Nietzsche e a filosofia gilles deleuze



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10. A AFIRMAÇÃO E A NEGAÇÃO
Transmutação, transvaloração significam: 1.o Mudança de qualidade na vontade de poder. Os valores, e seu valor, não derivam mais do negativo, e sim da afirmação como tal. Afirma-se a vida em lugar de depreciá-la e a própria expressão "em lugar" ainda é falha. É o próprio lugar que muda, não há mais lugar para um outro mundo. O elemento dos valores muda de lugar e de natureza, o valor dos valores muda de princípio, toda a avaliação muda de cará ter. 2.o Passagem da ratio cognoscendi à ratio essendi na vontade de poder. A razão sob a qual a vontade de poder é conhecida não é a razão sob a qual ela está. Pensaremos a vontade de poder tal como é, pensá-Ia-emos como ser, contanto que nos sirvamos da razão de conhecer como uma qualidade que passa para seu contrário e contanto que encontremos nesse contrário a razão de ser desconheci­da. 3.o Conversão do elemento na vontade de poder. O negativo torna-se poder de afirmar: subordina-se à afirmação, passa para o serviço de um excedente da vida.
72) EH, III, "Origem da Tragédia", 3.

73) Z, II. "Sobre as ilhas bem-aventuradas"

74) EH, III, "Origem da tragédia", 3-4 ..
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A negação não é mais a forma sob a qual a vida conserva tudo o que é reativo nela mas, ao contrário, o ato pelo qual ela sacrifica todas as suas formas reativas. O homem que quer perecer, o homem que quer ser superado: nele a negação muda de sentido, tornou-se poder de afirmar, condição preliminar para o desenvolvi­mento do afirmativo, sinal anunciador e servidor zeloso da afirmação como tal. 4o Reino da afirmação da vontade de poder. Só a afirmação subsiste enquanto poder independente; o negativo emana dela como o relâmpago, mas também nela se reabsorve e desaparece como um fogo solúvel. No homem que quer perecer o negativo anunciava o super-homem, mas só a afirmação produz o que o negativo anuncia. Não há outro poder a não ser o de afirmar, não há outra qualidade, não há outro elemento: a negação inteira é convertida na substância transmutada em sua qualidade, nada subsiste de seu próprio poder ou de sua autonomia. Conver­são do pesado em leve, do baixo em alto, da dor em alegria: essa trindade da dança, do jogo e do riso forma, ao mesmo tempo, a transubstanciação do nada, a transmutação do negativo, a transvaloracão ou mudança de poder da negação. O que Zaratustra chama "a Ceia". 5o Crítica dos valores conhecidos. Os valores conhecidos até este dia perdem todo seu valor. A negação reaparece aqui, mas sempre sob a espécie de um poder de afirmar, como a conseqüência inseparável da afirmação e da transmutação. A afirmação soberana não se separa da destrui­ção de todos os valores conhecidos, faz dessa destruição uma destruição total. 6o Inversão da relação de forças. A afirmação constitui um devir-ativo como devir universal das forças. As forças reativas são negadas, todas as forças se tornam ativas. A inversão dos valores, a desvalorização dos valores ativos e a instauração de valores ativos são operações que supõem a transmutação dos valores, a conversão do negativo em afirmação.

Talvez já estejamos habilitados a compreender os textos de Nietzsche que concernem a afirmação, a negação e suas relações. Em primeiro lugar, a negação e a afirmação se opõem como duas qualidades da vontade de poder, duas razões na vontade de poder. Cada uma é um contrário, mas é também o todo que exclui o outro contrário. Não basta dizer que a negação dominou nosso pensamento, nossos modos de sentir e de avaliar até este dia. Na verdade, ela é constitutiva do homem. E com o homem, é o mundo inteiro que se estraga e que se torna doente, é a vida toda que é depreciada, todo o conhecido escorrega em direção a seu próprio nada. Inversamente, a afirmação só se manifesta acima do homem, fora do homem, no sobre-humano que ela produz, no desconhecido que traz consigo. Mas o sobre-humano, o desconhecido também é o todo que rechassa o negativo. O super-homem como espécie é também "a espécie superior de tudo o que é". Zaratustra diz sim e amém "de modo enorme e ilimitado", ele próprio é "a eterna afirmação de todas as coisas" (75). "Abençôo e afirmo sempre, contanto que estejas em torno de mim, céu claro, abismo de luz! A todos os abismos levo minha abençoadora afirmação (76)." Enquanto reinar o negativo, procurar-se-á em vão aqui embaixo, ou no outro mundo, uma parcela de afirmação: o que se chama afirmação é grotesco, triste fantasma agitando as correntes do negativo (77). Mas
75) EH, III, "Assim falou Zaratustra", 6.

