Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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A volta dos bandeirantes
A batalha do rio das Mortes do decidida em favor dos paulistas. Os emboabas, repelidos, juraram vingar-se. E, tendo fingido procurar uma reconciliação, iludiram os adversários e, caindo de surpresa sobre eles, lhes infligiram uma derrota completa. os bravos paulistas, dizimados, tiveram de abandonar a luta.

Tinham-se esgotado, durante essa longa luta, as suas forças e os seus haveres. Longe do lar havia tanto tempo, os que restavam daquele grande exército acharam melhor voltar às suas colônias, até que, depois do necessário repouso, novamente apercebidos de armas e recursos, pudessem recomeçar a campanha. E foi então que se deu um episódio admirável.

Em grupos abatidos e tristes, os bandeirantes voltavam a S. Paulo.

Não era agora aquela caminhada alegre e febril, que a esperança e a ambição animavam. Os bandos numerosos e decididos, que havia, partido para a batalha e para a conquista do ouro, regressavam desfalcados, diminuídos, doentes, desanimados, cheios do desespero da derrota e da saudade do lar.

Quando as primeiras casas da vila apareceram, o primeiro sorriso apareceu também nos lábios daqueles homens que tinham vindo até aí com a morte na alma. Enfim, ali estava a Pátria, ali estava a família, ali estava o amor... que importava o resto?

E os bravos corriam...

Viram, então, que todas as mulheres da vila, — as suas mães, as suas esposas, as suas filhas — já sabedoras da derrota, saíam para recebe-los. Não vinham, porém, rindo e cantando, como das outras vezes em que os conquistadores voltavam orgulhosos e ricos. Vinham cobertas de luto; e antes de abraça-los, declararam que nenhuma delas receberia como filho, como filho, como pai, como esposo, ou como irmão, a um só deles antes de haverem todos vingado a afronta recebida e a traição sofrida...

Naquelas mulheres de alma espartana, o orgulho sufocava o amor...



O Padre Antônio Vieira
Nasceu em 1608, em Lisboa. Transportando-se com sua família à Bahia, ali estudou com os jesuítas as humanidades e conta o seu notável biógrafo João Francisco Lisboa, que o aluno, sendo de grande rudeza mas muito devoto da Virgem, lhe dirigia em certa ocasião uma prece, quando “de repente sentiu como um estalo e dor tão aguda na cabeça, que lhe pareceu que ali acabaria a vida.” E continuar o biógrafo: “era o véu espesso que trazia em tão indigna escuridade aquele juvenil engenho que num momento se rasgava e desfazia para sempre.”

De então para diante ninguém o venceu nos estudos, e tão grande era o seu desejo de saber, que, contrariando os pais, abandonou a casa, recolhendo-se ao colégio dos jesuítas com pouco mais de 15 anos. Professou, e entre o muito que estudou citam-se as língua brasílicas e africanas, o que fes no intuito de converter e civilizar os bárbaros dessas raças.

A primeira fase da sua vida no Brasil foi brilhantíssima. Datam dessa época os seus maravilhosos sermões, notáveis peças de eloqüência, escritas em elevadíssima linguagem tida por modelo pelos que não desprezam o vernáculo, engenhosas de parábolas e conceitos.

Em 1641 partiu para Portugal em companhia do jesuíta Simão de Vasconcelos afim de cumprimentas D. João IV pela restauração da monarquia portuguesa.

Pregando, logo conquistou as boas graças do rei, que dele fez seu conselheiro; começou a vida política do grande homem. Esforçando-se, conseguiu que fossem criadas companhias de comércio que explorassem as riquezas do Brasil e do Oriente, opondo assim concorrência aos mercadores de Holanda: propôs em certos casos a redução e em outros a extinção de direito do fisco, proteção aos israelitas que existiam no reino para que com eles ficassem os valiosos capitais que possuíam. A inquisição nunca lhe perdoou esse ato e, logo que achou ensejo, encarcerou-o.

