Newton Braga Rosa Comitê Editorial



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A Carteira


Tio Sotero era conhecido pela sua generosidade. Alguns se aproveitavam dela para comprar fiado na venda. Afinal era difícil negar. Todos se conheciam numa intimidade que só é possível numa vila muito pequena. O cliente que pedia fiado era o mesmo amigo das conversas da noite, das farras, das carreiras e por aí afora. Alguns eram parentes e as dificuldades financeiras, bem como todos outros detalhes da vida privada de cada um, eram conhecidos por todos. Não havia segredos no Mariante da época (nem de hoje diriam).

Neste clima era difícil dizer não todas as vezes. O vô Leca, também era vítima freqüente deste tipo de caridade compulsória.

Entretanto, entre os necessitados, havia os malandros. Um dia um destes chegou na venda para comprar uma carteira. Tio Sotero tirou-a da vitrine e a colocou sobre o vidro do balcão para que o cliente examinasse os detalhes.

- Vou ficar com ela, disse resolvido o freguês.

- Custa tanto, responde tio Sotero.

- Está bem diz o outro. Pode botar na conta.

Neste instante tio Sotero, num gesto rápido, pega a carteira das mãos do freguês e a recoloca de volta no mostruário, encerrando o assunto:

- Quem não tem dinheiro não precisa de carteira.


Moinho


Tio Sotero jamais perdia uma partida de Moinho em que ele colocasse a primeira pedra. Tia Diva achando que isto era um atributo genético, resolveu ensinar o netos a jogarem na praia.

Desastre. Os netos pegaram o macete rápido para desespero da vovó.

Pouco tempo depois Bruno Rosa, com 5 anos, comemorava:

- Ganhei da vó três vezes. Uma delas foi sem roubar.

Na tentativa de revanche com os netos mais velhos de 13/14 anos, ela abandonava até o fogão. Enquanto não ganhasse uma, não saia comida. Um a forma de coação terrível, mas infalível. O adversário, com fome, perdia a concentração e a partida. Só então, satisfeita, Vovó Diva voltava ao fogão, para alegria geral.

Cinzas do Charuto


Tio Ruy e tia Ruth sempre foram católicos praticantes.

Newton se lembra que nas viagens de carro de Lajeado para Porto Alegre, uma aventura de várias horas por estradas de terra, sempre havia a hora do terço. Quando a conversa corriqueira esfriava, tia Ruth tirava um providencial terço da bolsa e lá ia o carro levantando poeira estrada a fora, com os passageiros rezando padre-nosso e ave-marias.

E tudo isto impregnado do indefectível cheiro do charuto do tio Ruy que perfumava o ambiente e ficava dançando de um lado para outro da boca. Não se conseguia entender como o charuto conseguia ficar aceso com toda aquela saliva em volta.

Quando uma manobra exigia as duas mãos no volante, ia cinza para todos os lados, inclusive para o colo da tia Ruth que permanecia impassível, "puxando" o terço. Já havia apreendido que era inútil tentar limpar na hora. Deixava acumular para sacudir a saia quando chegasse ao destino.

E lá estávamos nós, de volta das férias, carregados de lembranças, cheios de histórias para contar.

E com um pouco de cinza pela roupa, cabelos e em alguns recantos da alma.


Missa das Sete


Tio Ruy e tia Ruth moravam em Cruzeiro do Sul, praticamente em frente a igreja. Cinco minutos antes da hora, saiam os dois de braços dados subindo a lomba. Certa vez tio Ruy foi dar um Pum e, sem querer, veio o resto tudo. Um desastre seguido de instruções rápidas e precisas:

- Ruth, vai indo à missa das seis horas que eu vou na das sete.


O Buraco


Guido Rocha era um ótimo laçador. Ruy Filho lembra que era hábil em tudo que fazia. Tinha uma inteligência fora do comum. Jamais perdia no jogo do pauzinho. Sua habilidade para negócios era lendária.

Um dia tio Ruy foi ajudá-lo nas lides do campo. Era um dia especial e muitos amigos haviam sido requisitados para a tarefa de marcar gado, castrar ou algo semelhante, que exigia o apoio comunitário. Algo quase desconhecido de nossas tarefas profissionais nos dias de hoje. Mal sabemos o que os outros fazem.

