Nietzsche e a filosofia gilles deleuze



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3. TIPOLOGIA DO RESSENTIMENTO (6)
O primeiro aspecto do ressentimento é, portanto, topológico. Existe uma topologia das forças reativas: é sua mudança de lugar, seu deslocamento, que constitui o ressentimento. O que caracteriza o homem do ressentimento é a invasão da consciência pelos traços mnêmicos, a subida da memória para dentro da própria consciência. E, certamente, com isto, ainda não se disse tudo sobre a memória; será preciso perguntar-se como a consciência é capaz de construir uma memória à sua medida, uma memória acionada e quase ativa que não repouse mais em traços. Em Nietzsche, assim como em Freud, a teoria da memória será a teoria de duas memórias (7). Mas enquanto nos restringimos à primeira, ficamos também nos limites do princípio puro do ressentimento; o homem do ressenti­mento é um cão, uma espécie de cão que só reage aos traços (limiar). Ele só investe traços: como a excitação para ele se confunde localmente com o traço, não pode mais acionar sua reação. Mas essa definição topológica deve introduzir-nos a uma "tipologia" do ressentimento, pois quando as forças reativas preponderam sobre as forças ativas por esse desvio, elas próprias formam um tipo. Vemos qual é o sintoma principal desse tipo: uma prodigiosa memória. Nietzsche insiste nessa incapacidade de esquecer qualquer coisa, nessa faculdade de nada esquecer, na natureza profundamente reativa dessa faculdade, que é preciso ser considerada de todos os pontos de vista (8). Um tipo é, na verdade, uma realidade ao mesmo tempo biológica, psíquica, histórica, social e política.
5) EH, I, 6.

6) Nota sobre Nietzsche e Freud: Do que precede, deve-se concluir que Nietzsche exerceu influência sobre Freud? Segundo Jones. Freud negava-o formalmente. A coincidência da hipótese tópica de Freud com o esquema nietzscheano explica-se suficientemente pelas preocupações "energéticas" comuns aos dois autores. Seremos ainda mais sensíveis às diferenças fundamentais que separam suas obras. Pode-se imaginar o que Nietzsche teria pensado de Freud: aí ainda. ele teria denunciado uma concepção muito "reativa" da vida psíquica, uma ignorância da verdadeira "atividade". uma impotência em conceber e em provocar a verdadeira transmutação. Isso pode ser imaginado com mais verossimilhança visto que Freud teve entre seus discípulos um nietzscheano autêntico. Otto Rank devia ter criticado em Freud "a idéia insípida e terna de sublimação". Ele reprovava Freud por não ter sabido liberar a vontade da má consciência ou da culpabilidade. Queria apoiar-se nas forças ativas do inconsciente, desconhecidas para o freudismo, e substituir a sublima­ção por uma vontade criadora e artista. Isto o levava a dizer: sou para Freud o que Nietzsche era para Schopenhauer. Cf. RANK. A Vontade de Felicidade.

7) Essa segunda memória da consciência funda-se na palavra e manifesta-se como faculdade de prometer: Cf. GM, II, 1. – Em Freud também existe uma memória consciente que depende de "traços verbais", os quais se distinguem dos traços mnêmicos e "correspondem provavelmente a um registro particular" (cf. O Inconsciente e O Ego e o Id).

8) GM, I, 10. e II. 1.
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cia em depreciar as causas, em fazer da infelicidade "o erro de alguém". Ao contrário, o respeito aristocrático pelas causas da infelicidade faz corpo com a impossibilidade de levar a sério suas próprias infelicidades. O fato de o escravo levar a sério suas infelicidades testemunha uma digestão difícil, um pensamento baixo, incapaz de um sentimento de respeito.

