Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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A Companhia das Índias
Ainda hoje, do velho mundo, os olhos ávidos do estrangeiro se estendem com ânsia e inveja para esta larga e riquíssima porção da Terra. O Brasil já não é aquele país fabuloso que a imaginação dos viajantes representava abrindo o seio em avalanches de ouro, e rolando, no curso dos seus rios, cascatas de pedras preciosas. Mas é ainda o país abençoado, cujo solo, ao primeiro carinho do homem, oferece logo, infinitamente reproduzidas e transformadas em riquezas, as gotas de suor que recebe.

Nação nova, ambiciosa, atrevida, a Holanda cobiçava os tesouros que a Espanha, então dominadora de Portugal e do Brasil, daqui levava, a bordo dos seus galeões artilhados. E, logo, o propósito de conquistar as minas e o comércio da grande colônia, a levou a tentar uma empresa, que, depois de trinta anos de sangue, pouco havia por fim de lhe render. Duas fortes companhias de navegação se fundaram na pátria de Guilherme o Taciturno: a Companhia das Índias Orientais, era destinada a atacar os domínios da Espanha na Ásia; outra, Companhia das Índias Ocidentais tinha de vir operar na América.

Esta última companhia teve, desde o começo, uma organização admirável. Era presidida por um Conselho de dezenove membros, e dispunha de grandes somas de dinheiro, porque ninguém duvidava empregar capitais numa empresa, que devia remunerar, com lucros fantásticos, os sacrifícios que se lhe fizessem. Tomou conta do comando supremo da grande esquadra, que devia vir conquistar o Brasil, o almirante Jacob Willekens, que tinha sob as suas ordens, como vice-almirante, Pieter Heyen. E ficou assentado que Johan van Dorth seria o governador dos países subjugados. A esquadra, que se compunha de vinte e três navios e três iates, conduzindo três mil e trezentos homens, veio ancorar na baía de Todos os Santos, no dia 8 de Maio de 1624.

Iam começar as famosas Guerras Holandesas. A Espanha, senhora do Brasil, se bem que estivesse avisada da expedição, dormia, indolente e incauta. E foram sobretudo os naturais do Brasil que o salvaram impedindo a sua separação do seio da nobre raça latina.




A primeira guerra
A Capitania da Bahia, que fora doada a Francisco Coutinho, pertencia agora à Coroa Espanhola. Desenvolvera-se muito. Tinha uma população de dezesseis mil almas. O seu litoral era constantemente cruzado por navios; trinta e seis fazendas de açúcar trabalhavam dentro dela; e, sobre o seu solo, já se haviam construído quarenta igrejas católicas, — quando a esquadra holandesa apareceu diante dela. Prevenido a tempo, esperando o ataque, o governador chamara em socorro da capital os colonos que labutavam nos recôncavos e no interior. Ficaram, armados, à espera do inimigo.

Mas o inimigo tardava. As lavouras abandonadas sofriam desastres grandes. Aquela gente, de hábitos simples e pacíficos, amava apenas a calma vida da lavoura sem os sobressaltos da guerra, sem as aventuras da glória, que a não tentavam. Além disso, a atividade constante dos trabalhos da roça, os dias passados, do clarear ao escurecer, na faina agitada e alegre das plantações, das colheitas e das moagens, com os pulmões tonificados pelo ar livre do campo e os músculos desenvolvidos pelo exército contínuo, — não a tinham educado nem preparado para aquela vida de imobilidade, de atenção, passiva, de anciã medrosa, de susto, à espera de um inimigo que não chegava nunca. Pouco a pouco, todos os colonos foram desertando a cidade: felizes, sacudiram o fardo pesado daquela obrigação, e voltavam, aos magotes, para as suas terras queridas, convencidos de serem sem fundamentos os receios do governador. Este, no dia em que a esquadra entrou a barra, tinha somente, ao seu lado, pouco mais de mil soldados sem disciplina, e sem grande interesse na defesa da cidade.

Não houve combate. A cidade rendeu-se logo. O próprio governador entregou-se sem resistência. E, no mesmo dia, a bandeira holandesa flutuou sobre a Capitania.

Não havia, porém, de ser de longa duração o domínio das armas da Holanda. Johan van Dorth, confiando demais na sua fácil vitória, deixou que pouco a pouco se retirassem para a pátria os navios que comandava. pouco depois morreu em duelo. Os seus sucessores desmoralizaram-se.

No interior, os colonos tomavam armas. D. Marcos Teixeira, bispo da Bahia, que, a princípio, também não acreditara na iminência do perigo, era o primeiro agora a dar o exemplo da clama e da coragem, na organização do projetado assalto da cidade. Cauteloso, bravo, conhecedor dos ardis da guerra, despindo as vestes sacerdotais, vestiu armas e comandou os improvisados exércitos, que puseram sítio à cidade do Salvador.

Ao mesmo tempo, uma esquadra espanhola cercava pelo lado do mar os holandeses. As duas forças concertadas apertaram num círculo de ferro os usurpadores. Bastou um mês do cerco para que eles capitulasse, entregando armas, navios e riquezas.

E de novo, nos mesmos pontos em que, durante meses, se haviam desdobrado as bandeiras da Holanda, se desdobrava, as bandeiras de Espanha e Portugal.

Camarão
O índio Potí nascera no ceará, nessa bela terra infeliz, que as secas periódicas abrasam, e que tem dado à Pátria Brasileira tantos exemplos de bondade, de bravura, de modéstia na felicidade e de resignação no martírio. Nascido naquelas florestas virgens, Potí, agregado depois aos habitantes brancos, pouco a pouco se civilizara. Defendendo a terra brasileira do ataque holandês, não defendia a possessão portuguesa ou espanhola: defendia a terra do seu amor e do seu berço, e defendia aqueles que lhe haviam dado, com a civilização, o sentimento de pátria, a consciência do seu valor moral de homem.

Para o estado de homem civilizado trouxera as fortes e boas qualidades de sua raça: a competição robusta e resistente à fadiga; a alma inacessível ao medo; o amor da hospitalidade; a audácia; a desconfiança; a astúcia; a impavidez diante do suplício e da morte; a independência de caráter; o faro desenvolvido, que lhe permitia pressentir a grandes distâncias a aproximação do inimigo; os olhos perspícuos, dotados de um poder visual extraordinário; o ouvido apuradíssimo, capas de apreender e distinguir de longe os mais fracos rumores; e, sobretudo, esse admirável instinto, com o auxílio do qual os selvagens, perdidos, depois de mil caminhadas e rodeios complicados, conseguem maravilhosamente orientar-se, dentro da floresta mais cerrada.

Possuidor de tão preciosas qualidade, apuradas e acrescentadas pelas qualidades novas que lhe dera a civilização, conhecedor das armas européias, educado pelos soldados portugueses na arte da guerra, — o índio Potí, que depois do batismo se ficou chamando Antônio Felipe Camarão, foi talvez o mais encarniçado inimigo que os holandeses tiveram, durante a segunda longa e sanguinária guerra.

Os marinheiros da Holanda tinham já, por mais duas vezes, atacado o litoral da Bahia, saqueando portos e aprisionando navios, quando uma esquadra sua, de mais de setenta navios, rompeu fogo contra Olinda, na capitania de Pernambuco. Ao mesmo tempo, a quatro léguas da povoação, desembarcavam três mil holandeses, comandados por Weerdenburch, e marchavam sobre ela. A perda de Olinda e Recife não se fizeram esperar: a capitania estava desapercebida de recursos bélicos. Mas os Pernambucanos não desanimaram. Enquanto Matias de Albuquerque se fortificava, entre Olinda e Recife, no arraial do Bom Jesus, — Camarão organizava as suas famosas companhias de emboscada, que impediam as comunicações entre as cidades tomadas pelos holandeses.