76) Z, III, "Antes do nàscer do sol".

77) VP, IV. 14: "Será preciso avaliar com o maior rigor os únicos aspectos até então afirmados da existência: compreender de onde vem essa afirmação e quão pouco convincente ela é desde que se trata de uma avaliação dionisíaca da existência."
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quando a transmutação, é a negação que se dissipa, nada subsiste como poder independente, nem em qualidade nem em razão: "Constelação suprema do ser, que nenhum voto atinge, que nenhuma negação macula, eterna afirmação do ser, eternamente sou tua afirmação (78)."

Mas então, porque Nietzsche apresenta às vezes a afirmação como separável de uma condição preliminar negativa e também de uma conseqüência próxima negativa? "Conheço a alegria de destruir num grau que está de acordo com minha força de destruição (79)." 1.o Não há afirmação que não seja imediata­mente seguida de uma negação não menos enorme e ilimitada. Zaratustra se eleva a esse "supremo grau de negação". A destruição como destruição ativa de todos os valores conhecidos é o traço do criador: "Vejam os bons e os justos! Quem eles mais odeiam? Aquele que quebra suas tábuas de valores, o destruidor, o criminoso; ora, ele é o criador." 2o Não existe afirmação que não se faça preceder também por uma imem;a negação: "Uma das condições essenciais da afirmação é a negação e a destruição." Zaratustra diz: "Tornei-me aquele que abençoa e que afirma e durante muito tempo lutei por isso." O leão torna-se criança, mas o "sim sagrado" da criança deve ser precedido pelo "não sagrado" do leão (80). A destruição como destruição ativa do homem que quer perecer e ser superado é o anúncio do criador. Separada dessas duas negações a afirmação nada é, ela própria é impotente para se afirmar (81).

Poder-se-ia acreditar que o asno, o animal que diz I-A, era o animal dionisíaco por excelência. Na verdade não é isso; sua aparência é dionisíaca, mas toda sua realidade é cristã. Ele só é apropriado a servir de deus para os homens superiores: sem dúvida representa a afirmação como o elemento que ultrapassa os homens superiores, desfigura-a, entretanto, à imagem deles e para suas necessidades. Diz sempre sim, mas não sabe dizer não. "Honro as línguas e os estômagos recalcitrantes e difíceis que aprenderam a dizer: eu, sim e não. Mastigar tudo e tudo digerir é bom para os porcos! Dizer sempre I-A é o que só os asnos e os de sua espécie aprenderam (82)!" Dionísio diz uma vez a Ariana, por brincadeira, que ela tem orelhas muito pequenas: ele quer dizer que ela não sabe ainda afirmar nem desenvolver a afirmação (83). Mas realmente o próprio Nietzsche se vangloria de ter a orelha pequena: "Isto não deixará de interessar um pouco as mulheres. Parece-me que se sentirão mais compreendidas por mim. Eu sou o anti-asno por excelência, o que faz de mim um monstro histórico. Sou em grego, e não apenas em grego, o anti-cristão (84)." Ariana e o próprio Dionísio têm orelhas pequenas, pequenas orelhas circulares, propícias ao eterno retorno. Pois as longas orelhas pontudas não são as melhores: não sabem recolher
78) DD, "Glória e eternidade". .

79) EH, IV. 2.

80) Z, I, "Das três metamorfoses",

81) Cf. EH: como a negação sucede à afirmação (III, "Para além de bem e mal"): "Após ter realizado a parte afirmativa dessa tarefa, era a vez da parte negativa...”. – Como a negação precede a afirmação (III. "Assim falou Zaratustra", 8; e IV. 2 e 4).

82) Z, III, "Do espírito de pesadume".

83) Cr. Id., "O que os alemães estllo em vias de perder", 19: "O Dionísio divino, porque me puxas as orelhas? perguntou um dia Ariana a seu filosófico amante, num dos célebres diálogos na ilha de Naxos, – Acho engraçadas tuas orelhas. Ariana: porque elas ainda não estllo mais longas?"

