Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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Felipe dos Santos
Era a tarde de 16 de Julho de 1720, em Vila-Rica*, opulenta capital de Minas. Todo o trabalho, por ordem do governador, fora suspenso. Toda a população correra, a ver o espetáculo terrível que se preparava. Tinham vindo os fidalgos, com os seus vestuários de gala, — coletes de cetim, casacas de veludo, camisas de renda, cabeleiras de rabicho; tinham vindo as fidalgas, cobertas de sedas e jóias; tinham vindo os homens abastados da vila. tinham vindo os trabalhadores livre das minas e os negociantes; tinham vindo os escravos quase nus, ainda carregando os martelos de quebrar o cascalho aurífero e as bateias de sacudir o ouro...

Estavam as janelas cheias de gente; e, pelas ladeiras da cidade, a multidão rolava em silêncio.

Não era uma festa que se esperava. A tarde era de terror. O conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida Portugal, cercado do seu regimento de Dragões d’El Rei, ia presidir a execução de Felipe dos Santos, réu de rebelião, que tivera a ousadia de incitar o povo de Vila-rica à desobediência e ao motim.

A tirania da metrópole pesava terrivelmente sobre Minas Gerais. Todo o ouro que a terra dava era arrecadado para os tesouros de D. João V. A pretexto de evitar o contrabando, o conde de Assumar, capitão general, fidalgo orgulhoso e ríspido, que só se deixava levar pela violência do seu temperamento, perseguia e encarcerava os trabalhadores e os negociantes. Os impostos, cada vez mais pesados, acumulavam-se sobre a população. As capitações, os quintos do ouro eram cobrados com uma ferocidade desumana. por mais honrado que fosse o devedor da fazenda real, o governador não lhe concedia prazo nenhum: quando os impostos não eram pontualmente pagos, os bens do mau pagador eram confiscados, e o sei corpo, carregado de ferros, ia apodrecer no fundo de uma enxovia.

nas vésperas da cobrança de mais um imposto odiosos e vexatório, o povo se revoltara, inspirado e conduzido por alguns homens principais da vila. Quando o conde de Assumar estava em Vila do Carmo, * descuidado, o povo, que já tinha invadido a casa do Ouvidor Martinho Vieira, foi sitiá-lo, e impôs-lhe a obrigação de adiar a cobrança. Colhido de surpresa, o governador aceitou a imposição, e prometeu tudo. Mas, quando viu dissipada a revolta, esqueceu as suas promessas,e, reunindo forças armadas, prendeu todos os cabeças do motim, mandando-os, carregados de ferros, para o Rio de Janeiro, saqueou-lhes os bens, e desenvolveu na vila uma perseguição desenfreada... Mas não era o bastante! O conde de Assumar queria dar ao povo uma lição tremenda. Para isso era necessário aniquilar, torturar e desonrar à sua vista o mais simpático, o mais popular dos chefes da revolta. O escolhido foi Felipe dos Santos. Adorava-o o povo, que a sua palavra eloqüente fascinava. Homem justo, meigo, e caridoso, — alma feita para o amor da liberdade e da justiça, — Felipe dos Santos, num tempo em que ainda não tinha explodido o vulcão da Revolução Francesa, já sonhava a República. E foi por isso a Felipe dos Santos que o conde de Assumar escolheu para vítima da sua sede de vingança.

Era a tarde de 16 de Julho de 1720. Felipe dos Santos, calmo e belo na sua resignação, foi, à vista de todo o povo, amarrado vivo à cauda de um fogoso cavalo. Nem uma voz se levantou para interceder pelo herói. A multidão apavorada e trêmula, subjugada pela tirania do governador, assistiu em silêncio àquele hediondo crime. Açoitado, o animal partiu a galope. E, pelas pedras ásperas e pontiagudas das ruas, ensangüentado, ensopando com o seu sangue precioso o pó da sua amada cidade, via-se o herói, saltando e ressaltando, ao trote vivo do cavalo, sem um gemido...

