Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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Vida dos primeiros colonos
Vendo-se em limitado número nas capitanias, os colonos foram se afazendo aos bárbaros, adotando muitos dos seus usos e ata algumas das suas superstições.

Na edificação das casas, em vez de pregadura, serviam-se de cipós para segurar as ripas, e colmavam-nas de palha.

Os vasos de que se serviam eram copiados dos que usava o gentio. Faziam-se ao mar afoitamente em jangadas, sulcavam os rios em igaras. Cultivavam o milho, a mandioca, o feijão. Adotaram o uso do tabaco, contra o qual debalde a Igreja se opôs ameaçando os viciosos com a excomunhão. os artigos de exportação primeiramente cultivados foram o arroz e o açúcar.

Os índios, a troco de panos ou miçangas, prestavam-se a trabalhar nas roças, e os cristãos não se envergonhavam de roçar o mato ou de acender a coivara ao lado deles.

Guardando respeito à tradição religiosa, festejavam, longe da pátria, os grandes dias do calendário: o Ano Bom, Reis, as festas de Maio, Santo Antônio, S. João, S. Pedro, o Natal. Ardiam fogueiras e os instrumentos peninsulares zangarreados acordavam o silêncio das noites de claríssimo luar.

Já os galos cantavam nos poleiros, os bacorinhos coinchavam nos cercados, e a vaca nos pastos verdes mugia chamando o vitelo.

Os batizados e casamentos era celebrados festivamente.

Altivos e sobranceiros, os índios, à menor falha de contrato, ressentiam-se e, abandonando os sítios em que trabalhavam, internavam-se formando planos de vingança.

O europeu, conhecedor dos hábitos do indígena, aparelhava-se para o assalto, fortificando-se e armando-se. Inopinadamente uma hoste irrompia aos brados, precedida de uma nuvem de flechas, e a peleja tratava-se as mais das vezes fatal aos colonos, inferiores em número.

A mulher e a cruz muito e poderosamente concorreram para abrandar o ânimo do selvagem. A índia que se ligava ao português, não só por amor de esposa, como por ver o filho fraco, brincando e rindo entre os dois, buscava salvar a casa da fúria dos seus irmãos da floresta, e seduzia-os, ameigava-os; a seu turno o padre, iluminando as almas, expunha a religião de Cristo, toda amor e caridade, e conseguia mais, com a sua palavra ungida de fé, do que os guerreiros com seus mosquetes e as suas espadas.

Além das relações entretidas com os índios do distrito em que se fixavam, empreendiam os colonos, tanto por mar como por terra a dentro, algumas relações de tráfico e resgate com outros índios.

A essas relações deveram os colonos o conhecimento não só de toda a costa que percorriam em caravelões, barcaças e jangadas, como de ínvios sertões que iam intrepidamente devassando, em grupos, chamados bandeiras.

As colonizações dos atuais Estados de Sergipe, Alagoas, e os de Paraíba ao Pará foram iniciadas, a bem dizer, por expedições dessa natureza, que nem por levarem como intuito principal o resgate de escravos deixavam de ser exploradas.

O navio negreiro
Sereno é o mar, os ventos sopram de feição, e o brigue veleja garbosamente pelas águas verdes, sob um céu azul onde não passa a mais ligeira nuvem...

Mas porque espalha gemidos essa embarcação que tão propícia brisa vem trazendo? Por que espalha lamentos pelo tranq6uilo oceano? Virá a maruja pressaga adivinhando uma procela próxima? Não, a maruja canta descuidada vendo as velas pandas...

Quem geme? De onde vem tão sentido lamento?

É a carga do brigue que assim chora, é a carga do veleiro brigue que veio dos amres da áfrica cheio de gente negra.

