Nietzsche e a filosofia gilles deleuze



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16. TRIUNFO DAS FORÇAS REATIVAS
A tipologia nietzscheana põe em jogo toda uma psicologia das "profun­dezas" ou das "cavernas". Em especial, os mecanismos correspondentes a cada momento do triunfo das forças reativas formam uma teoria do inconsciente que deveria ser confrontada com o conjunto do freudismo. Evitar-se-á, entretanto, atribuir aos conceitos nietzscheanos uma significação exclusivamente psicológica. Não apenas porque um tipo é também uma realidade biológica, sociológica, histórica e política; não apenas porque a metafÍsica e a teoria do conhecimento dependem, elas próprias, da tipologia; mas porque Nietzsche, através dessa tipologia, desenvolve uma filosofia que deve, segundo ele, substituir a velha metafísica e a crítica transcendental, e dar às ciências do homem um novo fundamento: a filosofia genealógica, isto é, a filosofia da vontade de poder. A vontade de poder não deve ser interpretada psicologicamente, como se a vontade quisesse o poder em virtude de um móvel; a genealogia também não deve ser interpretada como uma simples gênese psicológica (cf. quadro recapitulativo).
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5 O Super- Homem: Contra a Dialética
1. O NIILISMO

Na palavra niilismo, nihil não significa o não-ser e sim, inicialmente, um valor de nada. A vida assume um valor de nada na medida em que é negada, depreciada. A depreciação supõe sempre uma ficção: é por ficção que se falseia e se deprecia, é por ficção que se opõe alguma coisa à vida (1). A vida inteira torna-se então irreal, é representada como aparência, assume em seu conjunto um valor de nada. A idéia de um outro mundo, de um mundo supra-sensível com todas as suas formas (Deus, a essência, o bem, o verdadeiro), a idéia de valores superiores à vida não é um exemplo entre outros, mas o elemento constitutivo de qualquer ficção. Os valores superiores à vida não se separam de seu efeito: a depreciação da vida, a negação deste mundo. E se não se separam desse efeito é porque têm por princípio uma vontade de negar, de depreciar. Abstenhamo-nos de acreditar que os valores superiores formam um limiar no qual a vontade pára, como se, em face do divino, estivéssemos liberados da coerção de querer. Não é a vontade que se nega nos valores superiores, são os valores superiores que se relacionam com uma vontade de negar, de aniquilar a vida. "Nada de vontade": esse conceito de Schopenhauer é apenas um sintoma; significa inicialmente uma vontade de aniquilamento, uma vontade de nada... "Mas pelo menos é e perma­nece sempre sendo uma vontade (2)." Nihil, em niilismo, significa a negação como qualidade da vontade de poder. Em seu primeiro sentido e em seu funda­mento, niilismo significa portanto: valor de nada assumido pela vida, ficção dos valores superiores que lhe dão esse valor de nada, vontade de nada que se exprime nesses valores superiores.

O niilismo tem um segundo sentido mais corrente. Não significa mais uma vontade e sim uma reação. Reage-se contra o mundo supra-sensível e contra os valores superiores, nega-se-lhes a existência, recusa-se-lhes qualquer validade. Não mais desvalorização da vida em nome de valores superiores, e sim desvalo­rização dos próprios valores superiores. Desvalorização não significa mais valor de nada assumido pela vida, mas sim nada dos valores, dos valores superiores. A grande nova se propaga: não há nada para ser visto atrás da cortina, "os sinais distintivos que se deram da verdadeira essência das coisas são os sinais caracte-
1) AC, 15 (a posição entre o sonho e a ficção).

