Nietzsche e a filosofia gilles deleuze



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12. CONSEQÜÊNCIAS PARA O ETERNO RETORNO

Quando os dados'lançados afirmam uma vez o acaso, os dados que caem afirmam necessariamente Q número ou o destino que traz de volta o lance de dados. É nesse sentido que o segundo tempo do jogo é também o conjunto dos dois tempos ou o jogador que vale para o conjunto. O eterno retorno é o segundo tempo, o resultado de lance de dados, a afirmação da necessidade, o número que reúne todos os membros.do acaso, mas também o retorno do primeiro tempo, a repetição do lance de dados, a reprodução e a re-afirmação do próprio acaso. O destino no eterno retorno é também a "boa-vinda" do acaso: "Faço ferver em minha marmita tudo o que é acaso. E somente quando o acaso está no ponto, eu lhe desejo boas-vindas para com ele fazer minha alimentação. E na verdade, muito acaso se aproximou de mim como senhor; mas minha vontade lhe falou mais imperiosamente ainda e logo ele estava de joelhos diante de mim e me suplicava – suplicava para que lhe desse asilo e acolhida cordial, e me falava de maneira aduladora: veja então, Zaratustra, só um amigo vem assim a um amigo (91)." Isto quer dizer que existem muitos fragmentos do acaso que pretendem valer por si mesmos; eles invocam sua probabilidade, cada um solicita do jogador vários lances de dados; repartidos em vários lances, tornados simples probabili­dades, os fragmentos do acaso são escravos que querem falar como senhores (92); mas Zaratustra sabe que não é assim que se deve jogar nem se deixar jogar; é preciso, ao contrário, afirmar todo o acaso numa única vez (fazê-lo portanto ferver e cosinhar como o jogador que esquenta os dados em sua mão), para reunir todos os seus fragmentos e para afirmar o número que não é provável, mas fatal e necessário; somente então o acaso é um amigo que vem ver seu amigo e que este faz voltar, um amigo do destino, do qual o destino assegura o eterno retorno enquanto tal.

Num texto mais obscuro, carregado de significação histórica, Nietzsche escreve: "O caos universal, que exclui toda atividade de caráter finalista, não é contraditório com a idéia do ciclo; pois esta idéia é apenas uma necessidade irracional (93)." Isso quer dizer: freqüentemente o caos e o ciclo, o devir e o

90) Em dois textos da Vontade de Poder, Nietzsche apresenta o eterno retorno na perspectiva das pro­babilidades e como deduzindo-se de um grande número de lances: "Se se supõe uma massa enorme de casos, a repetição fortuita de um mesmo lance de dados é mais provável do que uma não-identi­dade absoluta" (VP, II, 324); o mundo sendo colocado como grandeza de força definida e o tempo como meio infinito, "toda combinação possível seria realizada pelo menos uma vez, mais ainda, seria realizada um número infinito de vezes" (VP, II, 329). – Mas, 1,° estes textos dão uma exposi­ção do eterno retorno apenas "hipotética"; 2.° são "apologéticos", num sentido bastante próximo do que se atribuiu à aposta de Pasca!. Trata-se de tomar ao pé da letra o mecanicismo, mostrado que ele desemboca numa conclusão que "não é necessariamente mecanicismo"; 3,° eles são "polêmicos" de modo agressivo, trata-se de vencer o mau Jogador em seu próprio terreno,

91) Z, III, "Da virtude que diminui",

92) É somente nesse sentido que Nietzsche fala dos "fragmentos" como "acasos-terríveis": Z, II, "Da redenção".

93) VP, II, 326,
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eterno retorno foram combinados, mas como se pusessem em jogo dois termos opostos. Assim, para Platão, o devir é ele próprio um devir ilimitado, um devir louco, um devir hybrico e culpado que, para ser colocado em círculo, precisa sofrer a ação de um demiurgo que o envergue pela força, que lhe imponha o limite ou o modelo da idéià; o devir ou o caos são repelidos para o lado de uma causalidade mecânica obscura e o ciclo é referido a uma espécie de finalidade que se impõe de fora; o caos não subsiste no ciclo, o ciclo exprime a submissão forçada do devir a uma lei que não é a sua. Heráclito era talvez o único, mesmo entre os pré-socráticos, que sabia que o devir não é "julgado", que não pode ser julgado e não é para ser julgado, que ele não recebe sua lei de fora, que é "justo" e possui em si mesmo sua própria lei (94). Só Heráclito pressentiu que o caos e o ciclo em nada se opunham. E, na verdade, basta afirmar o caos (acaso e não causalidade) para afirmar ao mesmo tempo o número ou a necessidade que o traz de volta (necessidade irracional e não finalidade). "Não houve inicialmente um caos, depois pouco a pouco um movimento regular e circular de todas as formas; tudo isso, ao contrário, é eterno, subtraído ao devir; se algum dia houve um caos das forças era porque o caos era eterno e reapareceu em todos os ciclos. O movimento circular não deveio, ele é a lei original, do mesmo modo que a massa de força é a lei original sem exceção, sem infração possível. Todo devir se passa no interior do ciclo e da massa de força (95)." Compreende-se que Nietzsche não reconheça de modo algum sua idéia do eterno retorno em seus predecessores antigos. Estes não viam no eterno retorno o ser do devir enquanto tal, o um do múltiplo, isto é, o número necessário, saído necessariamente de todo o acaso. Eles aí viam até mesmo o oposto: uma submissão do devir, uma confissão de sua injustiça e a expiação desta injustiça. Com exceção de Heráclito, talvez, eles não tinham visto "a presença da lei no devir e a presença do jogo na necessidade" (96).
13. SIMBOLISMO DE NIETZSCHE

Quando os dados são lançados sobre a mesa da terra, esta "estremece e se quebra", pois o lance de dados é a afirmação múltipla, a afirmação do múlti­plo. Mas todos os membros, todos os fragmentos são lançados de um golpe: todo o acaso de uma só vez. Esse poder, não de suprimir o múltiplo, mas de afirmá-lo de uma só vez, é como o fogo: o fogo é o elemento que joga, o elemento das metamorfoses que não tem contrário. A terra que se quebra sob os dados projeta então "rios de chamas". Como diz Zaratustra, o múltiplo, o acaso, só são bons cozidos e fervidos. Fazer ferver, pôr no fogo, não significa abolir o acaso, nem encontrar o um por detrás do múltiplo. Ao contrário, a ebulição na marmita é como o choque de dados na mão do jogador, o único meio de fazer do múltiplo ou do acaso uma afirmação. Os dados lançados formam então o número que traz de volta o lance de dados. Ao trazer de volta o lance de dados, o número recoloca o

94) NF:

95) VP, II, 325 (movimento circular = ciclo, massa de força = caos).

96) NF.
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acaso no fogo, mantém o fogo que torna a cozer o acaso. O número é o ser, o um e a necessidade, mas o um afirmado do múltiplo enquanto tal, o ser afirmado do devir enquanto tal, o destino afirmado do acaso enquanto tal. O número está presente no acaso como o ser e a lei estão presentes no devir. E este número presente que mantém o fogo, este um afirmado do múltiplo quando o múltiplo é afirmado, é a estrela dançarina, ou melhor, a constelação saída do lance de dados. A fórmula do jogo é a seguinte: gerar uma estrela dançarina com o caos que se traz em si (97). E quando Nietzsche se interrogar sobre as razões que o levaram a escolher o personagem de Zaratustra, encontrará três, muito diversas e de valor desigual. A primeira é Zaratustra como profeta do eterno retorno (98); mas Zaratustra não é o único profeta, nem mesmo aquele que melhor pressentiu a verdadeira natureza daquilo que anunciava. A segunda razão é polêmica: Zaratustra foi o primeiro a introduzir a moral na metafísica, fez da moral uma força, uma causa, um objetivo por excelência; portanto é ele quem está melhor colocado para denunciar a mistificação, o erro dessa própria moral (99). (Mas uma razão análoga valeria para Cristo: quem melhor que Cristo está apto para representar o papel do anticristo... e de Zaratustra em pessoa (100)?) A terceira razão, retrospectiva, mas a única suficiente, é a bela razão do acaso: "Hoje aprendi, por acaso, o que significa Zaratustra, a saber, estrela de ouro. Este acaso me encanta (101)".