Foi encarregado de tratar as pazes com a França e com a Holanda, em nome de Portugal ainda não tranqüilizado.

Acusam-no de ter ficado ao lado do rei, quando apesar do desbarato das tropas holandesas em sucessivos combates, ele pensou em ceder á Holanda quatrocentas léguas da costa do Brasil; desta falta, grave embora, resgatam-no inúmeros benefícios que prestou á nossa pátria.

Em 1653, de volta da Europa, fixou-se no Maranhão, onde, em luta encarniçada contra o governador e os colonos, defendeu a liberdade dos índios que aqueles escravizaram. No Maranhão viveu sempre modestamente, pobremente devemos dizer, porque dormia no chão sobre uma velha esteira.

Vieira foi um intrépido defensor dos infelizes selvagens que os colonos não só escravizavam como torturavam; por causa disso, foi o grande jesuíta preso e remetido para Lisboa em 1661.

O governo da metrópole não lhe consentiu a volta à terra que tinha como verdadeira pátria. Na Europa muito sofreu, sendo até processado pelo tribunal da Inquisição que o encarcerou.

Indo a Roma sobressaiu pelo seu talento, e, voltando à Bahia, onde começara a sua vida gloriosa, morreu em 1697, contando quase noventa anos de idade, cinqüenta dos quais vividos em nossa terra.

O sertão do norte
Em 1674, mas ou menos, um jovem português de nome Domingos Afonso, estabelecido em uma fazenda de criação, no atual distrito de Juazeiro, em Pernambuco, decidiu corajosamente internar-se, devassando as selvas emaranhadas até encontrar sítio onde pudesse espalhar rebanhos e edificar morada.

Tomando alguns companheiros de confiança e levando adiante um lote de gado, pôs-se a caminho deixando o asilo seguro pela aventura afortunada ou infeliz.

Não cabe em tão limitado espaço a descrição minuciosa das muitas e terríveis peripécias por que passou o arrojado explorador; sabe-se que foi o primeiro a atravessar a serra dos Dois Irmãos e o primeiro também que alongou os olhos pelos extensos e fertilíssimos campos do Piauí.

Achando-os magníficos, neles fez pousada, deixando livres, entre límpidas águas e erva tenra, as reses que levara: as quais tão bem se deram em tão ameno sítio que, em pouco tempo, multiplicando-se encheram os prados dantes apenas percorridos pelos canguçus ferozes.

A empresa temerária de Domingos Afonso, cognominado Sertão, teve imitadores; e deve-se, não só à avidez de riquezas por meio da colheita do ouro ou do tráfico do índio, como ao desejo natural de aventura e conhecimento de novidades, a exploração do interior do Brasil, feita por bandos de homens, que, sem pensar nos perigos, iam por diante, desbravando selvas, pelejando bárbaros.
Os palmares
Dentre os muitos quilombos de que há memória desde os tempos mais recuados da escravidão no Brasil, foi o mais célebre o de Palmares, em Pernambuco.

Por um lado o sentimento guerreiro, desenvolvido nos escravos pelos senhores que os armavam em defesa da propriedade e da vida contra o holandês invasor, por outro lado, o incentivo forte da idéia de liberdade, fizeram que, em 1630, quarenta negros de guiné, cativos em Porto Calvo, desertassem as fazendas, internando-se nas matas onde se fortificaram.

Sós, na selva brava, soltos livremente como nas brenhas natais, começaram a viver na absoluta independência, sem lei nem senhor.

Nas horas mais altas da noite desciam aos campos e levavam abundantíssima colheita, ou, em magotes, invadiam as fazendas, saqueavam-nas, e por felizes podiam dar-se os fazendeiros quando escapavam às mãos dos quilombolas ousados.