2) GM, III, 28.
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rísticos do não-ser, do nada" (3). Assim, o niilista nega Deus, o bem: e are mesmo o verdadeiro, todas as formas do supra-sensível. Nada é verdadeiro, nada é bem, Deus está morto. Nada de vontade não é mais apenas um sintoma para uma vontade de nada, mas sim, ao limite, uma negação de toda a vontade, um toedium vitae. Não há mais vontade do homem nem da terra. "Em toda parte há neve, a vida aqui está muda; as últimas gralhas, cujas vozes ouvimos grasnam: Para que? Em vão! Nada! Nada mais brota ou cresce aqui (4)." – Esse segundo sentido continuaria familiar, mas nem por isso deixaria de ser incompreensível, se não víssemos como decorre do primeiro e supõe o primeiro. Há- pouco depreciava­se a vida do alto dos valores superiores, negava-se a vida em nome desses valores. Aqui, ao contrário, se está sozinho com a vida, mas essa vida ainda é a vida depreciada, que procede agora num mundo sem valores, desprovida de sentido e de objetivo. rolando sempre para mais longe, em direção a seu próprio nada. Há pouco, opunha-se a essência à aparência, fazia-se da vida uma aparência. Agora, nega-se a essência, mas guarda-se a aparência. O primeiro sentido do niilismo encontrava seu princípio na vontade de negar como vontade de poder. O segundo sentido, "pessimismo da fraqueza", encontra seu princípio na vida reativa nua e crua, nas forças reativas reduzidas a si mesmas. O primeiro sentido é um niilismo negativo; o segundo é um niilismo reativo.
2. ANÁLISE DA PIEDADE
A cumplicidade fundamental entre a vontade de nada e as forças reativas consiste no seguinte: é a vontade de nada que faz as forças reativas triunfarem. Quando, sob a vontade de nada, a vida universal torna-se irreal, a vida como vida particular torna-se reativa. A vida torna-se ao mesmo tempo irreal em seu conjunto e reativa em particular. Em sua tarefa de negar a vida, a vontade de nada por um lado, tolera a vida reativa, por outro lado tem necessidade dela. Tolera-a como estado da vida próximo de zero, tem necessidade dela como do meio pelo qual a vida é levada a se negar, a se contradizer. Assim, em sua vitória, as forças reativas têm uma testemunha, pior ainda, um diretor. Ora, chega um momento em que as forças reativas triunfantes suportam cada vez menos esse diretor e essa testemunha. Querem triunfar sozinhas, não querem mais dever seu triunfo a ninguém. Talvez receiem o objetivo obscuro que a vontade de poder atinge por s4a própria conta através da vitória delas, talvez temam que essa vontade de puder se volte contra elas e as destrua por sua vez. A vida reativa rompe sua aliança com a vontade negativa, quer reinar sozinha, Eis então que as forças reativas projetam ,ua imagem, mas, desta vez para tomar o lugar da vontade que as dirigia. Até onde irão neste caminho? Antes não ter nenhuma "vontade" do que essa vontade muito poderosa, muito, vivaz ainda. Antes a estagnação de nossos rebanhos do que o pastor que nos leva ainda muito longe. Antes termos apenas nossas forças do que uma vontade da qual não temos mais necessidade. Até onde irão as forças reativas? Antes extinguir-se passivamente! O
3) Cr. Id., "A razão na filosofia". 6.

4) GM, III. 26.
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"niilismo reativo" prolonga de certo modo o "niilismo negativo": triunfantes, as forças reativas tomam o lugar deste poder de negar que as levava ao triunfo. Mas o "niilismo passivo" é o fim extremo do niilismo reativo: melhor extinguir-se passivamente do que ser conduzido de fora.

