No deserto o senhor deus



Baixar 66.08 Kb.
Encontro22.07.2016
Tamanho66.08 Kb.






NO DESERTO O SENHOR DEUS

E ISRAEL FIZERAM UMA ALIANÇA ETERNA E IRREVOGÁVEL
Nicoletta Crosti

Caderno 6


Setembro 2004


www.fundacao-betania.org



NO DESERTO O SENHOR DEUS E ISRAEL

FIZERAM UMA ALIANÇA

QUE IRIA SER ETERNA E IRREVOGÁVEL
Nicoletta Crosti*
O Concilio Vaticano II, no documento Lumen Gentium, usa a expressão "povo de Deus" para exprimir o mistério da Igreja. Isto significa colocar a Aliança no centro da identidade da Igreja e da fé cristã. De facto, é através da Aliança que as tribos israelitas se tornaram no "povo de Deus", e é através da Aliança, renovada no sangue de Cristo, que os cristãos se tornaram parte deste mesmo povo de Deus. O conceito de Aliança está presente em todas as Escrituras, e é um conceito fundamental tanto na fé Judaica como Cristã.
Os autores sagrados foram buscar a instituição da Aliança (ou pacto ou berît) à cultura dos povos antigos. Era uma instituição largamente difundida nas sociedades civis dos países do Médio Oriente de então. Para os autores sagrados esta instituição exprimia correctamente a relação que Deus desejava ter com Israel e que Israel deveria ter para com Deus.
O pacto era um documento escrito que incluía vários elementos. Começava com um prefácio apresentando o proponente do pacto, seguido de um prólogo histórico, delineando a história das relações que as partes tinham tido no passado. O elemento central era a "declaração fundamental", que expunha o compromisso das duas partes. A esta declaração fundamental seguiam-se instruções particulares e detalhadas, que eram periodicamente lidas em público. Estas tinham valor por desenvolverem a declaração fundamental a que estavam ligadas; uma vez separadas dela, perdiam o seu verdadeiro sentido. O último elemento do pacto era a lista de "bênçãos" e "maldições" a que a fidelidade ou a quebra do pacto implicariam. Para validar o documento era então necessária a convocação de testemunhas.
Todos estes elementos do pacto encontram-se em Josué capítulo 24 que os exegetas consideram ser o texto mais antigo do berît bíblico. É na grande assembleia em Siquém que Israel se compromete oficialmente a ser o povo de "Adonai " v. 2 1. O Senhor Deus introduz-se a si-mesmo dizendo: "Eis o que diz Adonai/o Senhor, Deus de Israel".
Todos os factos históricos que dizem respeito à relação entre Adonai e Israel estão descritos nos vv. 2 a 13, de Abraão até à entrada na Terra Prometida; "os vossos olhos viram..." é realçado no v. 7.
A "declaração fundamental" com o compromisso de Israel encontra-se no v.18 "também nós serviremos Adonai, porque ele é o nosso Deus" e no v. 24 "Nós serviremos o Senhor nosso Deus, e escutamos a sua voz"2. Esta não é ainda a "formula da Aliança", que será expressa mais tarde, embora o conteúdo seja idêntico, uma vez que há o reconhecimento de Adonai como Deus e o compromisso de Israel de O servir.
A esta, segue-se a referência a instruções particulares : "Josué fez uma aliança com o povo e deu-lhe, em Siquém, leis e prescrições. Josué escreveu estas palavras no livro da Torâh3 de Deus (vv. 25-26). De facto, na Torâh encontramos estas instruções particulares (os códigos e as 10 "palavras") que são parte do pacto, e que são a expressão da declaração fundamental. Estas perdem sentido quando desligadas da formula da Aliança. Por esta razão, a fórmula do pacto em Ex 6, 7 vem antes das 10 palavras (Ex 20).
No Pentateuco há vários códigos que têm sido constantemente reformulados, de acordo com as diferentes4 situações históricas. Um código substituía outro, sem menosprezar o antigo, que guardava o seu sentido. Nos vv. 20-22 encontramos as "bênçãos" e as "maldições": "Quando abandonardes Adonai/o Senhor para servir a deuses estranhos, Ele voltar-se-á contra vós e far-vos-á mal; Há-de destruir-vos, após ter-vos feito bem.".

Por fim, as testemunhas são mencionadas: v. 22 "Sim, nós somos testemunhas"; e no v. 27 "Vede, esta pedra servirá de testemunho entre nós...".


