Newton aquiles von zuben



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Apesar do estilo, muitas vezes, parecer romântico e o jogo de palavras atingirem um máximo grau de perfeição e beleza, intraduzíveis, a mensagem profunda é anti-romântica. Suas expressões recusam qualquer afetação. Por exemplo, a força extraordinária que Buber confere ao conceito de “presença” é responsável pela mudança de perspectiva em tópicos como Deus, encontro, liberdade, responsabilidade.

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O encontro entre Deus e o homem não se realiza em lugar ou tempo determinados, mas acontece aqui e agora, na presença; cada lugar é lugar, cada tempo é tempo. Os gregos enfatizavam e glorificavam a visão. Lemos em Heráclito, no fragmento 101a, “Os olhos são melhores testemunhas que os ouvidos”. Os seus deuses eram representados visualmente através de belas imagens. Os hebreus não visualizavam o seu Deus. Ele era invisível. Ele só podia ser ouvido. Vimos a ênfase da afirmação de Buber. Não se pode falar Dele, mas falar com Ele. Ele não é um objeto de observação ou culto; Ele só pode ser encontrado na presença que a cada vez é única e insubstituível. Ele é um TU atemporal, um TU eterno.

O modo como Buber apresenta EU E TU, como ele nos fala, lança a nós um desafio: qual é o modo pelo qual vamos entrar em contato com a obra? Como dissemos, o conteúdo enigmático de certas passagens nos faz compreender que estamos diante de um livro que não pode ser lido só uma vez. É um estilo provocador que exige atenção e talvez duas ou três leituras. Devemos ouvir o que ele tem a nos dizer em vez de procurar um conteúdo programático ou sistemático que apresenta fórmulas estereotipadas através de jargões modísticos, soluções fáceis e imediatas para o “mal de nosso século”. Se alguém considerar EU E TU como um ensaio filosófico no sentido técnico do termo, tentando rever a falsidade ou a verificabilidade de um argumento ou de uma afir-

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mação, acharia, neste livro, campo para uma crítica arrasadora. Se ao contrário, estivermos atentos e dispostos a ouvir, dialogar, então veremos que a questão antropológica nos confronta, nos provoca, nos arrebata para o sentido do paradoxal.



Esta tarefa que empreendemos, fornecendo EU E TU em português, apresentou dificuldades para nós, pois estivemos conscientes da literal impossibilidade de traduzí-lo. Nossa pretensão em reler Buber foi tentar ouvir dele o que ainda quer nos dizer, 54 anos após sua primeira publicação, esta obra permanece atual e atuante. Estivemos menos preocupados com a beleza de estilo ou com a exatidão dos termos no vernáculo, do que com a fidelidade ao pensamento e com a responsabilidade para com a palavra do autor; deixamos, na medida do possível, as próprias palavras manifestarem sua intenção. Cremos não nos ter dado a ocasião de encarar o livro como um objeto diante do qual qualquer liberdade é possível; não nos é lícito manipulá-lo. Ele está aí, nos confronta e confronto não é batalha onde pode haver vencedor e vencido. Embora não possa haver coincidência entre as duas manifestações, do original e da tradução, acreditamos ter havido proximidade. Em vez de um conjunto de idéias e conceitos EU E TU é uma voz que nos chama para ajudá-la a se revelar. Para além da obra escrita, a palavra é referencial na medida em que faz apelo ao locutor ou escritor. Tal é o caráter de comunicabilidade do discurso, Ao confrontar a obra

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escrita, podemos retornar àquilo que foi supresso, que era a experiência existencial concreta como evento. A existência concreta deve ser compreendida, isto é, comunicada. Buber operou uma redução à ordem do discurso para poder no-la comunicar. O discurso apresenta um caráter dialético, isto é, ele é um evento que tem sentido, ou então, um evento que de algum modo se suprime no sentido. O evento é compreendido como sentido.