84) EH, III, 2
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"a palavra sensata" nem lhe dar todo seu eco (85). A palavra sensata é sim, mas um eco a precede e a segue: é o não. O sim do asno é um falso sim: sim que não sabe dizer não, sem eco nos ouvidos do asno, afirmação separada das duas negações que deveriam circundá-Ia. O asno não sabe formular a afirmação, tanto quanto suas orelhas não sabem recolhê-la nem recolher seus ecos. Zaratustra diz: "Meus versos não serão para as orelhas de todo mundo. Há muito que desaprendi ter consideração com as orelhas longas (86)."

Não perceberemos contradição no pensamento de Nietzsche. Por um lado, ele anuncia a afirmação dionisíaca que nenhuma negação macula. Por outro lado, denuncia a afirmação do asno que não sabe dizer não, que não comporta nenhuma negação. Num caso a afirmação nada deixa subsistir da negação como poder autônomo ou colnO qualidade primeira: o negativo é inteiramente expulso da constelação do ser, do círculo do eterno retorno, da própria vontade de poder e de sua razão de ser. Mas no outro caso a afirmação nunca seria real nem completa se não se fizesse preceder e suceder pelo negativo. Trata-se então de negações, mas de negações como poderes de afirmar. Nunca a afirmação afirma­ria a si mesma se, inicialmente, a negação não rompesse sua aliança com as forças reativas e não se tornasse poder afirmativo no homem que quer perecer; e, em seguida, se a negação não reunisse, não totalizasse todos os valores reativos para destruí-Ios de um ponto de vista que afirma. Sob essas duas formas, o negativo cessa de ser uma qualidade primeira e um poder autônomo. Todo o negativo tornou-se poder de afirmar, não é mais do que a maneira de ser da afirmação como tal. Por isso Nietzsche insiste tanto na distinção entre o ressentimento, poder de negar que se exprime nas forças reativas, e a agressividade, maneira de ser ativa de um poder de afirmar (87). Do começo ao fim de Zaratustra, o próprio Zaratustra é seguido, imitado, tentado, comprometido por seu "macaco", seu "bufão", seu "anão", seu "demônio" (88). Ora, o demônio é o niilismo. Por tudo negar, tudo desprezar, ele acredita também levar a negação até o grau supremo. Mas vivendo da negação como de um poder independente, não tendo outra qualidade a não ser o negativo, ele é apenas a criatura do ressentimento, do ódio e da vingança. Zaratustra lhe diz: "Desprezo teu desprezo... Só do amor me pode vir a vontade de meu desprezo e de meu pássaro anunciador, não do pântano (89)." Isso quer dizer que é somente como poder de afirmar (amor) que o negativo atinge seu grau superior (pássaro anunciador que precede e sucede a afirmação); enquanto o negativo for seu próprio poder ou sua própria qualidade, estará no pântano e será pântano (forças reativas). Somente sob o império da
85) DD, "Lamentaçllo de Ariana": "Dionísio: Tens orelhas pequenas, tens minhas orelh..s: põe ai uma palavra sensata,"

86) Z. IV: "Conversação com os reis". – e IV? "00 homem superior": "As orelhas longas do populacho."

87) EH, I. 6 e 7.

88) Z, Prólogo, 6, 7, 8 (primeiro encontro do bufllo que diz a Zaratustra: "Falaste como um bufllo"). ­II, "A criança do espelho" (Zaratustra sonha que, ao se olhar num espelho, vê o rosto do bufão. "Na verdade, compreendo muito bem o sentido e a advertêllcia deste sonho: minha doutrina estÍl em perigo, o joio quer se chamar trigo. Meus inimigos tornaram-se poderosos e desfiguraram a imagem de minha doutrina"). – III, "Da visão e do enigma" (segundo encontro com o anão-bufão, perto do pórtico do eterno retomo). – "De passagem" (terceiro encontro: "Tua fala de louco me faz mal, mesmo quándo tens razão").