A "passividade". No ressentimento, a "felicidade aparece sobretudo sob a forma de entorpecentes, de torpor, de repouso, de paz, de sabá, de relaxamento para o espírito e o corpo, em suma, sob a forma passiva" (14). Passivo, em Nietzsche, não quer dizer não-ativo; não-ativo é reativo; mas passivo quer dizer não-acionado. O que é passivo é somente a reação enquanto não é acionada. Passivo designa o triunfo da reação, o momento em que, cessando de ser aciona­da, ela se torna precisamente um ressentimento. O homem do ressentimento não sabe e não quer amar, mas quer ser amado. Quer ser amado, alimentado, dessendentado, acariciado, adormecido. Ele, o impotente, o dispéptico, o frígido, o insonioso, o escravo. Por isso o homem do ressentimento mostra uma grande suscetibilidade: face a todos os exercícios que é incapaz de realizar, estima que a menor compensação que lhe é devida é justamente a de recolher um benefício. Considera portanto como prova de notória maldade que não o amem, que não o alimentem. O homem do ressentimento é o homem do lucro e do proveito. Mais ainda, o ressentimento só pôde impor-se no mundo fazendo triunfar o lucro, fazendo do proveito não apenas um desejo e um pensamento mas um sistema econômico, social, teológico, um sistema completo, um mecanismo divino. Não reconhecer o proveito, eis aí o crime teológico e o único crime contra o espírito. É nesse sentido que os escravos têm uma moral e que essa moral é a da utilidade (15). Nós perguntávamos: quem considera a ação do ponto de vista de sua utilidade ou de sua nocividade? E mesmo, quem considera a ação do ponto de vista do bem e do mal, do louvável e do censurável? Passem em revista todas as qualidades que a moral chama "louvável" em si, "boas" em si, por exemplo, a inacreditável noção de desinteresse, e perceberão que elas escondem as exigências e as recriminações de um terceiro passivo: é ele que exige um lucro das ações que não faz; gaba precisamente o caráter desinteressado das ações das quais tira um benefício (16). A moral em si esconde o ponto de vista utilitário; mas o utilitaris­mo esconde o ponto de vista de um terceiro passivo, o ponto de vista triunfante de um escravo que se interpõe entre os senhores.

A imputação dos erros, a distribuição das responsabilidades, a acusação perpétua. Tudo isso toma o lugar da agressividade: "A inclinação a ser agressivo faz parte da força tão rigorosamente quanto o sentimento de vingança e de rancor pertencem à fraqueza (17)." Por considerar o lucro um direito, por considerar um direito tirar proveito das ações que não faz, o homem do ressentimento explode em amargas reprovações quando sua espera é em vão. E como não seria ela em
14) GM, I, 10.

15) BM, 260.

16) GC, 21: "O próximo louva o desinteresse porque dele tira seu proveito. Se o próximo, ele próprio, raciocinasse de maneira desinteressada, não desejaria esse sacrifício forçado, esse dano do qual aproveita, opor-se-ia ao nascimento dessas inclinações, manifestaria sobretudo seu próprio desin­teresse dizendo que não são bons. A contradição fundamental dessa moral que se preconiza em nossos dias está indicada no seguinte: seus motivos estão em oposição com seu princípio".

17) EH, I, 7.
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vão, uma vez que a frustração e a vingança são como os a prlorl do ressenti­mento? e tua culpa se ninguém me ama, é tua culpa se estraguei minha vida, tua culpa também se estragas a tua; tuas infelicidade s e as minhas são igualmente tua culpa. Reencontramos aqui o temível poder feminino do ressen­timento: ele não se contenta em denunciar os crimes e os criminosos, quer os culpados, os responsáveis. Adivinhamos o que quer a criatura do ressentimento: quer que os outros sejam maus, precisa que os outros sejam maus para poder sentir-se boa. Tu és mau, portanto eu sou bom: esta é a fórmula fundamental do escravo, ela traduz o essencial do ressentimento do ponto de vista tipológico, resume e reúne todos os caracteres precedentes. Comparem essa fórmula com a do senhor: eu sou bom, portanto tu és mau. A diferença entre as duas é a medida da revolta do escravo e de seu triunfo: "Essa inversão do olhar apreciador pertence propriamente ao ressentimento; a moral dos escravos para nascer preci­sa sempre e antes de mais nada de um mundo oposto e exterior (18)." O escravo precisa, de início, colocar que o outro é mau.
5. ELE É BOM? ELE E MAU?
Eis as duas fórmulas: Eu sou bom, portanto tu és mau. Tu és mau, portanto eu sou bom. Dispomos do método de dramatização. Quem pronuncia uma dessas fórmulas, quem pronuncia a outra? E o que quer cada um deles? Não pode ser um mesmo que pronuncia as duas, pois o bom de uma é precisamente o mau da outra. "O conceito de bom não é único" (19); as palavras bom, mau e mesmo portanto, têm vários sentidos. Verificar-se-á ainda aí que o método de dramatização, essencialmente pluralista e imanente, dá sua regra à pesquisa. Esta não encontra em outra parte a regra científica que a constitui como uma semiologia e uma axiologia, que lhe permitem determinar o sentido e o valor de uma palavra. Perguntamos: quem é que começa por dizer: "Eu sou bom"? Certamente não é aquele que se compara aos outros, nem quem compara suas ações e suas obras a valores superiores ou transcendentes: ele não começaria... Aquele que diz: "Eu sou bom", não espera ser chamado bom. Ele se chama assim, ele se nomeia e se diz assim, na própria medida em que age, afirma e goza. Bom qualifica a atividade, a afirmação, o gozo que se experimentam em seu exercício: uma certa qualidade de alma, "uma certa certeza fundamental que uma alma possui a respeito dela mesma, alguma coisa que é impossível procurar, encontrar e talvez mesmo perder" (20). O que Nietzsche chama freqüentemente a distinção é o caráter interno do que é afirmado (não se tem que procurá-lo), do que é posto em ação (não é encontrado), daquilo de que se goza (não se pode perdê-lo). Aquele que afirma e que age é ao mesmo tempo aquele que é: "A palavra esthlos significa, segundo sua raiz, alguém que é, que tem realidade, que é real, que é verdadeiro (21)." "Ele tem consciência de que confere honra às
18) GM, I. 10.

19) GM, I. 11.

20) BM, 287.

21) GM, I, 5.
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coisas, de que cria os valores. Tudo o que ele encontra em si ele honra; tal moral consiste na glorificação de si mesmo. Ela põe em primeiro plano o sentimento da plenitude, do poder que quer transbordar, o bem-estar de uma alta tensão interna, a consciência de uma riqueza desejosa de dar e de se prodigalizar (22)." "Foram os bons, eles próprios, isto é, os nobres, os poderosos, aqueles que são superiores por su.a situação e sua elevação de alma que se consideraram a si mesmos como bons, que julgaram boas suas ações, isto é, de primeira ordem, estabelecendo essa taxação por oposição a tudo o que era baixo, mesquinho, vulgar (23)". Entretanto, nenhuma comparação intervém no princípio. O fato de outros serem maus, na medida em que não afirmam, não agem, não gozam, é apenas uma conseqüência secundária, uma conclusão negativa·. Bom designa inicialmente o senhor. Mau significa a conseqüência e designa o escravo. Mau é negativo, passivo, ruim, infeliz. Nietzscue esboça o comentário do poema admi­rável de Teognis, inteiramente construído sobre a afirmação lírica fundamental: nós os bons, eles os maus, os ruins. Procurar-se-ia em vão a menor nuança moral nessa apreciação aristocrática; trata-se de uma ética e de uma tipologia, tipologia das forças, ética das maneiras de ser correspondentes.

"Eu sou bom, portanto tu és mau": na boca dos senhores a palavra portanto introduz apenas uma conclusão negativa. O que é negativo é a conclusão. E esta é apenas colocada como a conseqüência de uma afirmação plena: "Nós os aristocratas, os belos, os felizes (24)." No que concerne ao senhor, todo o positivo está nas premissas. Ele precisa das premissas da ação e da afirmação e o gozo dessas premissas para concluir alguma coisa negativa que não é o essencial e não tem quase importância. É apenas um "acessório, uma nuança complementar" (25). Sua única importância é a de aumentar o teor da ação. da afirmação, de soldar sua aliança e de redobrar o gozo que lhes corresponde: o bom "só procura seu antíp6da para se afirmar com mais alegria" (26). Este é o estatuto da agressividade: ela é o negativo, mas o negativo como conclusão de premissas positivas, o negativo como produto da atividade, o negativo como conseqüência de um poder de afirmar. O senhor se reconhece num silogismo no qual são necessárias duas proposições positivas para fazer uma negação, a negação final sendo apenas um meio de reforçar as premissas. Tu és mau, portanto eu sou bom". Tudo mudou: o negativo passa para as premissas, o positivo é concebido como uma conclusão, conclusão de premissas negativas. É o negativo que contém o essencial e o positivo só existe pela negação. O negativo tornou-se "a idéia original, o começo, o ato por excelência" (27). O escravo precisa das premissas da reação e da negação, do ressentimento e do niilismo para obter uma conclusão aparentemente positiva. E ainda assim ela só tem a aparência da positividade. Por isso Nietzsche esforça-se tanto em distinguir o ressentimento e a agressivi­dade: eles diferem segundo a natureza. O homem do ressentimeno precisa conceber um não-eu, em seguida opor-se a esse não-eu para colocar-se enfim como si. Estranho silogismo do escravo: precisa de duas negações para fazer uma
22) BM, 260 (cf. a vontade de poder como "virtude que dá").

23) GM, I. 2.

24) GM, I, 10.

25) GM, I, 11.

26) GM, I, 10.

27) GM, I, 11.
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aparência de afirmação. Nós já sentimos sob que forma o silogismo do escravo teve tanto sucesso em filosofia: a dialética. A dialética como ideologia do ressen­timento.

"Tu és mau, portanto eu sou bom". Nessa fórmula é o escravo que fala. Não se negará que ainda aí valores sejam criados. Mas que valores estranhos! Co­meça-se por colocar o outro como mau. Aquele que se dizia bom, eis que agora é dito mau. Esse mau é aquele que age, que não se contém em agir, portanto, que não considera a ação do ponto de vista das conseqüências que ela terá para terceiros. E o bom agora é aquele que se contém em agir: é bom precisamente nisto, porque refere toda ação ao ponto de vista daquele que não age, ao ponto de vista daquele que experimenta as conseqüências da ação, ou melhor ainda, ao ponto de vista mais sutil de um terceiro divino que perscruta suas intenções. "É bom quem não faz violência a ninguém, quem não ofende ninguém, nem ataca, nem usa de represálias e deixa a Deus o cuidado da vingança, quem fica escondido como nós, evita o encontro com o mal e, de resto, espera pouco da vida, como nós, os pacientes, os humildes e os justos" (28). Eis o nascimento do bem e do mal: a determinação ética – do bom e do ruim – dá lugar ao julgamento moral. O bom da ética tornou-se o mau da moral. O ruim da ética tornou-se o bom da moral. O bem e o mal não são o bom e o ruim, mas, ao contrário, a troca, a inversão, a subversão de sua determinação. Nietzsche insistirá no seguinte ponto: "Para além do bem e do mal" não quer dizer: "Para além do bom e do ruim". Ao contrário... (29). O bem e o mal são valores novos, mas que estranheza na maneira de criar esses valores! Criam-nos, derrubando o bom e o ruim. Criam-nos, não agindo, mas contendo-se em agir. Não afirmando, mas come­çando por negar. Por isso são ditos não criados, divinos, transcendentes, superio­res à vida. Mas pensemos no que esses valores escondem, em seu modo de criação. Escondem um ódio extraordinário, ódio contra a vida, ódio contra tudo o que é ativo e afirmativo na vida. Não há valores morais que sobrevivam um só instante se estiverem separados dessas premissas das quais são a conclusão. E, mais profundamente, não há valores religiosos que sejam separáveis dessé ódio e dessa vingança dos quais tiram a conseqüência. A positividade da religião é uma positividade aparente: conclui-se que os miseráveis, os pobres, os fracos, os escravos, são os bons visto que os fortes são "maus" e "malditos". Inventou-se o bom infeliz, o bom fraco: não há melhor vingança contra os fortes e os felizes. O que seria o amor cristão sem o poder do ressentimento judaico que o anima e o dirige? O amor cristão não é o contrário do ressentimento judaico, mas sim sua conseqüência, sua conclusão, seu coroamento (30). A religião esconde mais ou menos (e, freqüentemente, nos períodos de crise, ela absolutamente não esconde mais) os princípios dos quais saiu diretamente: o peso das premissas negativas, o espírito de vingança, o poder do ressentimento.
28) GM, I, 13.

29) GM, I, 17.

30) GM, 1, 8.
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6. O PARALOGISMO
Tu és mau; eu sou o contrário do que tu és; portanto, eu sou bom. – Em que consiste o paralogismo? Suponhamos um cordeiro lógico. O silogismo do cordeiro balante formula-se assim: as aves de rapina são más (isto é, as aves de rapina são todos os maus, os maus são aves de rapina); ora, eu sou o contrário de uma ave de rapina: portanto eu sou bom (31). É claro que, na premissa menor, a ave de rapina é tomada pelo que ela é: uma força que não se separa de seus efeitos ou de suas manifestações. Mas, na maior, supõe-se que a ave de rapina poderia não manifestar sua força, que ela poderia conter seus efeitos e separar-se do que ela pode: ela é má visto que não se contém. Supõe-se portanto que é uma só e mesma força que se contém efetivamente no cordeiro virtuoso, mas que tem livre curso na ave de rapina má. Como o forte poderia impedir-se de agir, o fraco é alguém que poderia agir se não se impedisse.

Eis aí em que repousa o paralogismo do ressentimento: a ficção de uma força separada do que ela pode. É graças a essa ficção que as forças reativas triunfam. Não lhes basta, com efeito, furtar-se à atividade; é preciso ainda que elas derrubem a relação das forças, que elas se oponham às forças ativas e se representem como superiores. O processo da acusação no ressentimento cumpre essa tarefa: as forças reativas "projetam" uma imagem abstrata e neutralizada da força; tal força separada de seus efeitos será culpada por agir, se, ao contrário, ela não age, será meritória; mais ainda, imaginar-se-á que é preciso mais força (abstrata) para se conter do que para agir. É muito importante analisar os detalhes dessa ficção visto que, através dela, as forças reativas adquirem, como veremos, um poder contagioso, as forças ativas tornam-se realmente reativas: 1o Momento da causalidade: desdobra-se a força. Embora a força não se separe de sua manifestação, faz-se da manifestação um efeito que é relacionado com a força como a uma causa distinta e separada: "Considera-se o mesmo fenômeno pri­meiro como uma causa e, em seguida, como o efeito dessa causa. Os físicos não fazem melhor quando dizem que a força aciona, que a força produz tal ou tal efeito (32)". Toma-se como causa "um simples signo mnemotécnico, uma fór­mula abreviada": quando se diz, por exemplo, que o relâmpago brilha (33). Substitui-se a relação real de significação por uma relação imaginária de causali­dade (34). Começa-se por recalcar a força nela mesma, em seguida, faz-se de sua manifestação algo distinto que encontra na força uma causa eficiente distinta. 2.° Momento da substância: projeta-se a força assim desdobrada num substrato, num sujeito que seria livre para manifestá-la ou não. Neutraliza-se a força, faz-se dela o ato de um sujeito que poderia igualmente não agir. Nietzsche não pára de denunciar no "sujeito" uma ficção ou uma função gramaticais. Quer seja o átomo dos epicuristas, a substância de Descartes, a coisa em si de Kant, todos esses sujeitos são a projeção de "pequenos íncubos imaginários" (35). 3.° Mo-
31) GM, 1.13: "Essas aves de rapina são ruins; e aquele que é o mínimo possivel uma ave de rapina, até mesmo o oposto – um cordeiro – não seria bom?"

32) GM, I. 13.

33) VP, I. 100.

34) Cf. Cr. Id., "Os quatro grandes erros": crítica detalhada da causalidade.