A FÓRMULA DA ALIANÇA
A declaração fundamental do pacto é chamada "fórmula da Aliança". Esta fórmula estereotipada, com pequenas variações, encontra-se pelo menos 30 vezes no A.T.5 Indica de uma maneira sintética a relação de Deus com o seu povo, uma relação bilateral em que os dois contratantes estão igualmente comprometidos. Esta está geralmente expressa da seguinte maneira: "Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo". Na Aliança, há uma aceitação mútua : Deus aceita Israel e Israel aceita Deus. É o encontro de duas liberdades; Deus na sua liberdade, aceita o que Israel lhe dá, e Israel aceita o que Deus lhe dá. O compromisso bilateral está bem explicado no texto do Dt. 26, 17-19: "Hoje aderistes à declaração do Senhor. Ele declarou que Ele seria o teu Deus e que tu tens de andar nos seus caminhos, observando as suas leis, os seus preceitos e os seus mandamentos, e tens de escutar a sua voz. Hoje o Senhor aderiu à tua declaração. Tu declaraste que serás o seu povo particular,6como Ele prometeu, que observarás todos os mandamentos... que serias um povo consagrado ao Senhor, teu Deus, como Ele tinha dito".
É uma expressão extraordinária da linguagem bíblica. Israel torna-se o povo que pertence à realidade da pessoa divina. Por virtude do pacto, Israel torna-se o tu de Deus e Deus o tu de Israel. Ao tomar consciência de ser o povo de Deus, Israel descobrirá a sua identidade.
Esta pertença mútua será expressa totalmente na terminologia nupcial dos profetas: "Assim como um rapaz se casa com uma jovem, também te desposa aquele que te reconstrói. Assim como a esposa é a alegria do seu marido, assim tu serás a alegria do teu Deus". (Is. 62,5). Deus é o primeiro a comprometer-se ao escolher Israel, e aguarda a reciprocidade de Israel, como o noivo aguarda pela resposta amorosa da amada.7
Na fórmula da Aliança, os verbos são conjugados no futuro "Eu serei" "tu serás", porque o pacto não é uma realidade estática, mas uma realidade dinâmica, sempre em processo de realização, necessitando uma actualização; na realidade, a Aliança faz parte da História e da caminhada da humanidade.
A "familiaridade"8 que Israel vem a assumir com o seu Deus pelo pacto, exprime-se liturgicamente depois do povo se ter comprometido a viver as "palavras", pelo rito de aspersão do sangue do cap. 24 do Êxodo. Para os judeus, o sangue é o símbolo da vida que pertence unicamente a Deus. O sangue é derramado no altar, representando Deus, e no povo (vers.8) "Moisés, tomou o sangue e aspergiu com ele o povo dizendo: "Eis o sangue da Aliança que o Senhor concluiu convosco, mediante todas estas palavras".9
Assim, o viver a Aliança corresponde a partilhar a mesma vida de Deus, isto é, a sua santidade. Por esta razão, Adonai dirá: "Porque Eu sou o Senhor, vosso Deus, deveis santificar-vos, e permanecer santos, porque Eu sou santo!" Lv 11,45. "Eu sou o Senhor que vos santifica, que vos fez sair da terra do Egipto, para ser vosso Deus. Eu sou o Senhor”(Lv 22, 32-33). E, ainda: "Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa " (Ex 19,6).
Adonai deseja atrair Israel a si e tornar Israel semelhante a si, "santo, "separado"10 para realizar o seu plano de salvação para todo o mundo. Em Isaías, o Senhor dirá " Vou fazer de ti luz das nações, para que a minha salvação, chegue até aos confins da terra" (Is 49,6). Como povo, Israel deve compreender que é um instrumento nas mãos de Deus, para realizar um plano que vai além de si mesmo e que compreende apenas parcialmente. Um plano que até aos nossos dias Israel tem de realizar.
É misteriosa a escolha de Deus: Israel não é escolhido pelo seu valor ou grandeza, mas por causa do amor especial que Deus tem para com o seu povo. "Não foi por serdes mais numerosos que outros povos que o Senhor se agradou de vós e vos escolheu11; vós até éreis o mais pequeno de todos os povos. Mas foi porque Ele vos ama e é fiel ao juramento que fez a vossos pais". (Dt 7,7-8). A escolha, é apenas um, dom gratuito.
ALIANÇA E LIBERDADE
A fórmula do pacto aparece sempre associada à memória da libertação do êxodo; a experiência que provou a Israel quão poderoso era Adonai, um Deus capaz de libertar um povo da escravatura (ver as pragas do Egipto e o milagre da travessia do Mar Vermelho, evocado pela profetisa Miriam no cântico, em Ex 1-21). A experiência do êxodo foi fundamental para Israel. Para se tornar o povo de Deus, teve primeiro de optar livremente, ser um povo capaz de escolher comprometer-se com o pacto. Os descendentes de Abraão tinham-se tornado sedentários e tinham-se instalado no delta do Nilo, como súbditos do faraó do Egipto. A sua vida não era mais dura do que a vida dos outros agricultores egípcios daquele tempo,12 mas eram certamente escravos do faraó, a quem pertenciam, assim como os outros dignitários da corte. O faraó era um monarca totalitário, que podia dispor das pessoas como lhe apetecesse, e não permitia que os seus súbditos fossem protagonistas da sua própria história. As tribos israelitas tinham de ser libertas desta escravidão. Os israelitas tinham de se tornar livres para escolher livremente o seu futuro, optar entre a escravatura do faraó ou o serviço a Deus.

