Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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D. João VI
A chegada de D. João VI ao Brasil assinalou para o imenso país o início de uma era de extraordinária prosperidade.

nesse tempo, a cidade do Rio de Janeiro, onde o príncipe-regente chegou a 7 de Março de 1808, tinha uma grande importância e uma notável extensão: compreendia quarenta e seis ruas, dez travessas ou becos, e dezenove praças. Com a chegada da Corte, a sua animação e o seu comércio aumentaram logo.

É longa a lisa dos melhoramentos que o príncipe-regente decretou e realizou: só no ano de 1808, criaram-se a Suprema Corte Militar, os Arquivos do Exército, o Tribunal de Justiça, a Academia de Marinha, a Fábrica de Pólvora, o Tribunal do Comércio, o Banco do Brasil, a Academia de Medicina e Cirurgia, — e a Impressão Régia, da qual, em 10 de Setembro, saiu o primeiro número do primeiro jornal que aqui houve, — a Gazeta do Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, D. João fundou mais três Escolas Médicas, no Rio, outra na Bahia, outra no Maranhão; criou no Rio a Academia de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico; e espalhou por todo o país os Tribunais de Justiça.

Todos esses benefícios, porém, somente hoje podem ser reconhecidos e agradecidos. O povo do Rio de Janeiro, naquele tempo, apenas sentia os incômodos e vexames a que foi submetido.

Com o príncipe-regente, viera do Reino uma numerosa comitiva de frades, freiras, cantores, fidalgos, validos. Era um séqüito de quinze mil homens, e, na sua maior parte, composto de gente que vivia à custa do Paço.

Toda essa gente queria ser alojada e bem tratada. fazia ostentação de um luxo extravagante e pretensioso. A cidade ficou cheia de casaquinhas de veludo, de camisas de rendas, de espadins de gala, de perucas, de rabichos. Esses vadios, que pintavam os beiços com carmim e polvilhavam o cabelo, e cuja ocupação única era jogar, beber e comer, tinham uma arrogância que ofendia a gente simples, laboriosa e afável da cidade. Para dar casa a essa turba-multa de ociosos, decretou-se o despejo forçado de várias habitações. Além disso, era preciso dar dinheiro a esses peralvilhos, que, não possuindo um cruzado de seu, gastavam como se fossem milionários, e só saíam à rua em seges suntuosas, e precedidos de numerosa criadagem, levando lanternas e archotes. Para isso, criaram-se empregos novos, e tiraram-se a pessoas habilitadas e honestas os antigos, que foram dados a homens sem preparo e sem honestidade.

O povo murmurava. Não só o povo do Rio de Janeiro, como o povo de todo o Brasil. As idéias liberais continuavam a desenvolver-se. O Brasil estava cansado de ser possessão de quem, longe de lhe dar progresso, apenas dele se servira até então como de uma mina inesgotável, e “só o não perdera, durante as guerras da Holanda, porque ele, Brasil, soubera defender-se”.

A semente, que Tiradentes lançara ao solo, não fora perdida. O Brasil possuía já muita gente ilustrada, esclarecida, criada durante a grande agitação da Revolução Francesa, tendo sido muitos homens daquele tempo educados na Europa, perto dos centros em que mais forte lavrara o incêndio revolucionário.

D. João VI viveu no Brasil treze anos. Muito lhe ficou devendo a colônia, que já se podia considerar um império, pela sua importância e riqueza, e também pela quase autonomia de que gozava. Mas todo o povo ansiava já por uma independência completa. Os dias de dependência estavam contados.

As explorações científicas
No mesmo ano em que rebentou em Pernambuco a revolução republicana, casou o príncipe D. Pedro, herdeiro presuntivo da coroa de Portugal, com a arquiduquesa Leopoldina, filha de Francisco I, da Áustria.

Francisco I aproveitou as negociações diplomáticas que precederam esse casamento, para enviar ao Brasil uma expedição científica, encarregada de estudar a flora, a fauna, os minerais deste país, — tão rico, tão interessante, tão capaz, com certeza, de fornecer com a sua assombrosa natureza, contingentes consideráveis ao estudo das ciências naturais, mas tão desconhecido, então, sob o ponto de vista científico, como na era do seu descobrimento.