Traduzir um texto envolve peripécias e dificuldades; a tradução não deixa de ser de algum modo uma interpretação. Todo problema da tradução é implicado na relação entre o “mesmo” sentido e o outro “idioma”, ou na transposição de um mesmo sentido de um idioma em um outro. O mesmo paradoxo encontramos na experiência da leitura já que esta é uma experiência de reinvestimento ou de reinscrição do “mesmo” texto através de um “outro” meio. Ler, portanto, é produzir um novo evento do discurso que pretende ter o mesmo sentido em outro idioma. Aqui o que faz o papel de “outro idioma” são opiniões e perspectivas do leitor ou do tradutor. Podemos, assim, aproximar a tradução da interpretação. Compreender é, de certo modo, vencer as diferenças existentes entre dois códigos. Interpretar é aproximar-se das coisas que a linguagem nomeia apesar das diferenças das línguas. A tradução seria a experiência inversa da fala. Quando falamos, acreditamos que a palavra exata é a da nossa língua, sentimos que aquilo que desejamos di-

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zer não pode ser dito senão do modo que estamos acostumados dizer. Ou, retomando as palavras de Benveniste, o “intentado” do discurso adere ao significado de nossa língua. Na tradução, aparentemente, acontece o mesmo. Será que aqui o que realmente o autor quis dizer no texto não é inseparável das palavras originais e, por isso mesmo, intraduzível? Nossa consciência histórica, porém, afirma o contrário ao postular a possibilidade de tradução de qualquer texto. O pensamento enquanto “querer-dizer”, mesmo investido na linguagem, deve conservar certa distância que lhe possibilita des-investir-se para se re-investir de um modo diferente. Cremos poder retomar a aproximação que opera Gadamer da interpretação e da execução de uma peça musical. A interpretação é, para ele, quando executada, ao mesmo tempo única e diferente. E, no entanto, é sempre o mesmo texto ao qual é possível voltar como o “mesmo” de todas as interpretações que são “outras”. Do mesmo modo, é sempre a “mesma” peça musical que se manifesta através de diversas execuções que são sempre “outras”. Daí decorre a dificuldade de se tentar eliminar a interpretação subjetiva; tal eliminação acarretaria a possibilidade de uma execução perfeita, a verdadeiramente única.



Diante de tal problema, confessamos a dificuldade de traduzir a riqueza de sentido de inúmeros conceitos, de muitas palavras forjadas, neologismos pouco usados e sobretudo de

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jogos de palavras muito freqüentes em EU E TU. Então como traduzir o intraduzível? Contornamos em parte a dificuldade com algumas notas. Mesmo que para o leitor seja mais confortável a leitura das notas ao pé da página, preferimos colocá-las no fim, sacrificando o conforto em benefício da leitura e estudo do texto sem interrupções.
*
A nossa tradução foi elaborada a partir da 8ª edição de 1974, apresentada pela Editora Lambert Schneider. Os números à margem referem-se às páginas do original desta edição.

Nosso mais profundo agradecimento dirigimos ao senhor Rafael Buber, filho de Martin Buber que, através de uma carta a nós endereçada, amavelmente permitiu que EU E TU fosse mais divulgado em nosso meio. A ele nossa especial homenagem e cordial respeito. A Editora Cortez e Moraes acatou com otimismo nossa iniciativa em empreender tal tarefa; a ela também agradecemos.

Nossos agradecimentos ao colega prof. Fernando José de Almeida da PUCSP pelo seu trabalho de revisão gramatical; ao colega e amigo prof. Dr. Pedro Goergen da Faculdade de Educação da Unicamp pelas suas observações criteriosas sobre inúmeras passagens e conceitos. A Célia, companheira dedicada, que esteve sempre “presente” em nosso diálogo com Buber e que colaborou na revisão geral, nosso carinho.
Unicamp, fevereiro de 1977.

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PRIMEIRA PARTE

9 O mundo é duplo para o homem, segundo a dualidade de sua atitude.

A atitude do homem é dupla de acordo com a dualidade das palavras-princípio que ele pode proferir.

As palavras-princípio não são vocábulos isolados mas pares de vocábulos.

Uma palavra-princípio é o par EU-TU. A outra é o par EU-ISSO no qual, sem que seja alterada a palavra-princípio, pode-se substituir ISSO por ELE OU ELA.

