Nietzsche e a filosofia gilles deleuze


ORIGEM E IMAGEM INVERTIDA



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8. ORIGEM E IMAGEM INVERTIDA

Na origem existe a diferença entre as forças ativas e as reativas. A ação e a reação não estão numa relação de sucessão, mas de coexistência na própria origem. De resto, a cumplicidade das forças ativas com a afirmação, das forças reativas com a negação revela-se no seguinte princípio: o negativo já está intei­ramente do lado da reação. Inversamente, só a força ativa se afirma, ela afirma sua diferença, faz de sua diferença um objeto de gozo e de afirmação. A força

50) GM, Introdução, 6: "Precisamos de uma crítica dos valores morais e o valor desses valores deve. inicialmente, ser posto em questão."

51) Quanto mais a teoria dos valores perde de vista o principio = criar mais distancia-se de suas origens. A inspiração nietzschea'na revive especialmente em pesquisas como as de Polin, concer· nentes à criação dos valores. Entretanto, do ponto de vista de Nietzsche o correlativo da criação dos valores não pode ser, em nenhum caso, sua contemplação, mas deve ser a critica radical de todos os valores "em curso".

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reativa, mesmo quando obedece, limita a força ativa, impõe-lhe limitações e restrições parciais, já está possuída pelo espírito do negativo (52). Por isso a própria origem comporta, de algum modo, uma imagem invertida de si mesma: visto do lado das forças reativas, o elemento diferencial genealógico aparece ao contrário, a diferença tornou-se negação, a afirmação tornou-se contradição. Uma imagem invertida da origem acompanha a origem: o que é "sim" do ponto de vista das forças ativas torna-se "não" do ponto de vista das forças reativas, o que é afirmação de si torna-se negação do outro. A isto Nietzsche denomina "a inversão do olhar apreciador" (53). As forças ativas são nobres, mas encontram­se diante de uma imagem plebéia refletida pelas forças reativas. A genealogia é a arte da diferença ou da distinção, a arte da nobreza, mas se vê ao contrário no espelho das forças reativas. Sua imagem aparece então como a de uma "evolu­ção". E esta evolução é compreendida ora à maneira alemã, como uma evolução dialética e hegeliana, como o desenvolvimento da contradição, ora à maneira inglesa, como uma derivação utilitária, como o desenvolvimento do lucro e dos juros. Mas sempre a verdadeira genealogia encontra sua caricatura na imagem que dela faz o evolucionismo essencialmente reativo: inglês, alemão, o evolucio­nismo é a imagem reativa da genealogia (54). Assim, é próprio das forças reativas negarem desde a origem a diferença que se constitui na origem, inverterem o elemento diferencial do qual derivam, dar-lhe uma imagem deformada. "Dife­rença gera ódio (55)." Por essa razão elas não se cOmpreendem como forças e preferem voltar-se contra si mesmas a compreenderem-se como tais e aceitar a diferença. A "mediocridade" de pensamento que Nietzsche denuncia remete sempre à mania de interpretar ou de avaliar os fenômenos a partir de forças reativas e cada espécie de pensamento nacional escolhe as suas. Mas esta própria mania tem sua origem na origem, na imagem invertida. A consciência e as consciências, simples aumento desta imagem reativa...

Mais um passo: suponhamos que, com a ajuda de circunstâncias favoráveis externas ou internas, as forças reativas sobrepujem e neutralizem a força ativa. S'aímos da origem, não se trata mais de uma imagem invertida, e sim de um desenvolvimento desta imagem, de uma inversão dos próprios valores (56); o baixo se pôs em cima, as forças reativas triunfaram. Se elas triunfam, é pela vontade negativa, pela vontade de nada que desenvolve a imagem; mas seu triunfo não é mais imaginário. A questão é: como as forças reativas triunfam? Ou seja, as forças reativas, quando sobrepujam as forças ativas, tornam-se elas próprias dominantes, agressivas e subjugadoras? Todas elas, em conjunto, formam uma força maior que por sua vez seria ativa? Nietzsche responde que, mesmo se unindo, as forças reativas não compõem uma força maior que seria ativa. Procedem de modo totalmente diferente, elas decompõem; elas separam a

52) GM, II, 11.

