Neurociência no brasil pedro Carlos Primo preâmbulo



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NEUROCIÊNCIA NO BRASIL
Pedro Carlos Primo

PREÂMBULO

O século 19 produziu dois importantíssimos fisiologistas: Mengedie, na França, pioneiro da fisiologia experimental e da filosofia mecanicista, o qual fundou o Journal de la Physiologie Experimental. O outro foi Johannes Mülle na Alemanha, ardente vitalista e o primeiro fisiologista a fundar uma escola e a dar base experimental à medicina do seu país.

Em 1847, Helmholtz, Ludwig, Du Bois Reymond e Brücke reuniram-se em Berlim, decidindo dar fundamento físico-químico à fisiologia. Essa histórica reunião diz bem do caráter que passou a se revestir a pesquisa nesse campo da biologia que levado por alguns fisiologistas ao exagero chegou a preocupar Fulton ao comentar essa tendência no congresso de Boston, em 1929. Fulton lamentava do sentido que estava sendo dado à fisiologia geral de Claude Bernard, salientando que, na verdade, os seus praticantes deveriam ser chamados mais de biofísicos, químicos de proteínas e eletroquímicos do que de fisiologistas.

Era a bioquímica começando a se destacar da fisiologia. Hoje esse tipo de preocupação perdeu sentido, pois a fisiologia clássica, seja ela bioquímica, biofísica ou farmacológica são consideradas como ciências fisiológicas, embora autônomas.


HISTÓRIA DA NEUROCIÊNCIA NO BRASIL
. Os primeiros cursos médicos no Brasil foram criados, na Bahia e no Rio de Janeiro, em 1908. O Imperador Pedro II, amante das artes e das ciências se correspondeu com o eminente fisiologista alemão Du Bois Reymond, acerca da fundação de um instituto de “physiologia” na cidade do Rio de Janeiro, mas que jamais teve efetividade prática.

A história da neurociência no Brasil se confunde com a própria história da fisiologia brasileira. Ambas custaram a deslanchar. Segundo Ribeiro do Valle foi somente em 1880, que foi instalado, junto ao Museu Nacional do Rio, o primeiro laboratório de fisiologia experimental no Brasil, dirigido por Louis Couty, ex-discípulo de Vulpian e Séquard, contratado pelo Governo Imperial para ensinar biologia industrial na Politécnica. Louis Couty logo que se instalou no Brasil se associou a J. B. Lacerda, sub-diretor da seção de antropologia, zoologia e anatomia do Museu que se interessava por venenos animais e plantas tóxicas. O laboratório não tardou também em contar com discípulos e com auxiliares: Eduardo Guimarães. Manoel Salles, Domingos Niobey e Juvenal Raposo. A excelente atmosfera criada por Couty para a pesquisa refletia os ensinamentos e a vivência hauridos da grande escola francesa chefiada por Claude Bernard.

A linha de pesquisa nessa época seria considerada hoje mais como farmacológica, eis que plantas como asclepias, coffea, carqueja, leptolobio e molungu foram estudadas. Couty, Lacerda e Guimarães interessavam-se também pelo curare e pela pereirina “(curare intermediário”). Couty morreu em 1884. Sua morte acarretou a dispersão dos seus colaboradores. Eduardo Guimarães na carreira de terapeuta procurou implantar métodos fisiológicos de pesquisa e chegou a ir à Europa. Ao retornar desiludido, mudou-se para Campinas, onde se entregou à clínica e até à política. Tentou retornar à fisiologia lecionando-a na Escola Médica de São Paulo. A criação dessa escola deveu-se a uns poucos idealistas que, na verdade, desejavam e que convenceram Guimarães a fundar na capital paulista, por volta de 1910, uma verdadeira universidade, mas, apoio lhe faltou e caberia a Arnaldo Vieira de Carvalho fundar com esse apoio, a Faculdade de Medicina e Cirurgia que substituiria a Escola Médica.
Por essa época, porém, as contribuições eram poucas e cingiam-se, além das já citadas, na tentativa do domínio das “sciencias naturaes” e na descrição e catálogo da nossa fauna e flora. No tocante à fisiologia e a neurociência, (ramo do conhecimento que nem existia com a abrangência que se tem hoje) a realização ficou modestamente no contrato de Couty, biologista francês que pouco pode fazer de vulto nos sete anos que aqui viveu. Nosso maior passo se deu em conseqüência de uma praga, quando o governo teve que atacar o problema da febre amarela, encontrando o homem certo: Oswaldo Cruz, o qual, doutorou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1892 e estagiou em Paris sob orientação de Emile Roux, no Instituto Pasteur, e de Felix Guyon, em um laboratório de toxicologia. De volta ao país em 1899, deu início às atividades que o iriam tornar pioneiro da medicina experimental e o maior sanitarista de sua época. Para combater as pragas da época criou o Instituto Soroterápico, destinado á preparação de soros e vacinas, na fazenda Manguinhos, no Rio de Janeiro. Esse estabelecimento foi posteriormente chamado de Instituto Osvaldo Cruz, em sua homenagem.

Com a criação de Manguinhos (foi assim que ficou conhecido também o Instituto Oswaldo Cruz) houve um salto formidável, onde de quase nada, passamos a possuir um dos melhores Institutos de Medicina Experimental do mundo. Suas atividades no início se prenderam à microbiologia, mas em 1920, foi criado no Instituto Oswaldo Cruz, por Carlos Chagas, pai, uma secção de fisiologia, tendo sido convidado para chefiá-la Miguel Ozório de Almeida, então professor de fisiologia da Escola de Agricultura e Veterinária que, juntamente com seu irmão, Álvaro Ozório de Almeida, professor de fisiologia da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, faziam pesquisas no laboratório particular que possuíam, na rua Machado de Assis, 45.

O surgimento da pesquisa na UFRJ, da qual foi pioneiro o Prof. Carlos chagas, iniciou-se com a montagem do laboratório de Física Biológica na Faculdade de Medicina, atualmente denominado de Instituto de Biofísica Carlos Chagas Fº (IBCCF). As primeiras comunicações ocorridas das pesquisas que estavam sendo feitas na Praia Vermelha e as novas técnicas instaladas no laboratório de Biofísica foram apresentadas na primeira reunião conjunta das sociedades Brasileiras para o Progresso das ciências, realizadas em Campinas, em 1946.