A noite descia. Felipe dos Santos expirara. Mas, ainda por largo tempo, à luz viva que tingia o céu, avermelhado pelo por do sol, a multidão apinhada nas colinas que rodeavam a cidade, viu passar, arrastado de ladeira em ladeira, espatifado e sangrento, aquele corpo sagrado, que estava santificando o chão de Vila Rica...

Daí a poucos anos, tinha de aparecer, na mesma terra, outro herói: a causa da liberdade nacional precisava de mais sangue... E pelas mesmas ladeiras, em que passou, espostejado, aviltado, vilipendiado, o cadáver de Felipe dos Santos, tinha de passar daí a poucos anos Tiradentes, seu continuador, possuído do mesmo sonho, escravo do mesmo ideal, disposto ao mesmo padecimento...



Os corsários
Vida errante e arriscada, pelas águas do mar...

Esses navios que partiam, sem destino certo, confiando no acaso, em busca de presas, não tinham lei, nem reconheciam nenhum poder na terra. O Corsário, dentro da sua embarcação veleira, era mais poderoso do que um rei dentro do seu reino. Aquele pequeno espaço, aquela embarcação, aquele bocado de tábuas e panos, eram um domínio, que, além do poder do ousado marinheiro que o comandava só temia o poder da Natureza, — senhora das tempestades que cavam no seio das águas a sepultura dos náufragos, e senhora dos furacões que, com um único sopro despedaçam, como cascas de noz, as mais arrogantes naus.

Levantar âncora, soltar panos, e partir!... Para onde? Para onde soprasse o vento! O resto, o acaso o faria. navegavam por dias longos e noites espessas, à espera de que a sorte os conduzisse ao encontro de alguma embarcação de comércio, que contivesse tesouro. Quando a avistavam, corriam sobre ela, a todo o pano. E começava, sobre as ondas desertas, a caçada fantástica. Quase sempre, as naus procuravam fugir... A sua tripulação não queria nunca aceitar o combate dos corsários, gente sem fé nem lei, que não duvidava arriscar pela fortuna a vida, porque a vida sem a riqueza lhe parecia um fardo intolerável. Mas, ligeiros e prontos, construídos propositalmente para poder sustentar essas carreiras vertiginosas, os navios de corso alcançavam facilmente as cobiçadas presas. Então, era forçoso aceitar a batalha. Os canhões, de um e outro bordo, vomitavam fumo e ferro. De repente, o navio corsário, arremessava-se, ágil e veloz, sobre o inimigo: caía sobre ele, como um milhafre sobre a vítima, arpoava-o, lançava sobre a sua amurada as pranchas de abordagem, e despejava dentro as ondas ávidas da sua dente destemida. Então, as machadinhas e as espadas revoluteavam no ar, sem repouso. Os vencidos eram sem piedade arrojados ao mar; ali mesmo, sobre as tábuas cobertas de sangue quente, fazia-se o inventário das riquezas conquistadas; e a nau saqueada era metida a pique, ou, abandonada à mercê das ondas, ficava, desarvorada e sem rumo, vagando na extensão do mar...

Toda a costa do Brasil era freqüentemente visitada por esses ladrões do Oceano.

E as grandes caravelas, que voltavam a Portugal, carregadas de ouro, açúcar e pau Brasil, mal viam aparecer no horizonte o vulto de um navio suspeito, aparelhavam-se para a fuga, e deitavam a correr sobre a água, batendo e alargando as grandes velas brancas — como aves espantadas com a aproximação de um perigo...

Vida errante e arriscada, pelas águas do mar... Dentro do seu navio, o Corsário era rei absoluto. Quando, de um porto qualquer, saía à procura da fortuna, bem sabia que se arriscava a nunca mais voltar, e ficar dormindo, eternamente, no fundo do Oceano, com a sua ambição e o seu desengano.

Que importava? Para essa gente, sem fé, nem lei, a vida sem a riqueza era um fardo insuportável.

Cavendish e Cook
Era domingo. Pela formosa manhã de repouso, saíra a pequena população da vila de Santos, a caminho da igreja. Nas casas, tinham apenas ficado as crianças e os inválidos.

Ia a missa em meio. A igreja era pequena, mas em torno dela abria-se um largo espaço murado, em que grande multidão cabia à vontade. de repente, quando todos, mudos e recolhidos, oravam, começou a ser ouvido um sussurro, em que havia risadas e imprecações, numa língua estranha, áspera e nova. Aumentava o sussurro em torno dos muros. Dentro, crescia a ansiedade. Quando, interrompida a celebração da missa, foi conhecida a causa do tumulto, um medo pânico se apoderou de todos. Desprevenido, sem armas, sem esperança de socorro, o povo de Santos estava sitiado, encurralado na igreja. E fora, os sitiantes, em número grande, praguejavam e riam.

Eram ingleses. Tinham desembarcado de três grandes navios, que percorriam o mar sob o comando dos dois corsários Cavendish e Cook. Tinham desembarcado e caminhado em silêncio, para surpreender sem defesa os habitantes. E, agora, vendo-os entregues ao desespero e ao susto, riam da sua aflição. Não se deram pressa em saquear a vila. Sabiam que toda a gente válida de Santos ali estava, impotente e privada de auxílio, à mercê da sua ferocidade. E queriam insultar a sua agonia.

Fizeram vir de bordo víveres e odres de vinho. E, enquanto dentro, a população, ajoelhada, orava, pedindo a Deus a salvação da vila, os corsários, entre vociferações, deram começo ao banquete.

Até a noite, durou a desregrada orgia. Canções avinhadas enchiam o ar. De quando em quando um rumor de disputa crescia ente os sitiantes, e ouvia-se de dentro o barulho da luta, — brados, pragas, gemidos, gargalhadas. Apagou-se no céu o último laivo de sangue do por do sol: e as primeiras estrelas surgiram sobre aquele acampamento de loucos, que bebiam sem cessar, numa gritaria infrene.

Pouco a pouco, porém, o tumulto diminuía. A embriaguez tomava conta dos sitiantes. Em breve, apenas um ou outro grito destacado se faziam ouvir. Os ingleses dormiam, ébrios e inconscientes.

Foi então que a população, saindo da igreja, arrecadou as riquezas e fugiu para os arredores da vila.

Na manhã seguinte, ainda viram, de muito longe, uma grossa nuvem de fumaça cobrir a povoação abandonada. Cook e Cavendish, despertando, e conhecendo o mal que lhes tinha feito a orgia da véspera, mandaram atear o incêndio em Santos, e fizeram-se ao largo, depois de executada essa covarde vingança.

Foram dali atacar a vila do Espírito Santo, mas, repelidos corajosamente, afastaram-se da costa brasileira, e, dali a pouco tempo naufragaram, perecendo com quase a tripulação dos três navios.

Os grandes rios
Do mais profundo seio dos sertões brasileiros, nascem águas vivas, que engrossam prodigiosamente à medida que correm, e, antes de chegar à costa, já têm o volume e a extensão de grandes oceanos. São os imensos rios do Norte, — massas formidáveis de água, das quais as mais importantes vêm desaguar no Atlântico pelas duas desmedidas bocas do Amazonas e do Tocantins.

Em 1749, cem homens destemidos decidiram confiar a vida aos azares de uma exploração arrojadíssima, subindo as águas bravas do Amazonas, em busca de um caminho para os ricos sertões de Mato-Grosso.

deixaram a colossal embocadura do rio, e foram, por um Dédalo complicadíssimo de ilhotas verdes, separadas por um sem número de canais entrecruzados, evitando pantanais, orientando-se dificilmente no labirinto, e corajosamente penetrando no seio daquelas regiões quase desconhecidas. Em torno deles, um clima constantemente úmido e quente desenvolvia uma vegetação incomparável. Estavam na mais fecunda região da terra, naquelas maravilhosas selvas tropicais, que não conhecem diferença entre estio e inverno, porque em todo o correr do ano, se abrem exuberantemente numa extraordinária variedade de flores e frutos.