53) GM, I, 10. (Em lugar de afirmarem a si mesmas e de negarem por simples conseqüência, as forças reativas começam por negar o que é diferente delas, opõem-se inicialmente ao que não faz parte delas mesmas).

54) Sobre a concepção inglesa da genealogia como evolução: GM, Introdução, 7 e I, I – 4. Sobre a mediocridade desse pensamento inglês: BM, 253. Sobre a concepção alemã da genealogia como evolução e sobre sua mediocridade: GC, 357 e BM, 244.

55) BM, 263.

56) Cf. GM, I, 7.
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força ativa do que ela pode; subtraem da força ativa uma parte ou quase todo seu poder; e por esse meio não se tornam ativas, mas, ao contrário, fazem com que a força ativa se junte a elas, torne-se, ela própria, reativa num novo sentido. Pressentimos que, a partir de sua origem e ao desenvolver-se, o conceito de reação muda de significação: uma força ativa torna-se reativa (num novo sentido) quando forças reativas (no primeiro sentido) separam-na do que ela pode. Nietzsche analisará como tal separação é possível nos detalhes. Mas já é preciso constatar que Nietzsche, cuidadosamente, nunca apresenta o triunfo das forças reativas como a composição de uma força superior à força ativa, e sim como uma subtração ou uma divisão. Nietzsche consagrará todo um livro à análise das figuras do triunfo reativo no mundo humano: o ressentimento, a má consciência, o ideal ascético. Mostrará em cada caso que as forças reativas não triunfam compondo uma força superior, mas "separando" a força ativa (57). E em cada caso, essa separação repousa sobre uma ficção, mistificação ou falsificação. É a vontade de nada que desenvolve a imagem negativa e invertida, é ela quefaza subtra­ção. Ora, na operação de subtração, há sempre algo de imaginário testemunhado pela utilização negativa do número. Se queremos, então, dar uma transcrição numé­rica da vitória das forças reativas, não devemos apelar para uma adição pela qual as forças reativas, todas juntas, tornar-se-iam mais fortes do que a força ativa, mas para uma subtração que separa a força ativa do que ela pode, que nega sua diferença, para fazer dela uma força reativa. Não basta, desde então, que a reação vença para que deixe de ser uma reação. Ao contrário. A força ativa é separada do que ela pode por uma ficção, nem por isso deixa de tornar-se realmente reativa, é exatamente por este meio que ela se torna realmente reativa. Daí decorre, em Nietzsche, o emprego das palavras "vil", "ignóbil", "escravo". Estas palavras designam o estado das forças reativas que se colocam no alto, que atraem a força ativa para uma armadilha, substituindo os senhores por escravos que não param de ser escravos.
9. PROBLEMA DA MEDIDA DAS FORÇAS

Por isso não podemos medir as forças com uma unidade abstrata, nem determinar sua quantidade e sua qualidade respectivas tomando como critério o estado real das forças num sistema. Dizíamos que as forças ativas são as forças superiores, as forças dominantes, as forças mais fortes. Mas as forças inferiores podem vencer sem deixarem de ser inferiores em quantidade, sem deixarem de ser reativas em qualidade, sem deixarem de ser escravos à sua maneira. Uma das maiores afirmações de A Vontade de Poder é: "Sempre se tem que defender os fortes contra os fracos (58)." Não se pode apoiar no estado de fato de um sistema de forças, nem no resultado da luta entre elas, para concluir: estas são ativas, aquelas são reativas. Contra Darwin e o evolucionismo Nietzsche observa: "Admitindo que essa luta exista (e ela se apresenta na verdade), ela termina infelizmente de modo contrário ao que desejaria a escola de Darwin e que talvez

57) Cf. as três dissertações da GM.

