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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As Guerras, Os Prisioneiros
Moviam-se as guerras principalmente para fazer prisioneiros, quando as não incitava o desejo de vingança.

Geralmente, as guerras eram empreendidas no tempo do amadurecimento dos frutos com os quais preparavam os vinhos das libações.

Não atacavam francamente, mas armando ciladas, e caíam sobre o inimigo de surpresa, aos brados, com estridor de inúbias.

Repelidos com vantagens, recuavam; outras vezes, despedindo flechas inflamadas, ateavam o incêndio na taba inimiga e voltavam levando as presas de guerra, atroando os bosques com algazarras e ululos de trombetas.

Atado, pela cinta, a um poste, o prisioneiro, na hora do suplício, entoava o seu canto de morte, enquanto os da tribo inimiga dançavam em torno dele com estrépito de chocalhos e silvos de flautas de osso ou de taquara, simples ou duplas. Crianças e velhos ficavam de parte assistindo, ou batendo nos tambores.

À hora do sacrifício, o matador, ornado vistosamente, aproximava-se da vítima já tosquiada e, brandindo a tangapema enfeitada, descarregava o golpe que esmigalhava o crânio do infeliz. Levantava-se estupenda algazarra, e as velhas precipitavam-se para talhar o corpo que ainda estrebuchava, levando logo os pedaços para a fogueira.

O dedo polegar era o primeiro cortado a vítima por ser o disparador das flechas, os ossos eram guardados para diferentes usos; as caveiras ou as espetavam nas estacadas à entrada das tabas ou aproveitavam-nas para cumbucas; dos dentes, enfiados, faziam colares.

Era uma honra assistir a tais cerimônias e participar do banquete; as glórias, porém, cabiam todas ao matador, que, em memória da ação, inscrevia caracteres indeléveis no peito. E seguia-se a poracé, dança selvagem, durante a qual a bebia corria copiosamente e os cachimbos fumegavam.

Pela grande excitação que provocava tão descompassado exercício, não raro, ao fim da festa, os guerreiros travavam-se em luta de morte.

As mulheres aprisionadas ficavam escravas, sendo, porém, submetidas a suplício se houvessem pelejado.

O espírito exaltado de vingança constituía a verdadeira crença do selvagem. Era o ódio que os levava ao canibalismo: eram antropófagos, não por gula, mas porque sentiam um bárbaro prazer em trincar a carne do que, em vida, contra eles pelejara.

Levavam longe a vingança, tanto que se compraziam em exumar o esqueleto dum inimigo para, quebrando-lhe os ossos, desforçarem-se ainda do mal que ele lhes havia feito em vida.


Crenças e Superstições
O sentimento religiosos, se assim nos podemos exprimir, revelava-se, entre os selvagens, pelo assombro. Não tinham idéia de um Deus criador nem cerimônias que provassem subordinação do espírito à crença em um Ente superior.

Constrangiam-se medrosamente diante dos fenômenos, que, nem por serem comuns, se lhes tornavam indiferentes. Tupã, espírito maligno, gerador das trovoadas que atroavam o espaço, despedia raios quando estava irado.

Se os céus se carregavam procelosamente e os coriscos serpenteavam no fundo tenebroso dos nimbus, o pavor transia o povo bárbaro, que se apertava, como um rebanho acossado, na ocas fumarentas. Temiam os maus espíritos das selvas.

Preponderando neles o animismo, viam nos animais reencarnações de almas e temiam-nos por isso.

O curupira representava variadamente o que imaginava a fantasia do indígena: ora o tapuio em pena, ora um espírito misterioso que perseguia os andantes. O jurupaí, espécie de gênio antropófago, tomava a forma humana ou a de um animal nas suas aparições; os caaporas faziam parte dessa legião de duendes; o mais funesto, porém era Anhangá, considerado por alguns viajantes como uma encarnação da lua; perseguia os homens, atribulando-os.

