No Brasil, o ensino de desenho foi diretamente influenciado pela Missão Francesa e a concepção de Joaquim Lebreton em 1816



Baixar 10.07 Kb.
Encontro04.08.2016
Tamanho10.07 Kb.
MODELO VIVO

No Brasil, o ensino de desenho foi diretamente influenciado pela Missão Francesa e a concepção de Joaquim Lebreton em 1816. Este acontecimento representava uma aproximação do Brasil com a França, rompendo com o sistema colonial e projetando uma nova ordenação social capaz de tornar os sujeitos membros produtivos da sociedade1 . Na proposta de Lebreton, endereçada ao Conde da Barca, ele descreve um projeto geral para o funcionamento das escolas que pretendia: uma Escola de Belas Artes e outra Escola Gratuita de Desenho ou Escola de Ofícios.

O ensino do desenho veio desde as corporações de ofícios européias até as academias ganhando importância e se potencializou como uma disciplina no desenvolvimento da Indústria. Lebreton caracterizava o desenho como importante no modelo que imprimia a suas escolas e designava diferenças no ensino, elitizando o ensino das Belas Artes em oposição ao da Escola de Ofícios, em seu projeto. Citava, por exemplo, que o ensino de Modelo Vivo seria exclusivo da formação artística. O entendimento era recorrente na distinção do ensino de desenho dado na Academia.

Era um conhecimento necessário ao domínio das atividades artísticas maiores, como: a gravura, a pintura, a escultura e a arquitetura na concepção neoclássica. A escola que passou a chamar-se Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios, e depois, Academia Imperial de Belas Artes, passou a funcionar apenas em 1820. Ao invés de existirem duas escolas, esta atividade passou ao Estudo das Belas Artes com uma aplicação aos ofícios mecânicos. A partir deste momento, o ensino de “Modelo Vivo” nunca deixou a formação dos alunos da academia, que passou a se chamar Escola Nacional de Belas-Artes, com a República.

O ensino era ministrado também na formação dos arquitetos, dos neoclássicos aos ecléticos. A capacidade de produzir arquitetura no século XIX estava diretamente ligada à capacidade do desenho para estabelecer no reboco, ou pedra, modulações referentes aos tratados da arquitetura. Oscar Niemeyer foi aluno da Escola Nacional de Belas Artes em um período de transformação moderna dirigida por Lúcio Costa. Niemeyer teve aulas de desenho com Modelo Vivo e este aprendizado foi bastante significativo no desenvolvimento da forma em sua arquitetura e na arquitetura brasileira.

As escolas de arquitetura modernas introduziram as influências da arte que foram aprendidas e transformadas em ensino nos exercícios inventados pelos professores da Bauhaus, especialmente Johannes Itten, responsável pelo curso preliminar que passou a ser a espinha dorsal da Bauhaus. Ao contrário das academias que pressupunham a cópia de modelos, Itten utilizava-se do ensino das bases da teoria da cor, da forma e da composição. O desenho de modelo vivo ou nu estava associado a outras atividades. Itten não exigia de seus alunos uma representação anatômica exata, mas uma forma expressiva característica desta aula que era sempre acompanhada de música 2.

O desenho de Modelo Vivo não tinha mais os preceitos neoclássicos, mas o do desenho expressivo que servisse à criação de um mundo moderno. O lugar do desenho passou à criatividade da produção arquitetônica que, ao mesmo tempo, buscava se enquadrar no mundo da indústria. Não era uma escola de artes e ofícios onde o artesão colocava seu conhecimento e habilidade. Seu objetivo era a linguagem da máquina e a produção industrial.

Com a arquitetura Pós-Moderna em sua Strada Novissima 3 na Bienal de Veneza de 1980, esta rua manifesto tratou do desejo e objetivo de resgatar o passado da história da arquitetura, o mesmo que os futuristas haviam delegado imaginando o moderno como um vetor direto para o futuro. Nos anos 80, o desenho passou a ser resgatado com características da história da arte e da arquitetura ao mesmo tempo em que a informática estava revolucionando este campo.

Por que ensinar hoje Modelo Vivo aos alunos de arquitetura? É fato que o destino dos arquitetos com as máquinas não tem e nem deve ter fim. Trata-se de um caminho sem volta. No entanto, as máquinas de que dispomos hoje, bem como os programas, deixam muito a desejar no que diz respeito à criatividade, pois operam mais em relação aos programas arquitetônicos.

Pensemos, por exemplo, no cinema, onde os efeitos especiais são maiores ainda, no entanto, não dispensam o desenho inicial. Um dia, esta criação com a máquina será plenamente satisfatória às necessidades expressivas do homem, logo, elas serão bem mais completas, no entanto, isso ainda não ocorre. Sabemos de escolas de arquitetura que têm laboratórios que trabalham a criatividade plástica com desenhos, barro etc. Mas em que as máquinas e os programas se ligam no mesmo laboratório de criação. Nosso objetivo com o conhecimento de desenho adquirido no Modelo Vivo é tornar nossos arquitetos mais autônomos.



Um dia, em 2003, conversando com o arquiteto, Oscar Niemeyer falei para ele de nossa escola de arquitetura, que ensinava desenho usando Modelo Vivo. Eu já imaginava a resposta quando ele disse: Muito bem!

1 NASCIMENTO, Erinaldo Alves do. Ensino do desenho: do artífice/artista ao desenhista auto-expressivo, João Pessoa, Editora Universitária da UFPB, 2010. p. 34.

2 GOUVEIA, Anna Paula. O croqui do arquiteto e o ensino do desenho. Tese de Doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, orientadora: Élide Monzeglio, São Paulo, 1988.

3 ARANTES, Otília Beatriz Fiori. O lugar da arquitetura depois dos Modernos. Editora da Universidade de São Paulo, 1995. p. 29.



Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal