Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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A abdicação
Morto D. João VI, ficava o trono de Portugal pertencendo ao Imperador do Brasil. D. Pedro I optou pela coroa do Brasil, dando a de Portugal a sua filha, D. Maria Amélia. Acreditou que tudo conciliava casando a filha com D. Miguel, seu irmão, que governaria o reino na qualidade de regente; D. Pedro I não conhecia D. Miguel...

D. Miguel, ambicioso, brutal, conspirava, havia muito. “Plebeu nos modos, violento e bronco no espírito, fanático e violento, o infante D. Miguel democratizava a monarquia, e a plebe adorava-º Era corpulento e trigueiro, queimado pelo sol; vestia-se à picadora, com um casaco de baetão verde, calão preto, botas altas de cava, com tacões de prateleira e esporas de prata. Usava um boné azul de prato largo, com viseira. tinha inclinações grosseiras e rústicas. Ensinava a lavrar aos moços do campo; sufocava um forte cavalo de Alter, puxando-lhe a cilha com os dentes; levantava com a boca um saco de trigo de seis alqueires, e punha-o ao ombro com uma só mão.” *

Para conseguir os seus fins, D. Miguel lisonjeava a plebe de Portugal e os frades. Condenava abertamente as idéias liberais do irmão D. Pedro. Quando se viu investido na regência do reino, fingiu estar disposto a casar com a herdeira do trono D. Maria, — mas, logo depois, dissolveu as Cortes, e aclamou-se rei.

D. Pedro I via assim perdido o trono da filha. Como bom rei e como bom pai, quis reconquistá-lo. Foi esse um dos motivos sérios que o impeliram a sair do Brasil.

No Brasil, a sua política descontentava cada vez mais os patriotas. D. Pedro via bem que a sua posição era difícil. Compreendia que era preciso ou transigir com o povo, cujas tendências liberais aumentavam, ou retirar-se. Um demissão do ministério precipitou os acontecimentos, e fez surgir, inopinadamente, uma crise séria. O ministério demitido era simpático ao povo. O que o substituiu, a 5 de Abril, era composto de áulicos.

O povo, que já estava habituado a fazer reclamações e a vê-las satisfeitas, reuniu-se, e enviou uma deputação ao Imperador, pedindo a reintegração dos ministros demitidos. D. Pedro I não hesitou: entre uma luta de resultado duvidoso e a abdicação, escolheu esta última. E na madrugada de 7 de Abril, usando do direito que a constituição lhe conferia, abdicou a coroa na pessoa de seu filho, D. Pedro de Alcântara. Mas, parece que a causa principal da sua deliberação foi a necessidade de ir disputar ao irmão D. Miguel a coroa da filha.

O monarca já estava reconciliado com o venerando José Bonifácio de Andrada e Silva, que, depois de ter curtido cinco anos de exílio, e ainda algum tempo de prisão na fortaleza da ilha das Cobras, julgara que os interesses da Pátria valiam mais do que os seus ressentimentos pessoais, e não recusara ao Brasil os seus serviços. Foi a este grande e ilustre cidadão que o Imperador entregou a missão de ser o tutor do seu filho menor.

E, ao romper do dia 7, foi para bordo da nau inglesa Warspite, de onde se passou para a fragata Volage, que o levou à Europa.



D. Pedro II
O reinado de Pedro II começou por uma revolução, a 7 de Abril de 1831, e por outra veio a acabar, a 15 de Novembro de 1889.

Forma terríveis os tempos da Regência e os primeiros tempos do segundo Império. Na capital, a febre política incendiava os partidos. Várias facões tinham surgido, disputando o poder, perturbando constantemente a ordem pública. O gênio e a energia de Diogo Antônio Feijó, eleito regente do Império, durante a minoridade de D. Pedro II, tiveram de sustentar combates rudes com a anarquia em que Pedro I deixara o Brasil. Sedição no Pará rebeliões no Maranhão, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais e Mato Grosso traziam o governo embaraçado, nessa fase difícil e ingrata da nossa história; houve na Bahia a sedição da Sabinada, e no Maranhão a revolução dos Balaios; e no Rio Grande do Sul, na brava terra dos gaúchos, rebentara a famosa revolução dos Farrapos, causa de uma tremenda guerra civil que devia durar mais de dez anos.