Os espíritos aquáticos deram origem à ficção da iara, mãe d’água, mulher formosa de cabelos louros que fascinava e atraia os que ficavam ao alcance dos seus olhos. à noite não ousavam andar sós fora do terreiro da taba, às escuras, e tremiam ouvindo os pios agourentos da acauã ou a voz das corujas que atravessavam os ares.

De alma simples como eram, aceitavam piamente tudo o que se lhes dizia, e dessa credulidade se aproveitavam vantajosamente os pajés.

Grande era o prestígio que estes exerciam sobre os bárbaros. Viviam solitariamente nas brenhas, em trato íntimo com os espíritos, como diziam, e só de tempos a tempos apareciam nas aldeias, quando entendiam dever subjugar pelo pavor os bárbaros, garantindo o seu domínio sobre eles; e os seus agouros impressionavam de tal sorte aos indígenas que muitos sucumbiam à predição.

O dia da visitação de um pajé era considerado festivo. limpavam os caminhos que ele devia trilhar, preparavam-lhe suntuosa recepção e presentes que denominavam potaba, e dançavam aporacé ruidosa.

Vivendo em plena selva virgem, em absoluta ignorância, era natural que procurassem explicar, pela intervenção de espíritos, os diferentes ruídos noturnos, as sombras largar nos campos, o doce murmúrio das águas, as luzes errantes do céu, as moléstias, as desfortunas. tudo quanto lhes escapava ao entendimento ou lhes causava surpresa e assombro – o estrondo do raio ou o pio merencório da ave noturna – era para eles mistério e causa de temor. Andavam no estado intermédio entre o pavor e a crença, que é a idealização mística do medo.



Os Precursores de Cabral
Antes que o acaso trouxesse às novas terras a frota de Cabral, já vários nautas castelhanos as haviam encontrado e costeado para o norte.

Em fins de Junho de 1499, Alonso de Hojeda, navegando com os célebres pilotos Américo Vespúcio e Juan de La Cosa, encontrou uma terra baixa, alagada, naturalmente a do delta do Assú, no atual Estado do Rio Grande do Norte.

Impossibilitado de vencer a violência das correntes, fez-se ao largo, indo surgir, como se pressume, no porto de Caiena.

Sete meses depois, Vicente Yanez Pinzon, que primeiramente encontramos na esquadra de Colombo, navegando com quatro caravelas, aproou à terra, em rumo do Norte, alcançando a 26 de Janeiro de 1500, um cabo a que deu o nome de Santa Maria de la Consolacion, cabo que, com fundados motivos, se julga ser o de Mucuripe no Estado de Ceará, e não o de Santo Agostinho, como se presumia.

Seguindo a costa, descobriu Pinzon outro cabo, a que chamou Rostro Hermoso, - sem dúvida a ponta de Jerécoara. Debalde procurou entrar em comunicação com os indígenas desses pontos por meios sedutores, tendo até de sustentar luta com eles, da qual resultou morrerem vários homens da expedição. Seguiu depois pelo Amazonas a que denominou Mar Doce e navegou até o Cabo de Orange, onde chegou a 5 de Abril de 1500, chamando-o S.Vicente, que era o orago do dia.

Perdendo numa tempestade duas caravelas com toda a equipagem, az-se de vela para a Espanha depois de ligeira parada em Ispaniola, levando 20 indígenas escravizados, 3 mil libras de pau-brasil e várias outras coisas que achara na terra, onde fora recebido tão atrevidamente..

Pouco tempo depois da expedição de Pinzon, Diego de Lepe, de Palos, aportou também perto da ponta chamada Rostro Hermoso, tendo de pelejar contra os naturais que, lembrando-se do que lhes fizera Pinzon, receberam com sanha o piloto espanhol e a gente das suas duas caravelas.

Já que nos temos referido, por vezes, às terras da América sob a denominação de “novas” , convém que digamos, firmados em valiosíssimas afirmações de sábios e em documentos antropológicos, que essas mesmas terras foram das primeiras, senão as primeiras, que emergiram dos mares, no hemisfério que, por muitos séculos, foi julgado vazio, - não obstante, de longe em longe, a intuição de um vidente fizesse despertar na alma dos aventureiros dos mares a idéia de explora-lo.



