Newton aquiles von zuben



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58 Se o homem permitir, o mundo do ISSO, no seu contínuo crescimento, o invade e seu próprio EU perde a sua atualidade, até que o pesadelo sobre ele e o fantasma no seu interior sussurram um ao outro confessando sua perdição.


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Mas, a vida coletiva do homem moderno está engolfada necessariamente no mundo do ISSO? É possível imaginar que as duas partes, a economia e o Estado, na sua extensão atual

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e em seu desenvolvimento presente, possam se basear a não ser na renúncia altiva a toda “imediatez” ou até mesmo em uma recusa categórica e resoluta de toda instância “estranha” não provinda da mesma região? E se for o EU da experiência e da utilização que domina aqui, o EU que utiliza os bens e serviços na economia, as opiniões e tendências na política, não é, de fato, a esta soberania ilimitada que se deve a ampla e sólida estrutura das grandes criações “objetivas” nestes dois domínios? E mais, a grandeza produtiva do estadista e do economista dirigentes não consiste no fato de que eles encaram os homens com os quais devem tratar, não como portadores do TU inacessível à experiência, mas como núcleos de realizações e tendências a serem avaliadas e utilizadas conforme as suas capacidades especificas?



59 Seu mundo não se desabaria sobre eles, se em vez de somar Ele + Ele + Ele a fim de constituir um ISSO, tentassem adicionar TU e TU e TU que não daria jamais senão TU? Isso não significa trocar o domínio formador por um diletantismo de procedimento sumários, e a razão, com seu poder de clareza, por uma exaltação obnubilada? E se nós voltarmos o olhar dos dirigentes aos dirigidos, o próprio desenvolvimento das formas modernas de trabalho e de propriedade não destruiria quase todo vestígio de vida no face-a-face da relação plena de sentido? Seria absurdo querer inverter este desenvolvimento - mas admitindo a possibilidade deste absurdo – destruir-se-ia o extraordiná-

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rio instrumento de precisão dessa civilização, o único que torna possível a vida da humanidade multiplicada ao infinito.



- Orador, discursas muito tarde! Ainda há pouco, terias podido crer em teu discurso, agora já não podes mais. Pois, há um instante, vistes, como eu, que o Estado não é mais conduzido; os responsáveis pelo aquecimento amontoam ainda o carvão, os chefes, entretanto, apenas simulam conduzir máquinas desenfreadas. E neste instante, enquanto falas, podes, como eu, ouvir que o mecanismo da economia começa a vibrar, zumbir, de maneira insólita. Os contra-mestres te sorriem com ar de superioridade, mas têm a morte no coração. Eles te dizem que adaptam a maquinaria às circunstâncias; sabes, porém, que nada mais podem fazer do que adaptar-se ao aparelho enquanto ainda é possível.

60 Seus porta-vozes te informam que a economia recolhe a herança do Estado, sabes, porém, que nada mais há para herdar a não ser a tirania do ISSO crescente sob a qual o EU, cada vez mais incapaz de dominação, sonha ainda que é seu mestre.

A vida coletiva do homem não pode, como ele mesmo, prescindir do mundo do isso, sobre o qual paira a presença do TU, como o espírito pairava sobre as águas. A vontade de utilização e a vontade de dominação do homem agem natural e legitimamente enquanto permanecem ligadas à vontade humana de relação e sustentadas por ela. Não há má inclinação até o

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momento em que ela se desliga do ser presente; a inclinação que está ligada ao ser presente e determinada por ele é o plasma da vida em comum, e a inclinação separada é sua destruição. A economia, habitáculo da vontade de utilizar e o Estado, habitáculo da vontade de dominar, participam da vida enquanto participam do espírito. Se renegam o espírito, é a própria vida que renegam. A vida, na verdade, não se apressa em levar a cabo sua tarefa, e em um bom momento, se crê estar vendo um organismo mover-se quando já há muito tempo é um mecanismo que se agita. De nada adiantará introduzir no processo uma dose de espontaneidade. A flexibilidade da economia dirigida ou do Estado organizado não compensa o fato de estarem sob a dependência do espírito que pronuncia o TU e nenhuma excitação periférica poderia substituir a relação viva com o núcleo central. As estruturas da vida humana em comum extraem a própria vida da plenitude da força de relação que lhes penetra por todas as suas partes e sua forma encarnada eles a devem à ligação desta força ao espírito.