Este jogo de imagens caos-fogo-constelação reúne todos os elementos do mito de Dionísio. Ou melhor, estas imagens formam o jogo propriamente dionisíaco. Os brinquedos de Dionísio criança; a afirmação múltipla e os membros ou fragmentos de Dionísio lacerado; a cocção de Dionísio ou o um afirmando-se do múltiplo; a constelação levada por Dionísio, Ariana no Céu como estrela dançari­na; a volta de Dionísio, Dionísio "senhor do eterno retorno". Teremos, por outro lado, a oportunidade de ver como Nietzsche concebia a ciência física, a energética e a termodinâmica de seu tempo. É claro, desde agora, que ele sonha com uma máquina de fogo, bem diferente da máquina a vapor. Nietzsche tem uma certa concepção da física, mas nenhuma ambição de físico. Concede-se o direito poético e filosófico de sonhar com máquinas que a ciência talvez um dia seja levada a realizar por seus próprios meios. A máquina de afirmar o acaso, de cozinhar o acaso, de compor o número que traz de volta o lance de dados, a máquina de desencadear forças imensas a partir de pequenas solicitações múlti­plas, a máquina de brincar com os astros, em resumo, a máquina de fogo heracliteana (102).

97) Z, Prólogo. 5.

98) VP, IV. 155.

99) EH, IV. 3.

100) Z, I. "Da morte voluntária": "Acreditem-me, irmãos! Ele morreu muito cedo; ele próprio teria retratado sua dou trina se tivesse atingido minha idade!" Carta a Gast. 20 de maio de 1883.

101) VP, II. 38 (sobre a máquina a vapor); 50, 60, 61 (sobre o desencadear de forças: "O homem teste­munha forças inauditas que podem ser postas em ação por um pequeno ser de natureza compó­sita... Seres que brincam com os astros; "No interior da molécula produzem· se explosões, mudan­ças de direção de todos os átomos e súbitos desencadeamentos de força. Todo nosso sistema solar poderia, num único e breve instante, sentir uma excitação comparável à que o nervo exerce sobre o músculo").

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Mas nunca um jogo de imagens substituiu para Nietzsche um jogo mais profundo, o dos conceitos e do pensamento filosófico. O poema e o aforismo são as duas expressões metafóricas de Nietzsche; mas estas expressões estão numa relação determinável com a filosofia. Um aforismo considerado formalmente se apresenta como um fragmento, é a forma do pensamento pluralista; e, em seu conteúdo ele pretende dizer e formular um sentido. O sentido de um ser, de uma ação, de uma coisa é o objeto do aforismo. Apesar de sua admiração pelos autores de máximas, Nietzsche vê bem o que falta à máxima como gênero: ela só está apta a descobrir motivos e por isso, em geral, ela só se refere aos fenômenos humanos. Ora, para Nietzsche, mesmo os motivos mais secretos não são apenas um aspecto antropomórfico das coisas, mas também um aspecto superficial da atividade humana. Só o aforismo é capaz de dizer o sentido, o aforismo é a interpretação e a arte de interpretar; o poema igualmente é a avaliação e a arte de avaliar: ele diz os valores, mas, precisamente, valor e sentido de noções tão complexas que o próprio poema deve ser avaliado e o aforismo interpretado. O poema e o aforismo são, por sua vez, objetos de uma interpretação, de uma avaliação. "Um aforismo, cuja fundição e a cunhagem são o que devem ser, não basta ser lido para ser decifrado; falta muito ainda, pois a interpretação apenas começou (103)." isto porque, do ponto de vista pluralista, um sentido remete ao elemento diferencial de onde deriva sua significação, assim como os valores remetem ao elemento diferencial de onde deriva seu valor. Esse elemento, sempre presente, mas também sempre implícito e oculto no poema ou no aforismo, é como que a segunda dimensão do sentido e dos valores. É desenvolvendo esse elemento e desenvolvendo-se nele que a filosofia, em sua relação essencial com o poema e com o aforismo, constitui a interpretação e a avaliação completas, isto é, a arte de pensar, a faculdade de pensar superior ou "faculdade de ruminar" (104). Ruminação e eterno retorno: dois estômagos não são demais para pensar. Existem duas dimensões da interpretação ou da avaliação, sendo a segunda também a volta da primeira, a volta do aforismo ou o ciclo do poema. Todo aforismo deve portanto ser lido duas vezes. Com o lance de dados, começa a interpretação do eterno retorno, mas ela apenas começa. É preciso ainda inter­pretar o próprio lance de dados ao mesmo tempo que ele retoma.
14. NIETZSCHE E MALLARMÉ

Não se pode exagerar as semelhanças evidentes entre Nietzsche e Mallarmé (105). Elas concernem quatro pontos principais e põem em jogo todo o aparelho das imagens: 1.0 Pensar é emitir um lance de dados. Só um lance de dados, a partir do acaso, poderia afirmar a necessidade e produzir "o único número que não pode ser um outro". Trata-se de um único lance de dados, não de um êxito em vários lances; só a combinação vitoriosa em uma única vez pode garantir a

103) GM, Prefácio, 8.