Américo Vespúcio
Apesar do entusiasmo que despertou na corte portuguesa a notícia do feliz achamento das terras novas, não houve grande açodamento na exploração do território que, por venturoso sucesso, coubera a Portugal: porquanto só a 13 de Maio de 1501 deixou o Tejo uma nova expedição, composta de 3 caravelas, vindo na capitania, segundo a conjeturas, um favorecido de D.Manuel, D.Nuno de Melo.

Dá-se como razão principal da demora na exploração, o desejo justo que tinha o rei de mandar na pequena frota alguns pilotos práticos em navegações anteriores ao novo continente.

Efetivamente com D. Nuno de Melo veio Américo Vespucci, florentino, que já havia navegado com Hojeda, e que, por ser homem prático, se tornou o verdadeiro chefe da expedição.

Depois de ligeira demora num porto africano, a frota fez-se ao mar, aproando para o Sul. Sessenta e sete dias lutaram com as tormentas: e, segundo o mesmo Vespucci, teriam todos perecido, se ele não tivesse acudido a tempo. escapando afortunadamente à fúria dos ventos e dos mares, avistaram terra a 16 de Agosto, junto ao cabo que foi chamado S.Roque.

Aí os naturais receberam-nos com desconfiança, reservando-se; e, como baixasse à terra um moço de bordo, foi trucidado pelas mulheres que o esquartejaram aos olhos dos companheiros, arredados demais para qualquer desforço: enquanto devoraram a vítima, os canibais deram a entender que haviam feito o mesmo a dois outros marinheiros que, dias antes, haviam saltado à terra.

Como despedissem inúmeras flechas contra as caravelas, os de bordo descarregaram quatro obuzes, dispensando-se os índios com o estampido. A tripulação das caravelas, indignada, quis descer em massa para tirar vingança dos selvagens. Vespucci, porém, opôs-se, e, levantando a âncora, guiou em direção ao Sul, e foi sucessivamente batizando as paragens que encontrava, designando, pelos nomes que lhes ia dando, o dia em que as avistou: foi assim que a 2 de Agosto descobriu o Cabo de Santo Agostinho; a 1 de Novembro a Baía de Todos os Santos; a 25, a Baía de São Salvador; a 1 de Janeiro (1502), o Rio de Janeiro; a 6 de Janeiro a Angra dos Reis; a 20, a Ilha de São Sebastião; a 22, o porto de S.Vicente.

De S.Vicente passou a esquadrilha ao porto de Cananéia onde deixou degredado um bacharel português. De Cananéia seguiu para o Sul até o Cabo de Santa Maria, onde julgaram ter terminado o continente. Narra Vespucci que, esmorecendo o chefe da expedição, ficou sob a sua exclusiva responsabilidade a direção da viagem. Abastecendo-se, como pode, seguiu o rumo de sueste e, ao cabo de 50 dias de navegação, descobriu uma inóspita e grande terra, sem dúvida a Geórgia Austral, que o capitão Cook visitou em 1775, julgando-se o seu descobridor.

Dessa friíssima paragem de noites longas regressou a esquadrilha a Portugal, e foram tão desanimadoras as informações dadas pelos exploradores do novo continente, que à coroa pareceu melhor abandonar a terra à mercê dos especuladores para que a explorassem livremente.

Abalaram-se centenas deles, animados, principalmente, pelo comércio do pau-brasil que, pela estima em que era tido, até legou o seu nome à região, sendo os que o vendiam alcunhados de brasileiros. Um desses exploradores, Fernão de Noronha, descobriu provavelmente pelo S.João de 1503, a ilha que a princípio teve o nome desse santo e hoje é conhecida pelo próprio do seu descobridor, que foi também o seu primeiro donatário.