Na realidade, Adonai deseja ser escolhido livremente, não deseja dominar. "E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha Aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos..." (Ex 19,5).


O plano de Adonai consistia em dar o dom da liberdade aos israelitas, para ligá-lo então a si por meio de um pacto, e transformá-lo assim num instrumento de salvação para todo o mundo. Deus deseja dar o dom da liberdade, mas coloca algumas condições, essenciais à vivência deste dom.
Para ensinar a viver correctamente a liberdade, Adonai dará a Israel as Dez Palavras (ou Decálogo), erradamente conhecidas como "mandamentos". Estas Dez Palavras não foram entregues para serem um código moral, mas para ensinar aos israelitas os limites da sua liberdade, limites que não deviam exceder a fim de não saírem do caminho que leva à santidade de vida, à relação íntima com Adonai.
Não é por acaso que a maioria das Dez Palavras começam por "Tu, não deverás..." Adonai deseja deixar Israel livre para escolher o seu próprio futuro. Não deseja ser coercivo; por isso, não diz o que há a fazer, apenas estabelece o limite que não deve ser excedido, como o limite de velocidade numa auto-estrada, que deixa livre a pessoa de escolher a velocidade que pretende, dentro dum valor máximo, para além do qual está o risco da morte.
A primeira "palavra" começa por dizer "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair da terra do Egipto, da casa da servidão" (Ex 20,2). É a palavra fundamental, a porta de entrada para as outras "palavras". Estas terão sempre que ser vistas em referência ao processo de libertação que Israel deverá comprometer-se a viver, se quer manter Adonai como o seu Deus.
As "palavras", com todas as prescrições dadas no Pentateuco, são aceites por Israel como um dom gratuito do Senhor que lhes oferece alegria e vida. O salmista di-lo: "Alegro-me mais em seguir os tuas ordens, do que em possuir qualquer riqueza... Abre os meus olhos, para que eu veja as maravilhas da tua lei" (Sl 119/118, 14.18).
A liberdade, oferecida por Deus como um dom, tem uma consequência exigente: a responsabilidade no agir e o compromisso de servir o Senhor Deus, compromisso que tem de ser vivido na dimensão do amor. O texto central do Dt 6, 4-5, que todo o israelita repete três vezes por dia, di-lo: "Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único!. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças..."
O PACTO É RATIFICADO NO DESERTO
Liberto da escravidão dos egípcios, os israelitas poderiam ser levados directamente para a terra de Canaã, e Deus poderia ter feito aí o pacto com o seu povo. Mas, não foi esse o caso, Deus quis fazer a Aliança com os israelitas enquanto eles viveram a longa e difícil experiência da passagem no deserto. Esta situação era a mais adequada para fazer Israel compreender o que implicaria a ratificação do pacto, isto é, decidir que Adonai tinha sido o seu Deus e eles o povo do Senhor. Adonai é um Deus exigente, e está determinado a levar o seu povo a fazer uma experiência de fé radicalmente diferente da dos outros povos do Médio Oriente antigo. Israel tem de aprender a amar o Senhor Deus porque Deus o ama e o escolheu. Mas é experimentando a presença misteriosa do Senhor Deus numa terra de morte como o deserto "grande e temível, de serpentes venenosas, e escorpiões, lugar árido, onde não há água..." que se pode conhecê-lo e amá-lo (Dt 8,15). (Ver também Is 34, 14-16, Sl 107, 34-35, Num 21,6). É por esta razão que Deus oferece o pacto no deserto. No deserto, Israel tem de aprender a não ser auto-suficiente, a não viver uma independência em que não necessitasse de Deus (Dt 8,6-20); aprende a apoiar-se inteiramente na condução e na providência do Senhor Deus, a ponto de cantar no Salmo do bom pastor "O Senhor é meu pastor, nada me falta..." (Sl 23/22). No deserto, Israel aprende a libertar-se da sua própria cobiça, dos seus planos, a estar ao serviço do Senhor Deus, a ser o Seu povo. Aprende a aceitar o risco, a não ter qualquer segurança, a estar continuamente a caminho e em busca. O processo de libertação é longo, duro, cheio de perigos.
O PACTO TEM UMA HISTÓRIA,