Esta história também é narrada de uma outra maneira. Deus está morto, mas de que morreu? Morreu de piedade, diz Nietzsche. Ora essa morte é apresentada como acidental: velho e fatigado, cansado de querer, Deus "um dia, acaba por engasgar-se em sua piedade grande demais" (5), ora essa morte é o efeito de um ato criminoso: "Sua piedade não conhecia o pudor; ele se insinuava nos recantos mais imundos. Era mister que morresse, esse curioso entre todos os curiosos, esse indiscreto, esse misericordioso. Via-me sem parar; quis vingar-me de tal testemunha ou eu mesmo deixar de viver. O Deus que via tudo, até mesmo o homem: este Deus devia morrer! O homem não suporta que tal testemunha viva (6)." – O que é a piedade? É essa tolerância para com os estados da vida próximos de zero. A piedade é amor à vida, mas à vida fraca, doente, reativa. Militante, ela anuncia a vitória final dos pobres, dos sofredores, dos impotentes, dos pequenos. Divina, dá-Ihes essa vitória. Quem sente piedade? Precisamente aquele que só tolera a vida reativa, que precisa dessa vida e desse triunfo, que instala seus templos sobre o solo pantanoso de tal vida. Aquele que odeia tudo o que é ativo na vida, que se serve da vida para negá-la e depreciá-la, para opô-la a si mesma. A piedade, no simbolismo de Nietzsche, designa sempre esse complexo da vontade de nada e das forças reativas, essa afinidade de uma com as outras, essa tolerância de uma para com as outras. "A piedade é a prática do niilismo... A piedade persuade ao nada! Não se diz "nada", diz-se, em vez disso, "além", ou "Deus", ou "a verdadeira vida", ou Nirvana, salvação, beatitude. Essa inocente retórica que entra no domínio da idiossincrasia religiosa e moral, parecerá muito menos inocente ao compreendermos qual é a tendência que se enrola no manto de palavras sublimes: a inimizade à vida (7)." Piedade para a vida reativa em nome dos valores superiores, piedade de Deus para o homem reativo: adi­vinha-se a vontade que se oculta nessa maneira de ama a vida, nesse Deus de misericórdia, nesses valores superiores.

Deus engasga-se em piedade: tudo se passa como se a vida reativa lhe entrasse pela garganta. O homem reativo condena Deus à morte porque não suporta mais sua piedade. O homem reativo não suporta mais nenhuma teste­munha, quer estar sozinho como seu triunfo e apenas com suas forças. Coloca-se no lugar de Deus: não conhece mais valores superiores à vida, mas apenas uma vida reativa que se contenta consigo mesma, que pretende produzir seus próprios valores. As armas que Deus lhe deu, o ressentimento, e mesmo a má consciência, todas figuras de seu triunfo, ele as volta contra Deus, as opõe a Deus. O ressenti­mento torna-se atem, mas esse ateísmo é ainda ressentimento, sempre ressenti­mento, sempre má consciência (8). O assassino de Deus é o homem reativo, "o mais horrível dos homens", "gorgolejando fel e cheio de vergonha oculta" (9).
5) Z, IV. "Fora de serviço": versão do "último papa".

6) Z, IV. "O mais horrível dos homens": versão do "assassino de Deus".

7) AC,7.

8) Sobre o ateismo do ressentimento: VP, III. 458: cI. EH, lI. 1: como Nietzsche opõe ao ateismo do ressentimento sua própria agressividade contra a religião.

9) Z, IV. "O mais horrível dos homens".
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Reage contra a piedade de Deus: "Também no domínio da piedade há bom gosto; e este acabou por dizer: Tirem-nos esse Deus. Melhor não ter nenhum Deus, melhor decidir sozinho sobre o destino, melhor ser louco, melhor ser seu próprio Deus (10)." – Até onde ele irá nesse caminho? Até o grande nojo. Melhor não haver absolutamente valores do que haver os valores superiores, melhor não haver nenhuma vontade, melhor um nada de vontade do que uma vontade de nada. Melhor extinguir-se passivamente. É o adivinho, "adivinho do grande cansaço", que anuncia as conseqüências da morte de Deus: a vida reativa sozinha consigo mesma, não tendo nem mesmo vontade de desaparecer, so­nhando com uma extinção passiva. "Tudo é vazio, tudo é igual, tudo passou!. .. Todas as fontes secaram para nós e o mar se retirou. Todo solo escapa, mas o abismo não nos quer tragar. Ah! onde existe ainda um mar onde nos possamos afogar? .. Na verdade já estamos muito fatigados para morrer (11)." O último dos homens é o descendente do assassino de Deus: melhor não haver nenhuma vontade, melhor um único rebanho. "Uma pessoa não se torna mais nem pobre nem rica: é muito penoso. Quem ainda quereria governar? Quem ainda quereria obedecer? É muito penoso. Nenhum pastor e um só rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais... (12)."