O porão está entulhado, homens, mulheres e crianças, os pulsos carregados de ferro, os olhos inundados de lágrimas. Não podem ver, estão cercados de treva, num ambiente infecto; ouvem as pancadas dos corações sofredores e o escachôo do mar, ouvem os soluços das mulheres e os brados do comandante. Amanhece, anoitece, o sol surge, as estrelas cintilam, — e sempre é noite, noite negra no porão do navio. Vêm da África, arrematados pelo traficante, valem como a especiaria, como o gado, são coisa venal como a lenha da terra, como o coral das águas. Negam-lhes sentimentos, negam-lhes sensibilidade, roubam-lhes os filhos, laceram-lhes as carnes. e o vento, como a alma errante e compassiva do país deixado, acompanha-os gemendo.

Às vezes, um rompe a chorar, ouvem-no todos comovidos e a lágrima comunica-se, o choro torna-se geral; mas quem o ouve? O mar, o vento... “Eh! Cessa! Eh! Basta de choro!”— brada o traficante, não porque a piedade o tenha perturbado: por usura somente; porque a lágrima definha e o escravo enfraquecido menos vale...

Porque não vens, corsário, açor bendito?...

Um expira algemado. Ao mar a carniça! Outro enferma e geme... Ao mar o inútil! A criança, que mama, deforma a escrava nova, ao mar o vampiro! os que morrem, como são felizes! Alguns deixam-se finar à míngua, outros sucumbem ao banzo, moléstia indefinível da alma, e o brigue veleja sob o céu tranqüilo, sobre as águas mansas.

Terra! E Deus que não salva da agonia a pobre gente! Terra! Ânsia de chegar ao porto tem a maruja; eles, porém, coitados, ouvindo a faina dos que vão descendo a âncora, tremem, pensando talvez que lhes chegou o momento final. Terra! E eles, chicoteados, começam a subir do porão, apertando os olhos que a luz deslumbra e, magros, arrastando ferros, surgem do negro esquife como esqueletos numa evocação macabra. Terra!

O Caramuru
Em 1510, naufragando na costa da Baía uma nau portuguesa, alguns dos que iam a bordo, entre os quais um certo Diogo Álvares Correa, conseguiram chegar à terra. O gentio, apinhado na praia, vendo surgir da água o náufrago, logo lhe pôs o cerco, olhando-o pasmado, e não sem gestos e esgares que despertaram desconfianças no espírito do mal aventurado.

Para qualquer lado que olhasse com a esperança de descobrir um rosto amigo, apenas via índios, que saltavam, significando uma grande alegria pouco tranqüilizadora.

Vendo-se tão mal cercado, e, como houvesse o seu mosquete, teve a feliz lembrança de ali dispará-lo, certo que ao menos surpresa, senão medo, provocaria nos índios.

Aconteceu que, levantando os olhos, viu um pássaro nos ares, e logo, fazendo certeira pontaria, disparou a arma, derrubando-o morto entre os selvagens. A grita que se levantou foi grande, de susto muitos rolaram por terá, outros fugiram, e um só grito saiu de todos os peitos: Caramuru!

Segundo Varnhagem “é este o nome de certa enguia elétrica, isto é, de um peixe comprido e fino com uma espingarda, que por suas virtudes de fazer estremecer, e por danar e ferir, poderia ser aplicado ao tremendo instrumento e por uma fácil e sensível ampliação ao seu portador.”

Maravilhados, os índios, receberam com demonstrações de respeito o homem que lhes parecia possuidor do raio, e de tanto lhe valeu o estratagema, que, levado em triunfo à cabilda, logo o trataram como chefe, sabendo o caramuru de então por diante conservar o mesmo prestígio sobre os selvagens.

Afazendo-se à vista, tomou uma índia para companheira. Paraguaçu chamava-se ela; e mais tarde recebeu da Rainha o nome de Luíza.

Nasceram a caramuru vários filhos, e de tal modo adotou a vida nova, que, quando à Baía chegaram os jesuítas, encontraram o colono tão identificado com os índios, que por bem pouco deles se distinguia: até a língua natal quase esquecera. Todavia, reconhecendo os compatriotas, prestou-lhes relevantíssimos serviços, pondo-os em contato com os selvagens, servindo, por assim dizer, de intérprete entre a civilização e a barbaria.