Diariamente, chegavam escravos ao quilombo, alguns feridos, outros algemados, e em pouco tempo atingiu a mais de vinte mil o número dos mocambeiros. Foi eleito um chefe: Zumbi; apareceram leis e o homizio tornou-se uma república. A pouco e pouco, abandonando o sistema dos roubos, tornaram-se agricultores, — semeavam e colhiam, entretendo comércio, e os fazendeiros dos arredores, porque não podiam resistir aos homens da colônia negra, entenderam que era melhor tratar com eles como de iguais a iguais, vendendo-lhes fazendas e armas.

O território compreendido nos limites do quilombo tinha quatro ou cinco milhas de circuito; o recinto era fortificado à maneira das aringas da África. Dentro medravam as plantações — o milho, a mandioca, as bananeiras, e um rio d’água cristalina serpeava regando e refrescando as terras da cabilda. oito ou dez mil homens, sempre em armas, constituíam o exército de defesa.

Em 1695, o governo resolveu submeter a república, e tropas marcharam para combater a gente negra.

A luta foi tremenda; os negros defendiam não somente a liberdade mas a própria nesga de terra em que se haviam refugiado, as roças viçosas e, mais que tudo, as suas mulheres e os seus filhos.

Foi-lhes, porém, fatal a sorte da guerra. Esmagados pela força que os foi buscar dentro das fortificações, não se submeteram, preferiram a morte. Zumbi, o chefe, com os destroços dos eu exército batido, precipitou-se heroicamente da altura de um penedo, e o sangue que jorrou em borbotões do seu corpo espirrou aos pés dos portugueses pasmados.

No furor da refrega, os que sentiam a impossibilidade de vitória ou de fuga voltavam as armas contra o próprio peito. Maridos, para evitarem suplícios infamantes que, por ventura, fossem infligidos às esposas, matavam-nas; o mesmo faziam as mães aos filhos, sem lágrimas, bradando. Os prisioneiros, desprovidos de armas com que se matassem, deixaram-se finar à míngua.

E aquela república foi arrasada, foram incendiados os campos e as cabanas, e o rio tranqüilo de água límpida correu por entre as cinzas como uma veia, tanto sangue rolava.

Não foi, todavia, completa a destruição, porque eterna ficou a memória dessa esforçada luta pela liberdade.



O “bequimão”
Vexado por sucessivas desordens, afligido pela miséria, teve ainda de suportar o Maranhão o contrato celebrado pelo governo com uma companhia de negociantes de Lisboa, em virtude do qual se lhe concedeu o privilégio exclusivo do comércio de todo o Grão Pará e Maranhão por espaço de vinte anos.

“Os contratadores ou assentistas, como geralmente os denominava, deviam meter dez mil negros africanos na colônia, se tantos fossem necessários, à razão de quinhentos por ano, e, além disso todas as mais fazendas e gêneros necessários, assim para o consumo e uso pessoal dos moradores, como das suas fábricas e lavouras.”

Todo o comércio dos moradores devia ser feito por intermédio dos assentistas. Comprometiam-se igualmente os assentistas a introduzir melhoramentos nos métodos de cultura e indústria, e a mandar, cada ano, um navio pelo menos àquele Estado.

Em compensação, gozavam de certas regalias; era assim que podiam devassar os sertões tomando índios, até cem casais, para cada uma das capitanias, contanto que lhes dessem um sacerdote. Foi isso em 1684, sendo governador do Maranhão Francisco de Sá e Menezes.

O povo, tão duramente oprimido, entrou a murmurar; um pregador chegou até a bradar do púlpito que o “remédio para tantos males estava na mão do povo”. Assim fomentada, a idéia de uma revolução impôs-se, e houve uma reunião de conspiradores no convento de Santo Antônio em 24 de Fevereiro de 1684; e dali partiu o grito de protesto, levantado, principalmente pelo português Manuel Bechman, ou “Bequimão”, como ele preferia chamar-se, senhor de engenho no Mearin, e seu irmão Tomaz Bechman, que cultivava a sátira, — sendo o primeiro muito querido pelo povo que acudia a ouvir a sua palavra fascinadora.

Deposto o governador pelos revolucionários, foi declarada extinta a companhia do monopólio, e os jesuítas, em número de vinte e sete, foram embarcados e expelidos do Maranhão.

