Ênio silveira e a companhia editora nacional: uma grande ofensiva cultural



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ÊNIO SILVEIRA E A COMPANHIA EDITORA NACIONAL: UMA GRANDE OFENSIVA CULTURAL*

Claudia Panizzolo**


A contribuição de Ênio Silveira para o desenvolvimento da industria editorial brasileira no que se refere aos métodos administrativos, publicidade, produção gráfica e política editorial, pode ser equiparada em importância, às inovações de Monteiro Lobato.

Tal como Lobato, Ênio Silveira foi um político radical; mas, enquanto o primeiro dedicou-se prioritariamente às suas campanhas políticas, o segundo expressou-se plenamente através de seu trabalho editorial, o que lhe custou a própria existência de seu negócio após o golpe militar de 1964. O editor manteve-se fiel a uma política editorial, que, no dizer de Hallewell (1985) “pôs à prova os limites de tolerância de todos os governos, desde Castelo Branco até Geisel”. (p.445) Como conseqüência, sofreu contínuos prejuízos financeiros, dilapidação de seu patrimônio e atentados contra sua vida.

Ênio nasceu em 18 de novembro de 1925, na cidade de São Paulo, tendo sua origem, conforme ele próprio costumava declarar, em uma família de classe média, com longa tradição de gerações de bacharéis, profissionais ligados à literatura, à pesquisa, ao magistério, ao comércio e à industria. A política, no sentido profissional da palavra, jamais seduziu sua família, ainda que seu tio-avô, Alarico Silveira, tenha sido secretário da Presidência e Ministro do Supremo Tribunal Militar no governo Washington Luís e seu avô, Valdomiro Silveira, secretário de Educação e de Justiça no Governo Armando Sales de Oliveira, contudo, segundo Silveira (apud Félix, 1998, p.20) “um e outro, porém como todas as demais pessoas de sua família, entenderam o exercício de cargos públicos como tarefa, jamais como carreira”.

De acordo com a descrição de Hallewell (1985) Silveira seria “alto e bem apessoado” e teve seus dotes naturais, tais como “encanto pessoal, vivacidade, energia, visão e impulso para a ação” (p.446) completados por uma boa educação. Ênio Silveira recebeu formação em São Paulo, basicamente em escolas públicas.

* Esta comunicação é parte de minha pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação de Educação: História, Política, Sociedade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC – SP.

** Doutoranda do Programa de Educação: História, Política, Sociedade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC – SP.

Freqüentou o Ginásio do Estado, considerado o equivalente paulista do Colégio Pedro II, quer seja pela excelência dos professores, quer seja pelo rigor com que eram ministradas as aulas. Cursou também a Escola Livre de Sociologia e Política, da Universidade de São Paulo, contudo, não concluiu o curso, tendo apontado como impeditivos, a necessidade de trabalhar, o casamento e a permanência de um ano nos Estados Unidos, oportunidade em que trabalhou na Editora Alfred A. Knopf e cursou editoração na Universidade de Columbia.

Em 1943, ainda estudante da Escola de Sociologia teve seu primeiro emprego regular e iniciou sua carreira na Companhia Editora Nacional, pelas mãos de Leonor Aguiar1, que o apresentou a Monteiro Lobato, um dos fundadores da Companhia.

O encontro se deu de maneira bastante insólita, no próprio apartamento de Leonor, especificamente no banheiro, enquanto a mesma esfregava vigorosamente Monteiro Lobato que estava nu, imerso na banheira. Essa história, que Ênio2 não cansava de contar e rir, rendeu-lhe além de muito constrangimento, um cartão de apresentação ao Octalles Marcondes Ferreira, proprietário da Editora Nacional.

Em dois anos, tornou-se o responsável pela definição editorial da Nacional, com o cargo de diretor editorial e quatro anos depois, ou seja em 1951, responsável pela subsidiária do Rio de Janeiro, a Civilização Brasileira, que tinha como principal atividade, uma livraria e uma produção editorial inferior a duas dezenas de títulos; sob a administração Ênio Silveira foi gradualmente tornando-se, até fins da década de 50, uma das principais editoras do País, com um catálogo comparável ao da Companhia Editora Nacional. Diz ele,

em seis meses me apaixonei perdidamente pela Editora Civilização Brasileira e vi que havia muito que poderia fazer e dinamizar, como editor, aproveitando tudo que havia aprendido na Editora Nacional, nessa época, mais e mais voltada para o livro didático. (Silveira apud Ferreira, 1992, p.51)
Ênio Silveira, além de ser promotor de autores nacionais como Fernando Sabino, Adonias Filho, Antônio Callado, Carlos Heitor Cony, Millor Fernandes, Dalton Trevisan entre muitos outros, tornou a Civilização Brasileira importante pela variedade de traduções da literatura moderna dos Estados Unidos, França, Itália, Alemanha e Rússia; “disso resultou que, em 1970, controlava aproximadamente 20% de todo o mercado brasileiro de ficção”. (Hallewell, 1985, p.447)

Embora a maior parte de sua produção na área de ficção seja de ótimo nível, procurou editar um número suficiente de best-sellers para garantir a estabilidade financeira da Civilização Brasileira, lançando ou relançando autores consagrados como Agatha Christie, Ian Fleming, Aldous Huxley, George Orwell entre outros.

Além de ficção, Silveira publicava na Civilização Brasileira títulos referentes às ciências humanas, com especial destaque aos de Sociologia, Economia e Política; segundo Hallewell (1985, p.449), esses títulos refletiam as posições da “esquerda jacobinista” com a qual Ênio Silveira se identificava. De especial importância em sua produção sócio-política foram os provocativos Cadernos do Povo Brasileiro, fartamente consumidos por militantes de diferentes vertentes da esquerda. Constituiam-se em folhetos populares cujo texto de capa dizia “Os grandes problemas de nosso país são estudados nesta série com clareza e sem qualquer sectarismo – seu objetivo principal é o de informar – somente quando bem informado é que o povo consegue emancipar-se”. (Ibid, p.451-2) Entre os vinte e oito títulos lançados, constam: Nelson Werneck Sodré, Quem é o povo no Brasil?, Nestor de Holanda, Como seria o Brasil socialista?, Sylvio Monteiro, Como atua o imperialismo ianque?, Sérgio Guerra Duarte, Por que existem analfabetos no Brasil? e Wanderley Guilherme, com o profético, Quem dará o golpe no Brasil?

Octalles Marcondes Ferreira, patrão e sogro, há muito desaprovava as publicações esquerdistas de Ênio Silveira e, segundo Hallewell (Ibid, p.453), o lançamento dos “Cadernos do Povo Brasileiro parecem ter sido a gota d’água”. Ao invés de desligá-lo, Ferreira lhe ofereceu a oportunidade de tornar-se acionista majoritário da Civilização Brasileira, terminando assim seu vínculo com a Companhia Editora Nacional. A partir de então teve maior autonomia para divulgar “... livros de pensadores marxistas ou não marxistas, mas a todos aqueles que repensassem criativamente o processo social, político e econômico brasileiro". (Silveira apud Ferreira, 1992, p.56)

Não constitui surpresa o fato de que, após o golpe militar de 1964, Ênio Silveira e sua editora tornaram-se alvo da ditadura3. O nome do editor constava, já no primeiro ato de proscrição do governo, o de 10 de abril de 1964, que expulsou quarenta deputados do Congresso e suspendeu os direitos políticos de sessenta não parlamentares, além de Ênio, entre eles estava Nelson Werneck Sodré, o autor politicamente mais proeminente da Civilização Brasileira.

Nesse período de obscurantismo e obtusidade em que milhares de livros foram sumariamente apreendidos nas bibliotecas, livrarias e editoras, pelas mais diversas razões: por tratarem do comunismo, mesmo que fosse contra, por ser o autor persona non grata do regime ditatorial, por tratar-se de traduções do russo, ou simplesmente pela cor vermelha da capa, por certo que um editor como Ênio Silveira, cujo lema era “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê”, e cuja editora exerceu papel de liderança no debate político e cultural no país entre as décadas de 60 e 70, não passaria incólume pelo regime. Seus direitos políticos foram suspensos por dez anos, foi preso sete vezes e julgado por três vezes em Auditorias do Exército, além do atentado terrorista com explosivo na livraria, apreensão e cassação de centenas de livros e proibição de qualquer tipo de transação bancária entre o editor e os bancos estatais.