89) Z, III, "De passagem".
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afirmação o negativo é elevado até seu grau superior ao mesmo tempo que vence a si mesmo: ele não subsiste mais como poder e qualidade, mas como maneira de ser daquele que é poderoso. Então, e somente então, o negativo é agressividade, a negação se torna ativa, a destruição se torna alegre (90).
Vemos onde Nietzsche quer chegar e a quem se opõe. Opõe-se a todas as formas de pensamento que se confiam ao poder do negativo. Opõe-se a todos os pensamentos que se movem no elemento do negativo, que se servem da negação como de um motor, de um poder e de uma qualidade. Este pensamento é, e permanece, pensamento do ressentimento. (*) Para ele são necessárias duas negações para fazer uma afirmação, isto é, uma aparência de afirmação, um fantasma de afirmação. (Assim, o ressentimento precisa de suas duas premissas negativas para concluir a pretensa positividade de sua conseqüência. Ou o ideal ascético precisa do ressentimento e da má consciência como duas premissas negativas para concluir a pretensa positividade do divino. Ou a atividade genérica do homem precisa duas vezes do negativo para concluir a pretensa positividade das reapropriações.) Tudo é falso e triste nesse pensamento representado pelo bufão de Zaratustra: a atividade é aí apenas uma reação, a afirmação, um fantasma. Zaratustra lhe opõe a afirmação pura: a afirmação é necessária e suficiente para fazer duas negações, duas negações que fazem parte dos poderes de afirmar, que são as maneiras de ser da afirmação como tal. E, veremos mais tarde que são necessárias duas afirmações para fazer da negação em seu conjunto um modo de afirmar. – Contra o ressentimento do pensador cristão, a agressivi­dade do pensador dionisíaco. À famosa positividade do negativo, Nietzsche opõe sua própria descoberta: a negatividade do positivo
90) EH, III, "A origem da tragédia", "Assim falou Zaratustra",

(*) N.T. Foi suprimida a seguinte frase: "Comme d'autres ont le vin triste, une telle pensée a la destruction triste, le tragique triste:... " Esta frase joga com a expressão "avoir le vin triste" que não tem correspondente em português e significa: ficar triste depois de muito beber.

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E nós arrastamos fielmente a carga que nos dão, sobre ombros fortes e acima de áridas montanhas! E quando transpiramos, dizem: Sim, a vida é uma carga pesada (94)". O asno é primeiramente Cristo: é Cristo que se carrega com os fardos mais pesados, é ele que sustenta os frutos do negativo como se contivessem o mistério positivo por excelência. Depois, quando os homens tomam o lugar de Deus, o asno se torna livre-pensador. Apropria-se de tudo que lhe é colocado sobre o dorso. Não é mais necessário carregá-lo, ele carrega a si mesmo. Recupera o Estado, a religião, etc., como seus próprios poderes. Tornou-se Deus: todos os velhos valores do outro mundo aparecem-lhe agora como forças que conduzem este mundo, como suas próprias forças. O peso do fardo se confunde com o peso de seus músculos fatigados. Ele assume a si mesmo assumindo o real, assume o real assumindo a si mesmo. Um gosto assombroso pelas responsabilidades é toda a moral que volta a galope. Mas nesse resultado, o real e sua assunção permane­cem tal e como são, falsa positividade e falsa afirmação. Face aos "homens deste tempo" Zaratustra diz: "Tudo o que é inquietante no futuro e tudo o que sempre afugenta os pássaros perdidos é na verdade mais familiar e mais tranqüilizador do que a realidade de vocês. Porque vocês dizem: Estamos inteiramente presos ao real, sem crença nem superstição. É assim que enchem o papo sem sequer ter papo! Sim, como poderiam acreditar, sarapintados como estão, vocês que são pinturas de tudo o que sempre se acreditou... Seres efêmeros, é assim que os chamo, vocês, os homens da realidade!... Vocês são homens estéreis... São portas entreabertas diante das quais esperam os coveiros. E aí está a realidade de vocês... (95)." Os homens deste tempo vivem ainda sob uma velha idéia: é real e positivo tudo o que pensa, é real e afirmativo tudo o que sustenta. Mas essa realidade, que reúne o camelo e seu fardo a ponto de confundi-Ios numa mesma miragem, é apenas o deserto, a realidade do deserto, o niilismo. Do camelo Zaratustrajá dizia: "Tão logo carregado apressa-se para o deserto." E do espírito corajoso, "vigoroso e paciente": "até que a vida lhe pareça Um deserto" (96). O real compreendido como objeto, objetivo e termo da afirmação; a afirmação compreendida como adesão ou aquiescência ao real, como assunção do real, este é o sentido do zurro. Mas essa é uma afirmação de conseqüência, conseqüência de, premissas eternamente negativas, um sim como resposta ao espírito de pesa­dume e a todas as suas solicitações. O asno não sabe dizer não; mas em primeiro lugar ele não sabe dizer não ao próprio niilismo. Recolhe todos os seus produtos, carrega-os no deserto e lá os batiza: o real tal qual é. Por isso Nietzsche pode denunciar o sim do asno: o asno não se opõe de modo algum ao macaco de Zaratustra, não desenvolve outro poder a não ser o de negar, responde fielmente a esse poder. Não sabe dizer não, responde sempre sim, m as responde sim todas as vezes que o niilismo enceta a conversação.