Deste modo, o EU do homem é também duplo.

Pois, o EU da palavra-princípio EU-TU é diferente daquele da palavra-princípio, EU-ISSO.

*
As palavras-princípio não exprimem algo que pudesse existir fora delas, mas uma vez proferidas elas fundamentam uma existência.

As palavras-princípio são proferidas pelo ser.1

Se se diz TU profere-se também o EU da palavra-princípio EU-TU.

Se se diz ISSO profere-se também o EU da palavra-princípio EU-ISSO.

A palavra-princípio EU-TU só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade.

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10 A palavra-princípio EU-ISSO não pode jamais ser proferida pelo ser em sua totalidade.


*
Não há EU em si, mas apenas o EU da palavra-princípio EU-TU e o EU da palavra-princípio EU-ISSO.

Quando o homem diz EU, ele quer dizer um dos dois. O EU ao qual ele se refere está presente quando ele diz EU. Do mesmo modo quando ele profere TU OU ISSO, o EU de uma ou outra palavra-princípio está presente.

Ser EU, ou proferir a palavra EU são uma só e mesma coisa. Proferir EU ou proferir uma das palavras-princípio são uma só ou a mesma coisa.

Aquele que profere uma palavra-princípio penetra nela e aí permanece.


*
A vida do ser humano não se restringe apenas ao âmbito dos verbos transitivos. Ela não se limita somente às atividades que têm algo por objeto. EU percebo alguma coisa. EU experimento alguma coisa, ou represento alguma coisa, EU quero alguma coisa, ou sinto alguma coisa, EU penso em alguma coisa. A vida do ser humano não consiste unicamente nisto ou em algo semelhante.

Tudo isso e o que se assemelha a isso fundam o domínio do ISSO.

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O reino do TU tem, porém, outro fundamento.


*
Aquele que diz TU não tem coisa alguma por objeto. Pois, onde há uma coisa há também outra coisa; cada ISSO é limitado por outro ISSO, o ISSO só existe na medida em que é limitado por outro ISSO. Na medida em que se profere o TU, coisa alguma existe. O TU não se confina a nada.

11 Quem diz TU não possui coisa alguma, não possui nada. Ele permanece em relação.


*
Afirma-se que o homem experiencia o seu mundo.2 O que isso significa? O homem explora a superfície das coisas e as experiencia. Ele adquire delas um saber sobre a sua natureza e sua constituição, isto é, uma experiência. Ele experiencia o que é próprio às coisas.

Porém, o homem não se aproxima do mundo somente através de experiências.

Estas lhe apresentam apenas um mundo constituído por ISSO, ISSO e ISSO, de Ele, Ele e

Ela, de Ela e ISSO.

Eu experiencio alguma coisa.

Se acrescentarmos experiências internas às externas, nada será alterado, de acordo com uma fugaz distinção que provém do anseio do gênero humano em tornar menos agudo o mis-

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tério da morte. Coisas internas, coisas externas, coisas entre coisas!



Eu experiencio uma coisa.

E, por outro lado, se acrescentarmos experiências “secretas” às experiências “manifestas”, nada será alterado de acordo com aquela sabedoria autoconfiante que apreende nas coisas um compartimento fechado, reservado aos iniciados cuja chave ela possui. Oh! Mistério sem segredo. Oh! Amontoado de informações! ISSO, ISSO, ISSO!


*
12 O experimentador não participa do mundo: a experiência se realiza “nele” e não entre ele e o mundo.

O mundo não toma parte da experiência.

Ele se deixa experienciar, mas ele nada tem a ver com isso, pois, ele nada faz com isso e nada disso o atinge.
*
O mundo como experiência diz respeito à palavra-princípio EU-ISSO. A palavra-princípio EU-TU fundamenta o mundo da relação.
*
O mundo da relação se realiza em três esferas. A primeira é a vida com a natureza. Nesta esfera a relação realiza-se numa penum-

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bra como que aquém da linguagem. As criaturas movem-se diante de nós sem possibilidade de vir até nós e o TU que lhes endereçamos depara-se com o limiar da palavra.