58) VP, I. 395.
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se ousaria desejar com ela: termina infelizmente em detrimento dos fortes, dos privilegiados, das exceções felizes (59)." É nesse sentido, em primeiro lugar, que a in terpretação é uma arte tão difícil; devemos julgar se as forças que vencem são inferiores ou superiores, reativas ou ativas; se eias vencem enquanto dominadas ou dominantes. Neste domínio não há fatos, só há interpretações. Não se deve conceber a medida das forças como um procedimento físico abstrato e sim como o ato fundamental de uma física concreta; não como uma técnica indiferente, mas como a arte de interpretar a diferença e a qualidade independentemente do estado de fato (Nietzsche diz às vezes: "Fora da ordem social existente (60).")

Esse problema desperta uma antiga polêmica, uma discussão célebre entre Cálicles e Sócrates. Quanto a Nietzsché nos parece próximo de Cálicles e Cálicles imediatamente completado por Nietzsche! Cálicles se esforça por distinguir natu­reza e lei. Chama lei tudo o que separa uma força do que ela pode; a lei, nesse sentido, exprime o triunfo dos fracos sobre os fortes. Nietzsche acrescenta: triunfo da reação sobre a ação. Na verdade é reativo tudo o que separa uma força; é reativo ainda o estado de uma força separada do que ela pode. Ao contrário, é ativa toda força que vai até o fim de seu poder. Ir até o fim não é uma lei, é até mesmo o contrário da lei (61). Sócrates responde a Cálicles que não há razão para distinguir natureza e lei, pois se os fracos vencem é enquanto formam, reunidos, uma força mais forte do que a do forte; a lei triunfa do ponto de vista da própria natureza. Cálicles não se queixa por não ter sido compreendido, recomeça: o escravo não deixa de ser escravo ao triunfar; quando os fracos triunfam não é formando uma força maior, mas separando a forçado que ela pode. Não se deve comparar as forças abstratamente; a força concreta, do ponto de vista da natu­reza, é aquela que vai até as últimas conseqüências, até o fim do poder ou do desejo. Sócrates objeta uma segunda vez: o que conta para ti, Cálicles, é o prazer... Defines todo bem pelo prazer...

Observaremos o que se passa entre o sofista e o dialético, de· que lado está a boa-fé e também o rigor do raciocínio. Cálicles é agressivo, mas não tem ressen­timento. Prefere renunciar a falar; é claro que na primeira vez Sócrates não compreende e que na segunda fala de outra coisa. Como explicar a Sócrates que o "desejo" não é a associação de um prazer e de uma dor, dor de senti-lo, prazer de satisfazê-lo? Que o prazer e a dor são somente reações, propriedades das forças reativas, atestados de adaptação ou de desadaptação? E como fazê-lo entender que os fracos não compõem uma força mais forte? Por um lado Sócrates não compreendeu, por outro não ouviu, excessivamente animado pelo ressentimento dialético e pelo espírito de vingança. Logo ele, tão exigente par? com os outros, tão minucioso quando lhe respondem...

59) Cr. Id., "Divagações de um intempestivo", 14.

60) VP, m, 8 ..

61) VP, II.85: "Constata-se que em química, todo corpo estende seu poder tão longe quanto pode"; II, 374: "Não há lei; todo poder acarreta a todo inslante suas últimas conseqüências"; 11, 369: "Tenho o cuidado de não falar de leis químicas, a palavra tem um ressaibo moral. Trata-se antes de constatar de maoeira absoluta relações de poder."
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10. A HIERARQUIA