DEUS RENOVOU-O MAIS DO QUE UMA VEZ


Pouco depois da sua formulação (Ex. 19 e 24), a Aliança será quebrada no sopé do Sinai, e será requerida a renovação da Aliança (cap. 33 e 34). Muito mais tarde, a tragédia do exílio na Babilónia, com a humilhação dos judeus, a sua pobreza, a perda do templo, tudo isso levará os teólogos de Israel a reverem a teologia do pacto. Efectivamente, Israel estava consciente de ter quebrado o pacto com as suas infidelidades, e, consequentemente, viu as maldições de Deus caírem sobre si. Foi durante o exílio que a questão foi formulada: Haverá ainda esperança para um futuro para Israel? A corrente sacerdotal responde: se o pacto (berît) bilateral falhou, há um outro que mantém o seu valor, porque é unilateral, o mais antigo, o primeiro, de maior valor porque foi estabelecido entre o Senhor Deus e Abraão, e depois repetido com Isaac e Jacob.
O primeiro berît delineado com Abraão é eterno. ("Pois Deus não retira aquilo que dá nem a escolha que faz", dirá Paulo em Ro 11,19). De facto, não depende da atitude do povo, apoia-se unicamente na lealdade inquestionável de Deus Salvador, no seu amor por Israel, e no facto de o desejar para si: "Estabelecerei a minha Aliança contigo e com a tua posteridade, de geração em geração; será uma Aliança perpétua, em virtude da qual Eu serei o teu Deus e da tua descendência... Dar-te-ei, a ti e à tua descendência, o país em que resides como estrangeiro, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua.... " (Gn 17, 7-8). Considerando este primeiro berît, estava certo pensar-se num futuro, e em esperar, no retorno do exílio, um renascimento de Israel. O édito de Ciro, um acontecimento inesperado que permitiu a Israel regressar à Palestina e reconstruir o Templo, é visto como o desejo do Senhor Deus de restabelecer o pacto e dar uma nova oportunidade a Israel.
Haverá ainda outra evolução da teologia do pacto no período pós-exílio, com a lei de santidade do Levítico. Neste texto, a teologia bilateral do pacto no Êxodo e a teologia unilateral do Génesis, confrontam-se, assumindo em si as duas posições. Uma nova liturgia começa a ser celebrada: a liturgia da reparação (Lv cap.4)·. Isto permite ao povo fazer a paz com Deus de uma maneira periódica, isto é, anualmente. Devido à sua recorrente infidelidade, podiam restabelecer o pacto, continuando assim a considerar-se como o povo de Deus. Esta liturgia assentava na crença firme de que Adonai era um Deus de misericórdia "... “A todos perdoarei as suas faltas e não mais lembrarei os seus pecados”. (Jr 31, 34).
Um desenvolvimento posterior à teologia do pacto é dado por Jeremias, o profeta que fala de salvação no contexto da tragédia do exílio, anunciando um futuro histórico para Israel, não escatológico, depois do exílio. Jeremias fala de uma nova Aliança "Dias virão em que firmarei uma nova Aliança... imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo" (Jr 31, 31-33)". O berît permanece o mesmo, com a mesma fórmula, porque o compromisso mútuo é o mesmo, e os parceiros são os mesmos. O elemento novo é o facto de Deus não escrever a Tora em lajes de pedra, mas no lugar onde o homem toma as suas decisões: para o judeu, o coração. A transformação interior é de facto necessária para ser-se fiel ao pacto; o que o judeu então não conseguia, é agora provocado por Deus. As instruções dadas pela Torâh serão interiorizadas, não haverá mais necessidade de leituras periódicas da Torâh : "Ninguém ensinará mais o seu próximo ou o seu irmão, dizendo: "Aprende a conhecer o Senhor!" Pois todos me conhecerão desde o maior ao mais pequeno" (Jr 31, 34). O Senhor Deus di-lo através de Ezequiel, profeta na Babilónia entre os exilados: "Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados... Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito...." (Ez 36, 25-28). Agora é o Espírito de Deus que realiza a transformação interior necessária para manter Israel fiel ao pacto. Jesus de Nazaré viverá esta nova Aliança, repleto do Espírito Santo, dando assim uma dimensão escatológica à Aliança de Israel.