Nessa crítica da afirmação como assunção, Nietzsche não pensa nem longin­quamente nas concepções estóicas. O inimigo está mais próximo. Nietzsche dirige a crítica contra toda concepção da afirmação que dela faz uma simples função, função do ser ou do que é. De qualquer modo que esse ser seja concebido: como verdadeiro ou real, como número ou fenômeno. E de qualquer modo que essa
94) Z, III. "Do espíríto de pesadume",

95) Z, II, "Do país da cultura",

96) Z, " "Das três metamorfoses", e III, "Do espírito de pesadume".
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função seja concebida: como desenvolvimento, exposição, desvelamento, revela­ção. realização, tomada de consciência ou conhecimento. Desde Hegel a filosofia se apresenta como uma estranha mistura de ontologia e antropologia, de metafísica e humanismo, de teologia e ateísmo, teologia da má consciência e ateísmo do ressentimento. Pois, enquanto a afirmação é apresentada como uma função do ser, o homem lhe aparece como o funcionário da afirmação: o ser se afirma no homem ao mesmo tempo que o homem afirma o ser. Enquanto a afir­mação é defínida por uma assunção, isto é, uma tomada a cargo, ela estabe­lece entre o homem e o ser uma relação considerada fundamental, uma relação atlética e dialética. Novamente, com efeito, e pela última vez, não temos dificul­dade em identificar o inimigo que Nietzsche combate; é a dialética que confunde a afirmação com a veracidade do verdadeiro ou a positividade do real; e essa veracidade, essa positividade, é inicialmente a dialética quem as fabrica com os produtos do negativo. O ser da lógica hegeliana é o ser apenas pensado, puro e vazio, que se afirma passando para seu próprio contrário. Mas esse ser nunca foi diferente desse contrário, nunca teve que passar para o que já era. O ser hegeliano é o nada puro e simples; e o devir que esse ser forma com o nada, isto é, consigo mesmo, é um devir perfeitamente niilista; a afirmação passa aqui pela negação porque é somente a afirmação do negativo e de seus produtos. Feuerbach levou muito longe a refutação do ser hegeliano. Substituiu uma verdade apenas pensada pela verdade do sensível. Substituiu o ser abstrato pelo ser sensível, determinado, real, "o real em sua realidade", "o real enquanto real". Ele queria que o ser real fosse o objeto do ser real: a realidade total do ser como objeto do ser real e total do homem. Queria o pensamento afirmativo e compreendia a afirma­ção como a colocação daquilo que é (97). Mas esse real tal qual é, em Feuerbach, conserva todos os atributos do niilismo como o predicado do divino; o ser real do homem conserva todas as propriedades reativas como a força e o gosto em assumir esse divino. Nos "homens deste tempo", nos "homens da realidade", Nietzsche denuncia a dialética e o dialético: pintura de tudo o que sempre se acreditou.