Joelho em terra, mosquete em punho, ouvido alerta ao menos barulho, escondida pela vegetação dos matos, a gente de Potí, contendo a respiração, esperava, horas inteira, o inimigo. Ninguém imaginava que dentro daquelas moitas imóveis e calmas estavam punhados de homens decididos a morrer ou a vencer, — tão silenciosos tão quietos, tão serenos como as mesmas árvores que os cercavam. Passavam as horas... De repente, o inimigo chegava. Já ao longe, o ouvido agudo do índio lhe adivinhava a chegada e lhe contava os passos descuidados. Desprevenidos os holandeses avançavam. De repente, estacavam, envolvidos numa nuvem de fogo. De cada grupo de árvores partia um tiro ou uma flecha. Parecia que era o próprio mato quem despejava sobre eles a morte e o medo.

Mais de uma vez, assim, Potí, o bravo Antônio Felipe Camarão, fez recuar a gente holandesa, que, superior em força e em número, não podia resistir a essa guerra implacável e misteriosa, cujos ataques partiam do desconhecido, da sombra, do invisível.



Calabar
Longa ia a luta, — longa e feroz. Chegavam sempre reforços da Holanda, e toda a capitania de Pernambuco estava conflagrada. Em terra e no mar travavam-se combates que não asseguravam uma vitória definitiva a nenhuma das nações em guerra. As armas holandesas encontravam uma resistência inesperada. Mas, um dia, toda a face da guerra foi modificada pela influência de um só homem.

Domingos Fernandes Calabar, brasileiro intrépido, que até então prestara os maiores serviços às armas portuguesas, passou-se de repente para os arraias holandeses. Com ele, passou-se para esses arraiais a vitória. Calabar conhecia os campos, as fortificações, o modo de combater, e os planos dos defensores de Pernambuco. As suas informações guiavam os chefes invasores, que puderam assim ganhar um terreno considerável.

Que motivos teriam levado Calabar a esse ato, em torno do qual ainda hoje se chocam opiniões diversas? Ninguém sabe que movimento irresistível de alma impeliu esse homem bravo a ir dar a uma raça estranha o apoio do seu braço. Se crime houve, o castigo não se fez esperar.

Matias de Albuquerque, que comandava as forças da metrópole, sofrendo derrotas consecutivas, perdendo todos os pontos que ocupava, foi forçado a retirar-se para Alagoas. Com ele retirava-se o povo. Imensa multidão empreendia a emigração desesperada, a fuga angustiosa, por caminhos péssimos, levando crianças e mulheres, expostas aos azares das emboscadas e à fome.

Somente quinhentos soldados acompanhavam a Albuquerque. Em Porto Calvo estava Calabar com uma pequena força. Houve um combate rápido e decisivo, Calabar, derrotado e aprisionado, foi enforcado ali mesmo, em Porto Calvo que lhe fora berço.

Guararapes
Havia 25 anos que os holandeses estavam no Brasil; havia 25 anos que durava essa luta implacável. Durante esse largo período, houve épocas em que, vencedores, os invasores se haviam considerado senhores de fato do território; mas, logo, ou chegavam tropas da metrópole, ou, depois de uma conspiração patriótica, o povo se levantava como um só homem; e a guerra continuava; e a vitória favorecia ora um, ora outro campo, sem que uma batalha decisiva viesse por um termo definitivo à pendência.

Em 19 de Fevereiro de 1649, estava o Recife sitiado pelos libertadores. Dentro eram os holandeses comandados pelo coronel Van den Brinck, que, vendo apertar-se cada vez mais o cerco, decidiu-se a tentar a sorte das armas em um combate campal. Deu-se esse combate ao pé dos montes Guararapes, situados a três léguas do Recife.