A organização da expedição foi confiada a Van Schneibers, diretor do museu artístico; o professor Mickau, da cidade de Praga, foi encarregado de estudar a Botânica e a Entomologia do Brasil; M. Pohl teve a seu cargo a Mineralogia; Matterer, a Zoologia; além desses, vieram com Van Schneibers, o pintor paisagista Ender, o pintor botanista Buckberger, e o professor de horticultura Schott. O rei da Baviera quis também que dois sábios do seu país acompanhassem a comissão austríaca, e para este fim escolheu duas notabilidades científicas: os professores Von Spix e Von Martius, o primeiro zoólogo e o segundo botânico, membros ambos da Academia de Munich.

Essa expedição, que, a bordo de duas fragatas, conduzindo grande número de trabalhadores e mineiros, saiu de Trieste no dia 10 de Abril de 1817, — chegou ao Rio de Janeiro em 14 de Julho do mesmo ano. Depois de cinco meses de demora na capital, ocupados nos preparativos da exploração, os sábios estrangeiros iniciaram em Dezembro os seus trabalhos.

Até então, o interior do Brasil fora apenas percorrido pelos exploradores, que não tinham os olhos educados para a contemplação da natureza, nem a alma cheia do amor da ciência. As explorações só tinham sido feitas até então, ou pelos que procuravam cativar índios, ou pelos que iam à caça dos diamantes e do ouro, ou pelos que, descendo ou subindo os grandes rios, buscavam estabelecer vias rápidas de comunicação entre o litoral e o sertão, afim de favorecer o comércio. Sempre o interesse e a ambição tinham movido esses bandos intrépidos, que se arrojavam a viagens nunca dantes tentadas. Outra sorte de exploradores tinha também penetrado o mistério das matas fechadas, que, a cada passo do viajante, opunham uma ameaça e uma cilada, um perigo e um desastre: eram os missionários, que, de crucifixo em punho, iam de acampamento em acampamento índio, expondo-se ao martírio.

Agora, porém, o que levava os sábios, — missionários da ciência, — a essas viagens arriscadas, já não era a ambição, já não era a fé religiosa: era a ânsia de saber, a ânsia de mergulhar os olhos ávidos no seio dessa natureza fecunda, para lhe apreender todos os segredos, para lhe devassar todos os mistérios.

À expedição de 1817 seguiram-se outras. Os serviços que prestaram à Ciência são inenarráveis. Com a exploração científica do território brasileiro, fizeram-se descobertas surpreendentes: a Botânica, a Zoologia, a Mineralogia, a Arqueologia, a Etnografia, a Antropologia receberam, desse manancial abundantíssimo, fartas torrentes de subsídios.

E nem tudo está feito. Porque a Natureza, zombando das pesquisas do homem, guarda sempre, impenetrável e atraente, o seu maior mistério. Ainda não está, por exemplo, bem averiguada a origem do homem americano. E, como esse, muitos outros problemas científicos esperam ainda uma solução.

Mas, o homem, no seu nobre orgulho, e na sua infatigável ambição, não repousa um momento. E os séculos futuros dirão se a humanidade fez bem ou mal em se arremessar, pertinaz e corajosa, contra a muralha de sombra e treva, por trás da qual se esconde intangível e invisível o segredo da vida...

A Constituição
Na Europa, já tinha abatido e aniquilado o poder absoluto, que se fundava sobre a velha e absurda teoria do direito divino, segundo a qual um rei era o representante direto de Deus na terra, e, como ta, sagrado, sendo a sua pessoa inviolável e infalível, A Revolução Francesa varrera esses preconceitos e anulara essas regalias, incompatíveis com a dignidade humana.

Em 1820, o povo português, longamente vexado por um regime que só lhe tinha dado desastres e vergonhas; acabrunhado pelo domínio da Inglaterra que, com o pretexto de proteger Portugal, o explorava e cobria de opróbrio: e seguindo o exemplo dos outros povos da Europa, — agitou-se, revoltou-se, e exigiu que lhe dessem uma constituição, que, cerceando os privilégios da coroa, conferisse aos cidadãos mais liberdade, mais direitos, e mais altivez. Foi apresentado um projeto de Constituição, em Lisboa, em 1820.

A notícia da revolução só chegou ao Brasil em fins desse mesmo ano. Logo, a guarnição do Pará e a da Bahia aderiram ao movimentos constitucional. Mas, no Rio de Janeiro, D. João VI contemporizava. Não era fácil a um rei absoluto abrir mão das prerrogativas da sua família. Os reis, julgando-se um prolongamento de Deus na terra, não queriam crer que leis humanas os pudessem governar. D. João julgou prudente , antes que fosse promulgada a constituição em Lisboa, mandar seu filho D. Pedro à antiga sede da corte, encarregado de acalmar os ânimos.

Então, na manhã de 26 de Fevereiro, todas as tropas do Rio de Janeiro se apresentaram armadas no largo do Rocio. Nas ruas próximas, o povo tumultuava, pedindo em altos brados que fosse desde já aceita e jurada sem restrições pelo rei a constituição que ia ser promulgada em Lisboa. O rei, tímido sempre, sempre hesitante, mandou o príncipe D. Pedro informar-se do que havia. D. Pedro apareceu no largo, a cavalo, recebido com reservas pelos batalhões sediciosos. O movimento era sério. Enquanto isto se passava na praça pública, a Câmara da Cidade se reunia no teatro situado no Rocio, e, em nome do povo e da tropa, de não demorar a execução de providências tão vivamente reclamadas pela opinião pública.

D. Pedro não hesitou. “Em nome de El-Rei seu Pai, jurou solenemente respeitar e fazer respeitar a Constituição decretada pelas Cortes de Portugal.”

Muito tempo ainda tinha de correr, antes de ser praticamente e lealmente cumprido esse juramento dos senhores do Brasil... Mas o primeiro passo estava dado.

A constituição de 1820 era uma verdadeira declaração dos direitos do homem. Estabelecia a liberdade política, isto é: a liberdade de praticar tudo aquilo que não fosse por lei proibido; a igualdade de todos os cidadãos perante a lei; a abolição das classes privilegiadas, o direito de petição, a inviolabilidade do direito de propriedade e do direito de segurança individual; a abolição das penas de confisco, de infâmia, de tortura, de açoite, de baraço e pregão, e de marca da ferro quente; e dava aos cidadãos, ainda, o direito de representação contra decisões iníquas e arbitrárias.

Pouco importava que, daí a pouco, tivesse D. João VI de faltar à sua palavra empenhada. A revolução estava feita; o Brasil inteiro, ansioso pela liberdade, farto do cativeiro e da opressão, não podia mais parar na caminhada gloriosa que encetara.

E bem o via D. João VI! Porque, quando obrigado a partir para Portugal o rei deixou D. Pedro como regente e seu lugar-tenente no Brasil, disse-lhe, abordo, abraçando: “Pedro! O Brasil brevemente se há-de separar de Portugal... se assim for, põe a coroa sobre a tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela!”

1817
Morrera D. Maria I.E, no Rio de Janeiro, ia ser D. João VI coroado rei de Portugal e do Brasil, quando rebentou em Pernambuco uma revolução.

Havia ódio entre oficiais brasileiros e portugueses. Depois, a idéia da independência avultava e dominava todas as almas. A fagulha já era mais do que labareda: era incêndio declarado e terrível. A 6 de Março de 1817, exacerbaram-se as animosidades, por causa da ameaça de prisão que pesava sobre alguns brasileiros, suspeitos de republicanismo, Um negociante brasileiro, Domingos José Martins, trouxera da Europa, onde fora educado, o amor dos princípios liberais. Toda a gente moça de Pernambuco o ouvia e aplaudia, quando ele, em comícios ou banquetes, falava desse novo ideal de governo livre, — o povo, livre de senhores que só podiam invocar em favor do seu direito um mero acidente de nascimento, e governando-se a si mesmo, por meio de eleitos seus, saídos do seu seio.

Martins fora preso.

Rompeu a revolta. Trocaram-se tiros nas ruas. O povo uniu-se à tropa. Escancararam-se as portas das prisões: os presos, assim postos em liberdade, vieram engrossar as fileiras dos que no palácio sitiavam o governador Montenegro. Triunfante, a revolta proclamou a República como forma de governo, adotou uma bandeira de cor branca, símbolo da pás, mandou comprar armas na América do Norte, aumentou o soldo das tropas, e preparou-se para a luta.