Nietzsche quer dizer três coisas: 1.o – O ser, o verdadeiro, o real são avatares do niilismo. Maneiras de mutilar a vida, de negá-la,de torná-la reativa submetendo-a ao trabalho do negativo, carregando-a como os fardos mais pesa­dos. Nietzsche não acredita nem na auto-suficiência do real nem na do verda­deiro: pensa-as como as manifestações de uma vontade, vontade de depreciar a vida, vontade de opor a vida à vida. 2o – A afirmação concebida como assunção, como afirmação do que é, como veracidade do verdadeiro ou positividade do real, é uma falsa afirmação. É o sim do asno. Este não sabe dizer não porque diz sim a tudo o que é não. O asno ou o camelo são o contrário do leão; neste a negação se tornava poder de afirmar, mas naqueles a afirmação permanece a serviço do negativo, simples poder de negar. 3o – Esta falsa concepção da afirmação é ainda um modo de conservar o homem. Enquanto o ser é penoso o homem reativo está aí para sustentá-Io. Onde o ser se afirmaria melhor do que no deserto? E onde o homem se conservará melhor? "O último homem vive mais tempo," Sob o
97) FEUERBACH. Contribution à Ia critique de Ia philosophíe de Hegel e Principes de Ia philosophie de l'avenir (Manifestes philosophiques, trad, ALTHUSSER, Presses Universitaíres de France),
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sol do ser ele perde até o gosto de morrer, afundando-se no deserto para aí sonhar longamente com uma extinção passiva (98). – Toda a filosofia de Nietzsche se opõe aos postulados do ser, do homem e da assunção. "O ser: dele não temos outra representação a não se o fato de vivermos. Como o que está morto poderia ser (99)?" O mundo não é nem verdadeiro, nem real, mas vivo. E o mundo vivo é a vontade de poder, vontade do falso que se efetua sob poderes diversos. Efetuar a vontade do falso sob um poder qualquer, a vontade de poder sob uma qualidade qualquer é sempre avaliar. Viver é avaliar. Não existe verdade do mundo pensado, nem realidade do mundo sensível, tudo é avaliação, até mesmo e sobretudo o sensível e o real. "A vontade de parecer, de dar ilusão, de enganar, a vontade de devir e de mudar (ou a ilusão objetivada) é considerada neste livro como mais profunda, mais metafísica do que a vontade de ver o verdadeiro, a realidade, o ser, sendo que esta última ainda é apenas uma forma de tendência à ilusão." O ser, o verdadeiro, o real só valem como avaliações, isto é, como mentiras (100). Mas, enquanto meios de efetuar a verdade sob um de seus poderes, eles serviram até agora ao poder ou qualidade do negativo. O ser, o verdadeiro, o próprio real são como o divino no qual a vida se opõe à vida. O que reina então é a negação como qualidade da vontade de poder a qual, opondo a vida à vida, nega-se em seu conjunto e a faz triunfar como reativa em particular. A outra qualidade da vontade de poder é, ao contrário, um poder sob o qual o querer é adequado a toda a vida, um poder do falso mais elevado, uma qualidade sob a qual a vida inteira é afirmada e sua particularidade tornada ativa. Afirmar ainda é avaliar, mas avaliar do ponto de vista de uma vontade que goza de sua própria diferença na vida em lugar de sofrer as dores da oposição que ela própria inspira a esta vida. Afirmar não é tomar a cargo, assumir o que é, mas liberar, descarregar aquilo que vive. Afirmar é tornar leve: não é carregar a vida sob o peso dos valores superiores, mas criar valores novos que sejam os da vida, que façam a vida leve e ativa. Só há criação propriamente dita à medida que, longe de separarmos a vida do que ela pode, servimo-nos do excedente para inventar novas formas de vida. "E o que vocês chamaram de mundo, é preciso que comecem a criá-Io: sua razão, sua imaginação, sua vontade, seu amor devem tornar-se este mundo (101).: Mas essa tarefa não encontra sua realização no homem. Por mais longe que possa ir, o homem eleva a negação até uma potência de afirmar. Mas afirmar em todo seu poder, afirmar a própria afirmação é o que ultrapassa as forças do homem. "Nem mesmo o leão pode ainda criar valores novos mas o poder do leão é capaz de tornar-se livre para criações novas (102)". O sentido da afirmação só pode ser destacado se levarmos em conta estes três pontos fundamentais na filosofia de Nietzsche: não o verdadeiro, nem o real, mas a avaliação; não a afirmação como
98) Heidegger dá uma interpretação da filosofia nietzschiana mais próxima de seu próprio pensamento do que do de Nietzsche. Na doutrina do eterno .retorno e do super-homem, Heidegger vê a determinação "da relação do ser com o ser do homem como relação deste ser com o ser" (cf. Qu'appelle-t-on penser? p. 81). Essa interpretação negligencia toda a parte crítica da obra de Nietzsche. Negligencia tudo contra o que Nietzsche lutou. Nietzsche se opõe a toda concepção da afirmação que encontra seu fundamento no ser e sua determinação no ser do homem.

99) VP, II, 8.

100) VP, IV, 8. – O "livro" ao qual Nietzsche alude é a Origem da Tragédia.

101) Z, II. Sobre as ilhas bem.aventuradas".