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A neurociência e fisiologia, tal como ocorreram com outros setores da vida cultural e científica do Brasil demoram a deslanchar no campo da pesquisa. O ensino dessa matéria nas faculdades de Biomédica foi durante muito tempo essencialmente livresco e muito pouco experimental. A pesquisa, no início, deveu-se aos esforços de uns poucos abnegados, cujos discípulos (também poucos) souberam carregar a tocha que os pioneiros acenderam. Assim a neurociência e mais especificamente a fisiologia progrediram, até certa época, lentamente entre nós.Os anos 30 se constituíram num passo verdadeiramente à frente com os núcleos de pesquisadores cariocas (Manguinhos e Laboratório de Biofísica da UFRJ) e os paulistas, com o Butantã e Laboratório de Biofísica da Faculdade de Medicina e Filosofia. A fisiologia engatinhava no país, no Rio, em São Paulo e em alguns outros estados. Os dois centros mais adiantados eram obviamente, Rio e São Paulo.



Segundo Thales Martins o grande iniciador da fisiologia no Brasil foi Ozório de Almeida seguido do seu irmão Miguel. Álvaro Ozório de Almeida é considerado por muitos historiadores da fisiologia no Brasil o seu "patriarca”, não só pela precessão e ascendência como pelo "tom romântico das primeiras lutas". De fato, ele e o seu notável irmão, Miguel, impuseram-se ao respeito de seus contemporâneos e das gerações seguintes como os santos padroeiros da fisiologia brasileira. Recém-formado em medicina. Álvaro foi em 1906 à Paris para estagiar no Laboratório Pasteur e no Collège de Françe e em 1909 esteve na Alemanha. A intenção era munir-se de conhecimentos para tornar-se docente de fisiologia na Faculdade de Medicina do Rio, na vaga de J. P. Carvalho. Precisava criar condições para isso, pois, de certa forma, passou-se a exigir dos candidatos a concursos que fossem especialistas no assunto que desejavam lecionar. Todavia, mesmo já docente, Álvaro não encontrava na Faculdade condições para o trabalho experimental, fez como Ramon y Cajal, recorreu ao modesto porão de sua residência, onde, com "um mínimo de implementos" e o generoso suporte financeiro de um Cândido Gaffrée, deu início à pesquisa, criando um pequeno laboratório. Em 1915, o laboratório mudou-se para residência, do pai dos dois irmãos (Dr. Gabriel), na Rua Machado de Assis, nº 45, onde Branca de Almeida Fialho, se tornou doublée de dona de casa e laboratorista. Esse pequeno e sui-generís laboratório atraiu atenção de ilustres visitantes, entre os quais madame Curie e Einstein. O laboratório foi encerrado em 1932, nele chegou a trabalhar e estagiar os fisiologistas franceses Gley e Pieron, colaborando em vários trabalhos publicados no exterior. Até o aparecimento de Manguinhos, era a único da cidade a se ocupar de fisiologia.

A atividade de pesquisa de Álvaro Qzório de Almeida começou a se intensificar com estudos sobre metabolismo e calorimetria entre 1913 e 1928. Só, ou com a colaboração da irmã (Branca A. Fialho), de Enéas Galvão e de Couto e Silva, tornando-se um dos precursores da microcalorimetria, eis que estudou a produção de trocas respiratórias no cérebro e no fígado. Preocupou-se com o metabolismo basal do homem tropical branco e negro e com a ação do curare na capacidade do sistema nervoso de regular o metabolismo.



Álvaro Qzório de Almeida faleceu em 1952, seu irmão Miguel cerca de um ano e meio depois. Miguel Ozório de Almeida diferia do irmão pela inclinação de expressar matematicamente as funções que estudava. Haity Moussatché, depois de formado, foi procurar Miguel no Instituto Oswaldo Cruz (IOC), em 1934, ingressando pelas mãos de Couto e Silva. Miguel já dispunha de duas amplas salas, eram as suas tábuas de salvação, pois na Faculdade de Medicina, onde se tornara docente de Física Médica, não havia condições de pesquisa. O IOC lhe agradava. Cercou-se no mesmo, do indispensável no tocante à aparelhagem, nada do supérfluo, porém. Antes de Moussatché estava lá, Vianna Dias trabalhando na conhecida descoberta de Miguel, a crioepilepsia, o centro de atenção do laboratório desde 1925. Miguel com suas pesquisas contribuiu para a aceitação do curare como coadjuvante em anestesia. Em 1934. Miguel, a contragosto, aceitou ser Diretor de Saúde Pública (sete meses), mas instalou no velho edifício da Rua do Resende, improvisado laboratório para não perder o contato com a pesquisa. Em 1936, Carlos Chaga instou com Miguel para se tornar catedrático de física médica. Até sua morte em l954, Miguel produziu cerca de 250 trabalhos. No campo da pesquisa biológica cabe salientar os estudos de Miguel no chamado estado de excitação, a grandeza biológica conceitual introduzida por ele em eletrofisiologia, hoje, indispensável em qualquer teoria sobre excitação. Toda essa atividade lhe valeu uma grande reputação no exterior, tornando-se membro da UNESCO. Viajava ele, constantemente, para a Europa e tinha um fraco pela Sorbonne e pelo Collège de Françe. Além da sua superior inteligência, era grande a impressão que inspirava pelo seu porte e a sua versatilidade: Pianista e romancista, com assento na Academia Brasileira de Letras. Dos elementos que formou, Vianna Dias persistiu na linha de pesquisa inspirada nos trabalhos do mestre e chegou a trabalhar com Panti, de Cambridge, sobre o sistema nervoso. Haity Moussatché tornou-se um eminente farmacologista.

Outro gigante da fisiologia no Brasil foi Thales Martins. Se levarmos em conta que a endocrinologia é uma ciência deste século e que data dos anos 20 as maiores descobertas sobre o funcionamento da hipófise e dos hormônios gonodais, a atividade desenvolvida por esse grande pesquisador brasileiro, entre 1926 e1936, pode ser denominada de prodigiosa. Vemo-lo iniciando-se na pesquisa no “laboratório de Ozório, pesquisando o uso da vesícula seminal no teste do hormônio testicular, a regulação da hipófise no testículo, e a dinâmica sexual. Os resultados desses trabalhos apareceram nas Memórias do Inst. Osw. Cruz, nos Comptes Rendus da Soc. Biol France. Endokrinologie’, Endocrir Archiv f. Entwicklungs Mechanik. Depois Thales Martins deslocou-se para São Paulo, indo foi trabalhar no Instituto Butantã. Retorna, porém, ao Rio, para preencher a vaga deixada com a morte de seu mestre, Álvaro Ozório de Almeida”.