Quando chegaram ao ponto em que as águas do rio Madeira entram no Amazonas, cresceram os perigos. Havia, em primeiro lugar, os índios. Eram da tribo dos Muras, ousados e ferocíssimos, vivendo nomadamente sobre as águas. Depois havia a insalubridade da terra. O Madeira, na sua embocadura, atravessa uma zona chata e baixa, que, por ocasião das grandes chuvas, fica mudada num imenso pântano, povoado de miasmas. Outro flagelo, ainda mais terrível, esperava os atrevidos viajantes. Eram as nuvens de mosquitos, zumbindo e voando, de noite e de dia. Mas, era preciso seguir...

Quando a expedição chegou à zona das grandes quedas de água, quase desesperou. As canoas, frágeis, rudemente batidas pelas vagas agitadíssimas, viravam, sossobravam, rachavam-se. Só para transpor uma dessas cachoeiras, cuja força é incalculável, gastou o bando quatro dias e quatro noites. Ao cabo de esforços sobre-humanos e de tormentos incríveis, chegaram os navegantes às águas turvas do Mamoré e do Bení. Outras cachoeiras apareciam, despenhadas de grande altura, rugindo co fúria na solidão. Uma flora fantástica revestia as margens. Caçadores, que se embrenharam na mata, à procura de provisões, não voltaram; e, à noite, de ambos os lados do rio, rompiam gritos roucos de feras, que farejavam carne humana. Quando chegaram ao Guaporé, puderam os expedicionários repousar um pouco, nas missões espanholas de Santa Rosa e São Miguel. Mas, daí para diante, as provações aumentaram.

As águas do Guaporé cresciam, alagavam as margens. Os exploradores não podiam desembarcar. Os peixes não apareciam. A água bebida causava febres mortais. E quinze índios, que acompanhavam a expedição como guias, fugiram, levando uma das melhores embarcações.

Quando chegaram ao rio Sarare, a situação tornou-se intolerável. Houve fome. As águas continuavam a crescer. Foi preciso expedir as mais ligeiras canoas aos estabelecimentos das missões espanholas.

Somente ao fim de dez dias, durante os quais muitos homens morreram, chegaram as provisões de milho, favas e arroz. Restaurada de forças, pode a expedição subir o Sarare, rio de duzentas braças de largura, de navegação difícil, cheio de ilhas, de águas agitadas em que bóiam constantemente imensos troncos de árvores, arrancados das margens pelas devastações das cheias.

Viajavam os heróicos exploradores havia nove meses, quando chegaram a Mato-Grosso. Muito deles faltavam: tinham ficado em caminho, arrebatados pelas cachoeiras, ou assassinados pelos índios, ou abatidos pelas febres, ou sepultados nos fundos atoleiros impraticáveis.

Mas os que sobreviveram puderam regressar ao Pará, fazendo facilmente em quarenta e quatro dias a mesma viagem que, com tanto sacrifício, haviam feito em mais de duzentos.

Estava aberta a comunicação comercial entre o Pará e Mato-Grosso. E estava devassado o mistério dos grandes rios.

A emancipação dos índios
Entre os brasileiros que começavam a aspirar à liberdade e os portugueses que não abrandavam o seu opressivo sistema de governo, os índios continuavam a sofrer. Já não eram apenas as tribos selvagens as que pediam liberdade: aqueles mesmos, que, reunidos em aldeias, desarmados, quase civilizados pela bondade e paciência dos missionários, se entregavam em paz aos trabalhos tranqüilos da lavoura, —eram obrigados a deixar a terra e a obedecer, como soldados, aos chefes portugueses. Violentados e oprimidos, os selvagens, para retomar os antigos privilégios, recorriam a revoltas freqüentes.