No ano anterior, já ali tinha sido ferida a primeira batalha dos Guararapes, da qual saíram vencidos os holandeses, comandado por Segismundo von Schkoppe, tendo perdido quatrocentos e tantos soldados e dezessete bandeiras. Mas a segunda batalha dos Guararapes ainda tinha de ser mais fatal às armas da Holanda.

Ao amanhecer do dia 19, os dois exércitos se contemplaram, dominando duas alturas que se enfrentavam. O coronel Van den Brinck comandava três mil e quinhentos homens.* Compunha-se o exército pernambucano de dois mil e seiscentos soldados. Até o meio dia, os dois exércitos se prepararam. Dispunha-se a artilharia, adarvavam-se as trincheiras, estendiam-se as alas da infantaria. Em torno, a natureza dos montes Guararapes fulgurava, magnífica e pujante, vivamente batida de um claro sol de verão. Entre os dois campos, cavava-se um pequeno vale. E, ultimados os preparativos, um silêncio profundo reinou, apenas cortado pelo estrondo das torrentes volumosas que naquele lugar se despenham dos montes, cujo nome de Guararapes vem justamente do barulho dessas águas impetuosas. *

Ao meio dia, começou o fogo, de parte a parte. De parte a parte se operaram prodígios de bravura. Os dois exércitos compreendiam bem daquele encontro dependia tudo. Naquele estreito espaço do território brasileiro, estava sendo jogada a sorte da nossa nacionalidade. Uma vitória estrondosa da Holanda dar-lhe-ia força e prestígio para talvez plantar definitivamente o seu domínio no Brasil. Essas seis horas que durou a segunda batalha dos Guararapes encerraram, sem dúvida, a nossa maior crise histórica.

Ao anoitecer, depois de um tremendo choque a arma branca, o desbarato dos holandeses era completo. Em meio do combate morrera o coronel Van den Brinck. Quando a noite caiu de todo, o seu exército abandonou o campo, deixando nele novecentos e cinqüenta e sete mortos, cem prisioneiros, dez bandeiras e toda a artilharia. Os pernambucanos só tinham perdido quarenta e cinco homens. Entre os feridos contava-se o bravo Henrique Dias, o heróico negro brasileiro, que D. João IV, então rei de Portugal, ingratamente esqueceu na distribuição de empregos e de graças com que remunerou os esforços dos libertadores.

De 1649 a 1654, não puderam mais os holandeses reconquistar as posições perdidas. A Inglaterra declarara guerra à Holanda: instituíra-se em Portugal a Companhia Geral do Comércio do Brasil, destinada a tornar efetiva a expulsão dos holandeses. A 26 de Janeiro de 1654, assinou-se na campina de Taborda, diante do forte das Cinco Pontas, o tratado de pás, segundo o qual a Holanda entregava todas as praças que ocupara, com toda a artilharia e munições que nelas houvesse.

Tinham terminado as guerras holandesas. O destino do Brasil estava decidido. A Pátria estava definitivamente incorporada à grande comunhão da raça latina.



Duguay-Trouin
A França não desanimara de poder ter um dia, como possessão sua, a magnífica baía do Rio de Janeiro. Em 1710, Duclerc, oficial da marinha francesa, desembarcara em Guaratiba uma força de mil soldados, e viera atacar a cidade. O governador, amedrontado, perdera tempo. Mas um grupo de moços estudantes, ao mando de Amaral Gurgel, resistira aos invasores e derrotara-os.

No ano seguinte, a França, sob o pretexto de vingar a morte de Duclerc que fora assassinado, mandou Duguay-Trouin, à frente de uma esquadra poderosa, assaltar o Rio de Janeiro.

