Newton Braga Rosa Comitê Editorial



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O Troféu


Duro mesmo era acordar, se lembrar que se estava na casa de um dos tios em Lajeado ou em Mariante e, de repente, perceber aquela pontinha molhada do lençol. Pânico. Ou foi só impressão. A mão escorrega devagarinho até concluir que está tudo encharcado. Meio morninho, mas irremediavelmente molhado.

Que vexame. O que fazer?. Será que seca até amanhã de manhã?

E lá se vai a noite entremeada de sonhos, algumas rezas e busca de estratégias que vão desde o fazer-de-conta-que-nada-aconteceu até o acordar antes de todo o mundo, pegar o ônibus e voltar para casa sumindo para sempre.

Como a segunda hipótese era inviável, só restava esperar o dia chegar.

Mas muito pior era a mãe da gente ficar sabendo e não se poder voltar mais nas próximas férias. A saída é administrar o vexame.

No dia seguinte pula-se cedo da cama. Afinal, é duro ficar numa cama mijada e fria depois que se acorda. Tira-se o lençol e leva-se o troféu para a tia tomar as providências cabíveis.

Agora só resta torcer para a tia guardar segredo. Porque se pedir para não contar, aí sim é que a notícia chegava rápido na casa da gente.

Não Atira


Filinho Lopes vivia armado. Um dia foi tirar a sesta em baixo de uma árvore. Era a oportunidade que os amigos esperavam. Desmuniciaram a arma (por mera segurança) e trouxeram a cobra jararaca que já estava preparada. A boca havia sido costurada (por mera segurança). Aliás, o tom das brincadeiras era tal que as duas providências acima revelam que a turma já não era mais a mesma.

A cobra foi solta em cima do peito do Filinho. Quando ele acordou viu a cobra e, o que era muito mais ameaçador, um dos dois amigos apontando a sua própria arma para a cobra. E para o seu peito.

Ambos gesticulavam simulando a busca da melhor posição para acertar o tiro.

- Vou acertar "bem na cabeça da bicha", bradava um para o outro.

Filinho, desesperado, mexia somente a pontinha do dedo indicador de um lado para outro, fazendo o sinal de não, e sussurrava bem baixinho para não levar o bote:

-"não atira, não atira, não atira"...


Rodada em Falso


Caspinha "revolucionou" o Mariante. Chegou a ser o dono do time de foot-ball. Além disto gostava de beber e jogar. Sua casa era uma das mais bonitas do Mariante. Certo dia ele sai tarde da rodada, e no meio da escuridão do Mariante entra no carro. Bate o arranque. Engata a primeira e o carro não sai do lugar.

Haviam colocado o veículo sobre umas caixas de cerveja. As rodas não encostavam no chão. Giravam em falso no ar.

- Deve ter quebrado o diferencial, conclui.

Deixa o carro lá e volta, meio cambaleante, para casa. A pé.


Desfalque Não.


Fazer a Concentração do time de foot-ball no Mariante era relativamente fácil. Não era necessário trancafiar os atletas como fazem os times normalmente. Mesmo porque não havia infra estrutura para isto no estádio que ficava atrás da casa do tio Hélio. Para garantir que os atletas estariam concentrados bastava não permitir que eles fossem no único lugar onde havia alguma atividade social. Isto era suficiente para garantir atletas dispostos e descansados no domingo.

E lá estava o Caspinha aproveitando e "fazendo contatos". Certa vez, o time inconformado com a tirania da concetração, saiu empurrando o carro do Caspinha do galpão, onde havia o baile, até a garagem da sua própria casa, na rua principal.

Na saída, Caspinha nota a falta do carro. Mobilização geral. Saíram todos para bloquear as saídas do Mariante, que não eram muitas. O carro havia sido furtado. Escafucharam todas as ruas e becos do Mariante, o que era relativamente rápido. Concluíram que o carro havia sido levado para fora. Já poderia estar perto de Porto Alegre. Cansado de tantos esforços infrutíferos Caspinha foi para casa dormir um pouco antes de acionar a polícia de Venâncio, no dia seguinte. De manhã encontrou o automóvel. Dentro da própria garagem, que era aberta e na rua principal do Mariante.

E os atletas? Quem disse que foram eles? Além disto não valia a pena balear algum deles só por isto. Além do mais ia desfalcar o time. E amanhã é domingo. É outro dia.

Dia de pelada. Mariante estaria em festa.

Até tu Comadre?


Alfredo Cananéa queria espichar a programação etílica lá para as bandas da zona de Venâncio. Pegou carona com os amigos e lá se foi o carro, noite afora. O porre era tanto que Alfredo dormiu. Na realidade estavam todos meio cansados e já era muito tarde.

- Além disto o Alfredo necessita cuidados, lembrou um mais zeloso.

Era o argumento que faltava para fazerem meia volta e retornarem para o Mariante.

- Não vai dar para levar o Alfredo para casa, alguém comenta.

Todos se tinham bem presente o mal gênio da Lina, sua mulher que era muito braba.

A saída era levá-lo para a casa da Violeta, sua comadre para tomar um café, esperar um pouco e depois levá-lo para casa.

Chegando na frente da casa, estacionaram o carro e acordaram o Alfredo que subiu cambaleante a escada, amparado pelos companheiros. Batem na porta e aparece dona Violeta.

Alfredo, achando que já haviam chegado a Venâncio, se recompõe rapidamente e exclama, surpreso:

- Comadre. Até tu por aqui?

Despedida


Na rodoviária de Lajeado o ônibus começa lentamente a se movimentar, iniciando mais uma viagem para Porto Alegre. Dentro estava Newton, voltando das férias e Ruy Filho que ia morar em Porto Alegre para estudar no segundo grau. Na calçada, ansiosa, sem conseguir esconder sua apreensão, estava tia Ruth.

O filho retirante já tinha uma enorme bagagem de recomendações e conselhos que vinham sendo passados ao longo dos últimos meses. As vezes em doses homeopáticas. Às vezes em longas sessões de doutrinação, como agem todas as mães.

Ele estava excitado com as novas perspectivas. A Mãe tensa. Pairava no ar um daqueles momentos de silêncio que sempre ocorrem nas despedidas. Entretanto o ônibus partindo exigia uma última recomendação. Só mais uma, pensou. Saiu meio desajeitada, com um pouco de embargo na voz. Era quase uma súplica:

- Não esquece de ir à missa aos domingos.


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