Assim narrada, a história nos leva à mesma conclusão: o niilismo negativo é substituído pelo niilismo reativo, o niilismo reativo acaba no niilismo passivo. De Deus ao assassino de Deus, do assassino de Deus ao último dos homens. Mas esse resultado é o saber do adivinho. Antes de chegar lá, quantos avatares, quantas variações sobre o tema niilista. Por muito tempo a vida reativa se esforça por secretar seus próprios valores, o homem reativo toma o lugar de Deus: a adaptação, a evolução, o progresso, a felicidade para todos, o bem da comuni­dade; o Homem-Deus, o homem moral, o homem verídico, o homem social. São esses os valores novos que nos são propostos em lugar dos valores superiores, são esses os personagens novos que nos são propostos em lugar de Deus. Os últimos dos homens dizem ainda: "Nós inventamos a felicidade (13)." Porque o homem teria matado Deus se não fosse para pegar o lugar ainda quente? Heidegger observa, comentando Nietzsche: "Se Deus abandonou seu lugar no mundo supra-sensível, este lugar, embora vazio, permanece. A religião vazia do mundo supra-sensível e do mundo ideal pode ser mantida. O lugar vazio exige mesmo, de algum modo, ser ocupado de novo e substituir o Deus desaparecido por outra coisa (14)." Mais do que isso: é sempre a mesma vida, essa vida que se benefi­ciava em primeiro lugar com a depreciação do conjunto da vida, que se aprovei­tava da vontade de nada para obter sua vitória, que triunfava nos templos de Deus, à sombra dos valores superiores; depois, em segundo lugar, essa vida que se põe no lugar de Deus, que se volta contra o princípio de seu próprio triunfo e não reconhece mais outros valores a não ser os seus próprios; enfim, essa vida extenuada que preferirá não querer, extinguir-se passivamente, a ser animada por uma vontade que a ultrapassa. É ainda e sempre a mesma vida: vida depre-
10) Z, IV, "Fora de serviço".

11) Z, II, "O adivinho" . – GC, 125: "Não vamos vagando como por um nada infinito? Não sentimos o sopro do vazio em nossa face? Não faz mais frio? Não vêm sempre noites, sempre mais noites?"

12) Z, Prólogo, 5.

13) Z, Prólogo, 5.

14) HEIDEGGER, Holzwege ("A palavra de Nietzsche: Deus está morto", trad. franc., Arguments, n.o 15).
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ciada, reduzida à sua forma reativa. Os valores podem mudar, renovar-se ou mesmo desaparecer. O que não muda e não desaparece é a perspectiva niilista que preside esta história do início ao fim e da qual derivam todos esses valores tanto quanto sua ausência. Por isso Nietzsche pode pensar que o niilismo não é um acontecimento na história e sim o motor da história do homem como história universal. Niilismo negativo, reativo e passivo: para Nietzsche é uma só e mesma história pontuada pelo judaísmo, o cristianismo, a reforma, o livre-pensamento, a ideologia democrática e socialista, etc. Até o último dos homens (15).
3. DEUS ESTÁ MORTO
As proposições especulativas põem em jogo a idéia de Deus do ponto de vista da sua forma. Deus não existe ou existe, conforme sua idéia implique ou não contra­dição. Mas a fórmula "Deus está morto" é de outra natureza: faz a existência de Deus depender de uma síntese, opera a síntese da idéia de Deus com o tempo, com o devir, com a história, com o homem. Ela diz ao mesmo tempo: Deus existiu e está morto e ressuscitará, Deus tornou-se Homem e o Homem tornou-se Deus. A fórmula "Deus está morto" não é uma proposição especulativa, mas uma proposição dramática, a proposição dramática por excelência. Não se pode fazer de Deus o objeto de um conhecimento sintético sem nele colocar a morte. A existência ou a não-existência deixam de ser determinações absolutas que decor­rem da idéia de Deus, mas a vida e a morte se tornam determinações relativas que correspondem às forças que entram em síntese com a idéia de Deus ou na idéia de Deus. A proposição dramática é sintética, portanto essencialmente pluralista, tipológica e diferencial. Quem morre, e quem condena Deus à morte? "Quando os deuses morrem, morrem sempre de vários tipos de morte (16)."

1. o – Do ponto de vista do niilismo negativo: momento da consciência judaica e cristã. – A idéia de Deus exprime a vontade de nada, a depreciação da vida; "quando não se coloca o centro de gravidade da vida na vida, e sim no além, no nada, tirou-se da vida seu centro de gravidade" (17). Mas a depreciação, o ódio da vida em seu conjunto, acarreta uma glorificação da vida reativa em particular: eles os maus, os pecadores... nós os bons. O princípio e a conseqüên­cia. A consciência judaica ou consciência do ressentimento (após a bela época dos reis de Israel) apresenta esses dois aspectos: o universal aparece aí como esse ódio da vida, o particular, como esse amor pela vida, com a condição de que ela seja doente e reativa. Mas é muito importante esconder que esses dois aspectos estão numa relação de premissas à conclusão, de princípio à conclusão, que esse amor é a conseqüência desse ódio. É preciso tornar a vontade de nada mais sedutora, opondo um aspecto ao outro, fazendo do amor uma antítese do ódio. O Deus judeu condena seu filho à morte para torná-lo independente dele e do povo judeu:
15) Nietzsche não se limita a uma história européia. O budismo lhe parece uma religião do niilismo passivo e até mesmo dá a ele uma nobreza. Por isso Nietzsche pensa que o Oriente está adiantado em relação à Europa: o cristianismo se atém ainda aos estágios negativo e reativo do niilismo Cd. VP, 1, 343; AC, 20·23).

16) Z, IV, "Fora de serviço".

17) AC, 43.

Falta 128 -129

Percebemos onde Nietzsche quer chegar: Cristo era o oposto do que São Paulo fez dele, o verdadeiro Cristo era uma espécie de Buda, ‘um buda em terreno pouco hindu’