A declaração da maioridade de Pedro II não pôs um termo a essa agitação. Na tribuna das Câmaras e na rua, por meio de discussões violentíssimas ou de encontros a mão armada, as facões políticas da capital do Império se degladiavam sem tréguas. O governo mal tinha tempo e calma para decretar as leis de que tanto carecia o país. O tempo mal chegava para acudir aos tumultos que se sucediam sem interrupção.

Tendo passado o governo dos liberais para os conservadores, aqueles, descontentes com a marcha que levavam os negócios públicos, organizaram em São Paulo a reação. O próprio Diogo Feijó, ex-regente do Império, dirigia o movimento revolucionário. Caxias, comandando o exército pacificador, bateu, na cidade de Sorocaba, a coluna libertadora. Outra revolução liberal rebentou em Minas. Foi ainda Caxias quem a sufocou. E, em Pernambuco, houve a revolução praieira, em que tão belo papel representou Nunes Machado.

Grandes acontecimentos, porém, tinham de vir reconciliar os partidos, e salvar o Brasil desse delírio político, em que esterilmente se esgotavam as suas forças. As guerras contra Rosas, Aguirre e Solano Lopez vieram unir, num mesmo impulso de patriotismo, todos os brasileiros. O segundo Império não estava fadado para se consumir em lutas inglórias e fúteis. A guerra do Paraguai tinha de dar ao Brasil e o seu batismo de sofrimento e de heroísmo. Desses longos anos de luta, a nação havia de sair respeitada e forte. Mais tarde ainda, iluminaria vivamente a história do segundo Império o clarão imortal da lei Treze de maio, libertadora de toda uma raça. E esse reinado que começara incolor, acanhado, acabaria de um modo violento e grandioso, a 15 de Novembro, com a proclamação da República.

O gaúcho
O complemento do gaúcho é o cavalo. Ele e o cavalo formam um homogêneo, indivisível. Sobre o nobre animal, que o entende e ama, o gaúcho, — de alma livre como o vento, de músculos rígidos como o aço, de caráter altivo como as grandes águias, — passa a vida, independente, voando de campina em campina, cruzando os vastos pampas, cuja extensão solitária produz e excita o amor da vida nômade, das grandes jornadas, das guerras longas e das aventuras arriscadas.

Desde pequeno, o gaúcho aprende a domar os cavalos bravios. Sem arreios, montado em pelo, o animal se rebela e salta, corcoveia e dispara, roja no chão e recua, espuma e nitre, furioso, desesperado, numa revolta suprema contra o pequeno domador. Uma queda, duas quedas, vinte quedas... que importa? O pequeno domador não desanima. Volta a montar o animal selvagem. E, já senhor dele, abate-o subjuga-o, doma-o, humilde, amigo, resignado. Então, o homem e o cavalo não se separam mais, na guerra e na paz, ei-los unidos, voando de campina em campina, cruzando os pampas vastíssimos. Sóbrio e ativo, o gaúcho não pára, não desde do cavalo para comer. Come assim mesmo, à pressa, voando sempre. Quando a noite vem, desmonta, estira-se no chão, põe a cabeça, despreocupado e feliz, com a face voltada para o alto céu, onde as estrelas palpitam, e de onde desce uma grande paz suave, um grande silêncio consolador...

Essa vida alarga o pensamento, enrija a alma, apura o caráter. Dentro das barulhentas cidades, dentro das multidões atropeladas, o homem intimida-se, encolhe-se, míngua, e só vê a si mesmo, a sua insignificância e a sua pequenez.

Mas, na solidão do pampa, no infinito deserto, o homem não olha para si: olha para o céu, para o espaço ilimitado que o cerca, — vê o Infinito. Vendo o Infinito, vê a liberdade e a justiça: aprende a odiar todas as opressões, aprenda a amar e a defender todos os oprimidos.