35) GM, I. 18; sobre a critica do cogito cartesiano, cf. VP, I. 98.
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mento da determinação recíproca: moraliza-se a força assim neutralizada. Pois, se se supõe que uma força pode muito bem não manifestar a força que "tem", não é mais absurdo supor, inversamente, que uma força poderia manifestar a força que "não tem". Uma vez que as forças são projetadas num sujeito fictício, esse sujeito mostra-se culpado ou meritório, culpado de que a força ativa exerça a atividade que ela tem, meritório se a força reativa não exerce a que ela... não tem: "Como se a própria fraqueza do fraco, isto é, sua essência, toda sua realidade única, inevitável e indelével, fosse uma realização livre, algo voluntaria­mente escolhido, um ato de mérito (36)". A distinção concreta entre forças qualificadas (o bom e o mau) é substituída pela oposição moral entre forças substancializadas (o bem e o mal).
7. DESENVOLVIMENTO DO RESSENTIMENTO: O SACERDOTE JUDAICO
A análise nos fez passar do primeiro a um segundo aspecto do ressentimento. Quando Nietzsche falar da má consciência, nela distinguirá explicitamente dois aspectos: um primeiro no qual a má consciência está "em estado bruto", pura matéria ou "questão de psicologia animal, não mais do que isso"; um segundo sem o qual a má consciência não seria o que ela é, momento que tira partido dessa matéria prévia e leva-a a tomar forma (37). Essa distinção corresponde à topolo­gia e à tipologia. Ora, tudo indica que ela já vale para o ressentimento. O ressentimento, também, tem dois aspectos ou momentos. O primeiro, topológico, questão de psicologia animal, constitui o ressentimento como matéria bruta: exprime a maneira pela qual as forças reativas se furtam à ação das forças ativas (deslocamento das forças reativas, invasão da consciência pela memória dos traços). O segundo, tipológico. exprime a maneira pela qual o ressentimento toma forma: a memória dos traços torna-se um caráter típico porque encarna o espirito de vingança e faz um trabalho de acusação perpétua; as forças reativas se opõem às forças ativas e as separam do que elas podem (inversão da relação de forças, projeção de uma imagem reativa). Observar-se-á que a revolta das forças reativas não seria ainda um triunfo, eu que esse triunfo local não seria ainda um triunfo completo, sem esse segundo aspecto do ressentimento. Observar-se-á também que, em cada um dos dois casos, as forças reativas não triunfam formando uma força maior do que a das forças ativas; no primeiro caso, tudo se passa entre as forç.as reativas (deslocamento); no segundo, as forças reativas separam as forças ativas do que elas podem, mas por uma ficção, por uma mistificação (inversão por projeção). Desde então, restam-nos dois problemas a resolver para compreendermos o conjunto do ressentimento: 1o Como as forças reativas produzem essa ficção? 2.° Sob que influência a produzem? Isto é: quem faz as forças reativas passarem da primeira para a segunda etapa? Quem dá forma ao ressentimento, qual é "o artista" do ressentimento?

As forças não são separáveis do elemento diferencial do qual deriva sua qualidade. Mas as forças reativas dão uma imagem invertida desse elemento: a
36) GM, I, 13.

37) GM, III, 20.
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diferença das forças, vista do lado da reação, torna-se a oposição das forças reativas às forças ativas. Bastaria então que as forças reativas tivessem a oportu­nidade de desenvolver ou de projetar essa imagem para que a relação das forças e os valores que correspondem a essa relação fossem, por sua vez, invertidos. Ora, elas encontram essa oportunidade ao mesmo tempo que encontram o meio de se furtar à atividade. Cessando de ser acionadas, as forças reativas projetam a imagem invertida. É essa projeção reativa que Nietzsche chama uma ficção: ficção de um mundo supra-sensível em oposição com esse mundo, ficção de um Deus em contradição com a vida. É ela que Nietzsche distingue do poder ativo do sonho e mesmo da imagem positiva de deuses que afirmam e glorificam a vida: "enquanto o mundo dos sonhos reflete a realidade, o mundo das ficções nada mais faz do que falseá-la,depreciá-la e negá-la (38)." É ela que preside a toda evolução do ressentimento, isto é, às operações pelas quais, ao mesmo tempo, a força ativa é separada do que ela pode (falsificação), acusada e tratada como culpada (depreciação), os valores correspondentes invertidos (negação). É nessa ficção, por essa ficção, que as forças reativas se representam como superiores. "Para poder dizer não em resposta a tudo o que representa o movimento ascendente da vida, a tudo o que é bem nascido, poder, beleza, afirmação de si sobre a terra, foi preciso que o instinto de ressentimento, tornado gênio, inven­tasse um outro mundo, a partir do qual essa afirmação da vida nos aparecesse como o mal, a coisa reprovável em si (39)."