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"um Buda em terreno pouco hindu" (24). Estava muito adiante de sua época, de seu meio: já ensinava a vida reativa a morrer serenamente, a extinguir-se passi­vamente, mostrava à vida reativa sua verdadeira saída quando ela se debatia ainda com a vontade de poder. Dava um hedonismo à vida reativa, uma nobreza ao último dos homens, quando estes ainda se perguntavam se tomariam ou não o lugar de Deus. Dava uma nobreza ao niilismo passivo, quando os homens ainda estavam no niilismo negativo, quando o niilismo reativo apenas iniciava. Para além da má consciência e do ressentimento, Jesus dava uma lição ao homem reativo: ensinava-o a morrer. Era o mais doce dos decadentes, o mais interessante (25). Cristo não era nem judeu nem cristão, mas budista; mais próximo do Dalai-Lama do que do papa. De tal modo adiantado em seu país, em seu meio, que sua morte teve que ser deformada, toda sua história falsificada, retrogra­dada, colocada a serviço dos estágios precedentes, mudada em proveito do niilismo negativo ou reativo. "Torcida e transformada por São Paulo numa doutrina de mistérios pagãos, que acaba por se conciliar com toda a organização política... e por ensinar a fazer a guerra, a condenar, a torturar, a blasfemar, a odiar": o ódio transformado no instrumento deste Cristo muito doce (26). Pois a diferença entre o budismo e o cristianismo oficial de São Paulo é a seguinte: o budismo é a religião do niilismo passivo, "o budismo é uma religião para o fim e a lassidão da civilização; o cristianismo ainda não encontra essa civilização, ele a cria se for necessário" (27). É próprio da história cristã e européia realizar, a ferro e fogo, um fim que em outra parte, já foi dado e atingido naturalmente: a realização do niilismo. O que o budismo tinha chegado a viver como fim reali­zado, como perfeição atingida, o cristianismo vive apenas como motor. Isso não impede que ele atinja esse fim; que o cristianismo atinja "uma prática" desem­baraçada de toda a mitologia paulina, que encontre a verdadeira prática de Cristo. "O budismo progride em silêncio em toda a Europa (28)." Mas quanto ódio e quantas guerras para chegar aí. Cristo pessoalmente se instalara nesse fim último, o havia atingido com um bater de asas, pássaro de Buda num meio que não era budista. É preciso que o cristianismo, ao contrário, torne a passar por todos os estágios do niilismo para que esse fim se torne também o seu, ao cabo de uma longa e terrível política de vingança.
4. CONTRA O HEGELIANISMO
Nessa filosofia da história e da religião não se encontrará uma retomada, ou mesmo uma caricatura, das concepções de Hegel. A relação é mais profunda, a diferença é mais profunda. Deus está morto, Deus tornou-se Homem, o Homem tornou-se Deus: doferentemente de seus predecessores, Nietzsche não acredita
24) AC, 31. – AC, 42: "Um esforço novo, totalmente espontâneo, para um movimento de paz budista"; VP, I, 390: "O cristianismo é um ingênuo começo de pacifismo budista, surgido do próprio rebanho que anima o ressentimento."

25) AC, 31.

26) VP, I, 390.

27) AC,22.

28) VP, III, 87.
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nessa morte. Não aposta nessa cruz. Isto é, não faz dessa morte um aconteci­mento que teria seu sentido em si. A morte de Deus tem tantos sentidos quantos são as forças capazes de se apoderarem de Cristo e de fazê-lo morrer; mas precisamente esperamos ainda as forças ou o poder que levarão essa morte a seu grau superior e dela farão algo diferente de uma morte aparente e abstrata. Contra todo o roma ntismo, contra toda a dialética, Nietzsche desconfia da morte de Deus. Com ele acaba a idade da confiança ingênua na qual saudava-se ora a reconciliação do homem com Deus, ora a substituição de Deus pelo homem. Nietzsche não tem fé nos grandes acontecimentos ruidosos (29). São necessários muito silêncio e muito tempo para que um acontecimento encontre enfim as forças que lhe dão uma essência. – Sem dúvida, para Hegel também, é preciso tempo para que um acontecimento encontre sua verdadeira essência. Mas esse tempo é necessário somente para que o sentido tal qual é "em si" torne-se também "para si". A morte de Cristo interpretada por Hegel significa a oposição superada, a reconciliação do finito como infinito, a unidade de Deus e do indivíduo, do imutável e do particular. Ora, será preciso que a consciência cristã passe por outras figuras da oposição para que essa unidade se torne também para si o que já é em si. O tempo do qual Nietzsche fala é, ao contrário, necessário à formação de forças que dão à morte de Deus um sentido que ela não continha em si, que lhe trazem uma essência determinada como a esplêndida dádiva da exterioridade.Em Hegel, a diversidade dos sentidos, a escolha da essência, a necessidade do tempo são aparências, apenas aparências (30).

Universal e singular, imutável e particular, infinito e finito, o que é tudo isso?Nada além de sintomas. Quem é esse particular, esse singular, esse finito? E o que é esse universal, esse imutável, esse infinito? Um é sujeito, mas quem é esse sujeito, que forças ? O outro é predicado ou objeto, mas de que vontade ele é "objeto"? A dialética nem mesmo aflora a interpretação, nunca ultrapassa o domínio dos sintomas. Confunde a interpretação com o desenvolvimento do sintoma não interpretado. Por isso, em matéria de desenvolvimento e de mu­dança, ela não concebe nada mais profundo do que uma permutação abstrata na qual o sujeito se torna predicado e o predicado, sujeito. Mas aquele que é sujeito e aquilo que é o predicado não mudaram, permanecem no fim tão pouco deter­minados quanto no início, tão pouco interpretados quanto possível; tudo se passou nas regiões intermediárias. Não é espantoso que a dialética proceda por oposição, desenvolvimento da oposição ou contradição, resolução da contradição. Ela ignora o elemento real do qual derivam as forças, suas qualidades e suas relações; conhece apenas a imagem invertida desse elemento a qual se reflete nos sintomas abstratamente considerados. A oposição pode ser a lei da relação entre os produtos abstratos, mas a diferença é o único princípio de gênese ou de produção que produz a oposição como simples aparência. A dialética alimenta-se de oposições porque ignora os mecanismos diferenciais diversamente sutis e
29) Z, II. "Dos grandes acontecimentos": "Perdi a fé nos grandes acontecimentos por haver muitos urros e fumaça em torno deles... E confessa-o então! Pouca coisa tinha sido realizada quando se dissipavam teu fragor e tua fumaça", GC, 125,

30) Sobre a morte de Deus e seu sentido na filosofia de Hegel, cf. os comentários essenciais de WAHL (Le malheur de la conscience dans la philosophie de Hegel) e de HYPPOLlTE (Gènese et structure de la phénoménologie de l'sprit). – E também o belo artigo de BIRAULT (L'Onto-théo-logique hégélienne et ai dialectique, in Tijdschrift vooz Philosophie, 1958).
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subterrâneos: os deslocamentos topológicos, as variações tipológicas. Isto é bem nítido num elemento que Nietzsche aprecia: toda sua teoria da má consciência deve ser compreendida como uma reinterpretação da consciência infeliz hege­liana; essa consciência, aparentemente dilacerada, encontra seu sentido nas relações diferenciais de forças que se ocultam sob oposições fingidas. Do mesmo modo, a relação do cristianismo com o judaísmo não deixa subsistir a oposição a não ser como cobertura e como pretexto. Destituída de todas as suas ambições, a oposição deixa de ser informadora, motriz e coordenadora: um sintoma, nada mais do que um sintoma a ser interpretado. Destituída de sua pretensão a prestar contas da diferença, a contradição aparece tal qual é: perpétuo contra-senso sobre a própria diferença, inversão confusa da genealogia. Na verdade, para o olho do genealogista, o trabalho do negativo é apenas uma grosseira aproximação dos jogos da vontade de poder. Ao considerar abstratamente os sintomas, ao fazer do movimento da aparência a lei genética das coisas, ao reter do princípio apenas uma imagem invertida, toda a dialética opera e se move no elemento da ficção. Como suas soluções não seriam fictícias se seus próprios problemas são fictícios? Não há sequer uma ficção da qual ela não faça um momento do espírito, um de seus próprios momentos. Andar com os pés para cima é algo que um dialético não pode criticar num terceiro, é o caráter fundamental da própria dialética. Como nessa postura ela ainda conservaria um olho crítico? A obra de Nietzsche dirige­se contra a dialética de três maneiras: esta desconhece o sentido porque ignora a natureza das forças que se apropriam concretamente dos fenômenos; desconhece a essência porque ignora o elemento real do qual derivam as forças, suas quali­dades e suas relações; desconhece a mudança e a transformação porque se contenta em operar permutações entre termos abstratos e irreais.