"ESTE CÁLICE É A NOVA ALIANÇA DO MEU SANGUE"

Com a ajuda do Espírito Santo, os discípulos de Jesus conseguem compreender o sentido da vida e morte de Jesus quando descobrem que a figura do Mestre coincide com a do "servo sofredor" de Isaías. Ele, como Jesus, tinha sido escolhido pelo Senhor Deus para uma grande missão, e tinha recebido o seu Espírito: "...Fiz repousar sobre ti o meu espírito... chamei-te por causa da justiça, segurei-te pela mão; formei-te e designei-te como aliança de um povo e luz das nações" (Is 42,1.6). Ele entregou-se à vontade do Senhor Deus: "O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recusei" (Is 50,5). Ele foi desfigurado pela dor "Desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto" (Is 53,3). Ele tornou-se uma vítima pelos pecados da humanidade "Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades" (Is 53, 5).


Ele passou da morte à vida: “depois da sua agonia profunda, virá a luz e ficará satisfeito com o seu conhecimento” (Is 53,11). Assim, a morte de Jesus na cruz não foi uma expressão da maldição de Deus como pode parecer à primeira vista (Dt 21,22). Pelo contrário, Jesus era verdadeiramente o servo que "justificará a muitos" (Is 53,11) e por causa disso tornou-se o cordeiro pascal13 cujo sangue o anjo destruidor da morte guardara à parte, na noite da saída do Egipto. Por este motivo, a ideia da Aliança foi vista pelos discípulos de Jesus como uma expressão válida para explicar a morte de Jesus. Por este mesmo motivo, foi utilizada no rito eucarístico das primeiras comunidades cristãs, nas palavras da consagração do cálice. Provavelmente, não foram as palavras14 de Jesus, mas foram palavras da primeira comunidade cristã exprimindo o melhor que puderam o sentido profundo da incarnação, a presença de Jesus no rito, com o seu corpo, sangue e Espírito. Mateus cap. 26,27 e Marcos cap.14,24, ao usar a expressão "Este é o meu sangue da Aliança de Deus", ligam a morte de Jesus na cruz à cerimónia da Aliança do cap. 24 do Êxodo, onde o sangue espalhado no altar e sobre o povo tornava-o família de Deus.15 A Eucaristia é de facto o ápice do baptismo que nos torna filhos de Deus, torna-nos familiares e irmãos a Cristo.
Por sua vez, Paulo, na primeira carta aos Coríntios ( 1 Co 11, 25), relata a fórmula da consagração eucarística dizendo "Este cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós", palavras assumidas por Lucas cap. 22, 20.
Com esta expressão, Paulo vê a conexão entre a celebração da Eucaristia e as supracitadas palavras de Jeremias cap. 31, 31 sobre a nova Aliança, explicada por Ezequiel com referência ao Espírito. Segundo João, do lado aberto de Cristo, correu não apenas sangue mas água, símbolo do Espírito que Jesus, ao morrer, deu àqueles que acreditassem nele. No acontecimento histórico da morte de Jesus de Nazaré, ressuscitando e dando o Espírito, Paulo vê então a realização da Aliança judaica, como Jeremias e Ezequiel esperavam.
Como diz a carta aos judeus (Heb 10), é a plena adesão de Jesus à vontade do Pai, até à morte na cruz que constantemente renova a mesma e única Aliança, a Aliança com o Senhor Deus.
NÃO ÉS TU QUE SUSTENTAS A RAÍZ,