104) GM, Prefácio, 8.

105) THIBAUDET, em La poésie de Stéphane Mallarmé (p. 424), assinala essa semelhança. Ele exclui, com razão, qualquer influência de um sobre o outro.
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volta do lançamento (106). Os dados lançados são como o mar e as vagas (mas Nietzsche diria: como a terra e o fogo). Os dados que caem são uma constelação, seus pontos formam o número" descendente estelar". A mesa do lance de dados é portanto dupla, mar do acaso e céu da necessidade, meia-noite-meio-dia. Meia­noite, a hora em que se lançam os dados... 2.0 O homem não sabe jogar. Mesmo o homem superior é impotente para produzir o lance de dados. O senhor é velho, não sabe lançar os dados no mar e no céu. O velho senhor é "uma ponte", alguma coisa que deve ser ultrapassada. Uma "sombra pueril", pluma ou asa, fixa-se no gorro de um adolescente, "estatura miúda, tenebrosa e de pé em sua pose de sereia", apto a retomar o lance de dados. Seria o equivalente de Dionísio-criança, ou mesmo das crianças das ilhas bem-aventuradas, filhos de Zaratustra? Mallar­mé apresenta Igitur criança invocando seus ancestrais que não são o homem, mas os Elohim: raça que foi pura, que "tirou do absoluto sua pureza, para sê-lo e deixar apenas uma idéia ela própria atingindo a necessidade". 3.0 Não só o lançamento dos dados é um ato insensato e irracional, absurdo e sobre-humano, mas constitui a tentativa trágica e o pensamento trágico por excelência. A idéia mallarmeana do teatro, as célebres correspondências e equações entre "drama", "mistério", "hino", "herói" são testemunhas de uma reflexão aparentemente comparável à da Origem da Tragédia, pelo menos pela sombra eficaz de W agner como predecessor comum. 4.o O número-constelação é, ou seria, também o livro, a obra-de-arte, como coroamento e justificação do mundo. (Nietzsche escrevia, a propósito da justificação estética da existência: observa-se no artista "como a necessidade e o jogo, o conflito e a harmonia se casam para gerar a obra-de-arte" (107)). Ora, o número fatal e sideral traz de volta o lance de dados de tal modo que o livro é, no mesmo tempo, único e móvel. A multiplicidade dos sentidos e das interpretações é explicitamente afirmada por Mallarmé; mas ela é o correlativo de uma outra afirmação, a da unidade do livro ou do texto "incorruptível como a lei". O livro é o ciclo e a lei presente no devir.

Por mais precisas que sejam, essas semelhanças permanecem superficiais. Mallarmé sempre concebeu a necessidade como a abolição do acaso. Mallarmé concebe o lance de dados de tal maneira que o acaso e a necessidade se opõem colho dois termos, sendo que o segundo deve negar o primeiro e o primeiro pode apenas imobilizar o segundo. O lance de dados só tem êxito se o acaso é anulado; ele fracassa precisamente porque o acaso subsiste de algum modo, "pelo simples fato de se realizar (a ação humana) toma os seus meios de empréstimo ao acaso." Por isso, o número saído do lance de dados é ainda acaso. Freqüentemente observou-se que o poema de Mallarmé insere-se no velho pensamento metafísico de uma dualidade de mundos; o acaso é como a existência que deve ser negada, a

106) Thibaudet, em uma estranha página (433), observa que o lance de dados, segundo Mallarmé, faz-se em uma vez; mas parece lamentá-lo, achando mais claro o princípio de vários lances de dados: "Duvido muito que o desenvolvimento de sua meditação tê-lo-ia levado a eScrever um poema sobre esse tema: vários lances de dados abolem o acaso. Entretanto, isto é certo e claro. Que seja lem­brada a lei dos grandes números... – É claro, sobretudo, que a lei dos grandes números não intro­duziria nenhum desenvolvimento na meditação, mas somente um contra-senso. Hyppolite tem uma visão mais profunda quando aproxima o lance de dados de Mallarmé, não da lei dos grandes nú­meros, mas da máquina cibernética (cf. Estudos FUosóflcos, 1958). A mesma aproximação valeria para Nietzsche e de acordo com o que precede.

107) NF.
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necessidade é como o caráter da idéia pura ou da essência eterna; de tal modo que a última esperança do lance de dados é a de encontrar seu modelo inteligível no outro mundo, uma constelação que se responsabilize por ele "sobre alguma superfície vazia e superior" onde o acaso não exista. Enfim, a constelação é menos o produto do lance de dados do que sua passagem ao limite ou para um outro mundo. Não perguntaremos que aspecto prepondera em Mallarmé, se a depreciação da vida ou a exaltação do inteligível. Numa perspectiva nietzscheana esses dois aspectos são inseparáveis e constituem o próprio "niilismo", isto é, a maneira pela qual a vida é acusada, julgada e condenada. Todo o resto decorre daí; a raça de Igitur não é o super-homem, mas uma emanação do outro mundo. A estatura miúda não é a das crianças das ilhas bem-aventuradas, mas a de Hamlet, "príncipe amargo do escolho", do qual Mallarmé diz em outra parte "senhor latente que não pode devir". Herodíada não é Ariana, e sim a fria criatura do ressentimento e da má consciência, o espírito que nega a vida, perdido em suas amargas reprovações à Ama. A obra-de-arte em Mallarmé é "justa", mas sua justiça não é a da existência, é ainda uma justiça acustória que nega a vida, que supõe seu fracasso e sua impotência (108). Até mesmo o ateísmo de Mallarmé é um curioso ateísmo que vai buscar na missa um modelo do teatro sonhado: a missa, não o mistério de Dionísio... Na verdade, raramente levou-se tão longe, em todas as direções, a eterna tarefa de depreciar a vida. Mallarmé é o lance de dados, mas revisto pelo niilismo, interpretado em perspectivas da má consciência e do ressentimento. Ora, desligado de seu contexto afirmativo e apreciativo, desligado da inocência e da afirmação do acaso, o lance de dados não é mais nada. O lance de dados não é mais nada se nele o acaso é oposto à necessidade.
15. O PENSAMENTO TRAGICO

Será somente uma diferença psicológica? Uma diferença de humor e de tom? Devemos colocar um princípio do qual depende a filosofia de Nietzsche em geral: o ressentimento, a má consciência, etc., não são determinações psicológicas. Nietzsche chama de niilismo o empreendimento de negar a vida, de depreciar a existência; analisa as formas principais do niilismo: ressentimento, má consciên­cia, ideal ascético; chama de espírito de vingança o conjunto do niilismo e de suas formas. Ora, o niilismo e suas formas não se reduzem absolutamente a determi­nações psicológicas, muito menos a acontecimentos históricos ou a correntes ideológicas e, menos ainda, a estruturas metafísicas (109). Sem dúvida o espírito de vingança se exprime biologicamente, psicologicamente, histo~icamente e me­tafisicamente; o espírito de vingança é um tipo, não é separável de uma tipologia, peça central da filosofia nietzscheana. Mas todo o problema é o de saber qual o

108) Quando Nietzsche falava da "justificação estética da existência", tratava-se, pelo contrário, da arte como "estimulante da vida": a arte afirma a vida, a vida se afirma na arte.