Nietzsche também encontra seus Sócrates. São os livres-pensadores. Eles dizem: "De que você se queixa? como os fracos triunfariam se não formassem uma força superior?" "Inclinemo-nos diante do fato consumado (62)." Este é o positivismo moderno: pretende-se realizar a crítica dos valores, pretende-se recusar todo apelo aos valores transcendentes, declara-se que estão fora de moda, mas apenas para reencontrá-Ios, como forças que conduzem o mundo atual. Igreja, moral, Estado, etc.: só se discute seu valor para admirar sua força humana e seu conteúdo humano. O livre-pensador tem a mania singular de querer recuperar todos os conteúdos, todo o positivo, mas sem nunca interrogar-se sobre a natureza desses conteúdos ditos positivos, nem sobre a origem ou a qualidade das forças humanas correspondentes. É o que Nietzsche chama o "faitalis­me" (63) (*). O livre-pensador quer recuperar o conteúdo da religião mas nunca se pergunta se a religião não conteria precisamente as forças mais baixas do homem as quais se deveria desejar que permanecessem no exterior. Por isso não é possível confiar no ateísmo de um livre-pensador, mesmo que seja democrata ou socialismo: "A Igreja nos repugna, mas não seu veneno... (64)." O que caracteriza essencialmente o positivismo e o humanismo do livre-pensador é o "faitalisme", a impotência em interpretar, a ignorância das qualidades da força. Desde que algo aparece como uma força humana ou como um fato humano, o livre-pensador aplaude, sem se perguntar se essa força não é de baixa extração e esse fato o contrário de um fato elevado: "Humano, demasiado humano." Por não levar em conta as qualidades das forças o livre-pensador está, por vocação, a serviço das forças reativas e traduz seu triunfo. O fato é sempre o dos fracos contra os fortes; "o fato é sempre estúpido, tendo desde sempre se assemelhado mais a um bezerro do que a um deus" (65). Ao livre-pensador Nietzsche opõe o espírito livre, o próprio espírito de interpretação que julga as forças do ponto de vista de sua origem e de sua qualidade: "Não há fatos, nada além de interpretações (66)." A crítica do livre-pensamento é um tema fundamental na obra de Nietzsche. Sem dúvida porque essa crítica descobre um ponto de vista segundo o qual ideologias diferentes podem ser atacadas ao mesmo tempo: o positivismo, o humanismo, a dialética. O gosto pelo fato no positivismo, a exaltação do fato humano no humanismo, a mania de recuperar os conteúdos humanos na dialética.

A palavra hierarquia em Nietzsche tem dois sentidos. Significa inicialmente a diferença entre forças ativas e reativas, a superioridade .das forças ativas sobre as forças reativas. Nietzsche pode então falar de um "nível imutável e inato na hierarquia" (67); e o problema da hierarquia é ele próprio o problema dos espíritos livres (68). Mas hierarquia designa também o triunfo das forças reativas,

62) GM, I,9.

63) GM, III, 24.

64) GM, I,9.

65) Co. In., I. "Utilidade e inconvenientes dos estudos históricos", 8,

66) VP, II, 133.

67) BM,263.

68) HH, Prefácio, 7.

(*) N.T. Em francês no texto alemão – Jogo de palavras: Fatalisme-faitallsme (fait, fato), em português por: fatalismo-factualismo.

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o contágio das forças reativas e a organização complexa que daí resulta, pa qual os fracos venceram, na qual os fortes são contaminados, na qual o escravo, que não deixou de ser escravo, sobrepuja um senhor que deixou de sê-Io:o reino da lei e da virtude. Nesse segundo sentido a moral e a religião ainda são teorias da hierarquia (69). Se os dois sentidos são comparados, vê-se que o segundo é.como o inverso do primeiro. Fazemos da Igreja, da moral e do Estado os senhores ou detentores de toda hierarquia. Temos a hierarquia que merecemos, nós que so­mos essencialmente reativos, nós que tomamos os triunfos da reação por uma metamorfose da ação e os escravos por novos senhores – nós que só reconhece­mos a hierarquia invertida.

