Nietzsche e a filosofia gilles deleuze



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13. DIONÍSIO E ZARATUSTRA
A lição do eterno retorno é a de que não há retorno do negativo. O eterno retorno significa que o ser é seleção. Só retoma o que afirma ou o que é afirmado. O eterno retorno é a reprovação do devir, mas a reprodução do devir é também a produção de um devir-ativo: o super-homem, filho de Dionísio e Ariana. No eterno retorno o ser se diz do devir, mas o ser do devir se diz apenas do devir-ativo. O ensinamento especulativo de Nietzsche é o seguinte: o devir, o múltiplo, o acaso não contêm nenhuma negação; a diferença é a afirmação pura; retomar é o ser da diferença excluindo todo o negativo. Talvez esse ensinamento permanecesse obscuro sem a clareza prática na qual está Ímerso. Nietzsche denuncia todas as mistificações que desfiguram a filosofia: o aparelho da má consciência, os falsos prestígios do negativo que fazem do múltiplo, do devir, do acaso, da própria diferença tantas infelicidades da consciência, e das infelici­dades da consciência, tantos momentos de formação, de reflexão ou de desenvol­vimento. O ensinamento prático de Nietzsche é o de que a diferença é feliz, o múltiplo, o devir, o acaso são suficientes e por eles mesmos objetos de alegria; que só a alegria retoma. O múltiplo, o devir, o acaso são a alegria propriamente filosófica na qual o um goza consigo mesmo, como também o ser e a necessidade. Nunca, desde Lucrécio (exceção feita a Espinosa) se tinha levado tão longe a tarefa crítica que caracteriza a filosofia. Lucrécio: denunciando a perturbação da alma e aqueles que dela precisam para instalar seu poder – Espinosa: denun­ciando a tristeza, todas as causas da tristeza, todos os que fundam seu poder no seio dessa tristeza – Nietzsche: denunciando o ressentimento, a má consciência, o poder do negativo que lhes serve de princípio; "inatualidade" de uma filosofia que tem na liberação seu objeto. Não há consciência infeliz que não seja simulta­neamente a sujeição do homem, uma armadilha para o querer, a oportunidade de todas as baixezas para o pensamento. O reino do negativo, é o reino dos animais poderosos, Igrejas e Estados, que nos acorrentam aos seus próprios fins. O assassino de Deus tinha a tristeza do crime porque motivava seu crime triste­mente: queria tomar o lugar de Deus, matava para "roubar", permanecia no negativo assumindo o divino. É preciso tempo para que a morte de Deus encontre
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enfim sua essência e se torne um acontecimento alegre. O tempo de expulsar o negativo, exorcizar o reativo, o tempo de um devir-ativo. E este tempo é precisa­mente o ciclo do eterno retorno.

O negativo expira às portas do ser. A oposição cessa seu trabalho, a dife­rença inicia seus jogos. Mas onde está o ser que não é um outro mundo e como se faz a seleção? Nietzsche chama transmutação o ponto no qual o negativo é convertido. Este perde seu poder e sua qualidade. A negação deixa de ser um poder autônomo, isto é, uma qualidade da vontade de poder. A transmutação relaciona o negativo com a afirmação na vontade de poder, faz dela uma simples maneira de ser dos poderes de afirmar. Não existe mais trabalho da oposição nem dor do negativo e sim jogo guerreiro da diferença, afirmação e alegria da destruição. O não, destituído de seu poder, passado para a qualidade contrária, tornado afirmativo e criador: esta é a transmutação. E o que define Zaratustra essencialmente é esta transmutação dos valores. Se Zaratustra passa pelo nega­tivo, como atestam seus nojos e suas tentações, não é para servir-se dele como um motor, nem para assumir-lhe a carga ou o produto, mas para atingir o ponto no qual o motor é trocado, o produto superado, todo o negativo vencido ou trans­mutado.