MAS A RAÍZ QUE TE SUSTENTA A TI


Não é possível falar-se da Aliança sem falar da relação existente entre judeus e cristãos, ambos parceiros da mesma aliança e como tal irmãos.16
A tragédia da Shoa, o genocídio de 6.000.000 judeus na Europa cristã, foi o acontecimento que abriu os olhos da Igreja, tanto dos teólogos como dos exegetas bíblicos. Alguns deles tomaram consciência que o genocídio não teria tido lugar se a Igreja não tivesse espalhado no mundo cristão, durante aproximadamente 2000 anos, a "teologia da desonra" dos judeus, considerados serem culpados da morte do Filho de Deus e portadores de uma fé incompleta e de estatuto inferior comparado à fé cristã. De facto, a Igreja acreditou durante séculos na "teologia da substituição", segundo a qual a Igreja tinha substituído Israel na história da salvação, e se tinha tornado o "novo" povo de Deus. A Revolução Francesa, ateísta e anti-clerical, foi a única a dar aos judeus todos os direitos que mereciam.
Os estudos bíblicos actuais vieram lembrar aos cristãos as palavras muito claras de Paulo. “Eles são os israelitas, a quem pertence a adopção filial, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas. A eles pertencem os patriarcas e é deles que descende Cristo, segundo a carne.” (Ro, 9,4) e “Mas, em relação à eleição, eles são amados, devido aos seus antepassados. É que os dons e chamamento de Deus são irrevogáveis”. (Ro 11, 29). Finalmente, “Pergunto então: terá Deus rejeitado o seu povo? De maneira nenhuma!... Deus não rejeitou o seu povo, que de antemão escolheu” (Ro 11, 1-2).
Esta é a razão pela qual o Concílio Vaticano II, pela primeira vez na história da Igreja, no documento Nostra Aetate escreve: "Os judeus continuam ainda, por causa dos patriarcas, a ser muito amados de Deus, cujos dons e vocação não conhecem retrocesso... Sendo assim tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos" (n.4). A teologia da substituição17 foi desta maneira cancelada definitivamente.
Este abandono da teologia da substituição levou à redescoberta da imagem proposta por Paulo, que considera os cristãos como ramos enxertados na boa oliveira que é Israel: "Mas, se alguns ramos foram cortados, enquanto tu, que eras de oliveira brava, foste enxertado entre os outros, para com eles ficares a participar da raíz donde vem a seiva da oliveira, não te faças arrogante perante aqueles ramos. E se te quiseres orgulhar, lembra-te que não és tu quem sustenta a raiz, mas a raiz é que te sustenta a ti" (Ro 11, 17-18).
Isto significa que os cristãos precisam da "raiz santa" que é Israel, para poderem compreender a sua própria fé.
É portanto presunçoso pensar que se compreende o ensinamento de Jesus e o seu carácter ("Jesus é judeu e sê-lo-á para sempre", dizem documentos suplementares) sem a ajuda do pensamento e da tradição judaica.
Documentos posteriores da Santa Sé18 aprofundaram as palavras do Concílio. Entre outras coisas esses documentos suplementares dizem:
"Considerando única a relação existente entre Cristianismo e Judaísmo, unidos na raiz profunda da sua identidade, e fundados no desígnio da Aliança de Deus, Judeus e Judaísmo não deveriam ocupar um lugar ocasional e marginal na catequese e na pregação cristã, mas a sua presença indispensável deveria ser integrada organicamente nestas... O considerar a fé e a vida religiosa do povo hebreu, como ainda hoje é professada e vivida, pode ajudar a compreender melhor alguns aspectos da vida da Igreja".


  • "A permanência de Israel é um facto histórico e um sinal para ser interpretado dentro do plano de Deus... Israel permanece o povo escolhido, a boa oliveira nos ramos da qual os ramos de oliveira selvagem, que são os gentios, foram enxertados".




  • O Antigo Testamento não significa nada de "antiquado" ou "fora de prazo"... Mas permanece uma fonte permanente de revelação.




  • Através das suas orações (Pai nosso, Oração Eucarística e Salmos), as suas festas (particularmente a Páscoa e o Pentecostes) e, acima de tudo, pelo acto do memorial, as comunidades cristãs ao celebrarem estão espiritualmente unidas à crença e à oração do povo hebraico, participando na mesma prece de louvor e súplica.