Lá pelas tantas a tarefa já chegava ao final e o clima já começava a ficar descontraído, prenunciando o hora da refeição, quando então todos seriam justa e generosamente recompensados pela ajuda expontânea.

- Onde está o Ruy, pergunta tio Guido ainda montado à cavalo e rodeado pelos amigos.

- Na casinha, responde alguém.

Para a surpresa de todos Tio Guido tira o laço, boleia acima da cabeça e laça a casinha. Dá um safanão, o cavalo derruba a casinha e sai puxando-a campo afora. E o usuário ficou lá, tentando colocar as calças, meio atônito, sem saber direito o que se passara. Ficou literalmente de "calças na mão".

E ainda, quase caiu no buraco.

Na Escada


No sobrado da família havia a escada de acesso que chegava a um alpendre, também de madeira. O tempo já havia deixado suas marcas. A casa precisava de reparos. No alto estava tio Sotero e, mais à frente tia Viroca, aguardando os visitantes que chegavam.

Tio Telmo sobe as escadas na frente e o resto da família, vem atrás. Quando chega no penúltimo degrau começava a estender a mão para cumprimentar a tia Viroca.

- Olá comadre, fala o Tio Telmo.

Tia Viroca, como sempre faz, sorri antes de responder, e também estende a mão.

Neste exato momento, antes das mãos se tocarem ocorre um estalo seco e pláf. A escada cai inteira e fica estendida no chão. Todos estavam bem, e conservavam suas posições de antes da queda. Petrificados, mas com os pés plantados, cada um no seu degrau.

No alto tio Sotero e tia Viroca, na beira do alpendre estavam pasmos, olhando para baixo.

Tia Viroca estava com a mão direita recolhida, firmemente presa contra o corpo pela mão esquerda, como para se proteger do puxão que poderia ter levado.

Prefiro Crua


Tio Ruy atraiu muitos da família para a praia de Arroio Teixeira. A viagem era uma epopéia. O ônibus chegava em Capão da Canoa e o motorista tinha o direito de cancelar o trecho (cerca de 12 Km) pela beira mar se concluísse que a praia não estava boa para trafegar. Além do destino incerto outro problema era a falta de infraestrutura da praia. Não havia supermercado. Se levava rancho para todo o mês. Além de um tubo de gás cheio. Se para quem vinha de Porto Alegre a viagem já era demorada, imagina para a turma de Lajeado.

Mas as coisas foram melhorando aos poucos. Em 1966 a família do Tio Telmo estreava sua DKW pracinha. Ela ficava providencialmente guardada numa garagem de madeira, alugada, longe da praia.

- Tio Telmo, diz Ruy Filho: posso pegar um pouco de combustível da DKW? Não havia em Arroio Teixeira óleo "dois tempos" para misturar à gasolina.

- Está bem.

Newton foi junto. Ruy pegou uma lata de nescau para colocar a gasolina. Tirou a grade da frente. Quando puxou o tubo da entrada da bomba, a gasolina do tanque jorrou e molhou tudo. Tapou o tubo com o dedo e com a outra mão aproximou a lata para iniciar a coleta. Neste instante a lata toca nos dois contatos do motor de arranque.

Chuf! A faísca ateou fogo à gasolina espalhada pelo motor e pelo chão da garagem de madeira (que era pegada à casa).

Pânico.

A praia inteira se mobilizou e conseguiram apagar o incêndio... cobrindo o carro com areia. Em quinze minutos o problema do incêndio havia sido resolvido. Mas havia se criado outro. A areia.

Uma semana depois, quando se conseguiu remover toda a areia, se descobriu que o estrago não tinha sido tão grande. O carro veio rodando para Porto Alegre. O único problema era substituir a cada 2 km o filtro de combustível improvisado com vidros de remédio que se rompiam com o calor.

No dia do incêndio, Tio Ruy, resignado, foi dar a notícia oficial para o Tio Telmo:

- A camionete estava meio crua. Agora ela está tostadinha, começou dizendo.

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