Newton Braga Rosa Comitê Editorial



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Parlamentarismo


Estavam todos adultos na roda de chimarrão, na casa do tio Ruy que costumava receber correligionários para discussões sobre política. Didaticamente tio Ruy explicava o que era parlamentarismo, um assunto eletrizante em 1962, quando haveria um plebiscito que elegeria Tancredo Neves primeiro ministro.

Vivia-se os desdobramentos da crise da Legalidade, de 1961, que garantiu a posse de Jango após a inesperada renúncia de Jânio Quadros. Brizola, para desagrado dos Libertadores, era o grande líder Nacional. Fervilhava o caldeirão que iria resultar na Revolução Militar, em 1964

Élvio, por volta dos 12 anos, perto da roda, acompanhava as discussões atentamente. Estava quieto é claro. Naquela época criança não se metia em conversa de adulto. Abrir a boca certamente significava uma ordem imediata de retirada, sem direito a argumentação. Tio Rafael estava junto, ouvido atento. Estava reunida a elite formadora de opinião de Lajeado e redondezas.

Num certo momento tio Ruy resumiu:

- No parlamentarismo existe o Presidente, mas quem manda mesmo é o Primeiro-Ministro.

Neste instante toda aquela confusão fica clara para Élvio que fala sozinho em alto e bom tom, chamando a atenção de todo o grupo:

-Ah! entendi. É quem nem lá em casa. Tem o Pai, mas quem manda mesmo é a mãe!

A Mortadeleira


Silvana, filha da Beatriz, era um bebê tipo Johnson. Rechonchuda, linda. Mal gatinhava.

Chegou de tarde na casa da tia Diva e foram recebidos com o indefectível café vespertino dos Braga. O nenê atacou a mortadela com uma voracidade espantosa.

- Ela está acostumada, falou a Beatriz com a calma de sempre.

Foram quase 10 fatias. Acabou com a mortadela da tia Diva mas abriu um precedente que as crianças da casa gostaram.


Um rádio de Presente?


Sérgio Pereira morava em Porto Alegre mas tinha toda sua vida afetiva ligada ao Mariante. Namorava a Marlene e tinha uma turma da pesada. A chegada do Sérgio nas tardes de sábado era sempre um acontecimento para os amigos. Era parceiro certo para o foot-ball, para a farra da noite e para uma boa carpeta.

Além disto trazia as novidades da cidade grande.

Certa vez levou algo que Mariante jamais tinha visto. Um rádio portátil. Era a última novidade também em Porto Alegre. O Telefunken à pilha, com capa de couro, foi um dos cinco primeiros vendidos. na Capital

Na época um rádio que não precisasse ligar na tomada era um passaporte para o prazer. Podia ir para o campo de foot-ball ou para o piquenique na barranca do rio. Aquele rádio marcaria seu tempo acompanhando toda a vida dos namorados.

Sérgio entra no Mariante desfilando o Telefunken, a tiracolo (era pesadíssimo). Passa pela rua do revirado e uma senhora, de uma janela, comenta em alta voz para ser ouvida pelo galã:

- Acho que o Sérgio está virando (bicha). Olha só. Agora anda de bolsa.

No dia seguinte, domingo, na hora da despedida Marlene ganhou o rádio de presente.

Até hoje Marlene tem dúvidas sobre a intenção. Se não fosse o comentário da vizinha da rua do revirado, será que o rádio teria sido dado de presente? Ou teria voltado para Porto Alegre?


Três ex-Fuscas


Fusca 1- O fusca azul claro 64 vai devagar sobre a ponte com algum defeito. Uma camionete grande vem por trás e bate. O fusca pára alguns metros após, ainda sobre a ponte. Muita sorte. Todos do fusca estão bem.
Fusca 2- Tarde de domingo. Calor infernal. Nada para se fazer em Lajeado. Na estrada da Produção, deserta, o fusca branco 68 dá um cavalo-de-pau no meio da estrada. Inclina, inclina e capota. Fica virado sobre a porta do motorista.

- Foi fácil desvirar, segredava mais tarde o jovem. Bastou empurrar.

Difícil foi explicar em casa. Muita pressão:

- Como foi o acidente? Desviar de outro carro? Como assim? Existem testemunhas que foi cavalo-de-pau, afirmava o pai inquisidor.

Para os íntimos a versão real do protagonista:

- Está certo. Foi cavalo-de-pau. Mas testemunha não tinha não. Eu olhei bem antes de fazer.


Fusca 3- Madrugada. Volta de um baile em Encantado. Estrada de terra plana, com barro e cascalho. A curvatura da estrada começa a puxar o fusca azul escuro 68 para a direita. O golpe brusco no volante para a esquerda, solta a traseira. O carro segue sobre a estrada derrapando de lado. Inclina, inclina e tomba sobre a porta oposta do motorista. Capota mais uma vez e para.

- Foi difícil segurar explica o jovem, mais tarde.


Avaliação dos peritos da família: O primeiro caso foi acidente; o segundo imprudência. O terceiro foi barberagem mesmo.

Dois DKW


Em 1968 a DKW Pracinha do Tio Telmo sofreu um acidente. Era domingo de tarde e a família voltava da casa da Marlene. No cruzamento da rua Barão do Amazonas com a Ipiranga levou uma batida, pelo lado, de outro DKW.

Comentário do Roque, na época um dos proprietários da oficina autorizada DKW Vemag de Lajeado:

- Dois DKW se bateram? Só em Porto Alegre mesmo. Aqui eu não tenho esta sorte. Normalmente só um é DKW. O outro vai para conserto em outra oficina.

Ajuda Anita


Muitos tios da segunda geração apreenderam a dirigir com certa idade. Nem todos eram bons motoristas. Além disto, os carros da época exigiam muita perícia. A folga na direção era um problema. Dirigir em estradas de terra esburacadas necessitava movimentos contínuos e precisos todo o tempo. Havia técnicas para compensar a folga de direção: se deixava o carro ir caindo para a direita acompanhando a curvatura da estrada e se ia "encostando" a direção para a esquerda.

As caixas de câmbio eram "secas". Não haviam inventado a caixa sincronizada que aceita com facilidade qualquer marcha. A embreagem era dura. Exigia pernas de atleta. Tudo isto complicava as manobras, principalmente numa rua inclinada.

Tio Rafael já havia perdido a paciência numa destas manobras complicadas. Mesmo assim insistia em manter o charuto na mão. A ré não entrava. As crianças tiveram que se abaixar no banco traseiro. Tia Anita estava quieta no banco da frente sem fazer nada. Uma nova tentativa deixa Tio Rafael furioso que sai a cata de um culpado.

- Também Anita, assim fica difícil. Tu não ajuda nada.

- Ajudar como?

- Pelo menos segura este charuto.

E lá ficou a tia Anita de charuto na mão. Algo pouco recomendável para uma lady da época.

Tudo isto assistido pela platéia que sempre aparece nestas ocasiões.


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