Sabidas no Pará as notícias do acontecimento, o governador, reconhecendo que a expulsão dos jesuítas e a abolição do novo monopólio tinha ali simpatias, declarou que se obrigava a conseguir que a Corte anuísse nesses dois pontos à súplica dos povos, arrancando, com tal promessa, à câmara de Belém, uma desabrida resposta à do Maranhão que a convidara a aderir ao movimento. Manuel Bequimão rejeitou todas as condições conciliadoras propostas em nome do governador.

Passado, porém, o momento do ímpeto, os ânimos arrefeceram, como geralmente sucede, e, desembarcando no Maranhão Gomes Freire de Andrade, novo governador nomeado para aplacar a sedição, encontrou o povo em disposições pacíficas, e logo, tomando o governo, anulou todos os atos dos revolucionários, reintegrando funcionários, restabelecendo os jesuítas e a Companhia.

Bequimão foideclarado cabeça de motim e sentenciado à morte; e , posta a prêmio a sua pessia, logo apareceu Lázaro de Melo que pagou os benefícios que dele recebera entregando-o aos seus perseguidores; com o seu cúmplice Jorge de Sampaio, chefe de numerosa família e maior de setenta anos, foi decapitado o Bequimão.

Subiu ao patíbulo com a calma de um herói, e suas últimas palavras foram: “que pelo Maranhão dava satisfeito a vida.”

Tomaz Bequimão, deportado, foi cativo dos mouros durante oito anos, em Mequinez, voltando ao Maranhão vinte anos depois. Lázaro de Melo perseguido pela consciência, desprezado de todos, garroteou-se me um engenho.

Os mascates
Levantadas, uma em face da outra, separadas apenas por uma légua de costa, as duas cidades de recife e Olinda rivalizavam outrora em riqueza e progresso. Nem sempre essa rivalidade foi pacífica: chegou a ser uma rivalidade sanguinária e terrível que, em 1710, ateou a guerra dos Mascates.

Aqui, como nas margens do rio das Mortes, não foi a febre do ouro a origem dos morticínios e das crueldades praticadas: a guerra dos Mascates foi, verdadeiramente, a primeira explosão séria dos sentimentos de nativismo, que começavam a agitar a alma da nova nação. Depois das guerras holandesas, o recife prosperara muito; mas, não tendo sido ainda elevado a vila, dependia de Olinda. Olinda era a habitação preferida das ricas e fidalgas famílias brasileiras: o Recife era a habitação dos portugueses, que o comércio enriquecera, e queixava-se de não ter sido elevado a vila, tendo maior comércio que Olinda. Essa rivalidade comercial, agravada pela rivalidade de raça, tornou-se, dentro em pouco tempo, ódio minaz e implacável. As duas cidades, que apenas uma légua separava, começaram a afrontar-se mutuamente, separadas por um infinito de rancores e doestos.

Quando rebentou a guerra, todo o horror da luta civil cobriu aquele ponto da costa brasileira. De um lado, os Pernambucanos não concediam quartel aos portugueses, a quem davam a denominação de Mascates. De outro lado, os portugueses negavam pão e água aos Olindeses. No dia em que ambos os partidos pegaram em armas, o choque foi medonho.

A povoação do Recife já fora erigida em vila, e, como símbolo da usa nova autoridade, arvorara numa praça pública o pelourinho. Os Olindeses, que viam todos os dias os seus partidários perseguidos, encarcerados ou deportados pelas autoridades da metrópole, saíram em número de vinte mil, e foram acampar ás portas do Recife. Formavam um verdadeiro exército , a cuja impetuosidade não puderam os defensores da vila resistir. Foi o Recife tomado de assalto, e em todas as suas ruas correu em borbotões o sangue.

Ganha a batalha, a altiva gente de Olinda, toda composta de altivos e fidalgos Senhores de engenho, procurou emancipar-se completamente do domínio da metrópole, fundando uma república aristocrática. Mas, a luta ainda não terminara. Os de Recife, cobrando novas forças, conseguiram suplantar os de Olinda. Então, outra fase mais grave do conflito se revelou: a da perseguição incondicional e bárbara exercida contra os cabeças do movimento olindense.

O novo governador de Pernambuco, Feliz Machado, nomeado pacificador da região, apenas viu abatido o orgulho de Olinda, fez pesar sobre ela uma vingança bárbara. O bispo D. Manuel da Costa que, nos breves dias da supremacia de Olinda, tratara com benevolência rara os vencidos, foi degredado para as margens inóspitas do S. Francisco; e a melhor gente da sociedade olindense foi mandada, em ferros, para Portugal...

Hoje as duas cidades ainda se defrontam, orgulhosamente, ambas ricas e poderosas. Mas, livres ambas, ligadas pelo laço fraternal do mesmo governo e da mesma nacionalidade, são como duas irmãs que entre si igualmente repartem a prosperidade e a glória.

Os aventureiros
Extratamos literalmente da notável monografia do Dr. Joaquim Felício dos Santos, Memórias do Distrito Diamantino, o vigoroso retrato que ele nos dá dos aventureiros ávidos:

“Eram homens ousados e intrépidos esses aventureiros, que se embrenhavam pelos sertões das Minas em busca do outro; de vontade firme, pertinaz, inabalável. Cegos pela ambição, arrostavam os maiores perigos; não temiam o tempo, as estações, as chuvas, a seca, o frio, o calor, os animais ferozes, répteis que davam a morte quase instantânea, e mais que tudo o indômito e vingativo índio antropófago, que devorava os prisioneiros, disputando o terreno palmo a palmo em guerra renhida e encarniçada. Muitas vezes viajavam por esses desertos, descuidados e imprevidentes, como se nada devessem recear. Para eles não havia bosques impenetráveis, serras alcantiladas, rios caudalosos, precipícios, abismos insondáveis. Se não tinham o que comer roíam as raízes das árvores; serviam-lhes de alimento os lagartos, as cobras, os sapos que encontravam pelo caminho, quando não podiam obter outra alimentação pela caça ou pesca; se não tinham o que beber, sugavam o sangue dos animais que matavam, mascavam folhas silvestres ou as frutas acres dos campos.

Já eram homens meio bárbaros, quase desprendidos da sociedade, falando a linguagem dos índios, adotando muitos dos seus costumes, seguindo muitas das suas crenças, admirando a sua vida e procurando imita-los. Muitas serras, muitos rios, muitos lugares que conhecemos com os nomes indígenas, foram batizados por eles. Tais eram, em geral, os primeiros descobridores das ricas minas do Brasil.”


O garimpeiro
Garimpo era a mineração furtiva, punida severamente pelos governadores da capitania de Minas.

Tornavam-se garimpeiros: aquele que era obrigado a expatriar-se ou a passar vida miserável, sem recursos, por lhe ser proibida a mineração, único meio de subsistência que tinha; aquele que, condenado a degredo, tendo os bens confiscados, vendo-se apartado da família, conseguia iludir a vigilância dos seus algozes e fugia; e o aventureiro, ávido de riquezas, que buscava fugir à contribuição fiscal, entregando-se a uma vida de grandes riscos, sempre desassossegada, no coração das selvas.

Dormiam nos campos, à luz das estrelas, sempre atentos; refugiavam-se nas rochas escarpadas, nas grutas, nos andurriais dos montes, sem paradeiro certo, nômades, assustados porque a justiça lhes punha no encalço os dragões cruéis, que os perseguiam como as bestas bravas.

As partidas dos reis patrulhavam os córregos, os campos, as serras, os grotões, noite e dia; e, se encontravam garimpeiros, caíam-lhes em cima com ferocidade, deixando-os, muitas vezes, mortos barbaramente nos sítios em que os encontravam, quando não os arrastavam para os troncos, nas cadeias.