  • Para estabelecer um verdadeiro diálogo entre Cristãos e Judeus, depois de 2000 anos, é necessário acima de tudo eliminar todos os preconceitos de ambos os lados. Por exemplo, do lado cristão, a ideia de que os ensinamentos do Novo Testamento ultrapassam a Tora e a tradição Judaica, que a primeira Aliança desaparece quando nasce a segunda Aliança, que a Igreja, como sacramento de salvação, substitui o povo hebraico.

O Cardeal Martini apresenta alguns elementos comuns entre judeus e cristãos:




  1. " A fé de Abraão e dos Patriarcas em Deus que escolheu Israel com amor irrevogável.

  2. A vocação à santidade: "Sede santos porque eu sou santo" (Lv 11, 44), e a necessária "conversão" (Teshuvah) do coração.

  3. A reverência pelas Escrituras Sagradas.

  4. A tradição da oração, tanto privada como pública.

  5. A obediência à lei moral expressa nos mandamentos do Sinai.

  6. O testemunho dado a Deus pela "santificação do Seu nome" entre os povos, até ao martírio se necessário.

  7. O respeito e a responsabilidade para com todo o universo, o compromisso com a paz e o bem da humanidade, sem discriminações".

Como conclusão, podemos dizer que no plano uno de Deus, Judeus e Cristãos estão juntos na tenda da Aliança, como "irmãos" do único povo de Deus, ainda divididos, diante da tarefa difícil de pôr em prática o mesmo pacto de amor com o Senhor.


A NOVIDADE TRAZIDA POR JESUS
Jesus em si mesmo é a novidade absoluta. Ele é a Palavra, o Filho enviado pelo Pai, que ninguém esperava. O Messias esperado era apenas um homem. É a escatologia que se torna parte da história. Ninguém antes de Jesus conseguiu ser a imagem perfeita do Homem que Deus tinha em mente ao criar Adão, e ninguém depois d’Ele a conseguirá. Esta é a razão porque, a plenitude e a forma com que Jesus põe em prática os ensinamentos da Torâh, são novos. É neste sentido que a frase de Jesus "Não pensem que vim acabar com a lei dos profetas. Não venho cancelá-la, mas, completá-la (significando realizá-la)" deverá ser compreendida.
Jesus foi sempre fiel e viveu a Aliança de Israel19 até ao fim. Ele escutava constantemente a voz de Adonai, estava sempre pronto para realizar a Sua vontade, viveu o sacerdócio real até derramar o Seu sangue. É com esta fidelidade à Aliança que Jesus reconciliou o céu e a terra.
Além da novidade do testemunho da sua vida, Jesus trouxe-nos novos dons, nomeadamente dois: O Espírito Santo, o Espírito de Jesus, entregue por ele na cruz a todo aquele que recebe o baptismo e vive os sacramentos; o dom da vida eterna, que não pertence à natureza animal do homem, uma vida que é "outra" e que não conhece os limites do tempo.
Por sua vez, o que não é novo, é o ensinamento de Jesus, com origem na tradição hebraica e baseado nas Escrituras.20 Por isso as Bem-aventuranças não são novas, e podem ser apenas compreendidas quando mergulhadas na tradição hebraica. Da mesma maneira que não são novos os preceitos de amar o inimigo (Pr 25,21 e 24, 17; Ex 23, 4-5; Lv 19, 17-18), nem o de perdoar (Sir 28,2; Lv 19, 18; Sb 18,2; Gn 50,17), porque já estavam presentes na Torâh.
O que é novidade na expressão de Jesus "Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei" (Jo 13, 34), não é o desafio, ao amor mútuo a ponto de dar a própria vida, que é novo, mas, o "como", isto é, como Jesus amou, ou seja no Seu Espírito, o Espírito Santo. Esta maneira de amar é nova, veio sobre os discípulos no Pentecostes, e não poderia existir antes da morte de Jesus.

Nicoletta Crosti, Março 2003



* Original em inglês. Tradução de Tomázia Santa Clara.

1 Adonai é a versão judaica do tetragrama, traduzido como "O Senhor Deus" nas Bíblias Católicas. Os judeus não pronunciam o nome de Deus, porque isso implicaria enquadrá-lo numa categoria humana, e, de certo modo, possuí-Lo. Além de desconhecerem a vocalização da palavra, que se perdeu na destruição do Templo, onde o nome de Deus era proclamado, pelo sumo sacerdote, uma vez por ano. A pronúncia provável é Javé, mas o uso oral desta palavra fere os judeus; entre os Católicos, é preferível hoje em dia usar-se a palavra Adonai."