A cidade resistira ao primeiro ataque, com uma bravura inexcedível. mas agora a luta ia ser terrivelmente desigual. A esquadra de Duguay-Trouin, que partiu de La Rochelle, compunha-se de dezessete fragatas de guerra, que traziam cinco mil e setecentos homens. As fortificações do porto do Rio de Janeiro eram insuficientes; o governador Castro de Morais era um tímido, um homem sem iniciativa, que a iminência do perigo perturbava. O povo não era aguerrido: era uma gente laboriosa e modesta, que só tratava de aperfeiçoar a sua cidade. E a cidade, que desde o tempo de Mem de Sá se desenvolvera sem cessar, era agora opulenta, cheia de templos em que grandes tesouros se acumulavam, coberta de ricas habitações particulares, e cercada de inúmeras chácaras e quintas.

A vitória de Duguay-Trouin não foi difícil. A cidade, bombardeada, não resistiu por longo tempo. No dia 22 de Setembro os franceses estavam senhores do Rio de Janeiro. Arrombadas as portas das casas, todas as riquezas dos particulares foram saqueadas. As preciosas alfaias das igrejas, os tesouros de ouro, prata e pedras preciosas que a piedade ali acumulara, foram carregados para bordo dos navios de franças. E ainda Duguay-Trouin obrigou a cidade a pagar, para o seu resgate, seiscentos e dez mil cruzados em dinheiro, cem caixas de açúcar e duzentos bois.

Quando o governador Castro de Morais se submeteu à vergonhosa imposição dessa contribuição de guerra, Antônio de Albuquerque chegava de Minas com um reforço poderoso para auxiliar o Rio de Janeiro. Duguay-Trouin retirava-se da baía com a sua esquadra vitoriosa, e a futura capital do Brasil, resignada, se dispunha a recuperar pelo trabalho os bens perdidos.

Os paulistas
Já toda a costa do Brasil estava explorada e povoada. Mas as principais, as maiores riquezas jaziam desconhecidas no coração da grande terra, nos sertões ínvios, que apenas o gentio percorria. Foi da cobiça e da ambição que se originou o descobrimento das vastas jazidas de ouro e de pedras preciosas que dormiam no centro do Brasil.

Ao norte, as guerras com a Holanda tinham obrigado os portugueses a se embrenharem pelo interior do país, em evoluções de campanha. Mas, no sul, foi a caça dos índios que abriu o caminho dos sertões.

A antiga capitania de S. Vicente prosperara. Nas vilas de S. Vicente e S. Paulo tinha-se formado um povo forte e atrevido, já brasileiro, criado ao ar livre, fadado pela sua robustez e pela sua natural bravura a grandes cometimentos. O comércio de carne humana era rendosíssimo. Os índios, aprisionados, eram vendidos a peso de ouro.

Os sertanejos paulistas, no empenho de cativar selvagens, reuniam-se em grupos armados, e penetravam as florestas, sob as ordens de um chefe. A princípio, muitos desses bandos ficavam para sempre sepultados nas regiões devassadas, ou comidos pelos selvagens, ou dizimados pelas enfermidades e pelas privações. Mas outros bandos vinham logo depois.

Foi provavelmente durante essas correrias, que se descobriram as riquezas cujo gozo estava até aí vedado ao homem pela terra. Então, maior a febre da ambição se ascendeu nas intrépidas almas paulistas.

O perigo das caminhadas esfalfantes; a luta encarniçada contra as asperezas do solo; as inclemências do clima; os dentes das feras e a ferocidade das tribos; o arrojo dessa aventura espantosa; a ânsia louca de acumular fortunas, exaltavam o sertanejos. O Brasil não teve mais segredos para eles, e abriu-se vencido e subjugado, diante desses homens, quem pequenos e fracos, desafiavam, com uma tenacidade heróica, a hostilidade da natureza bravia.

O chefe da bandeira era senhor absoluto da sua gente. Todos lhe prestavam obediência, e atiravam-se, a um aceno seu, sem hesitar, às mais loucas empresas. Vestidos de couro, participando ao mesmo tempo da vida das feras, dos índios e dos homens civilizados, insensíveis à fome, ao cansaço e a todos os padecimentos, esses homens realizaram as mais admiráveis façanhas de que há notícia na história da Terra.

