Newton Braga Rosa Comitê Editorial



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O Endereço


- Onde tu moras?

Todo garoto pequeno tinha que sabe seu endereço de cor.

- Imagina se tu te perde, guri? Tem que saber dizer para que alguém te leve para casa, argumentavam os pais.

Isto , Newton descobriu mais tarde, não era hábito em Lajeado, Mariante e arredores. Ou as crianças não se perdiam, ou todos do lugar sabiam de quem ela era.

Ensinar as crianças repetirem o endereço era neurose típica de pais da cidade grande. Hoje em dia a gente faz as crianças decorarem o número do telefone. Mudou a tecnologia, mas a preocupação permanece gerações afora.

Tio Ruy achava interessantíssimo um garoto tão pequeno dizer o endereço completo.

- Onde tu moras, perguntava.

Numa reação automática de estímulo-reação, Newton, pequeno, saia dizendo sem saber direito o que aquilo tudo significava:

- Rua padre Hafkemeyer número 52, no Partenon.

- Não entendi direito. Diz de novo.

- Rua padre Hafkemeyer número 52, no Partenon.

- Ah! agora entendi. E simulando um grande esforço repetia:

- Rua padre HafkesTÊTA número 52?

- Não tio, é Padre Hafkemeyer e não HafkesTÊTA.

- Não entendi direito. Vamos começar de novo. Senta aqui no colo.

- Onde tu moras?...


Na Tacha


Tio Ruy estava orgulhoso do nascimento da nova neta, filha da Rejane.

- Qual é o nome dela, perguntavam?

- Natacha. Mas ainda bem que não nasceu guri, completava mostrando um certo alívio.

- Porque? Perguntava o incauto.

- Imagina? Iriam chamar a criança de Noprego.

Pé de Milho


- Gostaste da cidade, perguntou a Tia Lúcia.

- Não responde Newton que, com os pais, estava em Venâncio Aires.

- Por que?

- Tem pé de milho plantado na avenida.

Constrangimento (real ou fingido, não se sabe) dos adultos. O pai da Tia Lúcia era o prefeito.

Depois da visita, como em quase todas, havia a inevitável romaria de repreensões.


Sem Bis


Tia Lúcia serve um doce no meio da tarde para as visitas: a família do tio Rafael, com Élvio e Newton. Era uma espécie de quindão. Ovos, côco e uma cor dourada divina. Gostosíssimo.

A fatia veio meio fininha. Newton e Élvio comeram e logo colocaram os pratinhos sobre a mesa de centro. Era uma senha para o bis. Mais do que isto. Era uma gesto silencioso, mas eloqüente, de "queremos mais".

Tia Lúcia, recebendo os elogios dos adultos complementa:

- É gostoso. Mas pena que é muito forte. Não se consegue comer mais do que um pedaço.

Newton e Élvio trocam olhares discretos de frustração.

Não houve bis.


O Baile


Em 1987 Newton e Dalva vão ao casamento, em Venâncio, da Luciana. A festa estava ótima. Há muito não havia casamento de primos.

Newton tira tia Lúcia para dançar. Tio Pedro tira a Dalva.

No final, os casais destrocam, e tia Lúcia comenta com o tio Pedro:

- Senti falta da tua barriga, pai.

- Eu não senti falta de nada, responde rápido tio Pedro.

5 Estrelas


A respeito das diferenças entre gaúchos e cariocas, Luiz Fernando Veríssimo diz que o "apareça lá em casa" do carioca significa na realidade: "Eu não te procuro e você não me procura". Aliás, o oferecimento é feito sem dar o endereço. Só gaúcho incauto pergunta:

- Mas onde é que tu mora, vivente?

A festa do casamento da Luciana já chegava ao final quando o Tio Pedro oferece:

- Dorme lá em casa. Não vale a pena pegar a estrada. Já é tarde.

Segue-se a resposta clássica:

- Não te preocupe tio. É cedo. Recém meia-noite.

- Eu insisto. Vão dormir lá em casa.

- Está bem, responde Newton. Talvez a gente apareça.

Um pouco mais de vinho e duas hora depois o convite ficou ainda mais tentador.

- Está bem, finalmente concordou Dalva.

Fomos os últimos a sair do clube. Estava frio. Newton dá partida ao carro, anda uma quadra e pára. Não sabia onde era a casa do tio Pedro.

- Puxa ele não deu o endereço. Convidou para ir lá e não deu endereço. Tática de carioca.

Não se achou ninguém em Venâncio, naquele frio, para perguntar onde morava o tio Pedro. Mas penetra que se preze não desiste fácil. Acabou-se encontrando uma lista telefônica e lá estava o número. Foi só ligar (e acordá-los é claro).

A história tinha um doce sabor de infância. O penetra estava fazendo algo que jamais os pais teriam permitido. Incomodar adultos. Mas agora ele era tão adulto quanto o tio Pedro. Puxa, a conversa era de igual para igual. Mas atenção: anote o endereço, para evitar o conto carioca.



PEDRO E LÚCIA BRAGA RESORT

Rua JACOB BECKER n. 1043

95.800-000 Venâncio Aires, RS

Café da manhã com pão e chimia dos donos

Atendimento personalizado

Categoria: «««««

Reservas ( (051) 741.14.58

Vale a pena conferir!


Criança Sofre 1


Luciana lembra que nas férias ia ajudar na venda da tia Nilce. Como havia muito pó da estrada, ela era advertida para não encostar os cotovelos em cima do balcão. Só as mãos, para não sujar a roupa.

E lá ficava ela a espera dos fregueses.

Estática, mas mais natural possível dentro das regras.

Criança Sofre 2


Leandro quando ia no Mariante podia jogar bolita a vontade, desde que não se ajoelhasse no chão.... Poderia sujar as calças. Jogar bolita sem se ajoelhar é um feito notável. Digno de um contorcionista de circo.

E lá ficava ele jogando bolita. Um verdadeiro malabarista.

Meio sem jeito, mas o mais natural possível dentro das regras.

Nenê Voador


O lençol estava em chamas. No meio da confusão tio Baiano joga o lençol e o berço pela janela do sobrado do vô Leca, lá em baixo. Tia Dione meio atônita pergunta:

- Cadê o nenê?

- Que nenê?

- Luciana. A coitadinha estava no berço, pai?


A Parte de Baixo


Muitos sobrinhos guardam boas lembranças das férias na casa dos tios em Mariante.

Alguns hábitos diferentes provocam controvérsias até hoje.

A casa da Tia Nilce estava sempre incrivelmente limpa, um feito intrigante face a poeira que havia na rua.

Na hora do Banho se recebia duas toalhas e uma explicação: esta toalha é para a parte de cima e a outra é para a de baixo. Uma delas era menor.

Entráva-se no banho com a dúvida que persiste até hoje: onde termina a parte de cima e onde começa a de baixo? Alguns achavam que a toalha de baixo era para os pés. Logo, por exclusão, o resto era considerado a parte de cima. Segundo outros, a parte de cima era tudo que ficava para cá do umbigo. Pés e outras partes anatômicas tinham o mesmo tratamento. Outra forte corrente imagina que o pescoço era o divisor de águas. A toalha de baixo seria a responsável por tudo que não era a cara. Havia ainda a hipótese que a parte de baixo era uma maneira cifrada de se referir a genitália.

Como não ficava bem perguntar estas intimidades para a tia Nilce, a dúvida era resolvida dentro do banheiro. Como ninguém via nada mesmo, usava-se o critério que parecia mais adequado, e pronto.

Entretanto era importante usar as duas toalhas. Sair do banheiro com uma delas seca seria uma confissão de culpa.

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