Nos últimos meses do governo de D. Duarte da Costa, faleceu na Baía o famoso Diogo Álvares, depois de ter revisto a terra amada da pátria em companhia de sua esposa, a índia Paraguaçu.

O Missionário
Selva. Altíssimos troncos, subindo em colunatas, amparavam as frondes que se confundiam, formando uma abóbada impenetrável ao sol; redes de cipós cruzavam-se, ligando ramos, ou arrastavam-se pelo solo acamado de folhas secas que estalavam sob os pés dos homens, sob as patas das alimárias; dos ramos, pendurados em chuveiro de ouro, filamentos de parasitas balouçavam-se, e as raízes das árvores, em formidáveis cordões à flor do terreno, pareciam grandes répteis adormecidos.

Sussurro constante enchia a solidão sombria, pios de aves, frêmitos de asas de insetos, zumbidos de besouros; às vezes, uma palma que se despegava rolando com fragor, um ramo podre que caía...

As feras, nos covis, espreitavam perfidamente; enroscada nas árvores, perto da água de um rio, a sucuri esperava a preá. De longe em longe um grasnido... e uma nuvem de papagaios levantava-se, muito verde, como uma revoada de folhas, macacos, suspensos pelas caudas, balouçavam-se dos ramos, aos guinchos. Aqui um lençol d’água, a escorrer por entre as relvas aveludadas, adiante uma grota profunda cheia de embaúbas prateadas; ali um tronco carcomido tendo, junto à raiz, uma cova; não longe a taba do índio.

Já apareciam as pegadas do selvícola, um fio de fumo azul subia aos ares, por entre as folhas, gritos repercutiam, e, numa clareira, cheia, cheia de ar e de sol, mostrava-se a estacada da cabilda com o seu troféu de caveiras atestando morticínios cruéis. O rio rolava perto.

E lá ia vagarosamente, solitariamente, com um cruzeiro à mão e o livro dos evangelhos, o Missionário...

Armado com a grande resignação dos propagandistas, afrontava os perigos, atravessando, sem parar, toda a floresta densa, até chegar às aldeias bárbaras, onde, alcançando a cruz aos olhos pasmados dos caboclos, punha-se a falar da religião do Cristo, prometendo-lhes a redenção das almas e a delícia de uma vida eterna no seio de Deus.

Para batizar, tinha ali perto as águas límpidas do rio; de um ramo fazia o hissope, de uma folha fazia a concha, e, à beira d’água, como João Batista, ia sagrando toda a tribo.

E, se no meio da taba, erguia-se um cruzeiro; e tempos depois, quem seguisse o rastro do evangelizador, iria encontra-lo entre os índios, cercado de crianças, já familiar com a língua da tribo, explicando a religião, e ensinando o cultivo da terra e o fabrico dos utênseis aos bárbaros.

Muitos, penetrando a floresta, dela não mais tornavam, — ou surpreendidos pelo salto do jaguar, ou esmagados pelos elos da sucuri, ou abatidos pela tangapema do índio. Outros descoroçoariam; mas os missionários, cheios de zelo religiosos, iam por diante, caminhavam para o sacrifício contentes, seguindo a trilha aberta pelos primeiros, internavam-se mais seguros do martírio que da vitória, convencidos, porém, de que cumpriam uma missão apostólica.

As missões
Data do estabelecimento do governo geral da Baía a entrada dos jesuítas no Brasil.

Nóbrega vem com Tomé de Souza em 1549, e em 1553 chega Anchieta com Duarte da Costa.

O primeiro colégio jesuítico foi instalado em Piratininga, S. Paulo, começando desde logo a catequese dos índios. Daí partiram as missões, espalhando-se por todo o Brasil.

Nóbrega e Anchieta ficaram em S. Paulo, capital das missões; a Navarro coube porto Seguro, a Afonso Braz e Simão Gonçalves o Espírito Santo. Estudando o tupi, faziam-se entender pelos índios, e explicavam-lhes os mistérios da religião cristã, humanizando-os.