61 O estadista ou o economista, tributário do espírito, não age como diletante. Ele sabe muito bem que não pode tratar os homens com os quais tem algo a ver, simplesmente como portadores do Tu, sem prejudicar a sua obra. Ele ousa fazê-lo mas não às cegas; ele ousa até o ponto em que o espírito o inspira; e o espírito, de fato, lhe inspira o limite. O risco que faria malograr uma obra isolada, obtém êxito naquela

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sobre a qual paira a presença do Tu. Ele não se exalta mas serve à verdade que, sendo supra-racional, não repudia a razão mas a encerra em seu seio. Ele realiza na vida em comum exatamente aquilo que, na vida pessoal, faz o homem que, sentindo-se incapaz de atualizar o TU em sua pureza, tenta, no entanto, cada dia, colocá-lo à prova do ISSO (conforme a norma e a medida de cada dia, traçando quotidianamente o limite e sempre o descobrindo). Do mesmo modo, o trabalho e a propriedade não podem ser resgatados por si mesmos mas pelo espírito. Somente a presença do espírito pode infundir em todo trabalho, sentido e alegria, e, em toda propriedade, respeito e dedicação, não de um modo pleno, mas satisfatoriamente. Todo produto do trabalho, todo conteúdo da propriedade, embora permaneçam no mundo do ISSO ao qual pertencem, somente o espírito pode transfigurá-los em confrontadores e numa representação do TU. Não há retrocesso, mesmo no momento de maior necessidade, neste momento precisamente, há um “mais-além” insuspeito.



62 Pouco importa que o Estado regulamente a economia ou a economia comande o Estado, enquanto um e outro não são transformados. Importa, sem dúvida, que as instituições do Estado se tornem mais livres e as da economia mais justas, não porém para a questão da vida atual que é colocada aqui. Por si mesmas, tais instituições não podem tornar-se nem livres nem justas. Que o espírito que pronuncia o

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TU, o espírito que responde, permaneça vivo e atual e que os seus vestígios presentes na vida coletiva do homem, sejam subordinados ao Estado e à economia ou operem livremente; que aquilo que ainda permanece na vida pessoal do homem se reincorpore novamente à vida comum, eis o que é decisivo. Dividir a vida coletiva em regiões independentes, às quais pertenceria também a “vida espiritual”, isso não deveria ser feito. Isso significaria abandonar definitivamente à tirania as regiões submergidas no mundo do ISSO e despojar o espírito de toda realidade. Com efeito, quando o espírito age livremente na vida, ele não é mais espírito “em si” mas espírito no mundo, graças a seu poder de penetrar no mundo e transformá-lo. O espírito não está “consigo” a não ser no face-a-face com o mundo que se lhe abre, mundo ao qual ele se doa, que ele liberta e pelo qual é libertado. A espiritualidade esparsa, debilitada, degenerada, impregnada de contradições, que hoje representa o espírito, poderá realizar esta libertação somente na medida em que atingir novamente a essência do espírito, a faculdade de dizer TU.


*
63 O mundo do ISSO é o reino absoluto da causalidade. Cada fenômeno “físico” perceptível pelos sentidos e cada fenômeno psíquico pré-existente ou que se encontra na experiência própria, passa necessariamente por causado e causador. Não se excetuam daí os fenôme-

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nos aos quais se pode atribuir um caráter de finalidade, como parte integrante do conjunto do mundo do ISSO: tal conjunto tolera uma teleologia somente se esta foi inserida como contra-partida parcial da causalidade e se não lhe prejudicar a completa continuidade.



O reino absoluto da causalidade no mundo do ISSO, embora seja de importância fundamental para a ordenação científica da natureza não aflige o homem que não está limitado ao mundo do ISSO e que pode sempre evadir-se para o mundo da relação. Aí o EU e o TU se defrontam um com o outro livremente, numa ação recíproca que não está ligada a nenhuma causalidade e não possui dela o menor matiz; aqui o homem encontra a garantia da liberdade de seu ser e do Ser. Somente aquele que conhece a relação e a presença do TU, está apto a tomar uma decisão. Aquele que toma uma decisão é livre pois se apresenta diante da Face.