Gonçalo Coelho
A coroa, abandonando a particulares a exploração da terra, cuidava em preparar uma expedição considerável que seguisse da extrema meridional do novo continente até a Ásia, de onde provinham as especiarias.* Organizou-se uma frota de seis navios, alguns dos quais armados por particulares, sendo o comando entregue a um nauta experimentado, Gonçalo Coelho. Américo Vespucci acompanhou-o, comandando um dos navios, e julga-se que também tomaram parte nessa expedição Diaz Solis, João Lopes de Carvalho e João de Lisboa, que mais tarde apareceram como práticos dessas paragens.

Partiu a frota em meados de 1503, e depois de refrescar na ilha de Santiago, no arquipélago do Cabo Verde, a 10 de Agosto acharam-se os navegantes em presença de outra ilha, a mesma que, dias antes, havia sido encontrada por Fernão de Noronha. A capitania foi de encontro a um cachopo próximo da ilha, de sorte que Gonçalo Coelho teve de se passar a outro navio. Este acontecimento fez que se desmembrasse a esquadra, separando-se o navio de Vespucci e outro mais; os três restantes seguiram provavelmente sob o comando de Gonçalo Coelho.

O navio de Vespucci e o que com ele seguiu surgiram no porto da Bahia, paragem dada para encontro no caso de desgarramentos. Depois de esperarem dois meses e quatro dias, prosseguiram por conta própria, caminho do Sul, entrando em diferentes portos até que chegaram a Cabo Frio, onde fizeram boa provisão de pau-brasil.

Antes de regressar a Portugal, fez Vespucci uma incursão pela terra caminhando 40 léguas; e, ao deixa-la estabeleceu uma pequena feitoria que guarneceu com 24 homens. Os dois navios chegaram a Lisboa a 18 de Junho de 1504.

Apesar de Vespucci julgar perdido Gonçalo Coelho, tal não sucedera. O chefe da esquadrilha, seguindo o rumo do sul, recolhera-se à baía do Rio de Janeiro, estabelecendo aí um arraial, tendo mais tarde notícia pelos selvagens da existência de um outro, em Cabo Frio. Suspeita-se que esse primitivo arraial existiu junto ao riacho que tomou o nome de Cari-oca (casa do branco).

Desmorando-se, como se presume, dois ou três anos nesse sítio, Gonçalo Coelho mandou explorar a costa do Sul até a baia de S. Matias, regressando os exploradores por verem que era de todo impossível encontrar caminho que os levasse até Malaca. Infrutífera foi também essa segunda expedição; entanto, os navios das primeiras armadas que se dirigiam à Índia aportaram a estas costas. O porto geralmente frequentado era o de Santa Cruz, ao norte de Porto Seguro.Alguns navios franceses, procedentes de Honfleur, trazendo, como práticos, portugueses, começaram a frequentar o nosso litoral. Toda a costa, do cabo de S. Roque para o Sul, principiou a ser visitada por esquadrilhas de especuladores que vinham em busca do pau-brasil.

Os contratadores ou arrendatários de pau-brasil armavam naus para esse comércio. Entre as que vieram ao Brasis merece especial menção a nau “Bretôa”, que, de volta à Europa, levou cinco mil tóros de pau-brasil, alguns animais e pássaros vivos, e trinta e tantos cativos, apesar da proibição expressa do regimento que recomendava fossem “os da terra bem tratados, não se levando deles nenhum para a Europa, ainda que para isso se oferecessem”.

O Norte
São vagas e escassas as notícias relativas à primitiva explorações das costas do norte, além do cabo de São Roque, por navios de Portugal.

Sabe-se que andou por essas bandas o piloto João de Lisboa, que deu o seu nome a um dos rios aquém do Maranhão. Antes, andaram por esse lado um João Coelho, e o arauto Diogo Ribeiro, possuidor dum alvará régio que lhe consentia andar em descobrimento e exploração. Diogo Ribeiro acabou tragicamente às mãos dos índios.