Era cedo, porém. O solo, de onde tinha de rebentar a árvore da liberdade, ainda precisava, como adubo, de muito sangue e de muita lágrima. Nenhuma grande conquista da humanidade se fez senão com grandes sofrimentos acumulados. Uma idéia só vence quando com seus cadáveres lhe dão apoio aqueles que acham melhor morrer por um ideal nobre do que viver na vileza e na escravidão. No Ceará, o padre Alencar, que agitava o povo, foi preso. Abreu Lima (padre Roma), emissário do governo republicano do Recife, foi fuzilado. O governo de D. João VI mandou bloquear os revolucionários. A revolução, não podendo resistir, teve de ceder. Teotônio, que comandava os republicanos, fugiu; suicidou-se o padre João Ribeiro; e começou então a pesar sobre Pernambuco a ferocidade da vingança real. Encheram-se as prisões; armaram-se as forcas. Começaram a funcionar os destacamentos dos fuziladores. Um tribunal militar, julgando sumariamente os culpados, ensangüentou Pernambuco. Mas o governo quis dar aos morticínios em massa uma aparência de justiça, e instalou uma alçada civil,que, mais feroz ainda do que a militar, mais animada de ódio e vingança, tornou-se um “tribunal de sangue”, uma comissão permanente de feras, insaciáveis, cruéis, implacáveis.

Quando se julgou que já tinha corrido bastante sangue, suspendeu-se o castigo. E Pernambuco estava coberto de luto, quando a 6 de Fevereiro de 1818, D. João VI se fez coroar.

No largo do Paço, construí-se uma larga varanda. Aí ajoelhou-se D. João. Fora, estava formada toda a tropa. Assistia o povo ao espetáculo, — calado e coagido. O rei prestou o seu juramento. O alferes-mor agitou sobre a sua cabeça a bandeira de Portugal, e três vezes clamou: “Real, real, real! Pelo muito alto e poderoso senhor nosso, D. João VI, rei de Portugal!”

E D. João VI, inconsciente, não sentia o mínimo remorso porque já nem se lembrava dos que tinham sido assassinados por sua ordem...



O “fico”!
Época terrível foi essa, em que, o príncipe D. Pedro, orgulhoso, cavalheiro, ousado, voluntarioso, ficou ocupando a regência do Brasil, em face de um povo moço e atrevido também, cheio de aspirações, de ideais ainda mal definidos, e cheio de uma consciência profunda do que era, e dos grandes destinos que lhe estavam reservados. Suspendera pagamentos o Banco do Brasil; o tesouro da nação, esvaziado pelos desperdícios da corte de D. João VI, estava paupérrimo.

Portugal queria de novo reduzir o Brasil ao papel de colônia submissa. D. João VI não tinha opinião. A política portuguesa era conduzida pela rainha D. Carlota Joaquina e pelo infante D. Miguel, irmão mais moço de D. Pedro. “Mão e filho, como idéia e braço, capitaneavam o partido absolutista, que à força queria libertar o soberano, e restaurar, com um absolutismo radical, o Portugal antigo e entusiasta da religião e da monarquia.” *

Já se tinham realizado as eleições para os lugares de deputados brasileiros às Cortes de Lisboa, e tinham sido recebidas de Portugal as bases da constituição que devia ser jurada no Brasil. Mas D. Pedro contemporizava agora, como seu pai tinha contemporizado em 1820. E, como então, as tropas se reuniram de novo no largo do Rocio, coagindo-o a demitir o ministério e a jurar a Constituição.

Foi nessa época de agitação, que se receberam de Lisboa três decretos que vieram exacerbar a exaltação patriótica do Brasil. O primeiro declarava independentes do governo do Rio de Janeiro os governos provinciais que ficavam dependendo exclusivamente dos tribunais portugueses. O segundo abolia os tribunais que se haviam estabelecido no Rio de Janeiro. E o terceiro era este:

“ A assembléia geral, extraordinária e constituinte das cortes da nação portuguesa... decreta:

1.º O Príncipe Real voltará quanto antes para Portugal;

2.º Assim que chegar, Sua Alteza partirá para visitar as Cortes e Reinos de Espanha, França e Inglaterra, acompanhada de pessoas escolhidas por Sua Alteza, e que se distingam pelo seu saber, virtudes, e dedicação ao sistema constitucional.”

Quando chegaram esses decretos, os patriotas começaram a conspirar, considerando que eles eram uma afronta atirada à face do Brasil.

D. Pedro hesitava. E já estava quase disposto a obedecer à ordem das Cortes, fazendo os seus preparativos de viagem, quando o povo assinou uma representação pedindo-lhe que ficasse. O senado da Câmara dirigiu-se em massa ao Paço, e aí entregou ao príncipe a mensagem, que tinha mais de oito mil assinaturas.

Durante uma hora, ansioso, o povo esperou à porta do Paço a decisão de D. Pedro. De repente, apareceu a uma das janelas José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, que em vos alta repetiu ao povo a resposta do príncipe: “como é para o bem de todos, e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico.”

Estas palavras foram cobertas por aclamações estrepitosas. Era o dia 9 de janeiro de 1822. Estava aberta a campanha. Anuindo ao desejo do povo, fazendo um pacto com ele, e desobedecendo às ordens das Cortes, D. Pedro tinha iniciado a luta com a metrópole.

Sete de setembro
Todo o Brasil delirava. Começava a ver realizado o seu grande sonho, e fazia de D. Pedro o seu ídolo.

A guarnição portuguesa, que estacionava no Rio de Janeiro, quis ainda tentar uma revolta contra a decisão do príncipe; mas foi logo submetida e embarcada para Lisboa. Por todo o Brasil manifestavam-se irreprimíveis e violentas a cólera e a má vontade às guarnições que se queriam conservar fiéis às Cortes de Portugal, Somente na Bahia forma vencidos os patriotas: aí, o brigadeiro Luiz Inácio Madeira de Melo, investido do comando das tropas por uma carta régia, dispunha de grandes forças.

O príncipe D. Pedro chamou para a gerência dos negócios públicos uma turma de patriotas esclarecidos, entre os quais avultava o grande cidadão José Bonifácio de Andrada e Silva.

Convocou-se um conselho de procuradores-gerais das províncias; ordenou-se que lei nenhuma promulgada pelas Cortes de Lisboa fosse no Brasil executada sem ter o cumpra-se do príncipe regente: como o governo de Portugal pedisse aos governo estrangeiros que impedissem a remessa de armas para o Brasil, o povo fluminense pediu ao príncipe que aceitasse o título de defensor perpétuo do Brasil; contraiu-se um empréstimo de quatrocentos contos de réis; declararam-se inimigas todas as tropas que desembarcassem no país sem licença prévia; o general Labatut seguiu para a Bahia, afim de iniciar a guerra da independência; e, em manifesto dirigido às nações amigas, o jovem país declarou que os seus portos continuavam abertos ao comércio do mundo.

D. Pedro desenvolvia uma atividade febril; foi a Minas e a S. Paulo acalmar os motins que aí rebentavam. E em viagem sentia, a cada passo, a palpitação da alma do povo, ansiando pela liberdade. Aclamavam-nos as populações. O Brasil já se considerava independente de direito. E o príncipe compreendia que retardar a proclamação da independência seria um erro.

Voltava de S. Paulo, quando, perto do Ipiranga, soube que, em Lisboa, o despeito da Cortes, vendo-se desobedecidas e maltratadas por ele, vingava-se, desrespeitando e ameaçando os deputados brasileiros. Não hesitou. E aceitou abertamente a luta, levantando o brado de Independência ou Morte!

Daí a cinco dias, tendo vencido em viagem acelerada, cem léguas, chegou D. Pedro ao Rio de Janeiro; na noite de 15 de Setembro, apresentou-se no teatro, trazendo no braço uma fita com a inscrição independência ou morte; e, a 12 de Outubro, dia de seu aniversário natalício, foi coroado.

Estava fundado o Império do Brasil.



D. Pedro I
Pouco tempo depois da coroação, estava o Império aclamado e reconhecido em todo o Brasil. Lord Cochrane, chamado do Chile, e o general Labatut tinham obrigado os últimos rebeldes, no Norte, a acatar a soberana vontade do povo. Parecia que uma era tranqüila ia começar para a nova nação. Livre, sem peias, moço e forte, possuidor de recursos naturais que não tinham rivais em toda a terra, porque não inauguraria o Brasil uma existência de paz e de trabalho? Mas D. Pedro I era ambicioso e violento. Quem muda à árvore já frondosa a forma dos seus galhos, quem lhe altera o colorido das flores, quem lhe modifica os frutos? Mais difícil seria, na idade madura, mudar as tendências de espírito de um homem, e as suas inclinações e os seus gostos...

D. Pedro I fora educado nos princípios do absolutismo.

Filho e neto de reis absolutos, tendo na alma a convicção orgulhosa da sua origem divina, da sua regalia de “reinante por escolha e graça de deus”, os seus sentimentos democráticos era só aparência.

Amava o povo que o fizera imperador, julgava ser sincero quando se intitulava o mais constitucional dos príncipes, — mas conservava no fundo do espírito o pesado lastro dos preconceitos e das vaidades da sua casta.

A Constituição, que jurara cumprir e defender, era uma cadeia que lhe manietava a ambição, que lhe sufocava o gênio prepotente, que lhe impedia os vôos do caráter despótico.

Era generoso, bravo, capaz de dedicações, franco, amigo dos fracos, inimigo dos opressores. Mas uma qualidade que não deixara de herdar dos antepassados era o amor do poder e da independência completa. Não podia depender de homens, —que não lho tolerava a natural altivez de caráter. E, se bem não o confessasse, achava que também não devia depender de conveniências e de leis.

Faça-se ao seu nome esta justiça: ninguém pode, de um momento para o outro, mudar a alma de um homem... A alma do primeiro Imperador do Brasil se tinha formado num tempo e num meio em que lhe não ensinaram a conhecer poder superior à sua vontade.

Imperador constitucional, fazendo grande alarde ao povo das suas idéias liberais, fingindo amar ao povo mais do que a si mesmo, fingindo ter colocado a coroa sobre a sua cabeça mais para fazer a felicidade do Brasil do que para satisfazer a sua própria ambição, Pedro I parecia, a quem só pela rama o encarasse, um exemplar acabado do monarca constitucional. Isso era a superfície: no fundo lá estava o Bragança, o representante do direito divino, o príncipe absoluto, que as peias do constitucionalismo aborreciam e irritavam.

Por outro lado, o povo, entusiasmado pela sua vitória, orgulhado pelo seu triunfo, arrebatado pela sua força, exaltado pelo seu ardor de povo moço, era exigente e incontentável. Queria um imperador, como o havia sonhado, só governando em nome dele, povo.

O conflito era fatal.

Foi por isso que, com a aclamação de Pedro I, não começou para o Brasil uma era de tranqüilidade e de trabalho fecundo...

A dissolução
Funcionava a Assembléia Constituinte. Dentro dela de par com a discussão das bases do Código Constitucional, outras discussões ferviam, excitando os ânimos.

Houve no Rio de Janeiro um conflito de soldados. A Assembléia imediatamente decretou que todos os soldados de origem européia apenas pudessem estacionar a uma distância de seis léguas da cidade. O Imperador, quando teve conhecimento disso, não pediu conselho a ninguém. Montou a galope para a cidade. Ordenou sem demora que o general Morais, à frente de um regimento de infantaria, invadisse a sala das sessões, e intimasse a Assembléia a se dissolver por bem ou a força.

No momento quem que a tropa entrou, a Assembléia deliberava. Houve um espanto grande nas bancadas. Mas, a atitude dos representantes do povo foi calma e digna. Nenhum deles tremeu. Ficaram sentados, sem responder à intimação. Então, o general Morais declarou que trazia poderes para esvaziar a sala a cutiladas e a tiros. Fora, estava formado um parque de artilharia. mais longe, em linha, aparecia um regimento de cavalaria.

Resistir à violência da intimação seria uma inutilidade. O residente declarou suspensa a sessão. Começaram a sair os deputados, de um em um, entre as filas de soldados. À porta, José Bonifácio de Andrada e Silva, dois irmãos seus, e alguns outros membros da Constituinte, foram presos, e metidos a bordo de um navio que estava aparelhado para sair.

Começava para eles o longo exílio de cinco anos. Desterrando José Bonifácio, o Imperador castigava aquele que mais serviços lhe prestara. O grande brasileiro, patriarca da Independência, começava a sofrer as conseqüências da credulidade, que o levara a confiar no constitucionalismo de um filho de reis absolutos.

No Rio de Janeiro essa violência passou sem protesto. O povo ficou aturdido com o inesperado do acontecimento. Mas em Pernambuco, onde perdurava a agitação de 1817, a violência imperial repercutiu. Dessa repercussão, nasceu a revolução de 1824. A Confederação do Equador, instituída pelos revolucionários republicanos, pouco durou. Foi logo domada. E, como em 1817, começaram a funcionar, no Ceará e em Pernambuco as comissões militares, encarregadas de julgas sumariamente os culpados. dezessete conjurados pagaram com a vida o crime de amar a liberdade. Deles, um, Frei Caneca, foi fuzilado. Tinha sido condenado à forca: mas os juízes não acharam um carrasco que o quisesse enforcar. Outro, Rattcliff, veio para o Rio de Janeiro, onde subiu ao patíbulo.

A idéia progredia. Sobre o chão da pátria continuavam a cair cadáveres de mártires. Sobre esse montão de cadáveres tinha de se apoiar um dia, inabalável e vencedor, o ideal republicano.

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