Eis aqui toda a substância ígnea de minha capacidade de vontade em um formidável turbilhão, todo o meu possível girando como um mundo em formação, como uma massa confusa e indissolúvel, eis os olhares sedutores das potencialidades flamejando de todas as partes; o universo como tentação, e eu, nascido em um instante, as duas mãos imersas numa fornalha para apanhar o que aí se esconde e me procura: meu ato.

64 Pronto! EU o tenho. E logo a ameaça do abismo é proscrita, a multiplicidade difusa deixa de fazer valer a igualdade cintilante de

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sua exigência; não existem mais que dois na simultaneidade, o outro e o um, a ilusão e a missão. Só então, porém, começa a minha atualização. Pois a decisão não consiste em atualizar o um e deixar o outro estendido como massa extinta que, camada por camada, aviltaria a minha alma. Entretanto, somente aquele que orienta, no fazer do Um, a força do Outro, aquele que deixa entrar na atualização do escolhido a paixão intacta do que foi repudiado, somente aquele que “serve a Deus com o mau instinto” se decide e decide o acontecimento. Se alguém compreendeu isso, sabe também que, de fato, isso é chamado justo, a direção justa para a qual alguém se dirige e se decide; se houvesse um demônio não seria aquele que se decidiu contra Deus, mas o que, desde toda a eternidade jamais tomou uma decisão.



A causalidade não oprime o homem ao qual é garantida a liberdade. Ele sabe que sua vida mortal é, por sua própria essência, uma oscilação entre o TU e o ISSO, e ele percebe o sentido desta oscilação. Basta-lhe saber que pode, a todo momento, ultrapassar o umbral do santuário, onde ele não poderia permanecer.

65 E mais ainda: a obrigação de deixá-lo logo depois incessantemente, lhe está intimamente ligada ao sentido e ao destino desta vida. É ali, no umbral que se acende nele a resposta sempre nova, o Espírito; é aqui, nas regiões profanas e indigentes, que a centelha deve se confirmar. O que aqui se chama necessidade não o apavora, pois, lá no santuário ele conheceu a verdadeira, isto é, o destino.

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Destino e liberdade juraram fidelidade mútua. Somente o homem que atualiza a liberdade encontra o destino. Quando EU descubro a ação que me requer, é aí, nesse movimento de minha liberdade que se me revela o mistério. Mas o mistério se revela a mim não só quando não posso realizar esta ação como EU pretendia, mas também até na própria resistência. Aquele que se esquece de toda causalidade e toma uma decisão do fundo de seu ser, àquele que se despoja dos bens e da vestimenta para se apresentar despido diante da Face, a este homem livre, o destino aparece como réplica de sua liberdade. Ele não é o seu limite mas o complemento; liberdade e destino unem-se mutuamente para dar sentido; e neste sentido o destino, até há pouco olhar severo suaviza-se como se fosse a própria graça.



Não, o homem portador de centelha que retorna ao mundo do ISSO não é oprimido pela necessidade causal. E, em épocas em que a vida é sã, a confiança se propaga a todo povo através de homens do espírito; todos, mesmo os mais tolos, conheceram de alguma maneira seja por natureza, ou um modo intuitivo ou obscuro, o encontro, a presença; todos de algum modo pressentiram o TU; agora o espírito é para eles a garantia.

66 Entretanto, em épocas mórbidas, acontece que o mundo do ISSO, não sendo mais penetrado e fecundado pelos eflúvios vivificantes do mundo do TU, não passando de algo isolado e

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rígido, fantasma surgido do pântano, oprime o homem. Nele o homem, contentando-se com um mundo de objetos, que não lhe podem mais tornar-se presença, sucumbe. Então, a causalidade fugaz, intensifica-se até tornar-se uma fatalidade opressora e esmagadora.