É indubitável que por lá andaram em comércio, vários navios portugueses, mas porque não exploravam toda a costa existiu durante muito tempo a cença de que só havia um grande rio que entrava pela terra, pois os que reconheciam o verdadeiro Maranhão desconheciam o Amazonas, e vice-versa, vindo ambos a ser designados confusamente pelo nome de Maranhão.

Américo Vespucci foi o primeiro europeu que navegou ao longo de todo o litoral de nossa pátria; foi o primeiro que sentiu a grandeza da região que hoje se chama América do Sul. Com justíssima razão bem mereceu essa perpétua homenagem quem, temerariamente, através de tormentas, lutando com os elementos e com a barbaria, foi desbravando a terra, que hoje venturosamente prospera, seguindo para um riquíssimo futuro.



As Capitanias
A princípio, em Portugal, a descoberta de Cabral apenas foi apreciada por se achar que estas terras serviriam “para nelas refrescarem e fazerem aguada as armadas da Índia”. Ninguém fazia idéia da incalculável fortuna que o acaso entregara a Portugal, entregando-lhe estas regiões prodigiosas. A conquista das riquezas da Índia era ainda o grande sonho do velho mundo: havia ainda quem pensasse que era real a existência daqueles assombrosos reinos de que falavam escritores fantasistas: — Quinsai, cujo circuito media cem milhas, e onde havia cem pontes de mármore; Cipango, cujos templos eram cobertos de folhas de ouro fino; Catai, abundantíssima em pérolas*... Além disso, os lucros reais e imediatos, que dava o comércio na Índia, eram bastantes para atrair os portugueses.

Assim, durante muito tempo, só vieram para o Brasil degradados e criminosos. Mas a Espanha e a França começaram a visitar o novo país; e os armadores de Honfleur e de Dieppe, para explorar o comércio da madeira chamada brasil, chegaram a criar feitorias no litoral da bela posessão portuguesa. Foi então que D. João III resolveu dividir as suas novas terras em capitanias hereditárias.

Começou desse modo a colonização do Brasil. os donatários, que tinham o direito de transmitir aos filhos as terras havidas da munificiência real, receberam o título de capitães generais, e ficaram sendo os senhores absolutos das capitanias. Deviam apenas ao rei a obediência de súditos, e parte dos lucros que auferissem. Assim, foi retalhada a nossa costa, já então toda conhecida pelas explorações que a ousadia dos navegantes realizara. Começou a constituir-se o país, de onde mais tarde a Pátria Brasileira. No solo virgem, principiaram a cair as sementes dos cereais; os machados entraram a violar as matas espessas, que até então só animais e índios bravios tinham cruzado; os troncos seculares, despedaçados, exportados para a Europa, iam lá mostrar a excelência das nossas madeiras; e , do fundo da terra e do leito dos rios, onde dormiam havia séculos sem conta, começaram a sair o ouro e as pedras preciosas, que de tanta desgraça e de tanta luta iam ser causa.

Infelizmente, os colonizadores não eram apenas donos da terra e da água, dos peixes e das feras que as habitavam: eram donos também dos homens primitivos, que, rudes e independentes, altivos e bárbaros, tinham visto perturbada a sua liberdade e atacado o seu domínio absoluto, logo à chegada dos primeiros navegadores. As cartas de foral, que investiam os donatários da autoridade de capitães generais, davam-lhes o direito de cativar o gentio, para o serviço dos seus navios e das suas lavouras, podendo mandá-los a Lisboa, afim de aí serem vendidos. Como sempre, a terra tinha de progredir à custa das lágrimas dos seus filhos. Amarrados e domados, sem compreender a violência de que era vítimas, os índios, reduzidos à escravidão, era arrancados à força das brenhas que os tinham visto nascer...