Todas essas insuficiências têm uma mesma origem: a ignorância da per­gunta "Quem?" Sempre o mesmo desprezo socrático pela arte dos sofistas. Anunciam-nos, à maneira hegeliana, que o homem e Deus se reconciliam e também que a religião e a filosofia se reconciliam. Anunciam-nos, à maneira de Feuerbach, que o homem toma o lugar de Deus, que recupera o divino como seu bem próprio ou sua essência e também que a teologia torna-se antropologia. Mas quem é Homem e o que é Deus? Quem é particular, o que é o universal? Feuerbach diz que o homem mudou, que se tornou Deus; Deus mudou, a essêncía de Deus tornou-se a essência do homem. Mas aquele que é Homem não mudou; o homem reativo, o escravo, que não deixa de ser escravo ao se apresentar como Deus, sempre o escravo, máquina de fabricar o divino. O que é Deus também não mudou: sempre o divino, sempre o Ser supremo, máquina de fabricar o escravo. O que mudou, ou melhor, o que mudou de determinação, foi o conceito intermediário, foram os termos médios que podem ser tanto sujeito quanto predicado um do outro: Deus ou o Homem (31).

Deus torna-se Homem, o Homem torna-se Deus. Mas quem é Homem? Sempre o ser reativo, o representante, o sujeito de uma vida fraca e depreciada. O que é Deus? Sempre o ser supremo como meio de depreciar a vida, "objeto" da
31) Feuerbach estava de acordo com as críticas de Stiner: deixo subsistir os predicados de Deus. "mas (me) é necessário deixar que subsistam, sem o que não poderia nem mesmo deixar subsistirem a natureza e o homem; pois Deus é um ser composto de realidades, isto é, dos predicados da natureza e da humanidade (Cf. L'ssence du christianisme dans son rapport avec l'Unique et sa propriété. Manifestes philosophiques, trad. ALTHUSSER (Presses Universitaires de France).
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vontade de nada, "predicado" do niilismo. Antes e depois da morte de Deus, o homem permanece "quem é" assim como Deus permanece "o que é": forças reativas e vontade de nada. A dialética nos anuncia a reconciliação do Homem com Deus. Mas o que é essa reconciliação senão a velha cumplicidade, a velhjl afinidade da vontade de nada e da vida reativa? A dialética nos anuncia a substituição de Deus pelo homem. Mas o que é essa substituição senão a vida reativa no lugar da vontade de nada, a vida reativa produzindo agora seus próprios valores? Nesse ponto parece que toda a dialética se move nos limites das forças reativas, que evolui inteiramente na perspectiva niilista. Existe um ponto de vista a partir do qual a oposição aparece como o elemento genético da força; é o ponto de vista das forças reativas. Visto do lado das forças reativas, o elemento diferencial é invertido, refletido ao contrário, tornado oposição. Existe uma pers­pectiva que opõe a ficção ao real, que desenvolve a ficção como o meio pelo qual as forças reativas triunfam: é o niilismo, a perspectiva niilista. O trabalho do negativo está a serviço de uma voptade. Basta perguntar: qual é essa vontade? Para pressentir a essência da dialética. A descoberta cara à dialética é a consciên­cia infeliz, o aprofundamento da consciência infeliz, sua resolução, sua glorifi­cação e a de seus recursos. São as forças reativas que se exprimem na oposição, é a vontade de nada que se exprime no trabalho do negativo. A dialética é a ideologia natural do ressentimento, da má consciência. É o pensamento na perspectiva do niilismo e do ponto de vista das forças reativas. De um lado ao outro, ela é pensamento fundamentalmente cristao: Impotente para criar novas maneiras de pensar, novas maneiras de sentir. A morte de Deus, grande aconte­cimento dialético e ruidoso; mas acontecimento que se passa no fragor das forças reativas, na fumaça do niilismo.
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