Toda grande civilização comum a vários povos repousa sobre um evento originário de encontro, sobre uma resposta ao TU como aconteceu nas origens; ela se fundamenta sobre um ato essencial do Espírito. Este ato, reforçado pela energia numa mesma direção das gerações posteriores instaura no espírito uma concepção particular do cosmos: somente através deste ato é que o cosmos do homem se torna de novo possível. Somente assim pode o homem, de uma alma confiante, reconstruir sempre de novo numa concepção particular do espaço, casas de Deus e casas do homem, preencher o tempo agitado com novos hinos e cantos e dar uma forma a comunidade dos homens. Porém, somente na medida em que ele possui este ato essencial, realizando, suportando-o em sua própria vida, somente quando ele mesmo entra na relação, então torna-se livre, e, portanto, criador.

67 No momento em que uma civilização não tem mais como ponto central um fenômeno de relação, incessantemente renovado, ela se enrijece, tornando-se um mundo de ISSO que é trespassado somente de quando em quando por ações eruptivas e fulgurantes de espíritos solitários. A partir de então, a causalidade fugaz se intensifica não podendo jamais pertur-

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bar a compreensão do universo, tornando-se fatalidade opressora e esmagadora. O destino sábio e soberano que, harmonizado com a plenitude de sentido do universo, reinava sobre toda causalidade primitiva, transmudado agora num absurdo demonismo, caiu nesta causalidade. O próprio Kharma que os ancestrais concebiam como uma disposição benéfica - uma vez que tudo o que nos acontece nesta vida nos eleva para esferas superiores em uma existência ulterior - se revela agora como uma tirania, pois, as ações de uma vida anterior que permanecem inconscientes, nos encerram numa prisão da qual, na vida presente, não podemos escapar. Lá, onde se curvava a lei plena de sentido de um céu, de cujo arco luminoso pendia o fuso da necessidade, reina agora o poder absurdo e opressor dos planetas. Então bastava identificar-me a “Dike”, à “senda” celestial que é também a imagem da nossa, para habitar na plenitude do destino; - agora não importa o que façamos, o Heimarmene,17 estranho ao espírito, nos oprime, colocando sobre nossas nucas todo o peso da massa inerte do universo. O desejo, élan impetuoso de redenção permanece, em última análise, a despeito de numerosas tentativas, insatisfeito, até que o acalme aquele que ensina a escapar do ciclo dos renascimentos ou alguém que salve as almas, subjugadas por poderes terrenos, levando-as para a liberdade dos filhos de Deus.



68 Tal obra se realiza quando um novo fenômeno de relação se torna substância, quando uma nova resposta é dada pelo

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homem a seu Tu, acontecimento que determina o destino. Por força deste ato essencial e central, uma civilização entregue a sua irradiação pode ser substituída por uma outra a menos que ela mesma se regenere.



O mal de que sofre nosso século não se assemelha a nenhum outro. Mas pertence à mesma espécie daqueles males de todos os séculos. A história das civilizações não é um estádio constante no qual os corredores, um após o outro tenham que percorrer com coragem e inconscientemente, o mesmo ciclo mortal. Um caminho inominado conduz através de suas ascensões e declínios. Não um caminho de progresso e de evolução; mas uma descida em espiral através do mundo subterrâneo do espírito e, também, uma ascensão para, por assim dizer, à região tão íntima, tão sutil, tão complicada que não se pode mais avançar, nem sobretudo recuar; onde há apenas a inaudita conversão: a ruptura. Será necessário ir até o fim deste caminho? Até a prova das últimas trevas? Porém, onde está o perigo, ali cresce também a força salvadora.

O pensamento biologista e o pensamento historicista de nosso tempo, por mais diferentes que possam parecer um ao outro, colaboram para formar uma fé na fatalidade mais tenaz e angustiante do que todas as anteriores. Não é mais o poder Kharma18 nem o poder dos astros que rege inexoravelmente a sorte dos homens.

