Não Diga Alô, Diga Boa Tarde!



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Não Diga Alô, Diga Boa Tarde!

Francisco de Moura Pinheiro1


Resumo


Um programa de rádio (Toque Retoque) de uma emissora acreana (Gazeta FM), apresentado por uma mulher (Eliane Sinhasique) saída do meio da floresta amazônica, arranca confidências íntimas dos seus ouvintes em pleno ar. E depois, usando o espaço de um jornal (A Gazeta), a mesma apresentadora transforma os relatos em peças literárias. As histórias do programa, da radialista/escritora e dos ouvintes, indissociáveis a partir do momento em que se materializam nos sentidos de uma cidade (Rio Branco), é que se cruzam neste trabalho.
Palavras-chave: Rádio; História; Mídia; Sinhasique

1. Toque Retoque, programa para ouvir e ler
Para uma grande parte dos cerca de 300 mil moradores da cidade Rio Branco, capital do Estado do Acre, no extremo ocidente da Amazônia brasileira, a pouco mais de 200 Km. da fronteira com Peru e Bolívia, de segunda a sexta-feira, entre 14 e 17 horas, não há nada melhor a fazer que não seja ouvir o programa Toque Retoque, levado ao ar pela rádio Gazeta FM, sob o comando da radialista Eliane Sinhasique.

Com dez anos de existência (o programa nasceu em 23 de janeiro de 1995), Toque Retoque, de acordo com pesquisa realizada por iniciativa da própria radialista, atinge pessoas de todas as camadas sociais. Desde o empresário que precisa deslocar-se de um lugar para outro no seu automóvel, até a dona de casa dos bairros periféricos, ocupada na sua rotina de cozinhar, lavar, passar e fazer faxina.

O programa é dividido em blocos: notícias locais e nacionais (pode ser alguma coisa séria ou a fofoca mais quente do dia), músicas (sem restrições quanto ao gênero ou a temporalidade) e participação do ouvinte. Nesta última situação, no quadro chamado Não Diga Alô, Diga Boa Tarde, é que acontece o maior frenesi. Todo mundo quer falar por telefone com a Eliane Sinhasique, chamada de “Pequena Notável”.

O quadro Não Diga Alô, Diga Boa Tarde virou uma espécie de consultório de psicanálise público. Os ouvintes telefonam e passam a relatar suas frustrações e esperanças. As histórias se sucedem e com elas os comentários. Se uma mulher de mais idade fala da sua tragédia amorosa, não falta quem se compadeça ou quem a condene. E nessa relação de contras e a favor, a audiência dispara e todos se envolvem.

Em maio de 2003, a apresentadora Eliane Sinhasique percebeu que as anotações que fazia enquanto conversava no ar com os ouvintes poderiam virar uma outra peça de comunicação. E assim, ela resolveu expandir as fronteiras do Toque e Retoque, publicando as histórias do Não Diga Alô, Diga Boa Tarde no jornal A Gazeta. Agora são dois os espaços a serviço dos anônimos: as ondas do rádio e as páginas do jornal.

No jornal, a coluna sai sempre às sextas-feiras. No alto, a fotografia da apresentadora transforma numa imagem o que antes era somente uma voz. Um fato que tem feito Eliane uma criatura extremamente popular pelas ruas de Rio Branco. Se ela já era bastante conhecida, agora passou a ser também reconhecida, não sendo raras as oportunidades em que é forçada a conversar com transeuntes ocasionais.

Por conta disso, já apareceram três outros tipos de público: um que escuta a história no rádio e lê no jornal; outro que só lê no jornal (e, em muitos casos, recorta e guarda o texto); e um outro que não telefona para o programa, preferindo mandar suas histórias para a apresentadora por carta ou e-mail. Estes, dado a coluna sair um único dia por semana, às vezes tem que esperar muito tempo para ver sua história publicada.

Eliane Sinhasique já está com o projeto de juntar algumas histórias em livro, tornando o alcance delas quase absoluto. “Num futuro próximo, quero imortalizar as histórias de todas as pessoas que abriram os seus corações para mim com a publicação de um livro. Um livro grande e com uma tiragem elevada, que possa ser encontrado em qualquer banca e que possa passar de mão em mão”, diz a apresentadora.



2. A dona da voz bota a boca no mundo
Os cinco tópicos seguintes compreendem um depoimento da apresentadora Eliane Sinhasique, exclusivo para este trabalho. A idéia aqui é deixar a própria dona da voz soltar a boca no mundo.
2.1 - Histórico da emissora e nível de público ao qual ela se destina - Audiência - Comparação com outras emissoras de Rio Branco.