102) Z, I. "Das três metamorfoses".
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exata, é insuficiente porque supõe o eterno retorno e nada diz sobre os elementos pré-constituintes dos quais deriva. A águia plana em amplos círculos, com uma serpente enrolada em torno do pescoço, "não semelhante a uma presa, mas como um amigo" (106): nisto veremos a necessidade, para a afirmação mais audaciosa, de ser acompanhada, duplicada, por uma segunda afirmação que a tome por objeto. 2o – O casal divino, Dionísio-Ariana. "Quem além de mim sabe quem é Ariana (107)." E sem dúvida o mistério de Ariana tem uma plura­lidade de sentidos. Ariana amou Teseu. Este é uma representação do homem superior: é o homem sublime e heróico, aquele que assume os fardos e que vence os monstros. Mas falta-lhe precisamente a virtude do touro, quer dizer, o sentido da terra, quando ele é atrelado e também a capacidade de desatrelar, de lançar fora os fardos (108). Enquanto a mulher ama o homem, enquanto é mãe, irmã, esposa do homem, mesmo que seja do homem superior, ela é apenas a imagem feminina do homem: o poder feminino permanece acorrentado na mulher (109). Mães terríveis, irmãs e esposas terríveis, a feminilidade representa aqui o espírito de vingança e o ressentimento que animam o próprio homem. Mas Ariana, abandonada por Teseu, sente vir uma transmutação que lhe é própria: o poder feminino liberado, tornado benfazejo e afirmativo" a anima. "Que o reflexo de uma estrela brilhe em seu amor! Que sua esperança diga: Oh, que eu possa pôr no mundo o super-homem (110)!" Além disso, em relação a Dionísio, Ariana­Anima é como uma segunda afirmação. A afirmação dionisíaca exige outra afir1l1ação que a toma por objeto. O devir dionisíaco é o ser, a eternidade, enquanto a afirmação correspondente é afirmada: "Eterna afirmação do ser, eternamente sou tua afirmação (111)." O eterno retorno "aproxima ao máximo" o devir e o ser, afirma um do outro (112); é preciso ainda uma segunda afirmação para operar essa aproximação. Por isso o eterno retorno é um anel nupcial (113). Por isso o universo dionisíaco, o ciclo eterno é um anel nupcial, um espelho de núpcias o qual espera a alma (anima) capaz de mirar-se nele, mas também de refleti-lo ao mirar-se (114). Por isso Dionísio quer uma noiva: "Sou eu, eu que tu queres? Eu inteira (115)?... " (Mais uma vez observaremos que, conforme o ponto no qual nos colocamos, as núpcias mudam de sentido ou de casais. Pois segundo o eterno retorno constituído, o próprio Zaratustra aparece como o noivo e a eternidade como uma mulher amada. Mas segundo o que constitui o· eterno retorno, Dionísio é a primeira afirmação, o devir e o ser, mas exatamente o devir que só é ser como objeto de uma segunda afirmação; Ariana é esta segunda afirmação, Ariana é a noiva, o poder feminino que ama).

3o – O labirinto ou as orelhas. O labirinto é uma imagem freqüente em
106) Z, Prólogo, 10.

107) EH, III, -"Assim falou Zaratustra", 8.

108) Z, II, "Dos homens sublimes". – "Permanecer com os músculos inativos e a vontade de desatrelar: é o mais dificil para vocês, homens sublimes."

109) Z, III, "Da vontade amesquinhadora",

110) Z, I. "Das mulheres jovens e velhas".

111) DD, "Glória e eternidade".

112) VP, II, 170.

113) Z, III, "Os sete selos".

114) VP, II, SI: outro desenvolvimento da imagem do noivado e do anel nupcial.

115) DD, "Lamentação de Ariana".
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Nietzsche. Designa primeiramente o inconsciente, o si: só a Anima é capaz de nos reconciliar com o inconsciente, de nos dar o fio condutor para sua exp loração. Em segundo lugar, o labirinto designa o próprio eterno retorno: circular, não é o caminho perdido. mas o caminho que nos reconduz ao mesmo ponto. ao mesmo instante que é. que foi e que será. Mais profundamente. do ponto de vista do que constitui o eterno retorno. o labirinto é o devir. a afirmação do devir. Ora, o ser sai do devir. afirma-se do devir, na medida em que a afirmação do devir é o objeto de uma outra afirmação (o fio de Ariana). Enquanto Ariana freqüentou Teseu, o labirinto era considerado ao contrário, abria-se para os valores superiores, o fio era do negativo e do ressentimento, o fio moral (116). Mas Dionísio ensina a Ariana seu segredo: o verdadeiro labirinto é o próprio Dionísio, o verdadeiro fio é o da afirmação. "Sou teu labirinto (117)." Dionísio é o labirinto e o touro, o devir e o ser. mas o devir que só é ser à medida em que sua afirmação é afirmada. Dionísio não pede a Ariana apenas para ouvir, mas para afirmar a afirmação:

"Tens pequenas orelhas, tens minhas orelhas: põe aí uma palavra sensata". A orelha é labirintica, a orelha é o labirinto do devir ou o dédalo da afirmação. O labirinto é o que nos conduz ao ser, só há ser do devir, só há ser do próprio lahirinto. Mas Ariana tem as orelhas de Dionísio: a própria afirmação deve ser afirmada para que seja precisamente a afirmação do ser. Ariana põe uma palavra sensata nas orelhas de Dionísio. Isto é: tendo ouvido a afirmação dionisíaca, faz dela uma segunda afirmação que Dionísio ouve.

Se considerarmos a afirmação e a negação como qualidades da vontade de poder. vemos que elas não têm uma relação unívoca. A negação se põe à afirmação. mas esta difere da negação. Não podemos pensar a afirmação como "opondo-se", por sua própria conta, à negação: isto equivaleria a colocar nela o negativo. A oposição não é apenas a relação da negação com a afirmação, mas a essência do negativo enquanto tal. A afirmação é gozo e jogo da oposição que lhe é própria. Mas qual é este jogo da diferença na afirmação? A afirmação é colocada uma primeira vez como o múltiplo, o devir e o acaso. Pois o múltiplo é a diferença de ambos, o devir é a diferença consigo mesma, o acaso é a diferença "entre todos" ou distributiva. Em seguida, a afirmação se duplica, a diferença é refletida na afirmação da afirmação: momento da reflexão na qual uma segunda afirmação toma a primeira por objeto. Mas assim a afirmação redobra: como ohjeto da segunda afirmação ela é a própria afirmação afirmada, a afirmação redobrada. a diferença elevada à sua maior potência. O devir é o ser, o múltiplo é o um. o acaso é a necessidade. A afirmação do devir é a afirmação do ser, etc., mas na medida em que ela é objeto da segunda afirmação que a leva para esse poder novo. O ser se diz do devir, o um do múltiplo, a necessidade do acaso, mas na medida em que o devir, o múltiplo e o acaso se refletem na segunda afirmação que os toma por objeto. Assim. é próprio da afirmação retomar, ou da diferença
116) VP, III. 408: "Somos particularmente curiosos em explorar o labirinto, esforçamo-nos por conhe­cer o Sr. Minotauro do qual contam coisas tão terríveis: que nos importa o caminho de vocês que sobe, o fio que conduz para fora, que conduz para a felicidade e a virtude. que leva a vocês, eu o temo... vocês podem salvar-nos com a ajuda desse fio? E nós suplicamos-lhes com insistência. enforquem·se nesse fio!"

117) DD, "Lamentação de Ariana": "Sê prudente Ariana! Tens pequenas orelhas, tens minhas orelhas: põe aí uma palavra sensata! Não é preciso primeiro odiarmo-nos se devemos nos amar?... Sou teu labirinto... ..
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se reproduzir. Retomar é o ser do devir, o um do múltiplo, a necessidade do acaso: o ser da diferença enquanto tal, ou o eterno retorno. Se considerarmos a afirmação em seu conjunto, não devemos confundir, exceto por comodidade de expressão, a existência de dois poderes de afirmar com a existência de duas afirmações distintas. O devir e o ser são uma mesma afirmação, que apenas passa de um poder ao outro enquanto ela é o objeto de uma segunda afirmação. A primeira afirmação é DionÍsio, o devir. A segunda afirmação é Ariana, o espelho, a noiva, a reflexão. Mas o segundo poder da primeira afirmação é o eterno retorno ou o ser do devir. É a vontade de poder como elemento diferencial que produz e desenvolve a diferença na afirmação, que reflete a diferença na afirma­çao, que a faz voltar na própria afirmação afirmada. DionÍsio desenvolvido, refletido, elevado à mais alta potência: estes são os aspectos do querer dionisÍaco que serve de princípio ao eterno retorno.
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