Fundavam aldeias; e, deslumbrando os indígenas com o aparato das procissões, e seduzindo-os, magnetizando-os com a música e o canto, ganhavam ascendência sobre eles, e tiravam partido desse domínio, aproveitando-os no trabalho; e porque atraíam quantos deles se aproximavam, entraram a murmurar os colonos contra as seduções dos frades, que lhes tomavam os melhores homens, deixando-os depauperados para a luta com a terra semeada e fértil.

Se, as mais das vezes, a vitória sobre as almas bárbaras era docemente conseguida apenas com a palavra e com o deslumbramento, não raro lançavam mão de meios violentos para conter o furor do índio e castigo era infligido publicamente para que aproveitasse como exemplo. Apesar do seu piedoso sentimento, missionários não recuaram ante a escravização do selvagem, de sorte que, se por um lado praticavam a lei de Cristo à beira das águas, batizando o gentio, infringiam-na por outro roubando-lhe a liberdade.

Desses primeiros jesuítas, que vieram ao Brasil, aquele que mais luminoso traço deixou da sua passagem por estas terras, foi José de Anchieta, poeta suave, cuja figura Fagundes varela imortalizou num lindo poema*.

Villegaignon
Clara manhã de sol. Novembro. Solto todo o pano ao vento, entram a barra os dois grandes navios, em que os sectários de uma nova religião, fugindo ás perseguições, vêm procurar no continente novo um abrigo. Na amurada de cada uma das naus empilha-se a multidão.

Longa foi a viagem. Villegaignon, cavaleiro de Malta e vice-almirante da Bretanha, querendo fundar no Brasil uma colônia, que servisse de asilo aos Calvinistas, obteve proteção do rei de França, e partiu do Havre, comandando os dois navios. Mas as tempestades lhe retardaram a viagem. As naus arribaram avariadas a Dieppe, e só a custo prosseguiram na sua marcha para a América...

Clara manhã de sol. Aos ávidos olhos dos que chegam, abre-se, vivamente iluminada, com um seio generoso, a baía esplêndida. Brilham as águas. Serras azuis, acasteladas umas sobre as outras, fugindo para a extrema do horizonte, perdidas por fim em vagas neblinas que alvejam, fecham a paisagem. nas praias, para além da linha branca, de prata, em que as águas do mar se franjam, espumando sobre a areia, cresce a vegetação de um verde claro, em massas compactas, de cujo seio se vêem romper, coroados de leques trêmulos, os caules dos coqueiros. Há no céu azul, no mar que o vento arrufa, naquelas folhas verdes que parecem acenar de longe, desejando a boa-vinda aos viajantes, naquelas ilhas de esmeralda que se levantam do seio da água, em toda a serena paisagem, a promessa de uma felicidade sem fim, de um futuro risonho, de uma tranqüilidade inalterável, vida nova, em nova terra, debaixo de novo firmamento, longe das guerras fanáticas que ensangüentam a Europa...

Os dois navios passam o canal. Agora toda a baía, num círculo imenso, desdobra-se á vista do almirante Villegaignon, que, de pé, à proa, armado e sereno, já traz a cabeça povoada de grandes projetos: a fundação de uma forte cidade, que perpetue o nome do rei Henrique, e, depois, todo o Brasil conquistado, para glória da França e da religião de Calvino...

Os navios avançam. Todos os olhos sorvem sofregamente a luza daquelas paragens nunca vistas; todos os peitos se dilatam, sorvendo aquele ar de um mundo nunca imaginado; todas as almas se enchem da mesma consoladora esperança e ardem na mesma ambição...

E, à luz do sol brasileiro, na infinita solidão das águas desertas, os calvinistas entoam um cântico religiosos, antes do desembarque.



Cunhambebe
Era Cunhambebe alto e membrudo. O viajante Thevet, que o viu, diz que não era possível suportar muito tempo o brilho dos seus olhos. O grande Morubixaba tinha um aspecto que impunha o respeito e infundia o terror.

Quando, dentro da grande praça da ocára, Cunhambebe presidia uma assembléia de chefes, o seu vulto formidando se destacava de entre os vultos dos outros: assim na mata a figura colossal de um velho jequitibá domina todas as outras árvores.

Tinha o rosto e o peito coberto de cicatrizes, que eram a história viva dos combates sem conta em que entrara. E ele mesmo dizia que, em toda a sua vida, já tinha provado a carne de dez mil inimigos...

Trazia no lábio inferior um grosso pedaço de pau; e nas suas orelhas balançavam-se enormes arrecadas. Cingindo o pescoço, tinha um largo colar de búzios. Quando o seu cocar aparecia, todos os outros cocares de curvavam...

Porque Cunhambebe era o chefe dos chefes. Todos os morubixabas das tribos que povoavam o litoral, desde cabo Frio até Bertioga, prestavam obediência a esse homem temido, de quem, nos combates, partia o primeiro ato de bravura, e de quem, na paz, partia o primeiro conselho sensato.

Não tinham número as suas canoas de guerra. Finas e ligeiras, agilmente impelidas pelos remos fortes, essas igáras percorriam a costa, assaltando as colônias, e não receando dar batalha às grandes caravelas européias. muitas vezes, uma dessas grandes naus artilhadas e poderosas se viu de repente cercada de um turbilhão de canoas. E essas embarcações pequeninas, atacando a embarcação formidável, que vomitava nuvens de fogo e ferro pela boca da sua artilharia, eram como gaivotas em torno de uma grande baleia. Muitas vezes, também, ao romper da alva, as colônias de S. Vicente e Santos viam o mar coalhado de igáras. Cunhambebe desembarcava com os sues guerreiros, saqueava os estabelecimentos, retirava-se, carregado de despojos, e ia recolher a sua ligeira e terrível marinha nos recôncavos, que demoram entre Angra dos Reis e a Ilha de S. Sebastião.

Mas não era cruel o grande chefe, que de tão absoluto poder dispunha. Mais orgulhoso que mau, costumava dar liberdade aos prisioneiros só para que eles fossem contar ao estrangeiro o prodígio da sua força e a supremacia do seu nome. Só ele, com a sua gente, demorou por muitíssimos anos a colonização desta parte do litoral. Nunca talvez tiveram os colonizadores pior inimigo. Foi Cunhambebe quem, para fazer mal aos portugueses, apoiou os franceses na baía do Rio de Janeiro. E para vencê-los, foi mister que contra os seus exércitos se coligassem, unidas aos exércitos de Mem de Sá, as tribos que temiam e invejavam o heróico morubixaba.

O litoral do sul do Brasil guarda em cada uma das suas angras, uma recordação de Cunhambebe. O nome do heróis, que atrasou a colonização desta parte do Brasil, merece, apesar disso, ser lembrado, — porque Cunhambebe defendia com bravura os privilégios da sua raça, — e a bravura é sempre digna de admiração.



Os aimorés
De onde vinham estes, tão selvagens, que os próprios selvagens, aterrados, fugiam deles? Quando, como uma avalanche humana, caíram sobre Porto Seguro, um terror pânico se apoderou dos colonos portugueses e dos índios aliados... Eram grandes e feios. Falavam uma língua desconhecida no litoral, e os seus costumes, diversos dos costumes de outras tribos, eram de uma ferocidade espantosa.

Não praticavam a agricultura: nunca nenhum dos seus, curvado sobre a terra, quisera perder o tempo a explorá-la. Sabiam apenas combater. Caíam sobre o inimigo, em massas compactas, uivando, com gritos de guerra, guturais e ásperos, mais de feras do que de homens. Não construíam tabas, não conheciam o uso da rede: viviam, aos magotes, ao ar livre, dormiam no chão, sobre molhos de ervas. E a sua vida era nômade: davam combate às tribos que encontravam, e, quando venciam (o que quase sempre acontecia, porque só o seu feio aspecto punha nas almas um grande medo), eram sem piedade para os vencidos: comiam-nos vivos, — não só por espíritos de vingança, como porque, sobre todos os alimentos, amavam a carne humana.