Sem se intimidar com todas estas atrocidades, Ênio publicou na Revista Civilização Brasileira - o mais conhecido dos periódicos da editora, lançada em março de 1965 e que durou até fins de 1968 - duas Epístolas ao Marechal Castello Branco, em que além de relatar sua biografia, discutir sobre nacionalismo e militarismo, argumenta sobre a importância do diálogo ideológico entre esquerda e direita.

Os longos anos de luta de Ênio Silveira, representaram um grande esforço financeiro, temporariamente aliviado pela herança da esposa Cléo Marcondes Ferreira com a venda da Nacional. Em 1982, a Civilização Brasileira passou a ser distribuidora no Rio de Janeiro, das edições DIFEL e esta, responsável pelas vendas da Civilização em São Paulo. Paralelamente, o Banco Pinto Magalhães e o Major Batista da Silva, ambos portugueses, adquiriram 90% do capital da Civilização Brasileira, ficando Ênio Silveira com os restantes 10%.

Contudo, em meio a todas as intempéries vividas, Silveira manteve-se fiel ao seu trabalho, segundo Barbosa Lima Sobrinho, enfrentando a tudo com “...extraordinária bravura, com uma dignidade intocável, com uma serenidade que vinha de sua energia, apoiada numa excepcional combatividade”. (apud Félix, 1998, p.395)

Ênio Silveira costumava citar um verso de Maiakovski: “Comigo a anatomia se vê louca. Sou todo coração” (Cf. Ferreira, 1992, Félix, 1998), pois foi justamente este órgão que lhe pregou uma peça; depois de uma operação na carótida e nas artérias, tendo sido consertado numa válvula, parou de bater aos 70 anos.

Assim, resta a contribuição de Ênio Silveira para o progresso da industria editorial, para o desenvolvimento do livro e para a formação do povo brasileiro que teve no editor, um professor de coragem intelectual e um mestre da cultura de resistência no Brasil.
A Companhia Editora Nacional e sua ofensiva cultural
Na década de 50, a Companhia Editora Nacional atingiu o pico da sua produção, oscilando entre cinco e sete milhões de exemplares por ano, o que correspondia a 10% do total publicado em todo o país. Hallewell (1985) acredita que o crescimento da Companhia Editora Nacional foi paralelo ao desenvolvimento do ensino secundário, que teve seu início a partir da década de 40 com a ampliação da rede de ginásios, intensificando-se porém, na década de 50, através das criações de novas unidades escolares e do aproveitamento dos estabelecimentos já existentes.

Data desse período, precisamente do ano de 1950, a publicação do primeiro número da revista Atualidades Pedagógicas que, mediante a sua própria criação, expressa o posicionamento favorável da Companhia Editora Nacional face ao processo de expansão e diversificação do ensino médio.

Três fatores, aparentemente, foram decisivos para a criação da revista Atualidades Pedagógicas pela Companhia Editora Nacional, frente ao crescimento das matrículas do ensino médio e à significativa ampliação da rede de escolas secundárias nas regiões mais desenvolvidas do país, entre meados da década de 40 e os primeiros anos dos anos 60.

O primeiro fator refere-se à opção político-pedagógica dos editores que representavam uma elite intelectual preocupada com a perda da qualidade do ensino médio, especialmente com o ensino secundário, decorrente da sua ampliação quantitativa, incontestavelmente marcada pela ausência de recursos materiais necessários e de um magistério habilitado. Daí o interesse em editar uma revista voltada para os professores daquele grau de ensino, que desempenhasse dupla função: uma de regramento das práticas escolares através de artigos de orientação didático-metodológica, vulgarização de teorias pedagógicas e até mesmo matérias de divulgação científica, e outra função, de apoio administrativo-burocrático aos estabelecimentos de ensino, bem como de suporte profissional ao magistério, com orientações para a obtenção e regularização de registros, já que predominantemente, o docente do ensino secundário provinha de outros setores ocupacionais, em regra, sem a devida formação e habilitação concedida pelas recém-criadas Faculdades de Filosofia Ciências e Letras.

O segundo fator, também expressa a opção político-pedagógica dos editores, que tentavam produzir, particularmente no professorado do ensino secundário, a adesão a um projeto pedagógico. O empréstimo do nome da consagrada Coleção Atualidades Pedagógicas4 para a revista, é um indicativo que para além de uma questão de nomenclatura, há o intuito de inseri-la numa tradição pedagógica ou, pelo menos, para ela transferir a legitimidade conquistada por aquela antiga linha editorial.