109) Heidegger insistiu nesses pontos, Por exemplo: "O nillismo move a história à maneira de um processo fundamental, apenas reconhecido nos destinos dos povos do Ocidente, O niilismo não é, portanto, um fenômeno histórico entre outros, ou uma corrente espiritual que, no quadro da história ocidental, encontra-se ao lado de outras correntes espirituais"." (HOLZWEGE) "A palavra de Nietzsche Deus está morto", trad, franc., Arguments, nO 15),
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caráter desta tipologia. Longe de ser um traço psicológico, o espírito de vingança é o princípio do qual depende nossa psicologia. Ressentimento não é psicologia, mas, sem o saber, toda nossa psicologia é a do ressentimento. Do mesmo modo, quando Nietzsche mostra que o cristianismo está cheio de ressentimento e de má consciência, ele não faz do niilismo um acontecimento histórico, mas antes o elemento da história enquanto tal, o motor da história universal, o famoso "sentido histórico" ou "sentido da história", que encontrá no cristianismo, num determinado momento, sua manifestação mais adequada. E quando Nietzsche realiza a crítica da metafísica, faz o niilismo o pressuposto de toda metafísica e não a expressão de uma metafísica particular: não há metafísica que não julgue e não deprecie a existência em nome de um mundo supra-sensível. Não se dirá nem mesmo que o niilismo e suas formas são categorias do pensamento pois as categorias do pensamento, como pensamento racional – a identidade, a causali­dade, a finalidade – supõem, elas próprias, uma interpretação da força que é a interpretação do ressentimento. Por todas essas razões Nietzsche pode dizer: "O instinto da vingança se apoderou de tal modo da humanidade no curso dos séculos que toda a metafísica, a psicologia, a história e sobretudo a moral trazem sua marca. No momento em que o homem começou a pensar, introduziu nas coisas o bacilo da vingança (110)." Devemos compreender que o instinto de vingança é o elemento genealógico de nosso pensamento, o princípio transcen­dental de nossa maneira de pensar. A luta de Nietzsche contra o niilismo e o espírito de vingança significará, portanto, a derrubada da metafísica, fim da história como história do homem, transformação das ciências. E, na verdade, nem mesmo sabemos o que seria um homem desprovido de ressentimento. Um homem que não acusasse e não depreciasse a existência, seria ainda um homem, pensaria ainda como um homem? Já não seria algo distinto do homem, quase o super-homem? Ter ressentimento, não tê-Io: para além da psicologia, da história, da metafísica, esta é a maior diferença. É a verdadeira diferença ou tipologia transcendental – a diferença genealógica e hierárquica.

Nietzsche apresenta o objetivo de sua filosofia: liberar o pensamento do niilismo e de suas formas. Ora, isto envolve uma nova maneira de pensar, uma convulsão no princípio do qual depende o pensamento, uma retificação do próprio princípío genealógico, uma "transmutação". Há muito tempo vimos pensando. em termos de ressentimento e de má consciência. Não tivemos outro ideal além do ideal ascético. Opusemos o conhecimento à vída, para julgar a vida, para fazer dela algo culpado, responsável e errado. Fizemos da vontade uma coisa ruim, atingida por uma contradição original, dizíamos que era retificá-Ia, refreá­Ia, limitá-la e até negá-Ia, suprimi-la. Ela só era boa a este preço. Nenhum filósofo, ao descobrir aqui ou ali a essência da vontade, deixou de gemer sobre,sua própria descoberta e deixou de ver aí, como o adivinho temeroso, ao mesmo tempo o mau presságio para o futuro e a fonte dos males no passado. Schope­nhauer leva às últimas conseqüências essa velha concepção: a prisão da vontade, diz ele, e a roda de Ixião. Nietzsche é o único que não geme sobre a descoberta da vontade, que não tenta conjurá-Ia, nem limitar seu efeito. "Nova maneira de pensar" significa um pensamento afirmativo, um pensamento que afirma a vida e

110) VP, III, 458.
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a vontade da vida, um pensamento que expulsa enfim todo o negativo. Acreditar na inocência do futuro e do passado, acreditar no eterno retorno. Nem a existên­cia é colocada como culpada nem a vontade se sente culpada por existir: é isto que Nietzsche chama sua alegre mensagem. "Vontade, é assim que se chama o liberador e o mensageiro da alegria (111)." A mensagem feliz é o pensamento trágico, pois o trágico não está nas recriminações do ressentimento, nos conflitos da má consciência, nem nas contradições de uma vontade que se sente culpada e responsável. O trágico não está nem mesmo na luta contra o ressentimento, a má consciência ou o niilismo. Nunca se compreendeu, segundo Nietzsche, o que era o trágico: trágico = alegre. Outra maneira de colocar a grande equação: querer = criar. Não se compreendeu que o trágico era positividade pura e múltipla, alegria dinâmica. Trágica é a afirmação, porque afirma o acaso e a necessidade do acasc.; porque afirma o devir e o ser do devir, porque afirma o múltiplo e o um do múltiplo. Trágico é o lance de dados. Todo o resto é niilismo, pathos dialético e cristão, caricatura do trágico, comédia da má consciência.
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