Vasco Fernandes Coutinho
Quando, compreendendo que só no azar das batalhas podiam achar salvação, os índios, para defender a terra e a própria liberdade, começaram a atacar os colonizadores, — estes tiveram de sustentar uma luta renhida, que por longos anos atrasou o progresso das capitanias. mas não foram os índios os seus únicos inimigos: maior inimiga sua foi a própria ambição desmarcada, que muitas vezes os desuniu e os arrastou à miséria e à morte.

Dos capitães generais, o mais infeliz foi talvez Vasco Fernandes Coutinho, a quem fora dada a capitania de que nasceu o atual Estado do Espírito Santo. essa capitania compreendia uma das mais belas porções do litoral do Brasil. Vinha do rio Mucuri ao rio Itapemirim.

Neste ponto, a costa abre-se em baías magníficas, em golfos e em barras. A mata virgem, aí, como em toda a costa do Atlântico, em lugar da pobreza e da uniformidade da vegetação que há nas matas da Europa, tem uma extraordinária variedade. É raro que se achem duas árvores que se pareçam. As gigantescas paineiras, cobertas de espinhos até certo ponto, elevam a grande altura a massa movediça da sua copa; as sapucaias entrelaçam as folhagens em abóbadas cobertas de flores cor de rosa; entre os coqueiros de tronco esbelto e liso, coroado de amplo penacho verde, erguem-se os jequitibás majestosos; do fundo verde amarelas do jacarandá; e cipós, resistentes como cabos de aço, enleiam toda essa fantástica multidão de colossos vegetais.

O clima da capitania de Vasco era excelente; e fertilíssimo o solo, abundantemente regado de rios. O gentio da região não era intratável: violento e vingativo quando perseguido, não duvidava apoiar quem o afagava. E o erro dos primeiros colonizadores consistiu precisamente no propósito, em que quase sempre estiveram, de tratar os selvagens, não como homens, mas como feras, incapazes de civilização, inacessíveis à bondade, destituídos de entendimento.

Vasco Fernandes Coutinho, quando se viu donatário de tão extensos domínios, vendeu quanto possuía em Portugal, e, reunindo muitos colonos, alguns dos quais eram fidalgos, mais preparados para viver nos ócios da corte do que nos perigos e trabalhos da colonização, aparelhou uma frota que veio ancorar diante da terra do Espírito Santo, na manhã de um domingo, 23 de Maio de 1535.

Viu logo Fernandes Coutinho uma bela e larga enseada, que lhe pareceu ser, não um recôncavo de baía, mas a foz de um rio, e ordenou que aí se fizesse o desembarque. Parados, á espera dos invasores, estavam, em pé de guerra, os naturais do país.Vencidos, depois de um rude combate, os selvagens consentiram que Vasco Fernandes Coutinho assentasse os fundamentos de uma povoação, que recebeu o nome de Vitória, — nome que hoje, cidade próspera, ainda conserva.

Mas a insubordinação lavrou logo entre os colonos. os fidalgos, viciosos e violentos, perseguiam os índios. os ataques à povoação recomeçaram. dentro delas, corria também o sangue, — sangue de irmãos que a ambição do mando e da riqueza derramava. Duarte de Lemos, a quem Vasco dera as ilhas de Santo Antônio, foi o primeiro a desgostar o se protetor. E a colônia decaía.

Por fim, a idade, a moléstia, e o desgosto mataram o donatário. tendo empregado na empresa toda a sua fortuna, tendo-a visto desaparecer, tragada pelas despesas de guerra, pelos esbanjamentos dos administradores, — aleijado, velhíssimo, abandonado dos seus, — aquele homem que fora senhor de cinqüenta léguas de terra fertilíssima, acabou na mais completa miséria. E o lençol, em que foi amortalhado o seu cadáver, foi o produto de esmolas.



Aires da Cunha
Quantos daqueles conquistadores esforçados, que, por águas desconhecidas e bravias, vieram da sua pátria, em busca da riqueza e do poder, até estas plagas, de onde a nossa Pátria tinha de nascer, — sentiram, na longa e profunda noite do mar, quando a tormenta lhes batia as caravelas frágeis, a alma invadida pelo desânimo e pelo desespero! Quantos deles, em meio da viagem gloriosa, acreditaram ouvir a grande voz trágica daquele velho que, no poema de Camões, o grande Gama ouviu:
Oh! maldito o primeiro que no mundo,

Nas ondas velas pôs em seco lenho!