Não havia tranqüilidade possível. Quando uma povoação portuguesa, descuidada e feliz, lidava no seu comércio ou nos seus trabalhos de engenho ou mineração, uma grita súbita e desvairada enchia os ares, milhares de flechas sibilavam, terríveis e implacáveis, as hordas bárbaras. A vingança era sempre cruel. Organizavam-se expedições, que batiam os arredores e caçavam os culpados. Subjugada a tribo, a maldade dos homens civilizados voltava a magoar o gentio, o gentio voltava a saquear as povoações, e essa guerra sem tréguas prosseguia, sem remédio, e sem esperança de termo.

Em 1757, Francisco Xavier de Mendonça, capitão general do Pará e do Maranhão, recebeu a ordem de fazer executar rigorosamente os decretos que proibiam o mercado de índios. Foi um dos atos melhores do governo do marquês de Pombal. As mais importantes aldeias do gentio foram declaradas vilas, e os pobres naturais do país primitivo, incorporados aos colonos, sob o regime da mesma lei, foram pela primeira vez considerados homens.

A Inconfidência
Grande foi a repercussão que tiveram os hinos entoados pelo povo americano, quando descansou as armas com que valentemente pleiteara a sua autonomia, constituindo-se em nação independente, e hasteando, com orgulho, o pavilhão estrelado. Moços brasileiros, que cursavam a universidade de Coimbra, discutiram a possibilidade de fazer-se a independência do Brasil; e, em Montpellier, vários patrícios nossos, estudantes de medicina, tiveram o mesmo pensamento, indo um deles, José Joaquim da Maia, expor as suas idéias ao grande Tomaz Jefferson, então ministro plenipotenciário dos Estados Unidos em Paris.

Maia faleceu quando pensava em voltar à pátria; veio, porém, Domingo Vidal Barbosa, chegando a Minas quando essa capitania sofria com o governo de Luiza da Cunha de Menezes, tão duramente tratado nas Cartas Chilenas de Alvarenga Peixoto. pouco tempo depois, chegava à capitania martirizada José Álvares Maciel, filho do capitão mor de Vila-Rica, formado em filosofia.

A chegada desses dois brasileiros ilustres trouxe novo alento aos que em Minas sonhavam com a liberdade, e logo se pensou em um levante, caso o governador de então, o capitão general visconde de Barbacena, intentasse executar as ordens que trazia da corte, para fazer cobrar, por meio de uma derrama geral, grandes impostos devidos ao tributo do ouro.

Entraram no conluio, além dos mencionados, os poetas Cláudio Manoel da Costa e Inácio José de Alvarenga Peixoto, sendo também apontado o desembargador Tomaz Antônio Gonzaga; aparecendo mais tarde, para de futuro avultar como principal figura, o alferes de cavalaria Joaquim José da Silva Xavier, por antonomásia o Tiradentes, por ter exercido a profissão de dentista. Depois de abandonar essa profissão, lançou-se a mascatear; sendo, porém, mal sucedido, assentou praça, conseguindo ser promovido a alferes; pensou em fazer-se mineiro, mas a sorte não lhe foi favorável e deixou-se estar no seu posto.

Reuniam-se os inconfidentes na Varginha, onde não só concertavam os planos do levante, como discutiam os emblemas que deviam servir de padrão à pátria independente.

O que mais a peito tomou a idéia foi o Tiradentes; alguns até, pouco depois, pareciam arrependidos de se haverem deixado arrebatar pela utopia, e todos trataram de abandonar Vila-Rica. O Tiradentes, porém, sempre dominado pela idéia santa, partiu para o Rio de Janeiro, conseguindo, para os gastos da viagem, um empréstimo. Cresceu o número dos inconfidentes, e a causa ia ganahndo adeptos, quando Joaquim Silvério dos reis, coronel de um regimento, deu a primeira denúncia ao governador, buscando assim conquistar-lhe a simpatia que de muito lhe havia de servir; outros delatores apareceram: Basílio de Brito Malheiro e o mestre de campo Inácio Correa Pamplona.