A segunda é a vida com os homens. Nesta esfera a relação é manifesta e explícita: podemos endereçar e receber o TU.

A terceira é a vida com os seres espirituais. Aí a relação, ainda que envolta em nuvens, se revela, silenciosa mas gerando a linguagem. Nós proferimos, de todo nosso ser, a palavra-princípio sem que nossos lábios possam pronunciá-la.

13 Mas como podemos incluir o inefável no reino das palavras-princípio?

Em cada uma das esferas, graças a tudo aquilo que se nos torna presente, nós vislumbramos a orla do TU eterno, nós sentimos em cada TU um sopro provindo dele, nós o invocamos à maneira própria de cada esfera.


*
Eu considero uma árvore.

Posso apreendê-la como uma imagem. Coluna rígida sob o impacto da luz, ou o verdor resplandecente repleto de suavidade pelo azul prateado que lhe serve de fundo.

Posso senti-la como movimento: filamento fluente de vasos unidos a um núcleo palpitante, sucção de raízes, respiração das folhas, permuta incessante de terra e ar, e mesmo o próprio desenvolvimento obscuro.

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Eu posso classificá-la numa espécie e observá-la como exemplar de um tipo de estrutura e de vida.



Eu posso dominar tão radicalmente sua presença e sua forma que não reconheço mais nela senão a expressão de uma lei - de leis segundo as quais um contínuo conflito de forças é sempre solucionado ou de leis que regem a composição e a decomposição das substâncias.

Eu posso volatilizá-la e eternizá-la, tornando-a um número, uma mera relação numérica.

14 A árvore permanece, em todas estas perspectivas, o meu objeto tem seu espaço e seu tempo, mantém sua natureza e sua composição.

Entretanto pode acontecer que simultaneamente, por vontade própria e por uma graça, ao observar a árvore, EU seja levado a entrar em relação com ela; ela já não é mais um ISSO. A força de sua exclusividade apoderou-se de mim.

Não devo renunciar a nenhum dos modos de minha consideração. De nada devo abstrair-me para vê-la, não há nenhum conhecimento do qual devo me esquecer. Ao contrário, imagem e movimento, espécie e exemplar, lei e número estão indissoluvelmente unidos nessa relação.

Tudo o que pertence à árvore, sua forma, seu mecanismo, sua cor e suas substâncias químicas, sua “conversação” com os elementos do mundo e com as estrelas, tudo está incluído numa totalidade.

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A árvore não é uma impressão, um jogo de minha representação ou um valor emotivo. Ela se apresenta “em pessoa” 3 diante de mim e tem algo a ver comigo e, eu, se bem que de modo diferente, tenho algo a ver com ela.



Que ninguém tente debilitar o sentido da relação: relação é reciprocidade.

Teria então a árvore uma consciência semelhante à nossa? Não posso experienciar isso. Mas quereis novamente decompor o indecomponível só porque a experiência parece ter sido bem sucedida convosco? Não é a alma da árvore ou sua dríade que se apresenta a mim, é ela mesma.


*
15 O homem não é uma coisa entre coisas ou formado por coisas quando, estando EU presente diante dele, que já é meu TU, endereço-lhe a palavra-princípio.

Ele não é um simples ELE ou ELA limitado por outros ELES ou ELAS, um ponto inscrito na rede do universo de espaço e tempo.

Ele não é uma qualidade, um modo de ser, experienciável, descritível, um feixe flácido de qualidades definidas. Ele é TU, sem limites, sem costuras, preenchendo todo o horizonte. Isto não significa que nada mais existe a não ser ele, mas que tudo o mais vive em sua luz.

Assim como a melodia não se compõe de sons, nem os versos de vocábulos ou a estátua de linhas - a sua unidade só poderia ser re-

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duzida a uma multiplicidade por um retalhamento ou um dilaceramento - assim também o homem a quem EU digo TU. Posso extrair a cor de seus cabelos, o matiz de suas palavras ou de sua bondade; devo fazer isso sem cessar, porém ele já não é mais meu TU.