69 Inúmeros poderes reivindicam este domínio, porém, se se examina mais detidamente, a maior parte dos contemporâneos acredita

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num amálgama destas forças do mesmo modo que os romanos de época posterior acreditavam num amálgama de deuses. A própria natureza da pretensão facilita este amálgama. Quer se trate da “lei vital” de uma luta universal, na qual cada um deve combater ou renunciar à vida; quer se trate da “lei psíquica” de uma concepção da pessoa psíquica unicamente baseada em instintos utilitários, inatos; quer se trate de “lei social”, de um processo social inevitável onde vontade e consciência são meros epifenômenos; ou da “lei cultural” de um dever inalterável e constante de uma gênese e de um ocaso dos quadros históricos; sob todas estas formas e outras mais o que significa é que o homem está ligado a um dever inevitável contra o qual ele não lutaria senão no seu delírio. A consagração dos mistérios libertava da coação dos astros; o sacrifício bramânico, acompanhado do conhecimento, libertava do poder do Kharma; em ambos prefigurava-se a redenção. O ídolo não tolera a fé na libertação. É uma loucura imaginar a liberdade; não se tem senão a escolha entre uma escravidão voluntária ou uma escravidão desesperada e rebelde. Embora, essas leis invoquem a evolução teleológica e o dever orgânico, o fundamento que, efetivamente, todas elas têm, é a obsessão pelo decurso das coisas, isto é, a causalidade ilimitada. O dogma do decurso progressivo19 é a abdicação do homem face ao crescimento do mundo do ISSO.



70 Assim, o nome do destino será mal empregado; assim atribuir-se a ele o nome de des-

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tino será um erro, pois, o destino não é uma campânula voltada sobre o mundo dos homens; ninguém o encontra, senão aquele que parte da liberdade. O dogma do curso inelutável das coisas não deixa, porém, lugar à liberdade, nem para a sua revelação mais concreta, aquela cuja força serena modifica a face da terra: a conversão.20 Este dogma desconhece o homem que pode vencer a luta universal pela conversão; aquele que rompe, pela conversão, as amarras dos impulsos de utilização; aquele que se liberta pela conversão do fascínio da sua classe; aquele que, mediante a conversão, pode revolver, rejuvenescer, transformar quadros históricos os mais seguros. O dogma do decurso não te deixa no tabuleiro senão uma opção: observares as regras ou te retirares; aquele, porém, que realiza a conversão derruba todas as peças. Este dogma te permite, em todo caso, submeteres tua vida ao determinismo e, “permaneceres livre” na alma. Aquele, porém, que realiza a conversão considera esta liberdade como a mais vergonhosa servidão.



A única coisa que pode vir a ser fatal ao homem, é crer na fatalidade, pois esta crença impede o movimento da conversão.

A crença na fatalidade é falsa desde o princípio. Todo esquema do decurso consiste somente em ordenar como história o nada-mais-senão-passado, os acontecimentos isolados do mundo, a objetividade. A presença do TU, o que nasce do vínculo são inacessíveis a esta concepção, que ignora a realidade do Espírito;

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este esquema não apresenta valor algum para o espírito. A profecia baseada na objetividade tem valor apenas para quem ignora a presença.



71 Aquele que é subjugado pelo mundo do ISSO é obrigado a ver no decurso inalterável uma verdade que esclarece a confusão. Na verdade tal dogma deixa subjugar-se mais profundamente ainda ao mundo do ISSO. Porém, o mundo do TU não é fechado. Aquele que na unidade de seu ser se dirige a ele, conhecerá profundamente a liberdade. E tornar-se livre significa libertar-se da crença na servidão.
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Assim como é possível dominar um incubo chamando-o pelo seu verdadeiro nome, assim também o mundo do ISSO, que, ainda há pouco, esmagava com sua força espantosa a fraca força do homem, é constrangido a submeter-se àquele que o conhece em seu ser, isto é, a particularização e alienação daquilo a partir de cuja plenitude próxima e irradiante cada TU terreno se oferece ao encontro, aquilo que pareceu às vezes grande e assustador como a deusa-mãe, mas sempre maternal.

Mas como poderia ser capaz de interpelar o íncubo pelo seu nome, aquele que, no seu íntimo leva um fantasma, isto é, o EU carente de atualidade? Como a força de relação sepultada pode ressurgir em um ente cujos escombros são permanentemente pisoteados por um fantasma vigoroso?

72 Como poderia recolher-se um ser que está constantemente perseguido em um campo va-

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zio pela procura da subjetividade perdida? Como conheceria profundamente a liberdade aquele que vive no arbitrário?