O terceiro fator, que parece ter sido o mais decisivo, refere-se à opção mercadológica, ancorada na expansão, bem como na relevância social e política do ensino médio, especialmente do seu ramo secundário. Para a editora seria bastante fértil, através das páginas da revista Atualidades Pedagógicas, tornar esse professorado uma clientela cativa, em se tratando de única revista disponível no mercado editorial5 de destinação exclusiva para o ensino médio e em especial o secundário. O alvo mercadológico patenteia-se, além disso, através da intensa publicidade nas páginas da revista de outras obras da mesma editora, de modo muito especial a coleção Atualidades Pedagógicas, bem como dos livros didáticos da Editora Nacional 6.

Apesar do impulso tomado, o ensino médio no Estado de São Paulo, em 1950 – ano de criação da revista – apresentava uma taxa de matrícula de 1,8%, enquanto no ensino primário a taxa era de 8,8%. (Spósito, 1992, p. 80) Esses índices não fragilizam o peso conferido ao fator mercadológico, quando da criação da revista, posto que, de um lado, a editora estava investindo com uma certa segurança na expansão crescente deste nível de ensino e, de outro, o conjunto dos seus ramos comportava uma grande diversidade de disciplinas e atividades. Deve-se considerar, ainda, tratar-se de uma modalidade de ensino sobre a qual cresciam as exigências – tanto legais quanto acadêmicas – de maior e melhor formação e aperfeiçoamento. Aqui, mais uma vez, não pode ser olvidado que a quase totalidade dos professores absorvidos pelo ensino médio, à época, não tinha formação em licenciaturas específicas.

A revista foi iniciativa de Ênio Silveira, seu diretor-responsável e editor entre 1950 e 1959, que ao se referir à sua criação, caracteriza-a como uma revista de relações públicas, que em contrapartida ao serviço gratuito de registros de diplomas, “tinha dividendos, no sentido de prestígio para a editora, da divulgação de seus livros, e da possível adoção dos livros que fossem aproveitados pela própria razão de ser”. (Silveira apud Ferreira, 1992, p.53-4)

Silveira também organizou na Companhia Editora Nacional um Departamento de Relações Públicas com uma subseção, o Serviço de Assistência ao Professor (SEAP), que em 1961 contava com 10 escritórios de atendimento em São Paulo, capital e interior, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belém, Recife, Salvador, Curitiba, Florianópolis e Belo Horizonte. O SEAP organizara-se como prestador de serviços ao magistério nacional, por meio da obtenção do registro de professores, diretores e secretários de estabelecimentos de ensino secundário, encaminhamento de processos de candidatos aos exames de suficiência; respostas às consultas sobre legislação de ensino e verificação prévia de estabelecimentos.

Atualidades Pedagógicas foi apresentada em seu primeiro número, de janeiro de 1950, como “veículo de divulgação dos educadores brasileiros” (Revista Atualidades Pedagógicas, 1950, nº1, p.1), seu destinatário privilegiado seria o professor do ensino secundário. Vários indícios permitem identificar esse destinatário: as referências explícitas em artigos, séries e seções ao professor secundário; o número significativo de orientações didático-metodológicas às disciplinas do currículo secundário; a divulgação de instituições educacionais e legislação desse mesmo nível de ensino.

Dessa forma, manifestando-se em nome de sua patrocinadora, a Companhia Editora Nacional, e de seu potencial público leitor – o professor do ensino secundário – Atualidades Pedagógicas é definida como detentora dos requisitos de mobilidade, autoridade e atualidade que lhe permitiriam “acompanhar a evolução da escola brasileira registrando suas conquistas e suas experiências” além de “colaborar na solução de todos os seus problemas”. (Ibid, p.2)



Atualidades Pedagógicas apresentou, ao longo de seus 54 números, alterações quanto à periodicidade, sendo bimestral entre os números 1 e 36 (1950 – 1955), passando a ser quadrimestral entre os números 37 e 52 (1956 – 1961). O número 53, penúltimo da série, foi octomestral e seu último número, o 54, apresenta a proposta de retorno à bimestralidade.

Em nenhum dos números da revista constam dados relativos à tiragem7 ; em apenas um editorial “Auto-crítica por ocasião do 4º aniversário”, publicado em 1954, faz-se uma referência muito genérica à tiragem da revista: as Atualidades Pedagógicas teriam ultrapassado “várias dezenas de milhares”.