Assim como a prece não se situa no tempo mas o tempo na prece, e assim como a oferta não se localiza no espaço mas o espaço na oferta - e quem alterar essa relação suprimirá a atualidade 4, do mesmo modo o homem a quem digo TU não encontro em algum tempo ou lugar. EU posso situá-lo, sou, aliás, sou obrigado a fazê-lo constantemente, mas então, ele não é mais um TU e sim um ELE ou ELA, um ISSO.

16 Enquanto o universo do TU se desdobra sobre minha cabeça, os ventos da causalidade prostram-se a meus calcanhares e o turbilhão da fatalidade se coagula.

Eu não experiencio o homem a quem digo TU. EU entro em relação com ele no santuário da palavra-princípio. Somente quando saio da! posso experienciá-lo novamente. A experiência é distanciamento do TU.

A relação pode perdurar mesmo quando o homem a quem digo TU não o percebe em sua experiência, pois o TU é mais do que aquilo de que o ISSO possa estar ciente. O TU é mais operante e acontece-lhe mais do que aquilo que o ISSO possa saber. Aí não há lugar para fraudes: aqui se encontra o berço da verdadeira vida.

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Eis a eterna origem da arte: uma forma defronta-se com o homem e anseia tornar-se uma obra por meio dele. Ela não é um produto de seu espírito, mas uma aparição que se lhe apresenta exigindo dele um poder eficaz. Trata-se de um ato essencial do homem: se ele a realiza, proferindo de todo o seu ser a palavra-princípio EU-TU à forma que lhe aparece, aí então brota a força eficaz e a obra surge.



17 Esta ação engloba uma oferta e um risco. Uma oferta: a infinita possibilidade que será imolada no altar da forma. Tudo aquilo que ainda há pouco se mantinha em perspectiva deverá ser eliminado, pois, nada disso poderá penetrar na obra; assim exige a exclusividade própria do “face-a-face”. Um risco: a palavra-princípio não pode ser proferida senão pelo ser em sua totalidade, isto é, aquele que a ISSO se entrega não deve ocultar nada de si, pois a obra não tolera como a árvore ou o homem, que EU descanse entrando no mundo do ISSO. É ela que domina; se EU não a servir corretamente ela se desestrutura ou ela me desestrutura.

Eu não posso experienciar ou descrever a forma que vem ao meu encontro; só posso atualizá-la. E, no entanto, EU a contemplo no brilho fulgurante do face-a-face, mais resplandecente que toda clareza do mundo empírico, não como uma coisa no meio de coisas inferiores ou como um produto de minha imaginação mas como o presente. 5 Se for submetida ao critério da objetividade, a forma não está realmente “ai”; entretanto, o que é mais presente do que ela?

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Eu estou numa autêntica relação com ela; pois ela atua sobre mim assim como EU atuo sobre ela.



Fazer é criar, inventar é encontrar. Dar forma é descobrir. Ao realizar EU descubro. EU conduzo a forma para o mundo do ISSO. A obra criada é uma coisa entre coisas, experienciável e descritível como uma soma de qualidades. Porém àquele que contempla com receptividade ela pode amiúde tornar-se presente em pessoa.
*
- Que experiência pode-se então ter do TU?

- Nenhuma, pois não se pode experienciá-lo.

- O que se sabe então a respeito do TU?

18 - Somente tudo, pois, não se sabe, a seu respeito, nada de parcial.


*
O TU encontra-se comigo por graça; não é através de uma procura que é encontrado. Mas endereçar-lhe a palavra-princípio é um ato de meu ser, meu ato essencial.

O TU encontra-se comigo. Mas sou EU quem entra em relação imediata como ele. Tal é a relação, o ser escolhido e o escolher, ao mesmo tempo ação e paixão. Com efeito, a ação do ser em sua totalidade como suspensão de

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todas as ações parciais, bem como dos sentimentos de ação, baseados em sua limitação deve assemelhar-se a uma passividade.