Assim como liberdade e destino estão interligados, assim também o estão, o arbitrário e a fatalidade. Porém liberdade e destino são comprometidos mutuamente para instaurarem juntos o sentido; o arbitrário e a fatalidade, fantasma da alma e pesadelo do mundo, toleram-se vivendo um ao lado do outro, mas esquivando-se, sem ligação e sem atrito, no absurdo, até que, em determinado momento, os olhares distanciados se reencontram e irrompe deles a confissão de mútua perdição. Quanta espiritualidade eloqüente e engenhosa é dispensada, hoje, senão para impedir ao menos para dissimular este fato!

O homem livre é aquele cujo querer é isento de arbitrário. Ele crê na atualidade, isto é, ele acredita no vínculo real que une a dualidade real do EU e do TU crê no destino e também que ela tem necessidade dele; ela não o conduz em inteiras, mas o espera; o homem deve ir ao seu encontro mas não sabe ainda onde ela está. O homem livre deve ir a ela com todo o seu ser, disso ele sabe. Não acontecerá aquilo que a sua resolução imagina, mas o que aconteceu, não acontecerá senão na medida em que ele resolver querer aquilo que ele pode querer. Ser-lhe-á necessário sacrificar aquele pequeno querer, escravo, regido pelas coisas e pelos instintos, em favor do grande querer que se afasta do “ser-determinado” para ir ao destino. 73 Ele

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não intervém mais, mas nem por isso permite que aconteça pura e simplesmente. Ele espreita aquilo que por si mesmo se desenvolve, o caminho do ser no mundo; não para se deixar levar por ele, mas para atualizá-lo como ele deseja ser atualizado pelo homem de quem ele necessita, por meio do espírito humano e do ato humano, com a vida do homem e com a morte do homem. Ele crê, disse eu, o que equivale dizer: ele se oferece ao encontro.



O homem que vive no arbitrário não crê e não se oferece ao encontro. Ele desconhece o vínculo; ele só conhece o mundo febril do “lá fora” e seu prazer febril do qual ele sabe se servir. Basta dar ao poder de utilização um nome antigo para ele tomar lugar entre os deuses. Quando este homem diz TU, ele pensa “Tu, meu poder de utilização” e o que ele chama como seu destino, nada mais é do que equiparar e sancionar o seu poder de utilização. Na verdade, ele não tem destino mas somente um ser-determinado pelas coisas e pelos instintos, e isto é realizado com um sentimento de independência que é justamente o arbitrário. Ele não tem o grande querer, este é substituído pelo arbitrário. Ele é totalmente inapto à oferta21 ainda que possa vir a falar dela; TU o reconheces pelo fato de ele nunca se tornar concreto. Ele intervém, constantemente e sempre, com a finalidade de “deixar que as coisas aconteçam”. Como se poderia, te diz ele, deixar de auxiliar o destino, deixar de empregar os meios acessíveis exigidos para esse fim?

74 É assim que

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ele vê também o homem livre, aliás, ele não pode vê-lo de modo diferente. Porém, o homem livre não tem, aqui, uma finalidade e, lá, os meios para obtê-lo; ele possui somente um objetivo e sempre um: a resolução de ir de encontro a seu destino. Tomada essa resolução pode lhe acontecer de, às vezes, renová-la a cada etapa decisiva do caminho; mas deixará de acreditar na sua própria vida antes de crer que a resolução de seu grande querer é insuficiente e que deve mantê-la por todos os meios. Ele crê; ele se oferece ao encontro. Mas o homem arbitrário, incrédulo até a medula, não pode perceber senão incredibilidade e arbitrário, escolha de fins e invenção de meios. O seu mundo é privado de oferta e graça, de encontro e de presença, entravado nos fins e nos meios. Este mundo não pode ser diferente, o seu nome é fatalidade. Assim, em sua auto-suficiência ele é engolfado simples e inextricavelmente pelo irreal e ele sabe disso sempre que sobre si se concentra e é por isso mesmo que ele empenha o melhor de sua espiritualidade para impedir, ou, ao menos, ocultar esta lembrança.

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