De onde vinham estes, tão selvagens, que os próprios selvagens, aterrados, fugiam deles? Vinham dos sertões do centro. A prosperidade das colônias atraíra a sua cobiça e excitara o seu furor. Por várias vezes, o valor dos colonos da capitania de Jorge de Figueiredo Correa (cinq%uenta léguas que se mediam de porto Seguro à Baía de Todos os Santos) conseguira conter e rechaçar essa torrente tumultuosa de homens, que, por onde passavam, iam deixando a destruição e o pavor. Mas a avalanche só recuava para daí a pouco voltar com impetuosidade maior.

E, no dia em que a cizânia começou a lavrar entre os colonos, os Aimorés desceram em massa e destruíram todos os estabelecimentos...



S. Sebastião
Cedo lavrara a discórdia na colônia que o almirante Villegaignon tinha fundado, na ilha que ainda hoje tem o seu nome. A princípio, tiveram os colonos de sofrer privações de toda a espécie, enquanto esperavam reforços. Depois da chegada desses reforços, trazidos por três naus de Bois-le- Comte comandava, foi Villegaignon obrigado a retirar-se para Europa. Somente cinco anos depois da chegada da expedição francesa, se resolveu a metrópole a combater os invasores. deu-lhes combate Mem de Sá, assaltando o forte Coligny, e obrigando os seus defensores a se refugiarem no litoral, onde, em 1565, veio o grande Estácio de Sá encontra-los, de novo fortificados e vivamente auxiliados pelos índios.

Na faixa de terra que demora ao pé do Pão de Açúcar, lançou Estácio de Sá as bases da cidade. Mas, depois, Mem de Sá transferiu a povoação para junto do morro do Castelo. Núcleo gerador de uma das mais belas cidades da terra, aquele pequeno agrupamento de casas toscas, feitas de hastes de madeira, cobertas de palha, á moda do gentio, — foi o berço da nossa capital. Dali transbordando, crescendo pelo litoral, galgando o morro do Castelo, desdobrando-se, multiplicando-se em casas com o correr do tempo, nasceu a cidade heróica, que, numa vida de mais de três séculos, tem servido de abrigo generoso e amável a quantos a procuram. Porto aberto à emigração de todo o mundo, a grande filha de Estácio de Sá, que tem atravessado tantos sofrimentos, tem sabido unir a bravura à bondade, repelindo os que a afrontam, e amando os que a amam. E dentro dela, no coração de cada um dos seus filhos, vive perpétua a memória do grande Fundador, que, com o seu sangue de guerreiro ilustre, foi o primeiro a regar o solo da povoação que nascia.



Estácio de Sá
Foi no dia de S. Sebastião, padroeiro da sua cidade, que o grande Estácio de Sá recebeu, em combate, o ferimento que o devia matar.

Os franceses e os índios, seus aliados, estavam fortificados em dois pontos da baía. Um era o forte de Uruçúmirim, no fim da praia do Flamengo: tinha sido construído por Bois-le-Comte. O outro era a ilha de Maracaiá, que hoje tem o nome de ilha do Governador.

O dia 20 de Janeiro amanhecera lindo. O sol rutilava sobre toda a baía. Mem e Estácio atacaram o forte de Uruçúmirim, que pouco resistiu. Os franceses, admiravelmente servidos pelos índios, utilizando-se da suas ligeiras canoas de guerra, passaram-se para a ilha, onde se concentraram, esperando o assalto.

Por todo o dia, as serras de em torno escoaram o medonho fragor da batalha. Estalavam as descargas da mosqueteira; os pesados canhões troavam sem cessar; silvavam as flechas certeiras; e, sobre todo este clamor guerreiro, elevava-se, mais forte o clamor dos urros dos índios. O combate, travado por fim a arma branca, terminou pelo desbarato completo dos franceses. Mas, no mais aceso da refrega, Estácio de Sá, que se batera sempre com uma bravura irrefletida, recebeu no rosto uma seta.