Toda a história de Zaratustra está contida em suas relações com o niilismo, isto é, com o demônio. O espírito do negativo, o poder de negar que representa papéis diversos, aparentemente opostos: o demônio. Ora ele faz com que o homem o carregue sugerindo-lhe que o peso com o qual o carrega é a própria positividade, ora, ao contrário, salta por cima do homem, retirando-lhe todas as forças e todo o querer (118). A contradição é apenas aparente: no primeiro caso, o homem é o ser reativo que quer se apoderar do poder, substituir por suas próprias forças o poder que o dominava. Mas, na verdade, o demônio encontra aqui a oportunidade de se fazer carregar, de se fazer assumir, de perseguir sua tarefa, disfarçado numa falsa positividade. No segundo caso, o homem é o último dos homens: ser ainda reativo, não tem mais forças para se apoderar do querer; é o demônio que retira do homem todas as forças, que o deixa sem forças e sem querer. Em ambos os casos o demônio aparece como o espírito do negativo que, através dos avatares do homem, conserva seu poder e guarda sua qualidade. Significa a vontade de nada que se serve do homem como de um ser reativo, que se faz carregar por ele, mas também que não se confunde com ele e "salta por cima". Em todos esses pontos de vista a transmutação difere da vontade de nada, como Zaratustra de seu demônio. É com Zaratustra que a negação perde seu poder e sua qualidade: além do homem reativo, o destruidor dos valores conhecidos; além do último dos homens, o homem que quer perecer ou ser superado. Zaratustra significa a afirmação, o espírito da afirmação como poder que faz do negativo um modo e do homem, um ser ativo que quer ser superado (não
118) Sobre o primeiro aspecto do demônio, cf. a teoria do asno e do camelo. Mas também, Z, III, "Da visão e do enigma" . onde o demônio (espírito de pesadume) sentou-se sobre os ombros do próprio Zaratustra, E IV. "Do homem superior ": "Se vocês querem subir alto, sirvam-se de suas próprias pernas! Não se façam levar para cima, não se sentem nas costas e sobre a cabeça dos outros." ­Sobre o segundo aspecto do demônio, cf. a cena célebre do Prólogo, na qual o bulão alcança o lunâmbulo e salta por cima dele. Esta cena é explicada em III, "Das velhas e das novas tábuas" : "Pode-se conseguir superar-se por numerosos caminhos e meios: cabe a ti conseguí-lo. Mas só o bulão pensa: pode-se também saltar por cima do homem, "

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Conclusão
A filosofia moderna apresenta amalgamas que atestam seu vigor e sua vivacidade, mas que comportam também perigos para o espírito. Estranha mis­tura de ontologia e de antropologia, de ateísmo e de teologia. Em proporções variáveis, um pouco de espiritualismo cristão, um pouco de dialética hegeliana, um pouco de fenomenologia como escolástica moderna, um pouco de fulguração nietzscheana formam estranhas combinações. Vemos Marx e os pré-socráticos, Hegel e Nietzsche darem-se as mãos numa ronda que celebra o ultrapassamento da metafísica e até mesmo a morte da filosofia propriamente dita. E na verdade Nietzsche se propunha expressamente a "ultrapassar" a metafísica. Mas Jarry também, no que chamava a "patafísica", invocando a etimologia. Tentamos neste livro romper alianças perigosas. Imaginamos Nietzsche retirando sua apos­ta de um jogo que não é o seu. Ele dizia sobre os filósofos e a filosofia de sua época: pintura de tudo o que sempre se acreditou. Talvez ainda o dissesse sobre a filosofia atual em que nietzscheanismo, hegelianismo e husserlianismo são os pedaços do novo pensamento sarapintado.

Não há compromisso possível entre Hegel e Nietzsche. A filosofia de Nietzs­che tem um grande alcance polêmico; forma uma anti-dialética absoluta, propõe­se a denunciar as mistificações que encontram na dialética um último refúgio. O que Schopenhauer tinha sonhado, lhas não realizado, preso como estava nas malhas do kantismo e do pessimismo, Nietzsche torna seu, ao preço de sua rutura com Schopenhauer. Erguer uma nova imagem do pensamento, liberar o pensa­mento dos fardos que o esmagam. Três idéias definem a dialética: a idéia de um poder do negativo como princípio teórico que se manifesta na oposição e na contradição; a idéia de um valor do sofrimento e da tristeza, a valorização das "paixões tristes", como princípio prática que se manifesta na cisão. no dilacera­mento; a idéia da positividade como produto teórico e prático da própria nega­ção. Não é exagerado dizer que toda a filosofia de Nietzsche, em seu sentido polêmico, é a denúncia das três idéias.

Se a dialética encontra seu elemento especulativo na oposição e na contradi­ção, é inicialmente porque reflete uma falsa imagem da diferença. Como o olho
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do boi ela reflete uma imagem invertida da diferença. A dialética hegeliana é reflexão sobre a diferença, mas inverte sua imagem. Substitui a afirmação da diferença enquanto tal pela negação do que difere; a afirmação de si pela negação do Qutro;a afirmação da afirmação pela famosa negação da negação. – Mas essa inversão não teria sentido se não fosse praticamente animada por forças que têm interesse em fazê-Ia. A dialética exprime todas as combinações dás forças reativas e do niilismo, a história ou a evolução de suas relações. A oposição colocada no lugar da diferença· é também o triunfo das forças reativas que encontram na vontade de nada o princípio que lhes corresponde. O ressentimento precisa de premissas negativas, de duas negações, para produzir um fantasma de afirmação; o ideal ascético precisa do próprio ressentimento e da má consciência como o prestidigitador com suas cartas marcadas. Em toda parte as paixões tristes; a consciência infeliz é o sujeito de toda dialética. A dialética é primeira­mente o pensamento do homem teórico em reação contra a vida, que pretende julgar a vida, limitá-la, medi-la. Em segundo lugar é o pensamento do sacerdote que submete a vida ao trabalho do negativo: precisa da negação para assentar seu poder, representa a estranha vontade que conduz as forças reativas ao triunfo. A dialética é, nesse sentido, a ideologia propriamente cristã. Finalmente, ela é o pensamento do escravo, que exprime a própria vida reativa e o devir-reativo do universo. Até o ateísmo que ela nos propõe é um ateísmo clerical, até a imagem do senhor é uma figura de escravo. – Não nos espantaremos de que a dialética produz apenas um fantasma de afirmação. Oposição superada ou contradição resolvida, a imagem da positividade encontra-se radicalmente falseada. A positi­vidade dialética, o real na dialética, é o sim do asno. O asno acredita afirmar porque assume, mas assume apenas os produtos do negativo. Ao demônio, macaco de Zaratustra, bastava saltar sobre nossos ombros; aqueles que carregam sempre são tentados a acreditar que afirmam quando carregam e que o positivo é avaliado pelo peso. O asno sob a pele do leão é o que Nietzsche chama "o homem deste tempo".

A grandeza de Nietzsche é a de ter sabido isolar estas duas plantas: ressenti­mento e má consciência. Mesmo se tivesse apenas esse aspecto a filosofia de Nietzsche seria da maior importância. Mas em Nietzsche a polêmica é apenas a agressividade que decorre de uma instância mais profunda, ativa e afirmativa. A dialética saíra da Crítica kantiana ou da falsa crítica. Fazer a crítica verdadeira implica uma filosofia que se desenvolva por si mesma e só retenha o negativo como maneira de ser. Nietzsche censurava os dialéticos por permanecerem numa concepção abstrata do universal e do particular; eram prisioneiros dos sintomas e não atingiam as forças nem a vontade que dão a estes últimos sentido e valor. Evoluíam no quadro da pergunta: O que é...? pergunta contraditória por excelên­cia. Nietzsche cria seu próprio método: dramático, tipológico, diferencial. Faz da filosofia uma arte, a arte de interpretar e de avaliar. Para todas as coisas coloca a pergunta: "Quem?" Aquele que... é Dionísio. O que..., é a vontade de poder como princípio plástico e genealógico. A vontade de poder não é a força, mas o elemento diferencial que determina simultaneamente a relação entre as forças (quantidade) e a qualidade respectiva das forças em relação. É nesse elemento da diferença que a afirmação se manifesta e se desenvolve enquanto criadora. A vontade de poder é o princípio da afirmação múltipla, o princípio doador ou a virtude que doa.
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sentido da filosofia de Nietzsche é o de que o múltiplo, o devir, o acaso são objeto de afirmação pura. A afirmação do múltiplo é a proposição especulativa, assim como a alegria do diverso é a proposição prática. O jogador só perde porque não afirma bastante, porque introduz o negativo no acaso, a oposição no devir e no múltiplo. O verdadeiro lance de dados produz necessariamente o número vencedor que reproduz o lance de dados. Afirma-se o acaso e a necessida­de do acaso; o devir e o ser do devir; o múltiplo e o um do múltiplo. A afirmação se desdobra, em seguida se redobra, levada a sua mais alta potência. A diferença se reflete e se repete ou se reproduz. O eterno retorno é esta potência mais alta, síntese da afirmação que encontra seu princípio na Vontade. A leveza do que afirma, contra o peso do negativo; os jogos da vontade de poder, contra o trabalho da dialética; a afirmação da afirmação, contra a negação da negação.

A negação, na verdade, aparece primeiro como uma qualidade da vontade de poder. Mas no sentido em que a reação é uma qualidade da força. Em maior profundidade a negação é apenas uma face da vontade de poder, a face sob a qual ela nos é conhecida, na medida em que o próprio conhecimento é a expressão das forças reativas. O homem só habita o lado desolado da terra, só compreende seu devir-reativo que o atravessa e o constitui. Por isso a história é a do niilismo, negação e reação. Mas a longa história do niilismo tem seu termo: o ponto final em que a negação se volta contra as próprias forças reativas. Esse ponto define a transmutação ou transvaloração; a negação perde seu poder próprio, torna-se ativa, não é mais do que a maneira de ser dos poderes de afirmar. O negativo muda de qualidade, passa para o serviço da afirmação; passa a valer apenas como preliminar ofensivo ou como agressividade conseqüente. A negatividade como negatividade do positivo faz parte das descobertas anti-dialé­ticas de Nietzsche. Sobre a transmutação tanto faz dizer que serve de condição para o eterno retorno como também que dele depende do ponto de vista de um princípio mais profundo. Pois a vontade de poder só faz retomar o que é afirmado: é ela que, simultaneamente, converte o negativo e reproduz a afirma­ção. O fato do primeiro existir pela segunda, na segunda, significa que o eterno retorno é o ser, mas o ser é a seleção. A afirmação permanece como a única qualidade da vontade de poder, a ação como única qualidade da força, o devir-ativo, como identidade criadora do poder e do querer.

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