Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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13 de Maio
A infância e a decrepitude abriram a marcha da redenção: sagrado o ventre negro pela lei lustral de 28 de Setembro de 1871, a velhice, pouco depois, teve o seu arrimo no humanitário decreto de 28 de Setembro de 1885, e deixou os campos e as colinas, recolhendo-se ao descanso das cabanas, precursor da paz absoluta do túmulo.

Ficavam, porém, gemendo no interior das terras milhares de homens escravizados, — quando, graças à piedosa campanha abolicionista, o grito de liberdade repercutiu ao norte na fertilíssima região dos grandes rios.

A jangada cearense remiu a culpa dos mares, levando por eles, a caminho da liberdade, os descendentes dos que haviam vindo soluçando no fundo dos navios de tráfico.

Dia a dia o pensamento de libertação dos cativos ganhava novos adeptos; o povo, associado aos mais atrevidos batalhadores da causa, prestava o seu concurso, acudindo não só com o óbulo, como prestando-se a dar abrigo aos que, acossados pela fereza dos senhores que se sentiam próximo o momento temido, evadiam-se buscando amparo e caridade.

As senhoras, a mocidade das academias, as classes armadas, os artistas auxiliavam poderosamente a propaganda, de sorte que, oprimido pela violência da idéia dominadora, impossível de ser represada, o governo resolveu corresponder aos desejos da nação promulgando a lei que declarava livres todos os escravos do Brasil. Foi essa lei assinada a 13 de Maio de 1888, pela princesa Isabel, regente, na ausência do imperador que se achava na Europa.

Oito dias duraram na capital as festas por tão faustoso acontecimento, e em todo o império foi grande o júbilo. Nunca a população do Rio de Janeiro deu do seu entusiasmo provas tão vivas e sinceras, com no decurso desse prazo festivo; a alma popular dilatou-se, e viu-se o esplêndido e comovedor espetáculo de um exército desfilar levando nas carabinas ramos de violetas, e os formidáveis canhões cobertos de flores e de ramos. Nas praças avultavam coretos, e, ao som das músicas alegres, o povo dançava e folgava como numa quermesse colossal; encheram-se os teatros, e nas ruas era tal a concorrência que o trânsito se tornou difícil.

Houve uma grande passeata comemorativa. o ato mais solene, porém, foi a missa campal rezada no campo de São Cristóvão, à luz brilhante do sol, diante de um alto cruzeiro, em presença do exército e do povo.

Cessara o tormento secular de uma raça; e a pátria, celebrando essa festa pascoal, parecia que se preparava, com uma purificação, para receber dignamente a República.


15 de Novembro
Amanhecia. Doirada pela manhã do mês balsâmico, a cidade, despindo-se da névoa, acordava risonha para a vida; a noite correra tranqüila, nada deixando a suspeitar do que se preparava nos quartéis; de sorte que foi com verdadeiro espanto que o povo, descendo dos subúrbios para o trabalho, viu postados em frente do quartel general, no campo da Aclamação, vários regimentos e uma parque de artilharia.

As armas cintilavam ao sol, e dominando todos os soldados aparecia a figura simpática e dominadora do marechal Deodoro da Fonseca, comandante chefe das forças reunidas.

O valente militar, que nessa manhã, a instâncias de Benjamim Constant e de outros próceres da República, deixara o leito onde o matinha torturado a enfermidade adquirida nos marnéis de Mato Grosso, — animado pelo ideal patriótico, não acusava o menor sofrimento.

Seus olhos inquietos, cheios de uma luz forte, irradiavam; e, firme na sela, domava o corcel fogoso, que, a todo o instante parecia querer investi, escarvando o solo, nitrindo. Benjamim Constant, calmo, parecia a Meditação ao lado da Ação. Eram o Pensamento e o Braço, — os dois completavam-se: um dirigia, o outro executava.

O povo, a princípio medroso, a pouco e pouco se foi aproximando; vendo a atitude pacífica da tropa, os populares insinuavam-se nas fileiras, paravam junto aos canhões assestados ameaçadoramente contra o quartel, que se conservava fechado e mudo.

Falava-se em resistência, em combate, quando a larga portaria se abriu de par em par. Chegavam enlameado, exaustos da marcha acelerada que haviam feito, os alunos da Escola Militar, armados e prontos, — e logo um grande brado atroou: “Viva a República!” O marechal, seguido do seu estado-maior, penetrou no quartel. e quando se esperava o rumor da peleja, ouviu-se como um eco, o mesmo brado lá dentro: — “Viva a República!”

E a tropa que, segundo se dizia, se conservava fiel ao trono, saiu, acompanhando o intrépido soldado, que o povo, em delírio, aclamava; e os canhões saudaram a República com uma salva de 21 tiros, enquanto as bandas executavam o hino nacional, mal ouvido através do estrondo da artilharia festiva e do clamor entusiástico da multidão.

Os ministros, presos no quartel, bem compreendiam que não se tratava de uma simples revolta; as aclamações do povo bem o diziam.

Formada a tropa, desfilou, seguindo o marechal, que atravessou a cidade até o arsenal de marinha, cujas portas lhe foram abertas, saudado delirantemente pelo povo que enchia as ruas, pelas senhoras que se apinhavam às janelas.

Dias depois embarcava para o estrangeiro a família do último monarca. Como a Abolição, a República foi feita pacificamente: o povo recebeu-a como a realização de uma esperança antiga.

A República começou sob magníficos auspícios; e, para que ela se torne grande e forte, urge que todos os que nasceram à sombra dos eu pavilhão glorioso, num esforço comum e patriótico, trabalhem pela sua prosperidade, e não se recusem a defendê-la, no momento em que, acenando aos filhos, ela lhes pedir o sacrifício supremo do sangue.

Final
Damos aqui por finda a nossa empresa. Abalançamo-nos a levá-la a termo sem vaidade, porque não trazemos novos subsídios à história nem nos alongamos tanto pelos episódios quanto deveríamos; muitos e admiráveis, deixamos de parte, por não caberem em um livro cujo principal intuito é despertar nas almas jovens o amor da pátria.

Para tornar a leitura mais agradável procuramos revestir os fatos de uma forma amena que não enfastiasse os leitores. Daqui partireis para o estudo da verdadeira história nacional; neste livro há apenas quadros e exemplos; e não vos deveis limitar às suas linhas escassas, porque há ainda muitas e grandes belezas a conhecer no copioso documentário da nossa vida social e política.



Ide por diante, buscai conhecer a vossa pátria, para que, vendo-a tão grande como é, façais por vos tornardes dignos dela.

Bibliografia
Porto Seguro — História geral do Brasil; Porto Seguro — As lutas com os Holandeses; R. Southey — História do Brasil; Mello Moraes — Corografia do Brasil; Couto de Magalhães — O Selvagem; Capistrano de Abreu — Descobrimento e desenvolvimento do Brasil no século XVI; Pereira da Silva — Quadros da História Colonial do Brasil; A. Brasiliense — História Pátria; Matttoso Maia — Lições da História do Brasil; João Ribeiro — História do Brasil; Silvio Romero — A História do Brasil (ensino cívico); A. Moreira Pinto — História do Brasil; Machado de Oliveira — História da Província de São Paulo; Pereira da Silca – História da Fundação do Império; Borges dos Reis — História do Brasil; B. de Magalhães — Lições de História do Brasil; P. R. M. Galanti — Compendio de História do Brasil — tais são as fontes desta recopilação.
Os autores

* Especiarias, drogas aromáticas, com que se adubam iguarias.

* carta de Paulo, físico, a Fernandes Martins, cônego de Lisboa. Florença, 1747.

* O Evangelho nas Selvas.

* Warden diz 5.000 homens.

* “Guararapes, na língua do gentio, é o mesmo que estrondo ou estrépito, que causam os instrumentos de golpe, como sino, tambor, atabale e outros; e o rumor que fazem as águas, pelas roturas e concavidades dos montes, lhes deu o nome de Guararapes” Castrioto lusitano por Fr. Rafael de Jesus, 1679.

* Hoje, cidade de Ouro Preto.

* Hoje, cidade de Mariana.

* Oliveira Martins. História de Portugal.

* Oliveira Martins. História de Portugal.
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