Entretanto era preciso que o ressentimento se tornasse "gênio". Era preciso um artista da ficção, capaz de aproveitar a ocasião e dirigir a projeção, conduzir a acusação, operar a inversão. Não acreditemos que a passagem de um momento ao outro do ressentimento, por mais adequada que seja, reduza-se a um simples encadeamento mecânico. É preciso a intervenção de um artista genial. A questão nietzscheana "Quem?" ressoa mais urgente do que nunca. "A Genealogia da Moral contém a primeira psicologia do sacerdote (40)." Aquele que dá forma ao ressentimento, aquele que conduz a acusação e leva sempre mais longe o empreendimento de vingança, aquele que ousa a inversão dos valores, é o sacer­dote. E, mais especialmente, o sacerdote judeu, o sacerdote sob sua forma judaica (41). É ele, mestre em dialética, que dá ao escravo a idéia do silogismo reativo. É ele que forja as premissas negativas. É ele que concebe o amor, um novo amor, que os cristãos assumem, como a conclusão, o coroamento, a flor venenosa de um ódio inacreditável. É ele que começa dizendo "Se os miseráveis são bons; só os pobres, os impotentes, os pequenos são bons; aqueles que sofrem, os necessi­tados, os doentes, os disformes são também os únicos piedosos, os únicos aben­çoados por Deus; só a eles caberá a beatitude. Por outro lado, vocês outros, vocês que são nobres e poderosos, vocês são, para toda eternidade, os maus, os cruéis, os ávidos, os insaciáveis, os ímpios e, eternamente, permanecerão também os reprovados, os malditos, os condenados (42)!" Sem ele o escravo nunca teria sabido elevar-se acima do estado bruto do ressentimento. Então, para apreciar
38) AC, 15, e também 16 e 18.

39) AC, 24.

40) EH, III. "Genealogia da moral".

41) Nietzsche resume sua interpretação da história do povo judeu em AC, 24, 25, 26: o sacerdote judeu já é aquele que deforma a tradição dos reis de Israel e do Antigo Testamento.

42) GM, I, 7.
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corretamente a intervenção do sacerdote, é preciso ver de que maneira ele é cúmplice das forças reativas, más apenas cúmplice, não se confundindo com elas. Ele assegura o triunfo das forças reativas, precisa desse triunfo, mas persegue um objetivo que não se confunde com o delas. Sua vontade é a vontade de poder, sua vontade de poder é o niilismo (43). O niilismo, poder de negar, precisa das forças reativas; consideramos essa proposição fundamental, mas sua recíproca também o é: o niilismo, o poder de negar, conduz as forças reativas ao triunfo. Esse jogo duplo dá ao sacerdote judeu uma profundidade, uma ambivalência inigualadas:

"Ele toma partido, livremente, por uma profunda compreensão da conservação, a favor de todos os instintos de decadências; não que ele seja dominado por eles, mas neles adivinhou um poder que podia fazê-lo afirmar-se contra o mundo (44)."

Teremos que voltar a essas páginas célebres em que Nietzsche trata do judaísmo e do sacerdote judeu. Elas suscitaram, com freqüência, as interpreta­ções mais duvidosas. Sabe-se que os nazistas tiveram relações ambíguas com a obra de Nietzsche; ambíguas porque gostavam de reivindicá-la para si, mas não o podiam fazer sem truncar citações, falsificar edições, proibir textos principais. Por outro lado, o próprio Nietzsche não tinha relações ambíguas com o regime bismarckiano. Ainda menos com o pangermanismo e com o anti-semitismo. Desprezava-os, odiava-os. "Não freqüentar ninguém que esteja implicado nessa burla despudorada das raças (45)." E o grito do coração: "Mas afinal, o que vocês acham que sinto quando o nome de Zaratustra sai da boca dos anti-semitas (46)!" Para compreender o sentido das reflexões nietzscheanas sobre o judaísmo, é preciso lembrar que a "questão judaica" tinha se tornado, na escola hegeliana, um tema dialético por excelência. Ainda aí Nietzsche retoma a questão, mas de acordo com seu próprio método. Pergunta: como o sacerdote se constituiu, condi­ções que se mostrarão decisivas para o conjunto da história européia? Nada é mais evidente do que a admiração de Nietzsche pelos reis de Israel e pelo Antigo Testamento (47). O problema judeu forma um todo com o problema da consti­tuição do sacerdote nesse mundo de Israel: esse é o verdadeiro problema de natureza tipológica. Por isso Nietzsche insiste tanto no seguinte ponto: eu sou o inventor da psicologia do sacerdote (48). É verdade que não faltam considerações
43) AC, 18: "Declarar guerra, em nome de Deus, à vida, à natureza, à vontade de viver. Deus, a fórmula para todas as calúnias do aquém, para todas as mentiras do além? O nada divinizado em Deus, a vontade de nada santificada..." – AC, 26: "O sacerdote abusa do nome de Deus: chama de reino de Deus um estado de coisas em que é o sacerdote que fixa os valores, chama de vontade de Deus os meios que emprega para atingir ou manter tal estado de coisas... ".