Astuciosamente, o governador fez expedir a todas as câmaras da província uma circular sustando o lançamento da derrama. Com isso muito desconcertados ficaram os conjurados, não porque suspeitassem da manha, mas porque perdiam o ensejo do levante. Andavam as coisas assim na capitania, e o Tiradentes no rio era seguido e vigiado, até que o vice-rei mandou aviso ao visconde de Barbacena de que se escapara do rio, sem passaporte e com armas, o alferes Silva Xavier — notícia essa falsa, porque, dias depois, foi o alferes encontrado no sótão de uma casa da rua dos Latoeiros.

Foi então que o capitão mor mandou que se efetuassem as prisões, sem alvoroto, para não causar escândalo. E foram presos Gonzaga, Alvarenga e o vigário Toledo; depois Cláudio Manuel da Costa e outros. Cláudio Manuel da Costa, já com sessenta anos, ressentiu-se tanto do interrogatório, que se suicidou na prisão em que o deixaram.

A 18 de Abril de 1792 foi proferido o acórdão condenando à forca, com infâmia, o Tiradentes, Alvarenga, Freire de Andrade, o Dr. Maciel, Abreu Vieira, Vaz de Toledo, Vidal Barbosa, os dois Rezendes, pai e filho, Amaral Gurgel, Oliveira Lopes. As penas foram, porém, comutadas em degredo, devendo apenas padecer a morte o Tiradentes, por ter sido, pelos juízes, considerado o cabeça.

E foi assim frustrada, com prejuízo de uma vida e sacrifício de tantas outras, a primeira tentativa de independência da pátria.



O martírio de Tiradentes
Sentenciado à morte, o alferes Joaquim José da Silva Xavier subiu ao patíbulo na manhã de 21 de Abril de 1792. Toda a tropa em armas, os infantes e os cavalarianos, pareciam estar prestando homenagem ao que ia morrer; as cartucheiras estavam abarrotadas para que não se atrevesse alguém a defender o réu de tão nefando crime.

O povo, curioso, deixava as casas, acudindo precipitadamente à praça da Lampadosa, onde devia ter lugar a execução; havia gente às janelas, nas árvores, pelos telhados, e, posto que fosse de dor a cerimônia, as fisionomias apareciam satisfeitas: era um interessante e raro espetáculo; ninguém queria perdê-lo: daí, a azáfama com que corriam ao sítio onde fora levantado o cadafalso.


Às onze e meia da manhã, que um formoso sol alumiava, com aparatoso acompanhamento apareceu na praça o Tiradentes. Vinha sereno e altivo: a morte não lhe arrefecera o ânimo nem lhe desmaiara a cor do rosto amorenado.

Ao vê -lo, o povo não se mostrou compadecido: maior era a curiosidade do que a misericórdia. Um sacerdote ouviu-o, dando-lhe a beijar o crucifixo; e quando o carrasco, revestindo-o da alva, lhe pediu perdão da morte, o mártir, meigo e sereno, disse: “—Oh! Meu amigo! Deixe-me beijar-lhe as mãos e os pés: também o nosso Redentor morreu por nós.” E sem mais palavras, com os olhos pregados no crucifixo, entregou-o ao algoz.

Para fiel cumprimento da sentença, foi espostejado. A sua cabeça, fincada num poste, esteve exposta na praça principal de Vila Rica (Ouro Preto), justamente no sítio onde foi levantada a estátua do heróis, a expensas do governo de Minas, depois da proclamação da República; os seus membros foram espalhados, e ficaram testemunhos do poder e da justiça d’El-Rei.

Mas as gotas de sangue do heróis não caíram em terreno estéril, porque a árvore de sacrifício se fez árvores de redenção, e a República é o fruto da semente de martírio lançada à terra nessa manhã de Abril.