2 Para os judeus, "escutar" não significa ouvir o som das palavras, mas aderir livremente ao convite e ensinamentos de Deus. Uma pessoa adere a eles quando os compreende em profundidade, e, para serem compreendidos há que, acima de tudo, os realizar. A livre adesão cresce pela acção, na obediência ao ensinamento. Por isso é que se serve primeiro, e se escuta então depois.

3 A palavra hebraica Torâh é geralmente traduzida como "lei", mas em hebreu significa "ensinamento" (ver Ex. 24,12 " a Torâh e os ensinamentos para instrução dos israelitas"). O livro da Torâh era guardado no Templo de Jerusalém, ao lado da Arca da Aliança (2 Rs. 22).

4 No Pentateuco encontramos três colecções de ordens especiais. A mais antiga, no Êxodo cap. 20-31, sugere uma sociedade constituída em clans e data do tempo da confederação das tribos. A segunda, Dt.5, data do tempo da monarquia e sugere uma sociedade urbana. A terceira, no Levítico, é uma colecção de leis de santidade (cap. 17-26) e data aos tempos do após exílio, quando o povo deixa de ter independência política e reúne-se à volta de instituições culturais, as únicas que poderia chamar suas.


5 Alguns exemplos: Ex.6,7; Lv.26,12; Dt. 26, 17.18; 29,12; 2 Sm.7,24; Jr. 7,23; 11,4; 30,22; 31,33; Ez. 11,20; 14,11; 36,28; Zc. 8,8.

6 A palavra hebraica é "segullâ" de difícil tradução. Exprime propriedade privada, diferente de propriedade do Estado. É uma propriedade que não está ligada à posição que a pessoa ocupa, mas à vida privada da pessoa.

7 Por esta razão os mestres de Israel decidiram colocar o Cântico dos Cânticos, o hino do amor, no cânon dos livros sagrados.

8 A palavra hebraica "am", geralmente traduzida como "povo", significa de facto "família".

9 É importante notar que a Aliança se baseia em "palavras" (palavras de Deus, e palavras do povo, vers.7) e não no sangue, que permanece exterior à Aliança, acompanha-a apenas para realçar o seu sentido último.

10 Etimológicamente a palavra hebraica "saint" significa "separado". Israel, assim como os cristãos, devem estar separados da idolatria e de todos os contravalores da sociedade em que vivem.

11 Os judeus não gostam de ser referidos como povo "eleito": realçam que são apenas um povo escolhido por Deus para estar ao Seu serviço.

12 Na realidade, os israelitas acabarão por lastimar, muitas vezes, ter perdido a vida do Egipto quando se encontram no deserto.

13 Os evangelistas, certos que Jesus era o cordeiro pascal, irão descrever a morte de Jesus na Sexta feira da Páscoa Judaica, embora seja historicamente impossível, uma vez que os romanos proibiam todas as execuções nesse período litúrgico.

14 Segundo os exegetas, Jesus celebrou provavelmente um "sacrifício de laudes" e não um banquete pascal. A prova está na palavra usada para indicar o pão, uma palavra grega apenas usada para o pão com fermento; o banquete não poderia ter sido assim uma refeição pascal, uma vez que o pão pascal não tinha fermento.

16 É importante realçar que na frase de Jesus o adjectivo possessivo "meu" refere ao sangue e não à Aliança.

15


16 João Paulo II, no seu discurso na sinagoga de Roma, dirigiu-se aos judeus chamando-os "irmãos mais velhos", uma expressão usada também no Catecismo da Igreja Católica.

17 A teologia da substituição tem as suas raízes no conceito errado que Jesus tenha trazido uma segunda Aliança, diferente da que tinha sido realizada com Israel.

18 Orientações e Sugestões para a Aplicação da Declaração Nostra Aetate, 1974; e Subsídios para uma Apresentação Correcta dos Judeus e do Judaísmo na pregação e no Catecismo da Igreja Católica, 1985.

19 Mateus 22, 36-40, apresenta-nos Jesus a oferecer aos cristãos o coração da Aliança de Israel, e não uma outra.

20 Os escribas e os fariseus sentam-se na cadeira de Moisés: O que quer que seja que eles digam, fazei-o e observai-o (Mt 23, 2-3).



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal