Newton Braga Rosa Comitê Editorial



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Rasante


Quem pensa que impressiona namoradas desfilando carro incrementado não imagina o que já ocorria nos anos 40. Tio Rafael, interessado na filha do vô Leca paquerava de avião. Isto mesmo. No meio da tarde do domingo, lá vinha o teco-teco. Dava um rasante e deixava cair bilhetinhos apaixonados. Algo de fazer inveja a qualquer mocinha de hoje.

Os Motoristas


Em 1965 a Caixa Econômica Federal resolveu financiar carros populares, zero KM, para fomentar a recém instalada indústria automobilística nacional. Newton se lembra da enorme fila que se formou no antigo parque de exposições agropecuárias na av. Getúlio Vargas, em Porto Alegre. A demanda foi imensa e a fila avançava pelos corredores ladeados pelas baias dos animais. Nós, possivelmente recomendados pelo tio Ruy, éramos o número 64 de uma fila de milhares de pessoas. Havia dúvidas no ar. Alguns falavam que os carros, sem acessórios (isto se sabia), não eram feitos de lata. Seriam de madeira, como a camionete que o tio Aurélio teve.

Como sempre o casal havia feito longas conferências entremeadas de incompreensíveis cochichos, noturnos na cama, que se ouvia do quarto do lado. Finalmente concluíram que dava para assumir o compromisso de 4 anos de financiamento, praticamente sem juros. A correção monetária e a inflação ainda não existiam. O casal, que trabalhara a vida toda, ia realizar o sonho do automóvel. Isto por volta dos 45 anos de idade.

Tio Telmo apreendeu a dirigir neste DKW. Um Pracinha 1965, que segundo o tio Ruy era verde em deferência ao exército. Milagrosamente recebemos uma cinza, com uma pintura tão rala que hoje seria confundida com fundo para pintura metálica.

As peripécias do vô Telmo na direção são folclóricas. A entrada da garagem só era possível graças a um sulco no chão que não deixava as rodas pularem fora.

Um dia Newton chega em casa e vê que algum carro havia raspado no muro. Como foi que o senhor fez isto? Perguntou com a arrogância como se fosse o dono.

- Não fui eu responde tio Telmo. Foi o tio Ruy, com o carro dele.

Que alívio. O primeiro arranhão no carro novo (principalmente quando se tem 16 anos) é muito mais importante do que guerras distantes.

Meia Lua


Tia Ruth teve uma carreira de motorista muito curta. Depois de considerar habilitada pelo tio Ruy, prepara-se para a primeira viagem solo.

Dentro do carro está Regina e outras crianças. O carro está no pátio, já fora da garagem. Tio Ruy acompanha, um pouco apreensivo, do portão de saída.

O Mercury Preto, l947, começa a dar ré. Quando passa pelo portão já está rápido demais. Na velocidade em que vinha tia Ruth vira a direção.

O carro, cada vez mais rápido e de ré, descreve uma longa meia lua. Quase cai na valeta do outro lado da rua e, do jeito que vinha, derruba o muro da própria casa do tio Ruy.

Fim de carreira para a motorista.

Fusca de Professora


Bruno Rosa aos 3 anos perguntava:

- Pai, aquilo lá é um carro ou é um fusca?

Parece que fusca não é carro, na concepção das crianças de hoje. É um ente intermediário. Uma espécie de mutante. O elo perdido na cadeia da evolução da espécie automobilística.

Quase todos da família tiveram um fusca em algum momento da sua vida. Ninguém esquece o primeiro fusca.

As professoras ficaram com eles muito mais tempo do que a média, por razões óbvias. A Sílvia teve um 72 que era conhecido por HULK, por causa da cor verde.

Com o tempo, o HULK apodreceu tanto que abriu um buraco enorme no assoalho de trás. Dava para ver o chão passando quando o carro andava. O antigo problema de infiltração, que acumulava água no assoalho, deixou de existir. Toda a água que entrava escorria imediatamente pelo enorme "ralo". Em compensação quando ia passar por uma poça, Sílvia avisava:

- Água à vista

Esta era a senha para as crianças, atrás, levantarem os pés.

Um dia perguntaram a Augusto, com seus 6 anos, se isto não o incomodava.

- Não tio. Além disto é prático para comer bergamota. Não precisa abrir a janela para colocar as cascas fora.


Café da Tarde


Numa tarde tio Hélio, tio Ruy e outros adultos estavam viajando quando o carro perdeu o controle, e caiu num barranco. Acabou batendo numa árvore que salvou o grupo de rolar ribanceira abaixo. Ninguém se machucou.

Subiram o barranco com dificuldade e chegaram à beira da estrada. Estavam sentados, quietos, se refazendo do susto, quando o tio Hélio, aparentemente interpretanto o pensamento de todos, comentou:

- Que tragédia! E logo em seguida acrescentou:

- Vou perder o meu café da tarde.


Chinelada Corretiva


Um consolo para as novas gerações. Na casa do vô Leca as crianças também brigavam:

Ruth com Alípia; Diva com Anita; Pedro com Baiano.

Nilce não tinha com que brigar e Sotero era o primogênito. Falava com a autoridade do pai, na sua ausência.

Ou seja. Os pais que não conseguem levar os dois filhos no banco traseiro do carro não se desesperem. Depois passa. Brigam, mas depois (sabe lá quando) passa.

Na casa do vô Leca as brigas eram resolvidas com chinelo.

É lendária a habilidade da vó Nicota: com a sua mão esquerda ela agarrava o contraventor pela mão esquerda dele. Com a direita comandava, com maestria e energia, o chinelo algoz. Na medida que batia os dois iam girando para a esquerda. Consta que não errava nenhuma chinelada.

Na época, o tamanho da surra era medido em número de voltas.

Primos e Irmãs


Vô Leca dizia:

- Tive 5 irmãs. Todas foram professoras;

- Tenho 5 filhas. Todas vão ser professoras. E ponto final.

Muitos se lembram do depoimento eloqüente da tia Ruth, de microfone na mão, durante o primeiro encontro da família. Ela agradecia a tio Sotero que ficou trabalhando na terra, ajudando o vô no sustento da família, para que elas pudessem estudar.

E foram estudar no que havia de melhor. Em 1930 vieram as duas mais velhas, Ruth e Alípia estudar no Instituto de Educação (se chamava Escola Complementar), para se tornarem professora. Aliás, a única coisa que mocinha de boa família podia fazer fora do lar.

Em 1934, Tia Ruth já estava no terceiro ano Normal e Alípia patinava no primeiro. Quando voltou para Mariante no final daquele ano letivo, noivou com tio Aurélio e não voltou mais. Casou em novembro do ano seguinte.

Os problemas do Vô Leca não pararam por aí. Em 1936 tia Diva vem para Porto Alegre, morar na mesma pensão das irmãs mais velhas: a Santa Izabel, na rua do Rosário, onde já estava morando tia Nilce. Tinha vindo antes para estudar na mesma escola Normal.

Tia Nilce foi atacada pelo cupido. Quando retornou ao Mariante nas férias do meio do ano de 1936, adoeceu (ou simulou) e não voltou mais. Acabou casando com tio Hélio, que era primo irmão do tio Aurélio, em 1938.

Em 1937 Anita vai fazer companhia para Diva. Ambas conseguem acabar o curso Normal no Internato São José em São Leopoldo, para alívio do vô, que teve que se contentar com somente 3 professoras. Qual foi a razão das baixas?

- Foi paixão, afirmam as outras irmãs com convicção.

Adolescentes contemporâneas. Consolem-se. O cupido existe a muito tempo. Aquela dor imensa que toma conta da gente já contaminou vovós respeitáveis de hoje. Nem parece, não? E quem diria! Tio Hélio e tio Aurélio: uma dupla de primos, desencaminhando boas mocinhas.

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