Dera ele por armas à cidade um molho de setas, — recordação das armas com que fora martirizado S. Sebastião. Também uma seta tinha de matar o fundador do Rio de Janeiro.

Penou ainda dois dias o herói. No dia 22 cerrou os olhos à luz da vida. E, antes de os cerrar, o seu olhar derradeiro foi dado à esplêndida baía, teatro da sua glória e berço da sua fama.



A Holanda
Há na Europa um pedaço de terra, habitada por uma raça independente, sóbria, pertinaz, laboriosa, que pode servir, pelo muito que tem obtido à custa dos seu esforço, de exemplo e de incentivo aos povos que, como o nosso, agora apenas começam a formar-se. É a Holanda.

O solo é inteiramente plano, cortado de canais, por onde entra a água do mar. Por esses canais, velejando, passam as barcas que atravessam quase todo o país, levando de extremo a extremo dele a agitação do comércio.

Ao contrário de todos os outros países, quem fez a Holanda não foi a Natureza: foi o homem. um velho adágio do país declara que deus fez o mundo, e o holandês fez a Holanda. Em primeiro lugar, antigamente, nessa parte da terra, os rios transbordavam periodicamente e inundavam o solo; em segundo lugar, aterra era constantemente invadida pela água do mar. Mas os holandeses, construindo diques, que são prodígios de engenharia, e dissecando o solo, fizeram dessa zona inabitável um território fértil, em que floresce hoje uma opulenta lavoura. Convém notar que esse trabalho não é dos que, uma vez feitos, permanecem definitivos e eternos; de dia em dia, o mar forceja por ganhar de novo o domínio perdido, e avança e rói as pedras dos diques, e abala-as, e desloca-as: de maneira que os filhos daquela ingrata região são obrigados a não descansar um minuto na luta que lhes impõem as águas, — suas inimigas naturais e implacáveis.

Isso é a terra, o país. A raça é uma das mais admiráveis do globo. A atual nacionalidade holandesa é oriunda de uma luta gloriosa. Felipe II, que reinou sobre Espanha e Portugal, tinha herdado de Carlos V, a Holanda, que era um simples condado. Foi contra Felipe II, que inaugurou um governo opressor e cruel, — que a Holanda se revoltou, empenhando-se numa guerra terrível, em favor da sua liberdade sufocada. Ao cabo de longos anos, durante os quais os holandeses, sem um momento de desânimo, suportaram todos os reveses, Felipe III, que sucedera Felipe II, foi forçado a ceder diante da bravura indomável daquela gente. Conta-se que, depois de derrotados os espanhóis, em Leyde, toda a população, tendo à sua frente Guilherme de Orange, o Taciturno, (que fora o grande heróis da sobre-humana luta), se dirigiu à catedral, e, aí, de joelhos, entoou um hino em ação de graças. Mas, apenas tinham soado os primeiro compassos do hino, o choro embargou a voz dos que cantavam. Aquele povo longo tempo dizimado pela Espanha, aquele povo que sofrera fome e peste por amor da liberdade, — chorava, agradecendo ao céu o seu primeiro dia de independência e de felicidade.

Livre dos opressores, a Holanda não dormiu sobre a vitória. Animada de uma atividade febril, começou a cuidar da sua terra. Dentro em poucos anos, o solo estava seco, o mar estava dominado, a lavoura prosperava, e a marinha holandesa, uma das mais fortes do mundo cobria os mares, e era o terror das outras nações.

Era com essa nação prodigiosa que a Espanha e Portugal tinham de lutar, por causa das riquezas do novo continente. E o Brasil tinha de ser o teatro dessa luta gigantesca, que durou trinta anos, — largo período em que o solo da nossa pátria foi ensangüentado por batalhas sem conta.


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