A palavra-princípio EU-TU só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade. A união e a fusão em um ser total não pode ser realizada por mim e nem pode ser efetivada sem mim. O EU se realiza na relação com o TU; é tornando EU que digo TU.

Toda vida atual é encontro.


*
19 A relação com o TU é imediata. Entre o EU e o TU não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema, nenhuma fantasia; e a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade. Entre EU e o TU não há fim algum, nenhuma avidez ou antecipação; e a própria aspiração se transforma no momento em que passa do sonho à realidade. Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro.
*
Diante da imediatez da relação, todos os meios tornam-se sem significado. Não importa também que meu TU seja ou possa se tornar, justamente em virtude de meu ato essencial, o ISSO de outros EUS (“um objeto de experiência geral”). Com efeito, a verdadeira demar-

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cação, sem dúvida flutuante e vibrante, não se situa entre a experiência e a não experiência, nem entre o dado e o não dado, nem outro o mundo do ser e o mundo do valor, mas em todos os domínios entre o TU e o ISSO; entre a presença e o objeto.


*
O presente, não no sentido de instante pontual que não designa senão o término, constituído em pensamento, no tempo “expirado” ou a aparência de uma parada nesta evolução, mas o instante atual e plenamente presente, dá-se somente quando existe presença, encontro, relação. Somente na medida em que o TU se torna presente a presença se instaura.

20 O EU da palavra-princípio EU-ISSO, o EU, portanto, com o qual nenhum TU está face-a-face presente em pessoa, mas que é cercado por uma multiplicidade de “conteúdos” tem só passado, e de forma alguma presente. Em outras palavras, na medida em que o homem se satisfaz com as coisas que experiencia e utiliza, ele vive no passado e seu instante é privado de presença. Ele só tem diante de si objetos, e estes são fatos do passado.

Presença não é algo fugaz e passageiro, mas o que aguarda e permanece diante de nós Objeto não é duração, mas estagnação, parada interrupção, enrijecimento, desvinculação, ausência de relação, ausência de presença.

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O essencial é vivido na presença, as objetividades no passado.


*
Não se supera esta dualidade fundamental pela invocação de um “mundo de idéias”, como um terceiro elemento acima de quaisquer contradições. Pois, EU estou falando, na verdade, do homem atual, de ti e de mim, de nossa vida e de nosso mundo e não de um EU em si ou de um ser em si. Para este homem atual o limite atravessa também o mundo das idéias.

21 Sem dúvida, alguém que se contenta, no mundo das coisas, em experienciá-las e utilizá-las erigiu um anexo e uma super-estrutura de idéias, nos quais encontra um refúgio e uma tranqüilidade diante da tentação do nada. Deposita na soleira a vestimenta da quotidianeidade medíocre, envolve-se em linho puro e reconforta-se na contemplação do ente originário ou do dever-ser, no qual sua vida não terá parte alguma. Poderá, mesmo, sentir-se bem em proclamá-lo.

Mas a humanidade reduzida a um ISSO, tal como se pode imaginar, postular ou proclamar, nada tem em comum com uma humanidade verdadeiramente encarnada à qual um homem diz verdadeiramente TU. A ficção por mais nobre que seja, não passa de um fetiche; o mais sublime modo de pensar, se for fictício, é um vício. As idéias tão pouco reinam acima de nossas cabeças como habitam em nossas

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cabeças; elas caminham entre nós e se dirigem para nós. Infeliz aquele que deixa de proferir a palavra-princípio, miserável, porém, aquele que em vez de fazê-lo diretamente utiliza um conceito ou um palavreado como se fosse o seu nome.


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A relação imediata implica numa ação sobre o que se está face-a-face; isto está manifesto por um dos três exemplos citados anteriormente: o ato essencial da arte determina o processo pelo qual a forma se tornará obra. O face-a-face se realiza através do encontro; ele penetra no mundo das coisas para continuar atuando indefinidamente, para tornar-se incessantemente um ISSO, mas também para tornar-se novamente um TU irradiando felicidade e calor. A arte “se encarna”: seu corpo emerge da torrente da presença, fora do tempo e do espaço, para a margem da existência.

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