Napoleão
O gênio de Napoleão Bonaparte enchia o mundo. Aquele nome obscuro a princípio como o do mais obscuro soldado, começara a crescer sobre os campos de batalha, ao estridor das armas. Filho da grande crise histórica, que foi a Revolução Francesa, Napoleão teve, num dado momento, fechada nas mãos, a sorte da Terra. Ferveu dentro do seu cérebro o sonho mais largo e mais atrevido que jamais ocupou um cérebro humano, Percorria a Europa toda, de batalha em batalha; e onde os seus exércitos passavam, sobre o chão em que o sangue quente fumegava, ficava os eu nome vivendo, cercado de uma lenda maravilhosa. Tinha uma fé inabalável na sua boa estrela. E era essa fé que o levava, de aventura em aventura, e era ela, talvez, que assegurava o seu triunfo em todos os transes de uma carreira prodigiosa.

Uma só nação resistia ao orgulhoso francês. Era a Inglaterra, isolada do resto do mundo pelo mar que as suas esquadras cobriam. Era seu esse mar, porque os seus navios o cortavam em todas as direções, indo, de porto em porto, propagar o comércio e assegurar a fortuna da ilha soberana das águas. Para vencê-la, era necessário que todos os portos se lhe fechassem, e que, isolada no seu pequeno território e na imensa extensão do Oceano, ela ficasse privada do apoio do resto da Europa, — grande potência fechada com a sua grandeza e a sua força dentro de um círculo de hostilidade e de ódio. Foi para realizar esse plano atrevidíssimo, que Napoleão assinou em Berlim o famoso tratado do bloqueio continental: por ele, seriam condenados os navios ingleses a vagar de mar em mar, agora inúteis, agora inofensivos por falta de comunicação com o continente, em que o gênio do Imperador dominaria sozinho, sem achar quem opusesse um dique ao transbordamento triunfal da sua ambição.

Somente Portugal faltou ao contrato, obrigado a isso pela Inglaterra, que bloqueou o Tejo, enquanto o exército francês já marchava sobre Lisboa. Assim, emparedado entre duas forças inimigas, cujo choque o esmagaria, o governo português cedeu. D. João VI, que ocupava a regência, em nome da rainha D. Maria I, louca, resignou-se a sair de Portugal, transferindo a sua corte para o Brasil.

Em manifesto de guerra à França, D. João VI declarou que “a Corte levantaria a sua voz no seio do novo império que ia criar.”

E, chegando à Baía, o príncipe assinou o decreto de 28 de Janeiro de 1808, que declarava os portos do Brasil abertos ao comércio de todas as nações amigas.

Até então, fora o Brasil uma espécie de casa-forte de Portugal, trancada pelo dono a sete chaves, cautelosamente vigiada e defendida da aproximação de todo o resto da comunhão humana. Portugal estabelecera, em torno do seu tesouro, o sítio de uma vigilância aturada e de um egoísmo sem termo. A terra não guardava, dentro do seu seio robusto, as grandes riquezas que a natureza aí acumulara: mas fazia Portugal o que a terra não fizera. O decreto de 28 de janeiro levantava esse bloqueio egoísta. O Brasil abria-se à navegação de todo o mundo. Daí por diante, ia a nossa pátria começar a ser o que é hoje, uma espécie de celeiro prodigioso em que o mundo se vem abastecer, dando-lhe a vida, a animação, o progresso, riquezas de valor inestimável, em troca das riquezas que dele recebe.

Era o primeiro passo para a liberdade. Os outros tinham de vir daí a pouco, precipitados, vertiginosos, largos. A futura Pátria Brasileira, aberta a todas as comunicações, entrava para a comunicação social. Quebrara-se o encanto que mantinha, dentro de uma penumbra de mistério e de segredo, a região mais rica do globo. O trabalho humano vinha, enfim, em larga escala, gozar da sua incomparável opulência de recursos. E, deixando de ser monopólio de uma nação, o Brasil ficava sendo propriedade de todo o gênero humano, sem distinção de raça.

Assinado o decreto, D. João VI deixou a Baía, e veio entrar a barra do Rio de janeiro no dia 7 de Março.


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