Newton Braga Rosa Comitê Editorial



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Passagem Estreita


Os três já estavam segurando o bezerro que ia ser castrado. O animal se debatia e pediram ao tio Ruy para segurar o rabo. Neste instante os três, conforme haviam planejado, soltaram o animal. Só ficou preso pelo rabo. Na outra ponta o tio Ruy, rápido, larga tudo e sai correndo. O bezerro vem atrás. A salvação foi passar entre duas árvores jovens e suficientemente próximas para impedirem a passagem do bezerro.

Passam os anos. As árvores cresceram e tio Ruy também. O espaço entre elas ficou muito menor. E o tio Ruy um pouco maior. Tio Ruy contava a história convocando eventuais testemunhas do feito. Apontava para o pequeno espaço entre as árvores e dizia, para a incredulidade geral:

- Já passei por aqui!

Formigas


Era a noite de 30 de maio de 1941. Chovia copiosamente. Antes de escurecer os homens olharam o rio Taquari e concluíram que ele não iria transbordar naquela noite. Poderia acontecer no dia seguinte, se a chuva não parasse.

Desde a morte da vó Nicota, em dezembro de 1940, vô Leca tinha decidido que toda a família ia morar na parte de baixo da casa. A de cima estava fechada à quase seis meses.

Baiano, com sete anos, dormia no mesmo quarto da Diva.

No meio da noite (mais precisamente a meia-noite e trinta) acorda a irmã:

- Tem uns bichinhos me mordendo.

Diva sai da cama. Quando põe os pés no chão, sente a água fria.

Dá o alarme. Acorda todos. Começava o drama da enchente que iria atormentar a família nos próximos 5 dias.

Diva lembra que já contou esta história dezenas de vezes. Os relatos que seguem são tão impressionantes que as pessoas se esquecem de perguntar que bichinhos eram aqueles. Somente duas pessoas haviam perguntado isto até hoje.

- E os bichinhos?

Eram formigas fugindo das águas.


A Bordo da "Roma"


Três casas não ficaram abaixo da água na enchente de 41. A do vô Leca, a do Amaro Cananéa (pai da tia Viroca) e a do Luiz Vasques Cunha.

As águas subiram tanto que no dia 4 de maio cobriram o último degrau da escada frontal.

Como não sabiam o quanto ela subiria mais, decidiram abandonar o sobrado.

A margem direita do Taquari é plana e sem obstáculos. A água corria com muita força.

Embarcaram todos na gasolina "Roma" do Tio Manuel Junqueira que partiu sobrecarregada rumo a fazenda do Eurico de Oliveira Santos onde havia algumas elevações.

No meio da viagem começa a escurecer. A correnteza aumenta e a "Roma" não pode mais continuar. Poderia afundar. Encontraram algumas árvores e ancoraram, nas copas, para passar a noite.

Dentro na Roma, superlotada, ninguém dormiu. Não havia lugar para deitar. Estavam todos sentados. O medo e a tensão das pessoas se manifestava de várias formas. A cada dez minutos alguém perguntava na escuridão da noite, sem endereçar a pergunta para ninguém especificamente:

- Onde estão os papéis importantes?

Uma senhora gorda, entendendo a pergunta responde:

- Estou sentada em cima.

Durante a noite esta pergunta foi feita compulsivamente dezenas de vezes.

Também corria um pinico de mão em mão, sem parar. Sempre havia alguém necessitado.

O impacto psicológico de uma enchente daquele porte deixou marcas profundas. Não aconteceu com ninguém da família, mas algumas pessoas descompensaram ponto de se cunhar uma expressão que ficou anos em voga: "abobado da enchente" passou a ser sinônimo de débil mental.

A noite a bordo da "Roma" foi a mais longa das noites da família.


Mãos ao Remo


A bordo da Roma havia um bebê doente.

Quando ancoraram verificaram que o bebê não poderia passar a noite na Roma. Deveria ser levado para a Fazenda de canoa. O problema é que teriam que chegar na fazenda antes que escurecesse. De noite não haveria nenhuma luz para orientação. Uma decisão difícil.

Finalmente tio Sotero embarca numa canoa com tia Viroca e o Amaro, com seis meses. Começa a remar energicamente.

Vô Leca vê a cena e ordena.

- Viroca, rema junto senão vocês não chegam!

Tia Viroca larga o nenê no fundo da canoa e começa a remar.

E lá se vão até sumir da vista dos que ficaram na Roma, com o coração angustiado.

As Rapaduras


Quando estavam embarcando na Roma vô Leca ordena:

- Levem todo o sal da casa. Vamos precisar carnear uma rez quando chegarmos na fazenda.

Diva pega o sal, coloca num papel de embrulho. Junta as quatro pontas, duas a duas e enrola, formando um saquinho precário. Na época não havia sacos de plástico.

Secretamente prepara um segundo saquinho. Dentro coloca rapaduras de côco, que ela mesmo havia feito alguns dias antes. Um estoque de emergência para algum caso extremo, deve ter pensado ela.

Junta os dois pacotinhos: o do sal e o das rapaduras e os envolve num pacote maior. Também em papel.

Com a umidade, a confusão do embarque e a noite atribulada na Roma os pacotes internos se rompem. O sal se mistura com a rapadura.

- O sal ainda deu para usar; as rapaduras não, relata ela, com pesar na voz, 50 anos depois, pensando naquelas rapadurinhas de côco e contando um dos seus segredos mais bem guardados.

Abóbora Defumada


No dia 5 de maio as águas começaram a baixar.

Não havia alimentos. A casa estava repleta. Na sala se espremiam pessoas de 4 famílias das redondezas.

Pela metade da manhã passa um porco nadando. Após algumas peripécias o porco se deixou pescar. Escapou das águas mas não da faca. Foi carneado no alpendre. Sem cerimônia.

Logo a seguir alguém achou uma abóbora boiando.

O problema seguinte foi fazer fogo com lenha molhada. Esfumaçava toda a casa e não cozinhava o porco. Após uma espera interminável alguém olhou superficialmente e declarou que o porco estava cozido.

A vida recomeçava para os Braga com abóbora e carne de porco crua.


Dívidas


Muitos deviam dinheiro para vô Leca. Para o tio Sotero também.

Como todos haviam perdido tudo que tinham na grande enchente, vô Leca foi categórico:

- Vamos esquecer as dívidas. Mas daqui para frente não se empresta mais dinheiro.

Vó Nicotta sabia que não seria bem assim. Tem certos coisas que precisam muito mais do que um dilúvio para mudar. E estava certa.

As vezes, quando morria alguém em Mariante ela perguntava para o vô Leca:

- E este? Quanto ficou lhe devendo?


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