Segundo José de Arruda Penteado8, responsável pela redação e diretor da revista, a ausência dessa informação seria uma estratégia editorial adotada por Ênio Silveira para não tornar pública a tiragem relativamente pequena da revista: de início em torno de 1.500 exemplares e, mais tarde, 10.000. No entanto, essa inferência quanto à tiragem, nada informa quanto à sua distribuição em âmbito nacional, que parece ter sido efetivamente garantida ao longo do ciclo de vida da revista. Na seção destinada às cartas do leitor há correspondências de várias regiões do país.

A revista Atualidades Pedagógicas apresenta em seu expediente o valor para vendas avulsas e assinaturas anuais, muito embora apontem para mais uma estratégia editorial de Ênio Silveira, que colocava o preço apenas para valorizar o produto, quando, em verdade, a revista teria sido distribuída gratuitamente pelos Ginásios, Colégios e Institutos de Educação de todo o país.

A opção de dedicar a maior parte de suas capas para fotos de instituições educacionais foi constante ao longo de todo o ciclo da revista, provavelmente por ser essa a melhor forma de exprimir a natureza e os objetivos das Atualidades Pedagógicas: estampando nas capas e divulgando em suas páginas, experiências modelares, instauradoras de práticas pedagógicas e configuradoras da formação e aperfeiçoamento docente. O professor José de Arruda Penteado, em seu depoimento, relata ter recebido orientação expressa do Sr. Octalles Marcondes Ferreira para consagrar espaço na revista à divulgação de instituições educacionais, com destaque às particulares, tendo porém “liberdade para escolher as instituições com práticas inovadoras.” A cada capa relativa a um estabelecimento de ensino, corresponde uma matéria enaltecedora das qualidades físicas, arquitetônicas, didáticas e docentes da escola estampada; a capa sempre antecipa, mediante uma imagem grandiosa, essas qualidades modelares.

A partir do mapeamento empreendido, é possível afirmar que esse periódico educacional publicado pela Companhia Editora Nacional, tem sua criação e, em parte, seu encerramento, relacionados a Ênio Silveira, proeminente intelectual e figura central na Nacional e que, apesar de não pertencer ao meio educacional, converteu a revista num êxito editorial à medida que cumpriu brilhantemente seu objetivo de “divulgar e assistir o magistério nacional”.

Certamente, parte desse sucesso deveu-se à decisão de manter José de Arruda Penteado como responsável pela orientação pedagógica da revista, posto que, por concepções próprias ou disposição de cumprir as determinações emanadas de Octalles Ferreira, ou pelas duas razões, conseguiu dar forma e substância ao projeto idealizado, de construção da unidade nacional, valendo-se para tanto da divulgação de práticas pedagógicas assentadas em princípios renovadores.

Os números publicados em 1961 evidenciam dificuldades: assinatura avulsa e anual mediante pagamento antecipado, acoplamento de números, e reestruturação do pessoal responsável pela redação e arte-gráfica.

Parecem ter sido dois os principais episódios deflagradores do encerramento do periódico: um, relacionado ao desligamento de Ênio Silveira, idealizador da revista, e o outro, relativo à saída de José de Arruda Penteado, seu editor, para assumir funções junto a uma faculdade no interior de São Paulo. Mas esses desligamentos, eles mesmos, podem ser remetidos às mudanças, nos anos 60, empreendidas pela Companhia Editora Nacional para enfrentar o aumento da concorrência9. Assim, é admissível supor que o próprio plano de reestruturação da Nacional incluísse o afastamento de Ênio Silveira; quanto ao desligamento de Arruda Penteado, de porte distinto do seu companheiro no comando da revista, é provável que tenha sido decorrência “natural” da perda de lugar do periódico no interior dos novos planos editoriais da Companhia.

As mudanças estruturais introduzidas na Editora Nacional – prováveis responsáveis pelas saídas de Ênio Silveira, mentor da revista, e de Arruda Penteado, seu operacionalizador – somadas às significativas transformações do ensino médio nos anos 50 e início da década seguinte – aí incluindo a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases – tiram o sentido dessas funções, antes desempenhadas pela revista – especialmente as de padronização de condutas didático-pedagógicas e de assessoria à vida profissional do magistério, são as mais plausíveis razões encontradas para justificar o término da revista. Assim, quer do ponto de vista ideológico quer do ponto de vista mercadológico, especialmente deste, a revista deixa de ter lugar nos novos planos editoriais da Companhia; torna-se mais lucrativo substitui-la por uma catálogo bem organizado e significativamente mais econômico, contendo referências às publicações da Nacional.