Não é ao menos forte que Nietzsche chama de fraco ou escravo, mas àquele que, qualquer que seja sua força, está separado do que pode. O menos forte é tão forte quanto o forte se vai até o fim, porque a acústica, a sutileza, a espiritua­lidade, até mesmo o encanto, com os quais completa sua força menor, pertencem precisamente a essa força e fazem com que ela não seja menor (70). A medida das forças e sua qualificação não dependem em nada da quantidade absoluta, e sim da efetuação relativa. Não se pode julgar a força e a fraqueza tomando como critério o resultado da luta e o sucesso. Isto porque, repetimos, é um fato que os fracos triunfam, é até mesmo a essência do fato. Só se pode julgar as forças se se leva em conta em primeiro lugar sua qualidade: ativo ou reativo; em segundo lugar, a afinidade dessa qualidade com o pólo correspondente da vontade de poder: afirmativo ou negativo; em terceiro lugar, a nuança de quali­dade que a força apresenta em tal ou qual momento de seu desenvolvimento em relação com sua afinidade. Por conseguinte, a força reativa é: 1.0 força utilitária, de adaptação e de limitação parcial; 2. o força que separa a força ativa do que ela pode, que nega a força ativa (triunfo dos fracos ou dos escravos); 3.0 força separada do que ela pode, que nega a si mesma ou se volta contra si (reino dos fracos ou dos escravos). E, paralelamente, a força ativa é: 1.0 força plástica, dominante e subjugadora; 2.0 força que vai até o fim do que ela pode; 3.0 força que afirma sua diferença, que faz de sua diferença um objeto de gozo e de afirmação. As forças só são determinadas concreta e completamente se se leva em conta esses três pares de caracteres ao mesmo tempo.
11. VONTADE DE PODER E SENTIMENTO DE PODER

Sabemos o que é a vontade de poder: o elemento diferencial, o elemento genealógico que determina a relação da força com a força e que produz a qualidade da força. Por isso a vontade de poder deve manifestar-se na força enquanto tal. O estudo das manifestações da vontade de poder deve ser feito com maior cuidado porque dele depende inteiramente o dinamismo das forças. Mas o que significa dizer que a vontade de poder se manifesta? A relação das forças é determinada em cada caso na medida que uma força é afetada por outras, inferiores ou superiores. Daí se segue que a vontade de poder manifesta-se como um poder de ser afetado. Esse poder não é uma possibilidade abstrata, é preen­chido e efetuado a cada instante pelas outras forças com as quais está em relação.

69) VP, III. 385 e 391.

70) Os dois animais de Zaratustra são a águia e a serpente: a águia é forte e altiva; mas a serpente não é menos forte ao ser astuta e fàscinadora; cf. Prólogo, 10.
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Não nos espantaremos com o duplo aspecto da vontade de poder: ela determina a relação das forças entre si, do ponto de vista da gênese e da produção das forças, mas é determinada pelas forças em relação, do ponto de vis'ta de sua própria manifestação. Por isso a vontade de poder é sempre determinada ao mesmo tempo que determina, qualificada ao mesmo tempo que qualifica. Em primeiro lugar, portanto, a vontade de poder manifesta-se como o poder de ser afetado, como o poder determinado da força de ser ela própria afetada. É difícil, aqui. negar em Nietzsche uma inspiração espinozista. Espinoza, numa teoria extrema­mente profunda, queria que a toda quantidade de força correspondesse um poder de ser afetado. Quanto maior o número de maneiras pelas quais um corpo pudesse ser afetado tanto mais força ele teria. Era esse poder que media a força de um corpo, ou que exprimia seu poder. Por um lado, esse poder não era uma simples possibilidade lógica, era a cada instante efetuado pelos corpos com os quais estava em relação. Por outro lado, esse poder não era uma passividade física, só eram passivas as afecções das quais o corpo considerado não era causa adequada (71).