Na partida, quando ainda se vê a terra que fica, quando a alma, embriagada de sonho, esquece os perigos a que se vai arriscar para apenas se lembrar das glórias que vai conquistar, — não há tempo para a dúvida ou para o desânimo. Só no meio da viagem, quando, à direita e à esquerda, adiante e atrás, o olhar só encontra as ondas que se levantam, batidas pelos tufões, — é que o medo entra no coração, e cala-se a ambição, e amortece-se a febre do sonho... A terra tarda! As tempestades sucedem-se! A esperança morre! E o homem pergunta a si mesmo se a vida obscura e pobre, no meio dos entes amados, não vale mais do que a ruidosa glória e a pesada riqueza que tantos sacrifícios exigem...

Entre os primeiros que vieram colonizar o Brasil, um houve que nem logrou pisar a terra a que vinha entregar o seu trabalho.

João de Barros, o famoso cronista de Portugal, o historiador que tão brilhantemente contara os feitos das armas portuguesas nas Índias, recebeu em dação, das mãos liberais de D. João III, cem léguas de terra brasileira. A sua capitania vinha da Baía da Traição à extrema do Rio Grande do Norte: e quis ainda El Rei acrescentar a essas cem léguas, mais cinqüenta, que iam do rio da Cruz à abra de Diogo Leite. Fernando Álvares de Andrade, tesoureiro-mor do reino, teve setenta e cinco léguas que se estendiam do rio da Cruz ao Cabo de Todos os Santos. Mas esses dois felizes donatários não quiseram sair da Corte, para, abandonando os seus altos empregos, vir correr os riscos das viagens longas e das empresas difíceis. Associaram-se a Aires da Cunha, aventureiro ousado, alma ambiciosa que os perigos do cometimento não amedrontaram.

Da praia portuguesa, grande multidão viu partir essa bela frota de dez navios, galhardamente empavesados, orgulhosamente levantando as proas em demanda do Novo Mundo. Dentro deles vinham Aires da Cunha, e dois filhos do cronista João de Barros, trazendo consigo mil colonos.

Mil colonos! Pátria e família ficavam lá... Quando o vento enfunou as velas claras da formosa frota, todos aqueles olhos miraram, com certeza, turvados de lágrimas, a terra que deixavam; todas aquelas almas, apartando-se dos lugares amados que conheciam tanto, prometiam voltar dentro em pouco, saciadas de glória e de riqueza.

Longa foi a viagem, longa e amargurada. às vezes, o vento faltava. E dias e noites, oscilando ao sabor das ondas paradas à flor das águas desertas as naus dormiam, como fantasmas. outras vezes, desencadeavam-se tempestades. desunida, desarvorada, a frota errava, às tontas...

Um dia, quando já não havia em nenhum dos navegantes esperança de ver terra, a tormenta aumentou.

Cerraram-se os ares. Grossos bulcões de nuvens negras, retalhadas de fuzis, rodavam no céu. E ao ribombo do trovão casava-se o fragor das vagas encapeladas. Por toda a noite, sem governo, entrechocando-se na medonha escuridão, sacudiram-se as naus, numa corrida louca, que os furacões impeliam.

De repente, quase todas, com estrondo, pararam, despedaçadas. Um clamor de espanto subiu de bordo. Amanhecia. A frota encalhara em bancos de areia. E, no terrível naufrágio, sem socorro, à primeira luz hesitante da manhã, os colonos avistaram longe, muito longe, uma faixa de terra. era a costa do Maranhão.

Mas de tão longe! Tão longe! E os conquistadores morriam, vendo com os olhos, que a agonia embaciava, aquela terra que buscavam, e que nunca haviam de pisar...


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