Dentro da natureza virgem que os cercava, os bandeirantes colocavam-se fora da lei. Ninguém tinha poder sobre eles, naqueles recessos de matas ásperas, naquela grandeza majestosa de campos desertos. tamanho chegou a ser, por vezes, o prestígio dos chefes de bandeiras, que os reis de Portugal se correspondiam diretamente com eles, e deles recebiam respostas altivas, como de igual para igual. Tentaram debalde os jesuítas opor embaraços a essa ousadia. Bandeiras armadas foram até as margens do Rio Paraná, e aí, às vistas das missões dos jesuítas, fizeram uma colheita de mais de quinze mil índios.

Agora, porém, já não era a carne humana que os bravos paulistas procuravam: era ouro abundante que enchia as frinchas das serras e rolava no leito dos riachos.

A princípio, percorreram toda a zona paulista. Desceram depois a Santa Catarina, avançaram até o Paraguai, devassaram todo o atual Estado de Minas, entraram em Goiás, chegaram às cabeceiras do rio Tocantins... Fora, decerto, em começo, um móvel condenável o que os impelira a essas peregrinações; depois, com o descobrimento das minas, fora ainda a ambição também pouco nobre do ganho que os levava a prosseguir nessas tentativas arrojadas; mas, tão brilhantes foram os resultados dessas expedições, tão grandes e tão belas as conquistas que delas nasceram, que a fealdade dos primitivos intuitos desaparece, dissipada por um vivo clarão de glória. Aos bandeirantes se deve a exploração e a povoação do Brasil. E se milhares de índios pagaram com a liberdade e com a vida essa obra de civilização, milhões de homens de uma nacionalidade, que talvez ainda venha a ser a mais forte da terra, estão hoje gozando a prosperidade, o bem estar, a fortuna e o conforto que forma longamente preparados e cimentados pelos esforços dos perseguidores e pelas lágrimas dos perseguidos.



Amador Bueno
Quando o papa Urbano VIII declarou que incorreriam em pena de excomunhão todos aqueles que cativassem e vendessem índios, havia em S. Paulo uma verdadeira agitação revolucionária. Os jesuítas, que a sorte dos selvagens apiedava, procuravam por todos os meios impedir o vergonhoso tráfico. mas todos os interesses dos homens principais da terra estavam ligados a esse comércio.

Ainda a maldade humana se não havia lembrado de iniciar o tráfico negro: ainda os navios negreiros não iam à costa da África aprisionar os desgraçados filhos daquele continente mártir. Dentro em breve iam os índios do Brasil ficar em descanso, porque outro comércio, igualmente infame, mas infinitamente mais rendoso, ia tentar os mercadores de carne humana...

Mas, por ora, ainda os escravos índios davam grandes lucros, no mercado da desumanidade. E a gente principal de São Paulo vivia irritada pela oposição tenaz que os jesuítas faziam aos seus interesses.

Além disso, na alma daquele povo altivo, que tão grande parte, muitos anos mais tarde, devia tomar na grande obra da libertação da pátria, havia já o desejo nobre de se libertar de um jugo que começava a pesar. Não era ainda uma idéia assentada e precisa de emancipação: era uma idéia vaga, uma ambição indecisa.

O povo do Rio de janeiro, cujos interesses eram também feridos pelos efeitos daquela bula pontifícia, saía a ataca-la. Em S. Paulo, a desordem rebentou violenta: e das duas grandes vilas da capitania foram expulsos os jesuítas.

Foi então que chegou ao Brasil a notícia da revolução de Portugal. Sacudindo o jugo espanhol, — a metrópole aclamara D. João IV. Em todos os pontos do Brasil, a aclamação estava sendo confirmada. Em S. Paulo, foi ela o pretexto para a explosão do descontentamento que surdamente lavrava.

Havia na vila um homem justo, que o povo adorava. Era Amador Bueno, que foi o chefe de uma nobre família que ainda hoje existe, carregada de serviços à pátria. Das povoações das vizinhanças correu grande multidão que, juntando-se ao povo de S. Paulo, dirigiu-se à casa de Amador Bueno. Quando este apareceu, rompeu de todas as bocas este mesmo grito: “Viva nosso rei, Amador Bueno!” E, logo depois, um grande silêncio reinou. O ilustre paulista, também em silêncio, contemplava aquele vasto mar humano, que tumultuava em torno de si.

Via bem Amador que bastava um gesto seu para impelir os maiores excessos aquela gente.

Que ocasião aquela para uma alma ambiciosa! Deixando-se aclamar, o paulista fecharia na suas mãos um poder absoluto e supremo. Seria rei! rei do povo mais empreendedor, mais rico, mais orgulhoso do Brasil: rei que, contando com a cega dedicação e a coragem nunca desmentida dos seus súditos, poderia lutar com vantagem contra a metrópole, e firmar inabalavelmente o seu trono... Mas a alma de Amador não era uma alma vulgar. Não viu apenas, na aventura, os lucros que poderiam surgir para a sua pessoa: viu mais alguma coisa, — viu o sangue que se derramaria, viu o horror da guerra civil, o trabalho parado, das famílias em luto, a pátria ferida. E convidou o povo a aclamar D. João IV.

Foi quase vítima dos eu desinteresse. A multidão julgava quase uma traição aquele procedimento. mas a eloq6uência irresistível, que os justos sabem ter nos grandes momentos históricos, pode acalmar o povo irritado.

Aclamou-se D. João IV, e Amador Bueno recolheu-se à sua obscura, mas nobilíssima situação de patriota.

Os emboabas
Largo e volumoso, rolando entre ribas de uma vegetação magnífica, o rio das Mortes corre, aqui sereno, quase sem agitação nas águas, ali borborinhando sobre rochedos que se cobrem de espuma, adiante despenhado em quedas altas... De dia, banha-o a luz violenta do sol, e as grandes árvores centenárias refletem dentro dele as imensas copas ramalhudas, que sussurram longamente ao vento, como numa queixa contínua. À noite, ao luar, brilha a sua face como um espelho de prata viva. E, à hora em que as antas ariscas descem, para vir beber da sua água, pelas escarpas cobertas de verdura, — as serenas estrelas miram-se nele, do alto do céu sossegado.

Mas, naquelas águas que passam e não voltam, vive a recordação duas vezes secular de uma grande batalha. Quem passa por elas, evoca a lembrança do terrível ano de 1708, ano trágico, ensangüentado pelas discórdias que a febre do ouro ateara.

Em torno nas minas de Sabará, batiam-se dois grandes bandos: um era de paulistas, ao mando de Domingos Monteiro; o outro, composto de estrangeiros (emboabas) obedecia a Manoel Nunes Viana. Escaramuças diárias agitavam os dois campos. Quando, cansados de dar pequenos combates, os bandos rivais, ardendo em ódio, e chocaram, — durou a batalha de sol a sol. por longas horas correu o sangue em cachões, sobre aquela terra fecunda e rica, disputada com igual ardor pelos dois exércitos. O rio, correndo e borborinhando, recebia os cadáveres dos que caíam. E a mortandade foi tão grande, que aquelas águas receberam a fúnebre denominação que ainda hoje possuem...

Largo e volumoso, entre ribas de uma vegetação magnífica, ei-lo a correr, a correr, a correr, o rio soberano, tão sereno hoje, como no dia em que, às margens, troou o estridor da batalha desumana. Miram-se nele as estrelas, pairam sobre ele as aves, vêm beber da sua água tranqüila as antas ariscas, banha-o o sol, acaricia-o a claridade branda da lua; e em torno dele, a Natureza, moça perpétua, numa perpétua festa, abre-se em flores e frutos.

Mas, naquelas águas que passam e não voltam, vive a recordação duas vezes secular daquele dia de horror e de sangue...

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