O mesmo se dá em Nietzsche: o poder de sér afetado não significa necessa­riamente passividade, mas afetividade, sensibilidade, sensação. É nesse sentido que Nietzsche, antes mesmo de ter elaborado o conceito de vontade de poder e ter-lhe dado toda sua significação, já falava de um sentimento de poder; o poder foi tratado por Nietzsche como uma questão de sentimento e de sensibilidade, antes de sê-lo como uma questão de vontade. Mas quando elaborou o conceito completo de vontade de poder, essa primeira característica não desapareceu de modo algum, tornou-se a manifestação da vontade de poder. Por isso Nietzsche não pára de dizer que a vontade de poder é "a forma afetiva primitiva", aquela da qual derivam todos os outros sentimentos (72). Ou melhor: "A vontade de poder não é um ser nem um devir, é um pathos (73)." Isto é, a vontade de poder manifesta-se como a sensibilidade da força; o elemento diferencial das forças manifesta-se como sua sensibilidade diferencial. "A vontade de poder reina mesmo no mundo inorgânico, ou melhor, não há mundo inorgânico. Não se pode eliminar a ação à distância: uma coisa atrai outra, uma coisa sente-se atraída. Eis o fato fundamental... Para que a vontade de poder possa manifestar-se ela precisa perceber as coisas que vê, ela sente a aproximação do que lhe é assimilável (74)." As afecções de uma força são ativas na medida que ela se apodera daquilo que lhe opõe resistência, na medida que se faz obedecer por forças inferiores. Inversamente, elas são sofridas, ou melhor, acionadas, quando a força é afetada por forças superiores às quais obedece. Obedecer é, ainda, aí, uma manifestação da vontade de poder. Mas uma força inferior pode acarretar a desagregação de forças superiores, sua cisão, a explosão da energia que haviam acumulado; nesse sentido, Nietzsche se apraz em aproximar os fenômenos de desagregação do
71) Se nossa interpretação é exata, Espinoza viu antes de Nietzsche que uma·força não era separável de um poder de ser afetado e que estepoder exprimia seu poder: Nietzsche,nem por isso deixa de criticar Espinoza, mas num outro ponto: Espinoza nào soube elevar-se até a concepção de uma vontade de poder. confundiu poder com a simples força e concebeu a força de maneira reativa (cf. o conatus e a conservação).

72) VP, II. 42.

73) VP, II. 311.

74) VP, II. 89.
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átomo, de cisão do protoplasma e de reprodução do ser vivo (75). Mas desagre­gar, cindir, separar exprimem sempre a vontade de poder, tanto quanto ser desagregado, ser cindido, ser separado: "A divisão aparece como a conseqüência da vontade de poder (76)." Dadas duas forças, uma superior e outra inferior, vê-se como o poder de ser afetado de cada uma é necessariamente realizado. Mas esse poder de ser afetado não é realizado sem que a própria força correspondente entre numa história ou num devir sensível: 1.0 força ativa, poder de agir ou de comandar; 2.° força reativa, poder de obedecer ou de ser acionado; 3.° força reativa desenvolvida, poder de cindir, dividir, separar; 4.° força ativa tornada reativa, poder de ser separado, de voltar contra si (77).

Toda sensibilidade é apenas um devir das forças: há um círculo da força em cujo decurso a força "devém" (por exemplo, a força ativa devém reativa). Há até mesmo vários vir-a-ser de forças que podem lutar uns contra os outros (78). Assim, não basta confrontar nem opor os caracteres respectivos da força ativa e da força reativa. Ativo e reativo são as qualidades da força que decorrem da vontade de poder. Mas a própria vontade de poder tem qualidades, sensibilia, que são como os vir-a-ser de forças. A vontade de poder manifesta-se, em primeiro lugar, como sensibilidade das forças e, em segundo lugar, como devir sensível das forças – o pathos é o fato mais elementar do qual resulta um devir (79). O devir das forças geralmente não deve confundir-se com as qualidades das forças, é o devir dessas próprias qualidades, a qualidade da vontade de poder em pessoa. Mas, justamente, não se poderá abstrair as qualidades da força de seu devir assim como não se poderá abstrair a força da vontade de poder. O estudo concreto das forças implica necessariamente uma dinâmica.
12. O DEVIR REATIVO DAS FORÇAS

Mas, na verdade, a dinâmica das forças nos conduz a uma conclusão desoladora. Quando a força reativa separa a força ativa do que ela pode, esta última, torna-se, por sua vez, reativa. As forças ativas tornam-se reativas. E a palavra devir deve ser tomada no sentido mais forte: o devir das forças aparece como um devir-reativo. Não há outros devir? É verdade, entretanto, que nós não sentimos, não experimentamos, não conhecemos outro devir a não ser o devir­reativo. Não constatamos apenas a existência de forças reativas, em toda parte constatamos seu triunfo. Através de que elas triunfam? Pela vontade de nada, graças à afinidade da reação com a negação. O que é a negação? É uma qualidade da vontade de poder, é ela que qualifica a vontade de poder como niilismo ou vontade de nada. é ela que constitui o devir-reativo das forças. Não se deve dizer
75) VP, II, 45, 77, 187.

76) VP, II, 73.

77) VP, II, 171: "...essa força em sua plenitude que. voltando-se contra si mesma, uma vez que nada mais tem a organizar. emprega sua força em desorganizar."

78) VP, II, 170: "Em lugar da causa e do efeito, luta dos diversos vir-a-ser; freqüentemente o adversário é tragado; os vir-a-ser não são em número constante."

79) VP, II, 311.

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que a força ativa torna-se reativa porque as forças reativas triunfam; ao contrá­rio. elas triunfam porque. ao separarem a força ativa do que ela pode, abando­nam-na à vontade de nada como a um devir-reativo mais profundo do que elas mesmas. Por isso as figuras do triunfo das forças reativas (ressentimento, má consciência. ideal ascético) são inicialmente as formas do niilismo. O devir-­reativo da força, o devir niilista é o que parece essencialmente compreendido na relação da força com a força. Existe um outro devir? Tudo nos convida a "pensá-lo" talvez. Mas seria preciso uma outra sensibilidade, como diz Nietzsche com freqüência. uma outra maneira de sentir. Não podemos ainda responder essa questão, podemos apenas considerá-Ia. Mas podemos perguntar porque só sen­timos e só conhecemos um devir-reativo. Será que o homem é essencial menti' reativo? Será que o devir-reativo é constitutivo do homem? O ressentimento, a má consciência, o niilismo não são traços de psicologia, mas como que o fundamento da humanidade do homem. São o princípio do ser humano como tal. O homem, "doença de pele" da terra, reação da terra... (80). É nesse sentido que Zaratustra fala do "grande desprezo" dos homens, e do "grande nojo". Uma outra sensi­bilidade, um outro devir, seriam ainda do homem?

Essa condição do homem é da maior importância para o eterno retorno. Ela parece comprometê-lo ou contaminá-lo tão gravemente que ele próprio se torna objeto de angústia, de repulsão e de nojo. Mesmo se as forças ativas voltarem, voltarão reativas, eternamente reativas. O eterno retorno das forças reativas, mais aindá, o retorno do devir-reativo das forças. Zaratustra não apresenta o pensa­mento do eterno retorno apenas como misterioso e secreto, mas como nauseante, difícil de suportar (81). A primeira exposição do eterno retorno sucede uma estranha visão, a de um pastor "que sc contorcia, engasgando e convulsionado, o rosto distorcido", uma pesada serpente negra pendendo-lhe fora da boca (82). Mais tarde, o próprio Zaratustra explica a visão: "O grande nojo pelo homem, foi isso que me sufocou e entrou-me na garganta... Ele retomará eternamente, o homem do qual estás cansado, o homem pequeno... Ai! o homem retomará eternamente... E o eterno retorno, também do menor, era a causa do meu fastio por toda a existência! Ai! nojo, nojo, nojo (83)!" O eterno retorno do homem pequeno, mesquinho, reativo não faz apenas do pensamento do eterno retorno algo de insuportável; faz do próprio eterno retorno algo impossível, põe a contra­dição no eterno retorno. A serpente é um animal do eterno retorno; mas a serpente se desenrola, torna-se uma "pesada serpente negra" e pende fora da boca que se aprestava a falar, na medida que o eterno retorno é o das forças reativas. Como. pois, o eterno retorno, ser do devir, poderia afirmar-se de um devir niilista? Para afirmar o eterno retorno é preciso cortar e cuspir a cabeça da serpente. Então o pastor não é mais nem homem nem pastor: "ele estava transformado, aureolado, ele ria! Nunca ainda homem nenhum sobre a terra rira como ele riu (84)." Um outro devir, uma outra sensibilidade: o super-homem.

80) Z, II. "Dos grandes acontecimentos".

81) Cf. também VP, IV. 235 e 246.

82) Z, III. "Da visão e do enigma".

83) Z, III. "O convalescente".

84) Z, III. "Da visão e do enigma".
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