A escravidão reduz o homem à ignorância do bruto.

O gaúcho prefere morrer, voar em liberdade para esse outro mundo que não vê mas imagina, a ficar amarrado a esta vida mesquinha, arrastando uma calceta, ou obedecendo a um senhor.

Salve, livre dominador do pampa brasileiro.

Os farrapos
Era em 1844. Esfarrapado e sujo, a galope, sobre o cavalo já esfalfado pela jornada longa, vinha um gaúcho. Trazia, voando ao vento, o ponche esburacado e esfiapado. Cobria-lhe a cabeça um velho chapéu desabado, em cuja copa havia furos... Quantas balas o teriam atravessado! E o rosto do gaúcho, cavado pelas privações da terrível campanha, com a barba crescida e inculta, ainda conservava o ar de altivez e de orgulho, que é o traço característico da fisionomia dessa gente.

A tarde caía. Um silêncio melancólico aumentava a tristeza daquela paisagem nua e rasa, onde não aparecia um vestígio de vida. De espaço a espaço, árvores queimadas, sinais de ranchos incendiados, montes de cinzas, ossos calcinados, e mais nada. A região fora devastada. Nenhum boi aparecia. Nenhum cavalo galopava na vastidão da zona deserta.

O gaúcho adiantava-se. Trazia ainda empunhada a grande lança de combate: no cinto, sob a faca de mato e a garrucha. As suas armas e o seu cavalo: durante dez anos tinha sido isso a sua única propriedade e sua companhia única. Terminadas as guerras, voltava agora ao seu sítio, em busca da estância abandonada, de onde havia tanto partira, deixando negócios, família, bem-estar, conforto e fortuna, para, seguindo a inclinação guerreira dos eu temperamento, ir tentar a aventura das armas, entre os bandos dos Farrapos seus irmãos, que se batiam pela liberdade da terra riograndense.

Por escárnio e mofa, tinham dado a esses revolucionários o nome de Farrapos. Esses guerreiros que acampavam ao relento, que, para não morrer de fome, se contentavam com um bocado de carne quase crua por dia, — não tinham uniforme, não tinham dinheiro, não pensavam em renovar as botas e os ponches que a vida da guerra, o pó da estrada, o fumo das batalhas estraçalhavam. Tinham o seu cavalo, a sua garrucha, a sua lança, a sua bravura, e o seu amor da independência...



Farrapos sim! Mas esses homens incultos e feios, a cuja fisionomia as barbas crescidas davam uma ferocidade que fazia medo aos soldados do governo, — durante dez anos tinham sustentado uma luta titânica a que todas as tropas do Império não puderam, pela força, dar termo. Só a brandura, a anistia, as concessões de toda a espécie conseguiram acabar essa guerra civil, sustentada por homens que haviam fundado a sua república, e que, através de todos os perigos, inferiores em número, em armas, em disciplina, em dinheiro, tinham com as suas guerrilhas atordoado e batido os exércitos regulares que o Império lhes opunha.

No silêncio e no recolhimento da tarde que caía, galopava o gaúcho. Sabia bem que não viria encontrar a família: essa, como ele, tinha também seguido os bandos guerreiros; uns tinham morrido, outros erravam ainda... O Farrapo queria ver a sua estância, a sua propriedade. Chegou. Já não viu a larga porteira: tinha sido queimada. Entrou. Nos campos, cheios de outrora de criação, havia, agora, apenas mato. Não viu a casa, outrora opulenta e bela: a casa era um montão de destroços. O horros da guerra civil também por ali passara, destruindo tudo com o seu bafo incendiário. Pobre e sozinho na terra, — ele, outrora feliz e rico, amado e respeitado!

Que importava? O velho Farrapo não lamentava o desastre.

A noite descia. Estrelas tímidas se acendiam no céu. O gaúcho deu liberdade ao cavalo, estirou-se no chão colocou sobre a sela a cabeça, e adormeceu, feliz, descuidado, livre, com a face voltada para os astros.

Que importavam os desastres, a ruína e a miséria?

Tinha-se batido pela liberdade da sua terra... podia dormir tranqüilo.



Guerra com o Paraguai
Impondo-se à mal-aventurada república do Paraguai, porque a sua eleição foi uma verdadeira farsa, desde o início do seu governo despótico tratou o marechal Francisco Solano Lopez de organizar com especial cuidado as forças militares, elevando-as a proporções superiores às dos demais Estados Sul-Americanos e aos recursos da República.

Tais aprestos bélicos não podiam ter outro intuito senão o aumento do poderio do tirano, não no Paraguai onde era absoluto, mas sobre os países vizinhos.

Nada, porém, fazia supor que se destinassem a uma guerra com o Brasil as forças que o marechal acumulava, porquanto não podiam ser melhores as relações entre os dois países.

Alegando, porém, ofensa na recusa feita pelo governo do Brasil da sua mediação na questão com o Estado Oriental, Francisco Solano Lopez rompeu as hostilidade, proibindo a navegação dos navios brasileiros nas águas da República; ao mesmo tempo era apressado o paquete brasileiro Marquês de Olinda, que seguia viagem para Mato Grosso, levando a sue bordo o coronel Frederico Carneiro de Campos, presidente nomeado para aquela província.

Pouco depois, a pequena guarnição do forte de Coimbra, em Mato Grosso, depois de gloriosa resistência, e vendo-se desprovida de munições, evacuava a praça diante de uma esquadra paraguaia.

Em vista de tão atrevidas agressões, não podia o Brasil conservar-se indiferente, e o governo fez a declaração da guerra.

Sem esquadra, com um exército insignificante, o Império, contando mais com o patriotismo dos brasileiros do que com os recursos bélicos de que dispunha, não hesitou em desafrontar-se. Espalhada a notícia, correram milhares de voluntários em defesa da pátria. A 1º de Maio de 1865 foi assinado o tratado da tríplice aliança entre o Brasil, a Confederação Argentina e a República do Uruguai, fiando o comando chefe, por uma das condições do tratado, entregue ao brigadeiro D. Bartolomeu Mitre, presidente da Confederação do Prata. Começada a campanha, lentamente o nosso governo foi adquirindo uma esquadra com que pudesse fazer frente ao inimigo.

A história dessa luta memorável, cujo final foi um triunfo completo para as três nações reunidas, não cabe em tão limitado resumo.

A Luiz Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias, devemos a precipitação da vitória. E quantos heróis apareceram! Manoel Luiz Osório, cuja lança era temida, fez prodígios de valor à frente de seus gaúchos; Andrade Neves, Porto Alegre, Mallet, Argolo, Deodoro, Câmara, e outros muitos que comandavam os intrépidos soldados brasileiros, que tão brilhantes provas deram de valentia e resignação; Barroso, herói do Riachuelo, e os denodado marinheiros que forçaram a passagem de Humaitá; e os que se bateram desde Corrientes até as margens do Aquidabã; — a todos esses, oficiais e simples soldados, deve o Brasil uma saudade eterna e uma eterna gratidão, porque não só lhe garantiram a paz como cobriram de perpétuos lauréis as suas bandeiras.

Muitos ficaram no campo, mortos; a pátria, porém, não os esquece, e os seus nomes perduram como exemplos. Honra à memória dos bravos!



A retirada da Laguna
É dos mais trágicos, na história das guerras, o episódio da retirada da Laguna, de que se tornaram heróis os soldados da expedição no Norte. Esses bravos, saindo de Cuiabá, foram através de pântanos e de macegas, em longa e penosa marcha, engrossando as fileiras com os contingentes que recebiam, até o acampamento do inimigo, na Laguna.

Já senhores do terreno, os intrépidos comandados do coronel Camisão de Melo tiveram de ceder o passo, vendo-se desprovidos, não só de víveres como de munições, de modo a não poderem por muito tempo lutar com o inimigo, que, sobre estar descansado, tinha abundantes provisões de guerra.

Anunciou-se a retirada; e, não sem tristeza, trocando tiros com o inimigo, mobilizou-se a coluna, iniciando essa estupenda epopéia de resignação.

Caminhando lentamente, viam-se de improviso assaltados pela impetuosa cavalaria paraguaia; rapidamente formavam o quadrado, defendiam-se, rechaçavam o inimigo; e vagarosa, deixando mortos, carregando feridos, lá ia a coluna, desfraldando nos ares as bandeiras sagradas. Reentrando na pátria, nem por isso caminhavam descansados, porque o inimigo, tornando-se, por sua vez invasor, lhes seguia os passos, a distância; e, num momento, arremetendo, com tanta fúria caiu, que os nossos mal tiveram tempo de formar o quadrado: em meio da luta, com o formidável tiroteio, o gado assustou-se; e, deitando a correr estonteadamente, pôs em confusão as filas brasileiras; e disso aproveitou-se o inimigo fazendo grande estrago; ainda uma vez, porém, foi repelido.

Escasseavam os víveres; às vezes o guia, apesar de conhecedor dos campos, enganava-se, e a coluna era forçada a retroceder. De instante a instante, uma descarga atroava: era o inimigo que seguia a coluna, mascarando-se nas moitas. O ardil tremendo veio, por fim, cercar os heróis, lavrava o incêndio nos campos, as chamas sitiavam a coluna, e longe os paraguaios, diabolicamente assanhados, iam ateando fogo à macega.

Lutavam com esse pavoroso inimigo, e não raro, ainda acalorados, viam o céu cobrir-se de nuvens densas e negras — e a tempestade desabava; apagavam-se as chamas; os soldados, porém, encharcados, ficavam a noite inteira de pé, apoiados à coronha das armas cuja baioneta haviam cravado na terra.

Pântanos, silvados, tudo venceram: mas um inimigo novo surgia e esse incombatível, — o cólera. Os que caíam escabujando, à falta de ambulâncias, ficavam pelos caminhos, pedindo aos gritos uma gota d’água, e morriam, os olhos voltados para a bandeira que ia longe, tremulando.

Morreram o coronel Camisão e o guia Lopes, e a coluna continuou, perseguida sempre, de noite e de dia, pelo inimigo; e, ao fim de trinta e cinco dias de marcha, tendo saído de Laguna com 1600 homens, chegou a Nioac com 700, apenas, e esses mesmos enfraquecidos, maltrapilhos, enfermos.

Esse episódio, comovedor e heróico, bastaria para enaltecer o soldado brasileiro, atrevidos na luta, resignado no sofrimento; a história da guerra do Sul, porém, é farta de ações audazes e mostra à evidência o valor dos filhos do Brasil.

Aquidabã
Foi à margem esquerda do rio desse nome que caiu mortalmente ferido, para em pouco expirar, o tirano Francisco Solano Lopes, ditador do Paraguai.

A sua morte pôs termo à sanguinosa guerra, que, se muitas lágrimas inconsoláveis arrancou à família brasileira e se deflorou de louros imarcessíveis o pavilhão da pátrias tão denodadamente defendido pelos nosso irmãos, deixou uma riquíssima terra devastada, e na miséria um povo de valente que a perversidade de um déspota sacrificara.

Convencido da impossível resistência, vendo enfraquecido o seu exército pelas constantes derrotas, Solano Lopes viu na evasão o meio único de salvar a vida; e, cercando-se de alguns fiéis soldados, pôs-se a caminho, seguindo pelos mais complicados desvios para assim iludir a vigilância do exército brasileiro. Tal, porém, não sucedia, porque os heróis da expedição comandada pelo brigadeiro José Antônio Correa da Câmara não perdiam o rastro dos fugitivos. Lopez, que ia despercebido de quanto se passava perto, ignorando a presença dos nossos nas cercanias do seu refúgio extremo, acampou no campo de Aquidabaniguí. A demora dos emissários que despachara para observarem as imediações, os quais haviam sido aprisionados pelos nossos, fez que o impaciente ditador descesse ao passo do Aquidabã, de onde pouco depois tornou ao seu acampamento. Já operavam as forças aliadas; e num dado momento, surgindo dos matos e de todos os caminhos que iam ter ao acampamento do tirano, caíram sobre as suas forças, destroçando-as sem grande trabalho. Lopes, vendo-se perdido, abandonou o acampamento, seguindo em direção ao mato que margeia o Aquidabaniguí. Avistado pelo coronel Silva Tavares, não pode fugir com tanta pressa que evitasse os perseguidores. Cercado por uma pequena força, longe de acovardar-se, desembainhou a espada, e dispôs-se a combater, — correndo, então, para o seu lado, afim de protegê-lo, vários oficiais e soldados do seu exército. Foi nesse momento que os nossos fizeram fogo, e viram o tirano dar as rédeas ao cavalo, que montava, desaparecendo no mato próximo, Cegando ao sítio do combate o brigadeiro Câmara, e sabendo da direção que tomara Lopes, seguiu para aprisioná-lo ou matá-lo, caso resistisse. Saíram ao seu encontro dois clavineiros que declararam ter atirado sobre o tirano, deixando-o mortalmente ferido. Dirigindo-se ao lugar indicado, o brigadeiro Câmara encontrou o ditador caído na barranca do arroio, com o corpo apoiado sobre a mão esquerda, a espada na direita e os pé n’água. Intimado a render-se atirou um golpe estouvado, dizendo que não se entregaria, preferindo morrer pela pátria. Desarmado, expirou momentos depois, abreviando-lhe a morte um tirou disparado da margem oposta.

Com a morte de Solano Lopes, 1º de Março de 1870, terminou essa guerra entre povos que não se odiavam, e que apenas tinham sido vitimados pela ambição desmedida de um déspota alucinado.

São inumeráveis as ações de valor praticadas na terrível campanha, a maior e mais renhida que se tem disputado nos campos da América.

A vida nas fazendas
À primeira luz da manhã, palpitando ainda no céu enxames de estrelas, a sineta soava no quadrado. Abriam-se as senzalas lôbregas, e os negros, estremunhados, saíam para a forma; e, aos seus resmungos de preces, respondiam ao longe, nos caminhos dos pastos, as vozes dos rebanhos.

Louvavam o senhor, e formados, cada qual com o seu instrumento de serviço, as mães com os filhos escarranchados às costas, todos calados, submissos, unindo-se muito, — o feitor com o relho enrolado à cinta procedia à chamada à qual os negros respondiam soturnamente, de olhos sempre baixos.

Certo que nenhum desertara durante a noite, o feitor assistia à distribuição de água quente, levemente adoçada; alguns engoliam a beberagem sem mais nada; outros, porém, que haviam guardado da véspera um bolo e angu ou um pedaço de aipim, comiam; as mães amamentavam ás pressas as crianças e logo depois começava a desfilada para a roça. Iam em turmas, homens e mulheres; ao fresco da manhã davam começo à capina ou à colheita, eito acima, cantando.

Pássaros chilreavam; a pouco e pouco, porém, subindo o sol, o orvalho secava, as aves recolhiam-se, e só ficavam, expostos ao sol violento, os escravos, e o canto tornava-se mais triste, lamentoso, guaiado.

Deixavam o serviço para o almoço, feito na roça por uma velha negra, e o alimento compunha-se de feijão e angu com couves; enchia, cada um, a sua cuia e, de pé, á sombra dos cafeeiros em flor, comiam; as mães desciam, às pressas, aos tejupares, e amamentavam as crianças, que dormiam sobre palhas, à guarda dos mais velhos.

A um brado do feitor, tornavam todos ao serviço e, até a hora do crepúsculo trabalhavam sem pausa, resignadamente.

Os que eram pastores vigiavam o gado nos campos, os carreiros guiavam os bois de canga, e aterra prosperava molhada pelo suor e pelas lágrimas da pobre gente.

De raro em raro, nos grandes dias, davam-lhes uma pequena ração de carne e de cachaça, e permitam-lhes que folgassem. A alegria chegava ao delírio quando os primeiros sons do caxambu atroavam, e, no terreiro, reunidos, começavam a dança selvagem, que lhes recordava a aringa africana e os dias felizes dos tempos da liberdade.

Doentes, eram tratados pelos curandeiros; só em casos gravíssimos, ainda assim quando o enfermo era uma boa peça, os senhores recorriam aos médicos. O cemitério, quando havia, era um campo de erva viçosa onde os bois dormiam ruminando sobre covas frescas.

E assim viviam os negros, lutando pelos riquíssimos outonos, pagando a miséria e os maus tratos com a abundância dos paióis e o enriquecimento dos senhores.



O exército negro
Foi pouco antes de 13 de Maio de 1888. Das fazendas do interior de São Paulo, tinham fugido em massa os escravos. O cálice da amargura tinha sido esgotado até as fezes. A raça negra, depois de tantos séculos de sofrimento resignado, revoltava-se enfim...

Como os rios, que, ao nascer são fios de água débil, e vão engrossando à proporção que marcham, aqui abrindo passagem pelo mato, ali deslocando calhaus, aumentando, aumentando sempre, carregando agora imensos troncos de árvores, agora recebendo o contingente de outras águas que chegam, aumentando, aumentando sempre, despejando-se, já formidáveis, do alto de penedias escarpadas, ganhando velocidade com a queda, aumentando sempre, até que, com um rugido temeroso vêem desabar no oceano, — assim engrossou o bando negro, que, ao partir do interior de São Paulo era um grupo, e, ao chegar à cidade de Santos, depois da descida da serra do Cubatão, era uma legião.

Enquanto caminhavam, das fazendas que iam encontrando iam levando os escravos. Cada passo dado trazia um novo contingente à leva do desespero, ao levante da dor, ao êxodo terrível do sofrimento. Vinham quase nus, famintos, com os pés chagados pelas estradas pedregosas. Alguns tinham apenas em torno dos rins uma tanga esfarrapada: e, ao sol, apareciam aquelas peles pretas, cobertas de cicatrizes, retalhadas tantas vezes pelo chicote do feitor. As mulheres carregavam ás costas as criancinhas nuas e magras que choravam: ou, para as enganar, davam-lhes às bocas famintas os peitos murchos e secos, de onde não pingava uma só gota de leite.

E caminhavam... caminhavam... caminhavam, de dia e à noite, à luz do sol ou à luz das estrelas. E cantavam. Aquela melopéia tristíssima, repassada da indizível melancolia das músicas africanas, ecoava com um coro de gemidos no vasto seio impassível da natureza.

E á noite, quando, em silêncio, desciam a serra negra, sob o olhar de fogo dos astros, os seus passos reboavam surdamente na treva, como o rumor de um oceano que se agita.

E era um oceano, um rude oceano que se precipitava do alto da serra... oceano revoltado, para o qual já não havia diques. Já nenhum pensava no castigo, no vergalho, no tronco, na vingança dos senhores... Dali, para a liberdade ou para a morte!

Foi no quilombo do Jabaguara, em Santos, que o exército negro parou. O quilombo era um baluarte da propaganda abolicionista. Ali, algumas almas justas e piedosas tinham aberto um asilo para os desesperados do cativeiro. Ali, — enquanto nas fazendas se castigavam escravos, —dava-se aos foragidos pão e carinho, trabalho e liberdade, consolo e instrução.

Quando o quilombo do Jabaguara recebeu essa última avalanche de negros fugidos, a propaganda estava perto da vitória. A alma brasileira se tinha levantado para protestas contra o crime secular da escravidão. A raça negra ia ser incorporada , no Brasil, à comunhão social. Ia-se apagar da face da América a mancha de lodo e sangue que a desonrava. pouco tempo depois da chegada ao Jabaguara, era promulgada a lei de 13 de Maio.

Todos os asilados do quilombo saíra, a caminho de Santos. Ali, na igreja, perto do túmulo de José Bonifácio, ouviram a sua primeira missa livre. E a igreja se encheu de um rumor prolongado de soluções, — soluções de alívio, de esperança e de felicidade...

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