Grande papel desempenhou no desenvolvimento das pesquisas fisiológicas e de investigação, no Rio, o laboratório fundado por Carlos Chagas Filho, em 1937, sob o nome de Laboratório de Biofísica da Universidade do Brasil. Anexo à cadeira de física médica, o laboratório desde o seu início, contou com o suporte financeiro de C. Guinle, da Fundação Rockefeller e a colaboração do Instituto Oswaldo Cruz e do Instituto Nacional do Cinema Educativo, bem como, com a assessoria científica do ilustre fisiologista francês B. Wunmiser, e de eminentes nacionais. Seus primeiros objetos de pesquisa foram à bioenergética e a bioeletrogenia, tendo-se esta última tomado-se o foco maior de interesse, graças à disponibilidade do elétrico (Electrophorus electrícus). O rápido progresso de tais estudos foi exigindo ampliação do Laboratório para a pesquisa em níveis celulares e moleculares. Talvez seja certo se afirmar que pela primeira vez no Brasil, mediram-se potenciais de membrana. Entre outros temas de trabalho dos primeiros tempos figura os efeitos causadores da doença de Chagas nos potenciais de cultura do miocárdio e do s. nervoso, o estudo do metabolismo e dos potenciais de óxido-redução biológicos. Além de Wunmser, o laboratório contou no início com J. M. Gonçalves, Aristides P. Leão, Hertha Meter, Frota-Moreira, Martins Ferreira (então laboratorista...), entre outros. O primeiro trabalho sobre bioeletrogênese foi de Carlos Chagas, outros logo começaram a aparecer nos 'Anais da Acad. Brás de. Ciências, Memórias de Oswaldo Cruz, Rev. Brás de. Biologia e não tardaram a transbordar para o exterior. O Laboratório se transformou no Instituto de Biofísica, mas Já vinha antes atraindo a atenção de pesquisadores estrangeiros. Da França, desde então, nele estagiaram: o casai f (repetidas vezes), Latarjet, Fabre. (Prêvot, Fromageot; da Inglaterra, Keynes, Rushton, F Ambache; dos Estados Unidos, V. Hamburger, Porter; de outros países, entre outros, Stâmpfli (Alemanha), Bovet (Itália), Celestino da Costa (Portugal)). A abordagem de um tema era sempre feita em alto nível, com o enfoque em seus vários ângulos: eletrofísiológico, farmacológico, bioquímico, auto-radiográfico estrutural e ultraestrutural. No aspecto mais propriamente fisiológico essa intensa atividade de pé até hoje, tem, até nossos dias, produzido especialistas de renome internacional, além do próprio Carlos Chagas, como A. Leão (depressão alastrante), Paes de Carvalho (miocárdio). O segredo do sucesso do empreendimento de Chagas foi o intenso intercâmbio que soube manter com laboratórios de pesquisa adiantados da Europa e dos Estados Unidos. Com a reforma universitária o Instituto de Biofísica englobou a cátedra de fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro.

São Paulo. O Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de São Paulo foi inaugurado por Ovídio Pires de Campos, no início de 1914, e antecipando cerca de duas décadas, a tendência da futura Universidade de Paulo, a Faculdade de Medicina fundada por Arnaldo Vieira de Carvalho buscou nos centros mais adiantados da Europa alguns dos primeiros mestres das suas cadeiras básicas. De abril a agosto o departamento foi dirigido por Lambert Mayer, da Université de Nancy. Com seu retomo à Europa o departamento foi dirigido por O. Pires de Campos até janeiro de 1917. A esse tempo (1914), Etheocles de Alcântara Gomes que já trabalhava na cadeira como primeiro preparador tornou-se, em 1917, catedrático. Formado no Rio, Ethocles Gomes fora interno de Miguel Couto e aí defendera sua tese de doutoramento sobre fisiopatologia e patogenia da crise convulsiva. Desenvolveu na faculdade de medicina um curso de fisiologia prático e experimental, mas nem teve tempo para pensar em prosseguir, pois morreu no ano seguinte, durante a gripe espanhola. O que produziu teve efeito pragmático: fisiologia neuromuscular da faringe. Criou um método de ausculta dos batimentos cardíacos, com o ap. laringo-tráqueo-brônquico, a "Escuta Traqueal do E. Gomes".

Ele foi substituído por Cantídio de Moura Campos, que tomou como assistente Franklin de Moura Campos. Em 1929, Cantídio voltado para a clínica médica, deixou a fisiologia. Franklin que, no mesmo ano, se tornou o novo catedrático, tomou como assistente Alberto de Cavalcanti que veio a substituí-lo na cadeira, em 1963. Tendo sido afastado em 1969, pelo regime militar, a direção do departamento ficou a cargo de César Timolaria até a incorporação, em 1970, ao Departamento de Fisiologia e Farmacologia do recém criado Instituto de Ciências Biomédicas da universidade de São Paulo.

Franklin permaneceu até sua morte, em 1963, na cátedra, realizando profícuo trabalho didático e de pesquisa, recrutando elementos para esta e fomentando investigação experimental. Na verdade, foi com os dois Moura Campos que se iniciou a pesquisa fisiológica na Faculdade De medicina. Cantídio, antes de assumir a cátedra estagiara na Alemanha. Em 1919, publicara um estudo sobre a recém descoberta secretina, como reguladora da secreção pancreática. Em 1930, com o sobrinho Franklin, estudou a inervação da laringe, revelando a presença de fibras aferentes no nervo recorrente de grande significação para as funções laríngeas. Franklin estagiou na Harvard, distinguido pelo grande Cannon, foi o primeiro brasileiro a fazer o curso de verão do Biological Laboboratory de Woods Hole.
No retomo ao Brasil, Franklin iniciou na Faculdade de Medicina uma linha de pesquisa que haveria de prolongar-se até hoje, fisiologia da nutrição e metabolismo, Contando com a colaboração de O. Paula Santos, Dutra de Oliveira, D. Orsini, Cyro Nogueira e outros dos primeiros anos. Essa linha de pesquisa produziu dezenas de trabalhos no campo das avitaminoses experimentais e da nutrição, atraindo elementos de outros estados. Numerosos clínicos locais, que acabaram diferenciando-se como investigadores de problemas de fisiopatologia. Essa atração de clínicos pela pesquisa que existiu desde o início no Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina constitui um dos pontos alto de sua atividade, mesmo na sua fase posterior como Departamento de Fisiologia e Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas. Após a Reforma da USP. Franklin homem de grande clarividência e liberdade, permitiu que seus jovens colaboradores melhorassem suas capacidades onde achassem que isso seria possível, e recrutassem pessoas não médicas em outros departamentos, como alguns formados em química pela então compreendida Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, e acabou encontrando um dos seus mais legítimos sucessores, Alberto Carvalho da Silva, seu assistente. No início de carreira, Alberto estagiara no Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, e impressionado com a qualidade dos trabalhos ali executados teve a aquiescência de Franklin para tomar como colaboradora a química Rebeca de Angelis. Em 1964, Alberto Carvalho da Silva, sucessor de Franklin, reestruturou e modernizou o Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina, diversificando amplamente linhas de pesquisa e admitindo novos valores. Carvalho da Silva tornara-se um pesquisador no campo de absorção, incorporação e excreção de vitaminas, especialmente da tiamina. Estagiara na Yale University e no MIT de Boston. Com o seu lamentável afastamento da cátedra, a linha de pesquisa por ele chefiada ficou a cargo de Rebeca Angelis.

Desde seu início na Faculdade de Medicina, o setor de Fisiologia do Departamento de Fisiologia e Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP publicou centenas de trabalhos, muitos dos quais em revistas estrangeiras. Desde o início também houve intenso intercâmbio com departamentos congêneres nacionais e estrangeiros, e por docentes para assumir regência ou iniciar pesquisa em outras escolas, tais como Botucatu, Campinas e Londrina.

A partir do meio da década de cinqüenta, o departamento passou a desenvolver outras linhas de pesquisas, incluindo aí pesquisas em neurociências (neurofisiologia), propriamente ditas, como as desenvolvidas por César Timolaria, Nùbio Negrão e Massako Kadekaro, abrangendo as áreas de regulação neural, funções vegetativas, neuroanatomia funciona e rítimos biológicos.

No Estado de São Paulo, como decorrência da expansão do ensino superior ocorreu o que poderíamos chamar de "interiorização” da pesquisa fisiológica, ou seja, execução fora da Capital. Isso se deu primeiramente em Ribeirão Preto, quando o governo Estadual permitiu que a USP aí instalasse a modelar Faculdade de Medicina que iniciou as suas atividades no início dos anos 50. Escolhendo com critério seus docentes, essa Faculdade conseguiu no caso da fisiologia (como nos demais) formar um excelente “staff. O Departamento de Fisiologia da FMRP é originário da antiga cátedra de fisiologia implantada em 1953 sob a regência do Prof. Laget, neurologista da Sorbonne. O prof. Laget permaneceu na FMRP cerca de um ano e retornou à França. Para substituí-lo na regência da cátedra veio, em 1953 o prof. Miguel Rolando Covian, discípulo dileto de Bemardo Houssay e que trabalhou também com fisiologistas destacados como phillip Bard, Carl Richter Vernon Mountcastle e foi um dos pioneiros da neurofisiologia no Brasil e na América Latina. Covian Trocou a trepidante Büenes Aires pela tranquilidade da fazenda em que se instalou a Faculdade de Ribeirão Preto. Agrupou ele, em tomo de si jovens valores atraídos de outras partes do país ou formados localmente, bem como alguns tarimbados fisiologistas. Pesquisando o sistema nervoso central, Covian com seus colaboradores, realizou”. trabalho de alta envergadura sobre atividades cortical e cerebelar, hipotálamo, formação reticula, etc. Nesse campo seus colaboradores mais íntimos foram César Timolaria (atualmente em São Paulo), J. Antunes Rodrigues e Ricardo F. Marseilian. Em outras áreas do Departamento destacaram-se Eduardo M. Krieger (pressoreceptores) e J.V. Pereira Leite (respiração) Do laboratório de Covian saíram C. E, Negreiros de Paiva para organizar o Departamento de Fisiologia da Universidade de Campinas onde trabalhou em hemodinâmica e reflexos e C. Linder, para o Departamento de Fisiologia da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, onde estudou o metabolismo lipídico, em condições experimentais. De modo geral, a atividade de pesquisa em Fisiologia surgiu mesmo em locais que supostamente nem haveria condições para tal, como na Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araçatuba, com trabalhos sobre hemodinâmica (Mello, Maciel e Miguel).

Retomando à Capital, não se poderia deixar de mencionar novamente a pesquisa fisiológica que Thales Martins realizou no Instituto Butantã, como continuação da que fazia no Rio, no início dos anos 30. Contou com a colaboração daquele que se tomaria um dos nossos mais: importantes farmacologistas, J. Ribeiro do Valle. Do Butantã, Thales Martins saiu para a regência de fisiologia da recém-criada Escola Paulista de Medicina (1933), sendo sucedido por Enéas Galvão. Galvão, da escola do Álvaro Ozório de Almeida, notabilizou-se também por uma série de trabalhos de aplicabilidade da lei da superfície de Rubner-Richet a mamíferos nos trópicos

O antigo Departamento de Fisiologia Geral e Animal da Faculdade de Filosofia veio a se constituir, posteriormente, no Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências. Desde sua criação, o Departamento promoveu inúmeros cursos de especialização científica, manteve intenso intercâmbio científico, publicando uma grande cópia de trabalhos em revistas nacionais e estrangeiras. Atualmente dá cursos de mestrado e de doutorado, recebendo muitos alunos de outros estados. Do Departamento saíram pesquisadores que implantaram em outros estados a pesquisa em fisiologia comparativa animal, como é o caso de Porto Alegre, com Maria Marques e G. Mendes que formou um pequeno núcleo de pesquisa na Faculdade de Filosofia de Rio Claro.



Belo Horizonte. A fisiologia nasceu em Minas Gerais com a ida para Belo Horizonte de Otávio Magalhães, em 1912. Como estudante de medicina, Magalhães estagiara em Manguinhos, no Rio, e recebera a influência de Souza Gomes, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Rocha Lima. Magalhães aceitou o convite de Ezequiel Dias para trabalhar na"filial" de Manguinhos” em Belo Horizonte e logo foi convidado para a cátedra de Fisiologia da recém-fundada Faculdade de Medicina de Minas Gerais. Com Magalhães se iniciou na medicina e na fisiologia pesquisas experimentais no Estado. A filial de Manguinhos, com Ezequiel Dias e Magalhães, era o único local onde se podia na época fazer pesquisa experimental. Possuía várias linhas de investigação: venenos animais (cobra, escorpião) soros e vacinas. Adotando essas linhas, Magalhães e seus colaboradores publicaram de 1914 a 1941 cerca de 290 trabalhos. Essa atividade atraiu naturalmente para o Instituto jovens professores da Faculdade de Medicina para iniciação no método experimental, na elaboração de teses para docência e cátedra. O maior enfoque fisiológico da obra de Magalhães foi nas pesquisas sobre o veneno do escorpião, animal que causava grandes transtornos nas Metalúrgicas de Minas. A facilidade da obtenção do veneno e a dramaticidade fisiopatológica e farmacológica decorrentes das picadas constituíram uma perene foco de motivação para pesquisa. Magalhães estudou a relação dose-efeito, o mecanismo de ação. Concluindo pela atuação da toxina no sistema nervoso autônomo; por esta via atuaria sobre o coração e a respiração Seu colaborador mais íntimo nessa linha de pesquisa foi Evandro de Barros.

Com a mudança de orientação imprimida pelo governo estadual Magalhães afastou-se da sua direção, disso resultou na estagnação da pesquisa fisiológica e médica em Minas, por volta de 1940. Por outro lado, porém, a Fundação Rockefeller começou a fornecer bolsas de estudos a jovens professores de fisiologia da Escola de Veterinária para estágios no exterior. Isso possibilitou o aparecimento em Minas de um grupo de fisiologistas (A. M. Wilweth, V. P. Val, T. A. da Costa Cruz, J. M. Pessoa) que reformulou o ensino na Escola de Veterinária, instalando também a pesquisa. Esse grupo estudou a nutrição de ruminantes, utilizando-se de modernas técnicas fisiológicas e bioquímicas. Em outras unidades mineiras de ensino superior, de cunho biológico, a atividade de pesquisa em fisiologia foi esporádica ou ausente. Com o agrupamento dessa unidade e da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais federalizada, as coisas começaram a melhorar. Em 1960, aposentou-se Otávio Magalhães, e atendendo um chamado do seu velho mestre, Prof. Baeta Vianna, Wilson T. Beraldo deixou a opulenta Universidade de Paulo para regressar à sua Beto Horizonte e substituir Magalhães. Beraldo, na ocasião granjeara a reputação internacional de cientista e por isso o Dr. Watson, da Fundação Rockefeller, estimulou-o vivamente, além do que a Fundação lhe propiciaria os recursos para a criação de um centro de pesquisa fisiológica na capital mineira. Beraldo não tardou em atrair jovens para o seu Departamento de Fisiologia. Promoveu seminários, reorganizou a régia Sociedade Brasileira de Biologia, criou em suma uma atmosfera altamente estimulante de trabalho científico.



Porto Alegre. A fisiologia começou a ser ensinada em Porto Alegre muito cedo, na Faculdade de Medicina, fundada dois anos antes. Em 1908, F. de Barros transformou o ensino verbal em experimental num laboratório instalado no Instituto Oswaldo Cruz local. Em 1914, instalou nesse mesmo acanhado local um Gabinete de Fisiologia. Tomou como colaborador um jovem chamado Raul Pilia. Daí por diante Barros dividia com Pilia as atividades didáticas, até que este último se tornou catedrático em 1926. A pesquisa de cunho experimental continuava a faltar e Pilia, como é bem conhecido, envolveu-se profundamente na militância política, sendo, inclusive exilado em 1932. Não obstante fomentava nos outros o interesse pela pesquisa e encontrou em Pery Riet Corrêa, assistente, o elemento que iniciaria a fase de pesquisa na fisiologia gaúcha. Riet estagiara em Bueno Aires no Instituto de Biologia y Medicina Experimental. Em 1953, Riet é colocado em tempo integral e a cadeira de fisiologia se converte no Instituto de Fisiologia Experimental, fato que possibilitou o recebimento de doações da Fundação Rockefeller, o que possibilitou o aumento do pessoal científico, como Maria Marques, já citada e Tuiskon Dick. Em 1955, o Instituto começou a ser freqüentado por bolsistas, inclusive de outros estados. No ano anterior, estagiara no mesmo um grupo de pesquisadores argentinos capitaneado por Bernardo. Houssay (Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia), e constituída também por Braun-Menendez, Foglia, e Covian, este depois, como já foi citado, mudou-se para Ribeirão Preto.A ida desses especialistas argentinos a Porto Alegre é um exemplo marcante da necessidade de nossos centros de pesquisa (incipientes ainda em muitíssimos aspectos) de receberem a influência de centros mais adiantados, seja enviando a estes seus jovens pesquisadores, seja contratando equipes para estágios locais. Pode se dizer que, a partir do estágio dos argentinos em Porto Alegre, o Instituto de Fisiologia Experimental local passou a ser um centro regular de pesquisa e de recrutamento de pessoal para o trabalho experimental. A endocrinologia e a fisiologia da circulação ganharam grande proeminência como objeto de estudo, a partir do 1954. A endocrinologia ligada à circulação, envolvendo a ação de hormônios e neuro-hormônios repetidamente estudada pelo mestre Osório de Almeida também ganhau importância no campo da pesquisa. Eduardo Moacyr Krieger, que em 1957, foi para Ribeirão, trabalhar com Covian, mas lá permaneceram: Maria Marques e Magalhães e Hesse que se ocuparam das influências hormonais na secreção salivar, no estudo da extração e liberação da insulina etc.

Posteriormente, a fisiologia foi ensinada e pesquisada na UFRGS no Departamento de Fisiologia, Farmacologia e Biofísica, produto da fusão do antigo Instituto de Fisiologia Experimental, da cadeira de Farmacologia, da cadeira de Biofísica e do setor de Fisiologia da cadeira de Zoologia, incluindo ainda o setor de Biofísica e a secção de Genética do Instituto de Ciências Naturais.



Recife. Embora o ensino da fisiologia no Recife fosse anterior ao ano de 1943, mas como a cadeira estava entregue a um otorrinolaringologista, a pesquisa somente se iniciou quando Nelson Chaves se tomou professor catedrático. Com relação à bibliografia especializada e ao equipamento, Chaves partiu, praticamente, do ponto em que se encontrava, pois antes mesmo que a Faculdade de Medicina do Recife se incorporasse à Universidade, Chaves e seus colaboradores criaram o Instituto Álvaro Ozório de Almeida local, devotado ao estudo da fisiologia, da técnica operatória e da histologia. Com maiores recursos e com verbas federais, as pesquisas começaram a se dirigir para os campos da fisiologia da nutrição. Foi, logo a seguir, criado o Instituto de Fisiologia e Nutrição, inicialmente na cadeira de Fisiologia da Universidade. A pesquisa fisiológica local passou a ser subvencionada pela Fundação Rockefeller, CNPq, CAPES, Instituto do Açúcar e do Álcool e Cia. Nestlé. A biblioteca especializada foi grandemente beneficiada com doações da de Miguel Ozório de Almeida, do professor francês A. Monnier e da Fundação Kellog. O intercâmbio de professores, proferindo conferências, ministrando cursos ou realizando trabalhos experimentais foi fecundo. Estiveram no Recife os nobelistas Houssay, Bovet, Adrian, Hey Leloir e von Euler; os especialistas Brooks. Wang, Malcom. Foglia, Luco. Chavez, L. Maranõn Grasse, Barron, Pantin, Rushton, Reynolds, Monnier, Bacq e Molnar. A lista de estrangeiros é bem maior e atesta o interesse da escola do Recife em se aproveitar da passagem ou estada entre nós de famosos fisiologistas. Dos nacionais também estiveram lá, repetidamente: Chagas Filho, Rocha e Silva, Sollero, Sawaya, Rolando Covian, Timolaria e outros. Em 1965, dez pesquisadores do Interdepartamental Commit Nutrition dos Estados Unidos estiveram no Recife e de suas pesquisas, às quais se associaram elementos locais, resultou um survey de 294 páginas sobre as condições dos problemas do Nordeste brasileiro.

A partir de 1943, a pesquisa fisiológica no Recife consagrou-se a problemas da nutrição num sentido altamente pragmático. Alimentos locais foram estudados do ponto de vista de seus valores protéicos e coeficientes de digestividade, teor vitamínico e riqueza. Apesar de sua consagração no campo da pesquisa nutricional, a fisiologia local não se descuidou de outros setores, como o endocrinológico. Nesse campo, surgiram investigações sobre o hipotálamo, e hipoglicemiantes de alimentos naturais. A qualidade dos trabalhos assegurou a sua publicação em revistas especializadas estrangeiras, tais como a Physiologica Latino-americana, Anuais of the New York Acad. Sciences, Rev. Faa Medicina México e, também, periódicos nacionais, tais como Rev. Brás. Medicina. Arq. Brás. Nutrição. Dispondo de moderno equipamento para a pesquisa nos campos da nutrição, endocrinologia e eletrofisiologia e para o ensino regular da fisiologia, o grupo do Recife se preocupou com a formação de pesquisadores e de elementos para o magistério superior. Assim, muitos dos seus membros realizaram estágios no exterior, freqüentando laboratórios tais como o de Houssay (Bueno Aires), em Paris (Sorbonne. Institut Pasteur), Aberdeen (Escócia), e no próprio país (São Paulo, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro). Como resultado dessa preocupação, de Recife saíram pesquisadores que foram pesquisar e ministrar ensino da fisiologia na Bahia (Bandeira), Alagoas (N. Lopes), Campina Grande (M. Barros), Natal (C. Matias), Belo Horizonte (Mendonça), Ceará (J. Roncy), Brasília (P. Saraiva). Entre os primeiros e mais íntimos colaboradores de N. Chaves na instalação da pesquisa fisiológica, no Recife, cabe a Oswaldo C. Lima e Naíde Regueira Teodósio. Após uma longa e profícua atividade Chaves afastou-se da chefia do Departamento de Fisiologia da UFPE, em 1973, sucedido por W. Ladosky que se transferiu de Curitiba.

Curitiba. 1913 assinala a início do funcionamento da cadeira de Fisiologia da Universidade do Paraná, entregue ao Prof. N. da Silva Cairo, voltada para os estudantes de medicina, farmácia e odontologia. Em 1934, a cadeira passou a construir um todo com a farmacologia. Em 1937, tornou-se regente de fisiologia o Prof. A. P. dos Santos, que, em 1937, tomou como assistente A. Oliveira Cruz. Com ele começa a surgir uma preocupação maior com a pesquisa fisiológica em Curitiba. Todavia, de 1913 até 1949, o que se produziu foram livros e monografias, visando mais ao aspecto médico e, esporadicamente, à toxicologia farmacodinâmica de produtos naturais (vegetais). Ao tempo de jubilação do Prof. Santos o Departamento de Fisiologia da agora Universidade Federal do Paraná contava com Azório (que se tornou titular), Karam e um pequeno grupo de auxiliares de ensino. Com a reforma universitária, o Departamento se integrou ao Instituto de Biologia da Universidade. Em busca do treinamento na pesquisa fisiológica, Azório estagiou repetidamente em São Paulo (Faculdade de Medicina USP e Escola Paulista de Medicina), no Rio (Manguinhos e Faculdade Nacional de Medicina) e até em Porto Alegre (grupo Riet); realizou viagens ao exterior: Argentina, Uruguai, (Europa). Sua atividade de pesquisa se iniciou com a farmacodinâmica dos basâlmicos, interessou-se pelo teste vitamínico e o valor nutritivo de alimentos. Ocupou-se também de avitaminose e glândulas salivares. Com a chegada a Curitiba de C. Y. Chiang, Azório começou a promover um estudo eletrofísiológico, à distrofia muscular por avitaminose E.

Chiang, graduado em Taiwan e mestre em ciência na Flórida, após breve estágio com Chagas no Inst. Biofísica do Rio foi para o Paraná em 1967. Seu treinamento em neurofisiologia e fisiologia do sistema nervoso central foi adquirido na Flórida, Seattie, Hamburgo (Prof. Stãmpfli). Além da colaboração prestada a Azório, trabalhou a atividade elétrica de células musculares de (minhocas) e transmissão neuromuscular do peixe elétrico, obtendo resultados que foram publicados em revistas estrangeiras (Ar Physiol. Biophysica Biochimica Acta, p.ex.).

Na Universidade Católica do Paraná, a partir de 1965, Waldemar Ladoski (oriundo do laboratório de Fisiologia da antiga Faculdade Nacional de Medicina do Rio), desenvolveu pesquisa fisiológica envolvendo o hipotálamo e o controle da ovulação. Com a transferência de Ladoski para Recife, tornou-se titular de fisiologia J. L. Noronha. Os resultados dos trabalhos foram publicados na Acta Endocrínologica e no Joumal of Endocrínology.


Conclusão sobre neurociência no Brasil

A história da fisiologia do sistema nervoso em qualquer país confunde-se com a própria história da Fisiologia, a disciplina da Biologia que estuda o funcionamento dos seres, segundo a acertada, mas pouco conhecida e ainda menos acatada definição de Jean F. anunciada no século XVI. Essa vinculação resulta do fascínio que o sistema nervoso exerceu e exerce sobre cientistas e leigos, a ponto de que todos os fisiologistas do passado terem se interessado pela neurofisiologia, ao menos em alguma etapa de sua vida profissional. No século V a.C. Alkmaeon, discípulo de Pythagoras na região da Magna Grécia que é a Calábria italiana, descobriu o nervo óptico e chegou ao avançado conceito de que o sistema nervoso, particularmente o encéfalo, é a sede das sensações e da atividade mental. Na mesma época, outro grande grego, Hipócrates, fundador da medicina objetiva, expressou conceito semelhante ao afirmar que "é no encéfalo (enkephafon), e somente no nele que nascem nossos prazeres, alegrias, os risos e as graças, assim como as tristezas, angústias e o pranto. É por ele que pensamos, vemos, ouvimos e distinguimos o feio do belo, o mau do bom, o agradável do desagradável. È o mesmo encéfalo que nos loucos ou delirantes, nos inspira pavor e o medo, seja de noite ou de dia, que nos traz o sono e o engano, o indesejável, a ansiedade inútil, a distração e os atos contrários à nossa consciência e que muitas vezes nos torna enfermo". É admirável a conceituação de Hipócrates que 25 séculos atrás atribuía ao sistema nervoso a gênese da mente em todas as formas normais, mas também em suas manifestações psiquiátricas. Enquanto Hipócrates que vivia na modesta porção insular da Magna Grécia que era a ilha de Cós, escapava dos críticos da objetividade, Alkmaeon, que habitava um dos principais núcleos da cultura continental, era acerbamente criticado, sobretudo pelo influente Parmênides que não acreditava que os sentidos, a observação e a experimentação pudessem revelar segredos da mente. Esse retrógrado conceito é ainda muito poderoso em nossos dias. AIkmaeon chegou a ser vítima de perseguição política por suas idéias avançadas.

Outro motivo pelo qual a história da neurofisiologia se confunde com a história da Fisiologia é que toda e qualquer função do organismo animal, dos invertebrados à espécie vertebrada mais evoluída (por enquanto), o Homo sapiens, é gerada, regulada ou pelo menos modificada pelo sistema nervoso. Os estudiosos dos sistemas cardiovascular, respiratório, digestivo, imunológico, endócrino e renal sempre tiveram de investigar sua regulação nervosa Quanto mais se estuda a fisiologia nervosa cada vez menos se pode dissociar o e anatômico (sobretudo hodológico) da abordagem funcional do sistema nervoso.

No Brasil, o estudo experimental e sistemático da Fisiologia começou, sem dúvida, com irmãos Álvaro e Miguel Ozório de Almeida, no Rio de Janeiro, os quais também iniciaram (principalmente Miguel Ozório) as pesquisas em neurofisiologia. Membros de uma família de alto gabarito cultural, os dois irmãos montaram um autêntico Instituto de Fisiologia em casa, na qual inventaram a Fisiologia brasileira. Muito interessado no estudo metabolismo, Álvaro Ozório criou uma escola nesse campo, que culminou com seu discípulo Paulo Enéas Galvão, que foi para o Instituto Biológico de São Paulo e tornou-se o segundo professor de Fisiologia da recém-criada Escola Paulista de Medicina, substituindo outro discípulo carioca, Thales Martins que, em parceria com Ribeiro do Valle, ajudou fundar a neuroendocrinologia brasileira.

Miguel Ozório de Almeida, entretanto, pesquisou a vida toda fisiologia e fisiopatologia do sistema nervoso. No ano de 1944 ele que, diga-se de passagem, era exímio pianista, literato, publicou um erudito livro sobre os processos de inibição e facilitação no sistema nervoso central e periférico (Linhibition et Ia facilitation dans le système nerveux ce périphérique). Miguel Ozório sentia particular atração pelos mecanismos das epilepsias tendo realizado extensos estudos em epilepsia experimental, nos quais envolveu Moussatché, que pesquisou nesse campo durante quase toda a sua vida. Vários fisiologistas dedicados ao estudo do sistema nervoso, nos anos 30 e 40, estiveram sob a influência direta ou indiretamente de Miguel Ozório, destacando-se, além de Moussatché, Ulysses Vianna Dias, Tito Cavalcanti e Carlos Chagas Filho.



Aristides Azevedo Pacheco Leão tomou-se o mais célebre neurofisiologista brasileiro ao descobrir a depressão alastrante, quando se doutorava na Harvard Medica School, em 1944. Esse ainda enigmático fenômeno vem sendo desde então estudado, ininterruptamente, por pesquisadores brasileiros, europeus, americanos e japoneses, com a possibilidade de estar implicado na interrupção de crises epilépticas. Leão, de tradicional família do Rio de Janeiro, veio em 1932 estudar Medicina na Faculdade de Medicina de São Paulo (ainda não parte da Universidade de São Paulo, a qual seria criada apenas em 1934), mas adoeceu (talvez devido ao inóspito clima da cidade que naqueles tempos era muito fria e incomodamente úmida no inverno e caracterizada pela chuva e por onipresente garoa durante mais de metade do ano), e retornou ao Rio de Janeiro e anos mais tarde foi doutorar-se nos Estados Unidos. Após sua volta Leão juntou-se a Carlos Chagas Filho no recém-criado Instituto de Biofísica e agregou numerosos discípulos, dentre os quais se salientou Hiss Martins Ferreira, que continua pesquisando a depressão alastrante. Martins Ferreira descobriu a depressão alastrante na retina, criando um modelo hoje usado em todo o mundo.

Carlos Chagas Filho, cujo pai, Carlos Chagas, realizou extraordinária obra em Medicina (descobriu a moléstia que leva seu nome), fundou o Instituto de Biofísica, como anexo da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e foi pioneiro no estudo dos mecanismos da transmissão química, usando como modelo a eletroplaca de peixes elétricos. No Instituto de Biofísica, Chagas Filho cercou-se de alguns cientistas ilustres, entre os que já citados Aristides Azevedo Pacheco Leão e Hiss Martins Ferreira de início. Durante temporada que passou no Instituto de Biofísica logo após a segunda guerra mundial Levi-Montalcini fez experimentos cruciais para a descoberta do primeiro fator de crescimento neural.

No final da década de 1950 dois eminentes fisiologistas saíram das fileiras da Faculdade Nacional de Medicina e se juntaram a Carlos Chagas Filho: Eduardo Oswaldo Cruz Filho e Carlos Eduardo Guinle da Rocha Miranda. Os descendentes dos acadêmicos OswaIdo-Cruz e de Rocha-Miranda constituem hoje multidão. Além de eletrofisiologistas, esses dois importantes cientistas iniciaram no Brasil a neuroanatomia hodológica, dedicando-se, sobretudo ao estudo dos sistemas visual e olfativos dos gambás e macacos. São muitos os descendentes científicos de Oswaldo-Cruz e Rocha-Miranda pelo próprio Instituto de Biofísica da UFRJ e outros espalhados pelo Brasil, inclusive um forte núcleo especializado em fisiologia visual em Belém, Pará, e um grupo no Departamento de Fisiologia e Biofísica da USP em São Paulo que realiza pesquisas em neuroanatomia hodológica, iniciado com Sarah Shammah Lagnado, treinada que foi no Instituto de Biofísica. Rocha-Miranda foi o primeiro biólogo brasileiro a utilizar computação eletrônica em pesquisas no Brasil. Seu Digital tomou-se disputadíssimo quando ainda não era o computador do país uma instituição dedicada ao estudo da Biologia.



Outro grande pioneiro da neurofisiologia no Brasil foi, sem dúvida, Miguel Rolando Covian que em 1955 veio da Argentina para dirigir o então Departamento de Fisiologia e Biofísica da Faculdade de Medicina que a Universidade de São Paulo instalara em Ribeirão Preto, em 1952, e lá criou uma escola com ramificações por todo o Brasil. Covian, discípulo do gigante Houssay, tinha forte cultura em fisiologia, navegando bem em fisiologia endócrina, cardiovascular e nervosa. Oriundo de importante laboratório de fisiologia endócrina, Covian foi, independentemente de Thales Martins e Ribeiro do Valle, um dos criadores da neuroendocrinologia. Seu principal herdeiro é José Antunes-Rodrigues, atual presidente da Sociedade Brasileira de Fisiologia e um dos grandes nomes da neuroendocrinologia moderna, que também muito ajudou a criar. Os discípulos de Antunes-Rodrigue espalham por várias universidades brasileiras, sendo de se notar os da Faculdade de Odontologia da UNESP em Araraquara, SP e os da Universidade Federal da Bahia.

César Timolaria também descendente de Covian (que foi seu mestre em eletrofisiologia) tem muitos discípulos que são ou foram professores titulares, alguns até no exterior. Merece ser destacado dentre esses titulares Roberto Giorgetti Britto, que também fez escola, com discípulos na Universidade de Paulo e em outros Estados do Brasil, e Armando Freitas da Rocha, que pontifica na UNICAMP, onde se tornou um grande experto em matemática aplicada à Biologia. Nos Estados do Norte e Nordeste a Neurofisiologia conta com bons laboratórios no estado do Pará e em Salvador, o primeiro com raízes no Instituto de Biofísica, o segundo em Ribeirão Preto, de onde também se originou o grupo de Luiz Carlos Schenberg, em Vitória, Espírito Santo, o qual descende de Frederico Guilherme Graeff, líder de pesquisas sobre comportamentos defensivos.

Em Minas Gerais a Neurofisiologia teve desenvolvimento modesto, mas há que destacar alunos de Covian que pesquisam em neuroendocrinologia e Fernando Pimentel que estuda comportamentos. No Paraná há um grupo em Curitiba, criado por Chang Yong-Chang, um em Londrina e outro, ainda incipiente, em Maringá. Em Santa Catarina os grupos descendem de José Marino Neto, por sua vez é descendente de Juarez Aranha Ricard, USP.

No Rio Grande do Sul destaca-se o Centro de Memória, no qual o grupo de pesquisas criado por Ivan Izquierdo é, sem dúvida, um dos mais importantes do mundo na atualidade, e o grupo de neuroanatomia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Os campos da Neurobiologia em que os brasileiros trabalham são múltiplos. Destacam-se os estudos de fisiologia e hodologia do sistema visual, realizado no Instituto de Biologia do Rio de Janeiro, em Belém do Pará, e no Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Também merece destaque, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a pesquisa feita por Fix Ventura e seus colegas, que há muitos anos vêm estudando várias características do sistema visual, sobretudo os sensores visuais, campo em que seu grupo se destaca internacionalmente. No Instituto de Psicologia, USP; estuda-se comportamentos defensivos, fisiologia do sono no Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de Paulo, fisiologia da atividade mental no Instituto de Biofísica da UFRJ, no Centro de Neurociências e Comportamento e no Laboratório da Faculdade de Medicina, ambos da USP.

No Departamento de Neurofisiologia, as primeiras experiências em sistema nervoso central com registro da atividade elétrica no córtex cerebral de mamíferos anestesiados foram de Alberto-Fessard e os estudantes de medicina Eduardo Oswaldo-Cruz e Carlos Eduardo Miranda. Desse núcleo surgiram várias linhas de pesquisa que estão concentradas em grupos. Um denominado Laboratório de Fisiologia da Cognição sob a orientação do Titular Ricardo Gattass, e seus colaboradores estudam ressonância funcional da percepção em primatas humanos e não humanos e estudos anátomo-eletrofisiológico do córtex visual. Ainda no mesmo programa de Neurobiologia, o Prof. Titular Fernando G. Mello, atual coordenador do programa, pesquisa no laboratório de neuroquímica juntamente com o laboratório de neurobiologia chefiado pela Profa Jan N. Hokoc. Anexo a este grupo de fisiologia do sistema nervoso, desde 1945 funciona o laboratório que leva o nome de Aristides Leão, Ph.D. na Harvard University e descobridor da depressão alastrante, ou onda de depressão de Leão. Após seu falecimento esta linha de pesquisa continua sob orientação de H. Martins-Ferreira.








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