Entanto, não existe desse tempo um só processo que prove ter sido acusado por um crime o garimpeiro; ao contrário, atos de generosidade, de dedicação e verdadeiro heroísmo, praticados por esses homens intrépidos, que, além da gente d’El-Rei que não lhes dava tréguas, eram forçados a sustentar luta, já não dizemos com a natureza, mas com o índio bravio e com a fera, senhores das brenhas.

Não agrediam as tropas reais; atacados, porém, defendiam-se valentemente, rechaçando os algozes, as mais das vezes, porque não se batiam apenas por cumprimento de uma lei senão em defesa da liberdade própria.

Vencedores, não buscavam vinganças; tornavam pacificamente às areias dos córregos, onde o diamante cintilava. Se um era capturado, nas maiores torturas a que o submetiam para que traísse os companheiros, calava-se até a morte.

Em 1742 uma partida de dragões sustentou renhida peleja, nas margens do rio Manso, com alguns garimpeiros, entre os quais sobressaía pela bravura um jovem imberbe e formoso, que foi preso e metido no tronco da cadeia. Consta do auto de prisão que preso era: “de estatura baixa e delicada, olhos e cabelos negros, cor morena, feições finas e regulares, sem barba alguma.”

Negou-se a qualquer resposta; e, no mesmo dia, reconheceu-se que o valente garimpeiro era uma bela rapariga disfarçada em homem; no dia seguinte sem que se pudesse saber como, evadiu-se...

Terras e águas ofereciam aos homens os seus riquíssimos tesouros; podiam todos operar fraternalmente, pacificamente; mas a ambição fazia que os campos virgens estivessem sempre encharcados de sangue e cobertos de ossarias, e homens varejassem os bosques encarniçadamente, armados, dando caça a irmãos, que apenas cometiam o crime de concorrer com os que trabalhavam protegidos pela magnânima justiça d’El-Rei, representada na colônia diamantina pelos governadores e intendentes.



Os diamantes
Ignora-se em que sítio foi encontrado o primeiro diamante; muitas tradições existem: nenhuma, porém,que mereça inteira fé.

Desconhecendo o diamante, os mineiros do Brasil cuidavam apenas do ouro; e acontecia que, minerando nos córregos e encontrando certas pedrinhas brilhantes, de uma cristalização original, guardavam-nas como curiosidade, empregando-as como tentos para marcação de jogos.

Dizem que a Bernardo da Fonseca Lobo se devem a descoberta do diamante e a notícia que dela houve, transmitida á coroa; afirmam outros que um frade, que andara em Golconda, onde já se minerava o diamante, vendo os tentos de que usavam os de tijuco, na comarca de Serro Frio, em Minas, conheceu que eram diamantes, servindo-se Bernardo dessa descoberta, cuja notícia levou ao rei de Portugal, merecendo, por isso, ser nomeado tabelião e capitão mor da Vila do Príncipe.

Só em 1729 forma enviadas à Europa, por D. Lourenço de Almeida, governador das Minas, as primeiras amostras de diamantes.

Ordenou a corte que os terrenos diamantinos fossem rematados por contrato. Na comarca do Serro, em 1732, lavrava-se em trinta e cinco ribeirões, empregando-se nesse trabalho cinco a seis mil escravos. os diamantes de mais de 20 quilates era adjudicados à Coroa.

Em 1754 foi criada uma administração especial para a mineração diamantina — Intendência dos Diamantes, sendo o primeiro nomeado para o cargo de intendente o desembargador Rafael Peres Pardinho.

Avultaram os contratadores, acumulando fortunas consideráveis, tornando-se verdadeiros senhores. para exemplo, citamos o famoso desembargador João Fernandes de Oliveira que, depois de fabulosos gastos em edificações e festas, para satisfazer o capricho de uma mulher que nunca avistara o mar nem fazia idéia do que fosse um navio, mandou cavar na sua chácara um largo e profundo tanque “e construir um navio em miniatura, que podia conter oito a dez pessoas, com velas, mastros, cabos e todos os mais aparelhos das grandes embarcações”.

Em 1772 o contrato dos diamantes passou exclusivamente à Coroa, que fez publicações de bandos (éditos) ameaçando os contrabandistas.



A opressão
É em si mesma, em seu excessos, nos seus desvairamentos irreprimíveis, que a força do despotismo tem o seu corretivo. Portugal colonizara o Brasil. Com o correr dos anos, lentamente se formara uma nacionalidade nova, nascida neste sôo abençoado, tendo no sangue o calor deste sol que exalta e faz amar a vida, tendo constantemente diante dos olhos o espetáculo sempre novo de uma natureza forte e impetuosa, que faz amar a liberdade.

Não quiseram os donos do país ver que já estavam governando, não tribos errantes e brutas, mas um povo que sabia compreender o valor do seu esforço. Quanto mais crescia a altivez da nova raça, mais crescia a opressão da raça antiga. A corte portuguesa, vendo que as riquezas do Brasil eram inesgotáveis, não as poupava. D. João V inaugurou a política do esbanjamento e do luxo irrefletido. Saíam do Brasil, quotidianamente, incalculáveis e fabulosos tesouros. Mas, como a terra, somente devagar, explorada com calma e pertinácia, podia fornecer à Coroa o dinheiro preciso para sustentar a sua pompa estrondosa, foi preciso recorrer á violência. E nem foram respeitados os bens dos particulares.

Era, principalmente, nos terrenos diamantinos e auríferos, que a opressão mais pesadamente caía sobre os brasileiros. Os quintos do ouro eram cobrados com uma dureza revoltante. Dia a dia aumentavam os impostos. ninguém se podia eximir do dever de ficar pobre, para enriquecer a metrópole.

Em todos os outros pontos do país, a opressão era a mesma. Os tribunais portugueses davam invariavelmente razão aos colonizadores e negavam-na aos colonos. E a metrópole não via que o mesmo excesso da sua tirania tinha de arruína-la.

O incêndio levou muito tempo a lavrar. Todas as conflagrações são assim no começo: demoradas, insidiosas, insignificantes na aparência.

Uma faísca, ao acaso do vento, cai sobre a mata. Arde, a princípio, frouxa e débil, invisível quase, a morrer. Mas, o mesmo vento que a lançou ali, anima-a com seu hálito vivificador. Palpita a pequenina chispa, arde de manso, abre-se numa leve chama, que o vento sacode e agita. daí a pouco, uma língua tênue de fogo se levanta a medo, cresce, vibra no ar, engrossa, crepita, curva-se sobre as ervagens secas de em torno, acende-as, alastra-se, estalando, crescendo de minuto em minuto. Já cobra imensa, enrola-se nos galhos mais baixos, ganha os troncos, cinge-os, aperta-os, lambe gulosamente as ramagens mais altas. E, com um rugido surdo, ganha toda a floresta. O céu esbraseado reverbera o medonho clarão. Ao estrondo das madeiras que se espedaçam, casam-se os urros das feras que o incêndio apavora. E ninguém dirá que todo esse espantoso desastre nasceu de uma miserável fagulha, que o sopro quase insensível de uma viração ateou...

A administração da colônia era anárquica. O poder, às vezes, estava concentrado nas mãos de um homem só, e logo depois passava a ser exercido por muitos. Os governantes eram quase sempre velhos fidalgos de ilimitado orgulho, educados na escola do absolutismo e da prepotência. Nem tinham condescendência para os pobres, nem tinham piedade para os fracos. Depois, as guerras prolongadas tinham dado bravura e altivez aos colonos. E os jesuítas se tinham encarregado mais de uma vez de intrigar os nacionais com os dominadores.

A faísca, ainda tímida, ainda impotente, estaca criando força, e palpitando, na sua modéstia e na sua insignificância. Ninguém fez caso dela... Pouco faltava para que, transformada em incêndio, se levantasse, devastadora e temerosa.


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