Não dê a nova economia como morta



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Dornbusch, Rudiger. “Não dê a nova economia como morta.” São Paulo: Folha de São Paulo, 11 de junho de 2000.
FSP 11-06-00
Não dê a nova economia como morta

RUDIGER DORNBUSCH


Até recentemente , o boom da economia americana reinava supremo: nada de inflação, as Bolsas sempre em alta, quatro anos acima dos 4% de crescimento, pleno emprego e superávits orçamentários. A essa visão rendiam-se até mesmo os cínicos. Agora tudo parece diferente. Sinais de inflação rondam os produtos e os mercados de trabalho; a única questão agora é se a economia reduzirá rápido a velocidade por si própria ou se o conselho do Federal Reserve terá de sufocá-la, elevando rapidamente as taxas de juros.

Tudo foi então fogo de artifício ou a nova economia sobreviverá à diminuição de ritmo? Resposta: viverá e se espalhará pelo mundo afora, tornando-se tão difusa quanto eram o Welfare State e o governo intervencionista nos anos 30.

Irá plasmar nossas economias e nossas vidas por décadas a fio.

Por quê? A nova economia envolve cinco motores que interagem: tecnologia, competição e uma nova cultura econômica para o governo, os agentes privados e os negócios. A tecnologia é a parte mais óbvia: a revolução das telecomunicações é muito mais disseminada e difunde-se com mais rapidez do que o telégrafo ou o telefone em suas respectivas épocas. Há também a revolução informática, com sua capacidade de criar programas que reestruturam drasticamente as tarefas, desde a contabilidade à etiquetagem, das finanças ao lazer.

Essa parte da revolução está longe de ser concluída: de fato, estamos meramente no fim do início dela. A explosão da capacidade computacional logo introduzirá oportunidades agora fora do alcance da imaginação de qualquer um.

Em termos de competição: não tínhamos tanta nem tão difusa competição desde o início do século. Competição sensivelmente maior está virando regra mesmo em países que a odeiam como o diabo -Alemanha, França, Japão e outros. O agente da competição, claro, é o comércio internacional, hoje mais efetivo graças à tecnologia, à desregulamentação doméstica e ao desmantelamento do Welfare State.

Os acionistas insistem no pagamento de cada centavo que lhes é devido. O capital de risco é acessível a qualquer um, não somente ao establishment, e não há limites. Estamos a um passo de romper os mercados protecionistas. A nova economia é uma briga de foice, mas todos, pelo menos na condição de compradores, são reis.

O terceiro propulsor é uma nova cultura econômica. Os bancos centrais e/ou tesouros aprenderam que preços estáveis e orçamentos enxutos dão extraordinária contribuição à prosperidade. E indivíduos e empresas captaram as duas mensagens-chave de um mundo onde tudo é possível: "Não aceite um não como resposta" e "Não espere pelo governo; se tem um problema, resolva-o por si próprio".

Essas atitudes alteram fundamentalmente a maneira de o mundo funcionar: a gerência média, reduto da tradição, está sendo liquidada. Como em toda revolução, protagonistas do "status quo" são postos de escanteio. Assumir riscos é algo que se estima, não de que se foge. Jovens querem trabalhar em companhias de ponta, não em bancos de investimento. Alguém que diz que algo é impossível é interrompido por outro que acabou de fazê-lo.

Joseph Schumpeter (fracassado ministro das Finanças austríaco na virada do século, banqueiro falido logo após, formidável economista de Harvard depois) denominou esse processo "destruição criativa". Referia-se ao comércio, à mudança das regras do jogo ou a uma inovação que abalasse os mercados, resultando na mudança de preços, jogadores e regras em toda a economia. No processo, um rearranjo dramático aumenta vertiginosamente a produtividade segundo os novos padrões, e organizações abatidas quebram.

Não há melhor exemplo da destruição criativa de Schumpeter do que o que ocorreu nos EUA ao longo da década de 90. Mas essa não é mais uma história americana. A destruição criativa (reforçada pela abertura econômica e pela tecnologia) está varrendo o mundo.

Os céticos continuam a sustentar que a competição e a tecnologia solapam a harmonia da sociedade; que elas criam desigualdade e minam a classe média. É verdade, a nova economia é dura com aqueles que se põem de papo para o ar e vivem às expensas de acionistas e contribuintes. É verdade, ela dá chance a gente enérgica, antes fora de ação. O interessante é que, nos Estados Unidos, ela tem significado pleno emprego e uma sensível melhora no status econômico dos mais pobres.

Sim, as pessoas mudam de emprego; sim, elas têm de se arranjar. Mas quem quer voltar atrás? Não os pais, que vêem enorme mobilidade e oportunidades para seus filhos; não os filhos, que têm a chance de suas vidas. Três vivas à destruição criativa.

Apesar das quedas no mercado acionário, a nova economia alcançou a maioridade. Ela não oferece uma fórmula mágica de enriquecer; não dobra a taxa de crescimento; não se dá pelo simples fato de respirarmos o ar. A nova economia significa trabalho duro; seus milagres são limitados, porém reais.



Em vários lugares, ela vira o mundo de cabeça para baixo: a Finlândia como um centro de alta tecnologia, a Alemanha ficando para trás porque a mudança é vista com maus olhos, a decadente economia japonesa resgatada pelo seu formidável potencial tecnológico.

E o mais importante: talvez tenhamos suprimido os ciclos econômicos. É cedo demais para um réquiem. A nova economia só está começando.


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