Bibliografia

FÉLIX, Moacyr. 1998. Ênio Silveira, arquiteto de liberdades. Rio de Janeiro: Berthand Brasil.

FERREIRA, Jerusa Pires. (org). 1992. Ênio Silveira. São Paulo: Edusp, Com-Arte. (Editando o editor; v.3)

HALLEWELL, Laurence. 1985. O livro no Brasil; sua história. Tradução: Maria da Penha Villalobos e Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: T.A. Queiróz – EDUSP.

REVISTA ATUALIDADES PEDAGÓGICAS. 1950 – 1962. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

SILVA, Claudia Panizzolo Batista da. 2001. Atualizando pedagogias para o ensino médio; um estudo sobre a Revista Atualidades Pedagógicas (1950-1962). Dissertação de Mestrado em Educação PUC-SP.

SPOSITO, Marília Pontes. 1992. O povo vai à escola; a luta popular pela expansão do ensino público em São Paulo. 2ª ed. São Paulo: Loyola. (Coleção educação popular nº2)

UNESCO. 1957. Répertoire internationale de revues pédagogiques; établi par l’Unesco et l’Educational Press Association of America. Paris. p.1-25.



1 Leonor Aguiar, amiga comum de Ênio Silveira e Monteiro Lobato, é descrita por Silveira como sendo “ uma dessas figuras maravilhosas, um grande ser humano. Parecia-se fisicamente com a Gertrude Stein, portanto, não havia nenhuma ligação amorosa entre nós. Ela era uma senhora independente, tendo vivido muitos anos na França. Era uma mulher de alto saber, falava francês, inglês, alemão, italiano com fluência e conhecia a literatura de todos esses países muito bem”. (Silveira apud Ferreira, 1992, p.21)

2 Cf. entrevista concedida por Ênio Silveira e organizada por Jerusa Pires Ferreira, publicada na série “Editando o Editor” v.3 da Edusp – Com-Arte.

3 A propósito da trajetória político-editorial de Ênio Silveira ao longo da ditadura ver: HALLEWELL, Laurence. 1985. O livro no Brasil; sua história. Tradução: Maria da Penha Villalobos e Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: T.A. Queiróz – EDUSP, p.431-513.

4 A Coleção Atualidades Pedagógicas compunha uma das frentes da Biblioteca Pedagógica Brasileira, composta por cinco séries: Literatura Infantil, Livros Didáticos em Geral, Atualidades Pedagógicas, Iniciação Científica e Brasiliana.

5 Nesse período há a circulação de outras revistas pedagógicas, como a Revista Educação (1927), Revista do Professor (1934), Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (1944), porém nenhuma de destinação específica ao ensino médio.

6 Não há dados disponíveis a respeito, mas é cabível supor que já houvesse um considerável público consumidor dos livros didáticos da editora entre os alunos das escolas privadas de ensino médio. Segundo Spósito (1992, p.28), em 1940 a iniciativa privada era responsável por 75, 20% da oferta de vagas no ensino médio.

7 Em 1957 a UNESCO publicou Répertoire international de revues pédagogiques, contendo a lista de revistas pedagógicas brasileiras organizadas pelo INEP, contudo não consta a tiragem da revista Atualidades Pedagógicas.

8 José de Arruda Penteado foi responsável pela redação da Revista Atualidades Pedagógicas entre 1953 e 1959 e no ano de 1962, e diretor entre 1959 e 1961.

9 Em setembro de 1958, a Livraria Francisco Alves em parceria com a Editora Paulo de Azevedo lança uma nova seção da Revista do Magistério, com distribuição gratuita e destinada aos professores do ensino secundário e normal. Revista de caráter cultural e informativo, publica além de noticiário sobre os acontecimentos do ensino, as novidades pedagógicas e administrativas. Com uma tiragem significativa, em torno de 35.000 exemplares, são publicados apenas quatro números, com periodicidade irregular, entre 1958 e 1960.

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