44) AC, 24. – GM, I, 6, 7, 8: esse sacerdote não se confunde com o escravo, mas forma uma casta particular.

45) Obras Póstumas (trad. BOLLE, Mercure).

46) Cartas a Fritsch, 23 e 29 de março de 1887. – Sobre todos esses pontos, sobre as falsificações de Nietzsche pelos nazistas, cf. o livro de M, P. NICOLAS, De Nietzsche à Hitler (Fasquelle, 1936), onde são reproduzidas as duas cartas a Fritsch. – Um belo caso de texto de Nietzsche utilizado pelos anti-semitas, embora seu sentido seja exatamente o inverso, encontra-se em BM, 251.

47) BM, 52: "O gosto pelo Antigo Testamento é uma pedra de toque da grandeza ou da mediocridade das almas... Ter colocado juntos, numa mesma capa, o Antigo Testamento e o Novo, que é" em todos os sentidos, o triunfo do gosto rococó, para fazer deles um único e mesmo livro, a Bíblia, o Livro por excelência,é talvez o maior despudor e o pior pecado contra o espírito do qual a Europa literária se tornou culpada."

48) EH, III. "Genealogia da moral".
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mento na má consciência se oponha à anterior. Trata-se ainda somente de uma tentação; de uma sedução suplementares. O ressentimento dizia "é tua culpa", a má consciência diz "é minha culpa". Mas, precisamente, o ressentimento não se acalma enquanto seu contágio não é propagado. Seu objetivo é o de que a vida toda se torne reativa, que os sadios se tornem doentes. Não lhe basta acusar, é preciso que o acusado se sinta culpado. Ora, é na má consciência que o ressen­timento mostra o exemplo e atinge o ápice de seu poder contagioso: mudança de direção. E minha culpa, é minha culpa, até que o mundo inteiro repita esse refrão desolado, até que tudo o que é ativo na vida desenvolva esse mesmo sentimento de culpa. E não há outras condições para o poder do sacerdote: por natureza, o sacerdote é aquele que se torna senhor dos que sofrem (65).

Em tudo isso encontra-se a ambição de Nietzsche: mostrar que, lá onde os dialéticos vêem antíteses ou oposições, existem diferenças mais sutis para desco­brir. coordenações e correlações mais profundas para avaliar – não a consciência infeliz hegeliana, que é apenas um sintoma, mas a má consciência! A definição do primeiro aspecto da má consciência era: multiplicação da dor por interiorização da força. A definição do segundo aspecto é: interiorização da dor por mudança de direção do ressentimento. Já insistimos sobre pela qual a má consciência substitui o ressentimento. E preciso insistir também sobre o paralelismo da má consciência e do ressentimento. Não somente cada uma dessas variedades tem dois mo­mentos, topológico e tipológico, mas a passagem de um momento para outro faz intervir o personagem do sacerdote. E o sacerdote age sempre por ficção. Anali­samos a ficção sobre a qual repousa a inversão dos valores no ressentimento. Mas resta-nos um problema a resolver: sobre que ficção repousam a interiorização da dor e a mudança de direção do ressentimento na má consciência? A complexi­dade desse problema reside, segundo Nietzsche, em ele pôr em jogo o conjunto do fenômeno chamado cultura.
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