“O histórico da emissora é meio chinfrin. Instalada em Rio Branco por voooooolta de 1985 (a data correta nem o próprio dono sabe precisar), a Rio Branco Rádio FM - pessoa jurídica -, conhecida popularmente por Gazeta FM ou 93 FM, tinha uma programação musical considerada como mais ‘refinada’. À época, só tocava músicas que despontavam no cenário musical nacional, ou seja, os pop/rocks da vida. Música regional, forró, sertaneja e os bregas popularescos não tocavam nem sob tortura!

Com a minha chegada à emissora, que aconteceu em novembro de 1988, as coisas começaram a mudar. Nos horários em que eu trabalhava - e trabalhava em vários horários – sempre dava um jeito de colocar alguma coisa mais popular. Foram inúmeras as vezes em que eu furei o roteiro estabelecido pelo programador musical.

De tanto furar o roteiro, acabaram por não fazer mais nenhuma ‘listinha’ para os meus programas - naquela época, os locutores se intercalavam nos horários. A rádio tinha vários programas e todos os dias um locutor diferente era escalado para apresentá-los. Outra coisa: o locutor só dizia o nome da música, do cantor e falava a hora certa e o prefixo da emissora. Era isso. E não adiantava protestar. Vim da roça e nos forrós das colônias, o que rolava e o povo se esbaldava era Carlos Alexandre, Beto Barbosa, Antônio Marazon, e por aí vai. E por causa dessa origem, creio, é que fui fazendo um trabalho de, aos poucos, introduzir na programação da rádio os ritmos populares. Os colegas de trabalho na rádio não gostavam. Diziam que em FM não se podia tocar esse tipo de música, que eu era muito brega, e mais um monte de coisas preconceituosas.

Só para esclarecer: - Qual a diferença entre uma AM e uma FM, a não ser as questões relativas à ‘freqüência’ e à ‘amplitude’? Nenhuma. Não existe em lugar algum do mundo uma lei que determine o que uma e outra devam fazer.

Hoje, a 93 FM não está focada em um público específico. A intenção da emissora é ter espaços para vários tipos de pessoas. Para se ter uma idéia, a emissora tem um ‘Programa de Gaúcho’, todos os domingos, das 10 às 11h. É um programa feito por locutores gaúchos - são dois ou três -, que só toca música dos pampas e só fala em ‘gauchês’. Bah, tchê, é bão demaz!

Outro programa que é veiculado na 93 FM e que tem público diferenciado é o do Jorge Cardoso. Nele só tocam as produções locais e regionais, com destaque para a música nordestina, excluindo-se o ritmo axé. A idéia do programa é mostrar os talentos da música brega/popular e difundir os talentos acreanos. Até a terminologia usada pelo locutor são extremamente ‘acreanescas’.

Enfim, são 24 horas no ar com vários tipos de seleções musicais e informações. No programa ‘Planeta FM’, que antecede ao Toque Retoque, as músicas são mais dançantes, tipo noite numa boate, e as informações são sobre moda e beleza. Como se vê, a emissora não tem um público alvo (target) específico. Nesse aspecto, ela é hoje muito democrática.

Fazer uma comparação entre a 93 FM e as demais emissoras é muito difícil. A 98 FM tem programação local durante o dia e retransmite os programas de Manaus-AM no período da noite. No período diurno, tem informações generalizadas sobre política nacional e alguma coisa local e as músicas são voltadas para um público mais jovem - bate estaca puro -. A emissora se intitula ‘a rádio jovem’.

A Rádio Difusora Acreana tem muitas informações sobre política local e se encarrega de disseminar a cultura da ‘florestania’. As músicas não são o carro chefe na programação.

A Alvorada tem informações e toca todos os tipos de músicas.

A Rádio Capital agora é evangélica e só tem sermão de pastor e música gospel”.


2.2 - Quando o Toque Retoque começou - Qual a idéia que gerou o programa - Os quadros que compunham o programa na época - Duração e periodicidade.

O programa Toque Retoque começou em 23 de janeiro de 1995. Ele tem a duração de três horas diárias e continua sendo apresentado no mesmo horário, das 14 às 17h, de segunda a sexta-feira.

Inicialmente, eu dividia a apresentação com um outro locutor. Não deu certo. Ele continuava achando que eu era brega demais para trabalhar com ele, que era ‘chique’ de FM. Ele saiu e eu fiquei sozinha e o programa está no ar há oito anos

Desde o começo, o Toque Retoque tem o quadro do horóscopo, nos dois primeiros intervalos do programa, e a mensagem do dia no final. Esses quadros nunca saíram do ar.

Já tive combinação astral. Neste quadro a pessoa ligava e perguntava se o seu signo combinava com o de outra pessoa e eu fazia todos os tipos de combinações possíveis: no amor, no trabalho, em família etc. Para fazer esse quadro eu contava com um livro muito bom, do João Bidu, que tinha essas possibilidades. Esse quadro foi ao ar por dois anos consecutivos, sempre no mês de janeiro, pois também informava como seria o ano para quem nasceu no signo tal. Deixou de ir ao ar porque as previsões eram sempre as mesmas e se tornou cansativo, principalmente para mim.

Tivemos, também, o quadro ‘O Dia de Hoje na História’. Esse quadro era muito legal, pois informava as pessoas sobre o que tinha acontecido em um dia 19 de fevereiro de 1941, por exemplo. Todos os dias foram marcantes na história e o quadro rememorava as pessoas sobre os acontecimentos. Não pegou. Ninguém falava a respeito. Nem um comentário sequer. Mesmo assim, o quadro ficou no ar por seis meses.

Outra coisa que ficou por pouco tempo no ar foram as simpatias. Tínhamos simpatia para tudo: dor de cabeça, verrugas, namorados, falta de ar, sucesso no trabalho... Era uma macumbaria doida. Não me pergunte se as pessoas faziam, nem se davam, certo... Não obtive respostas. Tivemos também dicas de saúde, beleza, cuidados com a casa, dicas de filmes, fofocas de artistas e por aí foi... A cada ano novos quadros ou quadros reformulados.

Comprei, certa vez, um pacote de piadas do grupo ‘Café com Bobagem’, uma nota preta. A galera não ria. O ‘Shou do Mijão’, sátira do ‘Show do Milhão’, do Sílvio Santos, foi por água abaixo. Poucas pessoas, só as mais antenadas, é que gostavam desse quadro. Fooooora!

Assim foi até que... Eureka! Li uma matéria, em algum lugar, que mostrava números assustadores sobre o mal do século: a depressão. Nessa matéria estava dito que as pessoas se deprimiam por se sentir muito sós, por não ter amigos e nem com quem conversar. As pessoas estavam se deprimindo por ficarem sozinhas demais, em casa, no trabalho, em família etc. A depressão estava desencadeando uma série de doenças que, de acordo com a matéria, futuramente mataria mais do que a Aids, o câncer e a fome. Resolvi que eu iria conversar com as pessoas. Coloquei como um propósito na minha vida ajudar as pessoas a desabafar. E, como não sou psicóloga (ainda!), nem tenho consultório, resolvi ouvir as pessoas pelo telefone da rádio, colocando todo mundo ao vivo para bater papo comigo.

O quadro Não Diga Alô, Diga Boa Tarde deu tão certo que hoje não se fala em outra coisa na cidade. As pessoas falam de suas dores, problemas, vitórias ou decepções. Compartilham com todos os ouvintes do programa as suas histórias de vida. Umas são engraçadas, outras trágicas. E as pessoas que estão ouvindo se compadecem ou riem do que está sendo dito. Identificam-se com as histórias ou não. Às vezes criticam quem se expõe. E ouvem. Ouvem muito.

Com esse quadro, que está no ar há dois anos, já promovi muitos encontros, já fiz casamentos e já chorei junto com os ouvintes. A conversa é aberta. É como se só existisse eu e o ouvinte que está do outro lado da linha. É uma confidência pública e uma súplica de apoio à solidão em que as pessoas vivem. No rádio elas podem se desnudar. Elas não mostram a cara, dão pseudônimos e sabem que não serão criticadas por namorar homens casados, trair o marido ou pedir um namorado. Não são criticadas, pois se esses ouvintes quisessem críticas falariam com pessoas da própria família.

Além do Não Diga Alô, Diga Boa Tarde, o Toque Retoque traz informações nacionais e locais que estão em destaque naquele dia”.


2.3 - A dificuldade das pessoas para conseguir uma ligação

“É muito difícil conseguir uma ligação. Nós temos um mapa mensal que nos dá o número de ligações recebidas ao vivo junto com as ligações gravadas pelos ouvintes no nosso sistema e mostra também o desperdício de ligações. Durante o quadro do Não Diga Alô, Diga Boa Tarde, nós perdemos em média 70 ligações por minuto. Quando esse volume aumenta, o sistema entra em pane e nenhuma ligação é atendida. Depois de alguns minutos, ele se restabelece, com a diminuição do número de ligações.

Muitas pessoas conseguem uma ligação de volta para contar o que aconteceu com elas depois da primeira ligação. Normalmente fazem elogios ao programa e dizem se sentir muito bem só de ouvir as outras pessoas participarem”.

2.4 - Histórico profissional da apresentadora - Quando e onde começou - O que fez até chegar ao programa.

“Meu nome completo é Eliane Pereira Sinhasique. Eu nasci no dia 12 de dezembro de 1969, em Guaíra, interior do Paraná. Cheguei ao Acre com sete anos, trazida pelos meus pais. Sou filha de um montador de serraria e de uma dona de casa. Fiquei pouco tempo morando na capital Rio Branco. Com 11 anos, meus pais me levaram para o Projeto de Assentamento Dirigido Pedro Peixoto, na BR 364 - Km. 49/Km. 12 do ramal Novo Horizonte, Gleba N.

Lá, trabalhava na roça, cozinhava para peões em época de colheita, ordenhava duas vacas, cuidava da pocilga, trabalhava na peladeira de arroz. Algumas noite por semana, principalmente nas sextas-feiras, entrava na mata, nas estradas de seringa, com alguns burros e uma bolsa cheia de dinheiro para comprar a borracha e a castanha que meu pai levaria para a cidade no domingo à tarde. Cuidava dos meus dois irmãos mais novos, tirava lenha na motosserra e rachava no machado. Fazia sabão de soda, pães, queijos e doces de abóbora. Cuidava da horta. E, também, fui agente de saúde, quando, aos 15 anos, fiz um parto sozinha.

Todas as minhas atividades na colônia eram acompanhadas pelo meu inseparável moto-rádio de seis pilhas médias, ondas curtas, médias e tropicais. Por ser a mais velha dos filhos, por ter mais atividades (mãe paranaense não deixa ninguém quieto) e, principalmente, por não ter amigos, é que o rádio se fez tão presente em minha vida. Eu falava sozinha com o meu rádio. Dizia para os locutores que gostava da música que estava rodando, que não gostava da que iria rodar, chorava com a rádio novela ‘Dois Corações’, ria das brincadeiras dos locutores e só desligava o meu rádio diante das ameaças de minha mãe de que iria quebrá-lo, como chegou a fazer mesmo uma vez. Dói muito lembrar do meu rádio, do meu amigo, espatifado no quintal. Uma pilha para cada lado, pedaços de sua carcaça preta até embaixo do jirau. De todos os castigos que a minha mãe aplicou, esse foi o pior.

Mas, deixemos o sentimentalismo de lado. Minha mãe achava que eu estava ficando doida, de tanto que eu falava sozinha com o meu rádio. Ela dizia que eu parecia o ‘Lona’ - aquele louco que anda sujo pelas ruas de Rio Branco com um rádio no ombro -. Para seu desespero, eu afirmava que um dia iria falar no rádio e aparecer na televisão. Ela achava que o meu sonho estava muito distante da realidade e a minha realidade, o meu mundo, era a roça, as vacas, as tarefas que uma mulher tinha que saber para casar e fazer o marido feliz. Ela não entendia que o rádio me tirava daquela realidade vivida e que era ele que me dava forças para continuar fazendo as minhas obrigações sem me aborrecer, sem me revoltar. Eu estava no lugar errado. Eu não pertencia àquele mundo.

Numa época em que as moças das redondezas fugiam com seus namorados para se casarem, eu fugi, com quase 16 anos, para não casar. Fugi sozinha. Vim para a cidade com a intenção de ir buscar o meu lugar. Mas a história é longa e por isso vou tentar dar uma sintetizada.

Comecei trabalhando na Rádio Capital (AM), como repórter de rua. Pouco tempo depois, eu já estava substituindo os locutores que faltavam. Dois meses depois, ganhei um programa aos domingos - ninguém queria trabalhar no domingo. Mais dois meses, ganhei outro programa, aos sábados. E não demorou muito para dormir e acordar no estúdio da Capital. Nesse mesmo período, comecei a vender espaços comerciais para rádio e gravar comerciais para a televisão. Fui convidada para trabalhar na TV Educativa, que estava começando sua programação local, cobrindo o setor de esportes. Para encurtar ainda mais a história, a apresentadora do telejornal faltava com muita freqüência e lá ia eu substituí-la. Na seqüência, a TV Gazeta estava sendo implantada e me contratou como repórter. Fui a primeira pessoas contratada pela emissora e trabalhei sozinha durante quatro meses. Cheguei a fazer 13 matérias num único dia, sem pauta nenhuma. Fiz a campanha do candidato a prefeito de Rio Branco, Jorge Kalume, em 1988 e depois fui para a Gazeta FM, onde estou até hoje. A minha entrada na TV Gazeta deu-se em 1989, onde fiquei até 1993. Depois, trabalhei na TV Rio Branco, onde apresentei o telejornal, fiz um programa feminino chamado ‘De mulher para mulher’ e um programa de entrevistas. Nessa época cheguei a ganhar 1.700 dólares por mês. Contrato terminado, fui para o departamento comercial do jornal A Tribuna. Paralelo a isso, fui para a TV 5, onde fiquei por dois anos como apresentadora do telejornal. E aí, voltei para a TV Gazeta, onde passei mais um ano apresentando o telejornal.

Fui, também, a primeira assessora de comunicação do Sebrae-Ac e assessora de imprensa do Sindcol.

Reeditei o jornal O Acre, quando Jorge Viana estava na Prefeitura de Rio Branco. O jornal só teve quatro edições. Mais recentemente, em 2002, montei e editei o jornal O Balcão, um jornal de negócios e classificados super diferente. Trabalhei também vários anos como repórter e colunista social no jornal A Gazeta. Mesmo órgão onde colaboro hoje com artigos e matérias especiais. Ufa!

A ordem desse meu depoimento está meio que tumultuada, porque sempre trabalhei em vários lugares ao mesmo tempo e a minha cabecinha já não recorda com precisão datas e períodos”.




2.5 - Quando e porquê surgiu a idéia de escrever no jornal os depoimentos que foram para o ar

“A idéia de levar para o jornal os relatos das pessoas surgiu em maio de 2003. Eu tomo nota dos tópicos do que me falam, para não perder o fio condutor da história, o nome das pessoas e os dados que são necessários para dar alguma opinião sobre a pessoa que está vivenciando.

No jornal, as pessoas que não podem acompanhar o programa no rádio ficam extasiadas com as histórias. Muitas pessoas me abordam para comentar e dizer que vivem situação parecida com essa ou aquela história. Tem gente que recorta e guarda. Tem gente que ouve no rádio e acompanha no jornal. Inclusive, quando eu dou uma ‘floreada’ na história, tem gente que diz que no rádio ‘não foi bem assim’. As pessoas que são personagens das histórias impressas no jornal fazem questão de saber o dia da publicação para adquirirem o seu exemplar. E tem gente que não participa do programa no rádio, mas manda a sua história por carta ou e-mail para sair no jornal. Acredito que todo mundo, brancos e negros, pobres e ricos, quer, de alguma forma, eternizar o seu momento, a sua história, a sua vida. No futuro quero imortalizar a história de todas as pessoas que abriram os seus corações para mim, com a publicação de um livro. Um livro grande e com uma tiragem elevada, que possa ser encontrado em qualquer banca e que possa passar de mão em mão, para que todos leiam os desabafos e se reconheçam nas histórias dos outros que tiveram a coragem de se mostrar como são”.


3. Dissertação de mestrado

Dez anos após a concepção, o programa Toque Retoque já virou, inclusive, dissertação de mestrado. O trabalho, sob o título Rádio no Beco - Cotidiano e Linguagem foi apresentado no curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica da São Paulo (PUC-SP), em maio de 2004, pela antropóloga Maria Ronizia Pereira Gonçalves, orientada pela doutora Silvia Helena Simões Borelli.

Ronizia Gonçalves explica na introdução da sua dissertação que o trabalho foi modelado pelo diálogo entre o campo e a teoria, guiado pelos autores Jesús Martin-Barbero, que desloca os estudos dos meios para as mediações; Nestor García Canclini, que estuda os processos de hibridização cultural na América Latina; Raymond Williams, que traz à tona as relações de poder nos seus estudos culturais; e Paul Zumthor, que revela a poesia vocal da Idade Média e a importância da vocalidade até hoje. “Além de muitos outros”, diz Ronizia, “que se arriscaram em pesquisas de recepção ou que não deixaram de acreditar na importância do rádio e seguem a jornada em busca de interlocutores”.

Ainda no dizer da autora, “as mediações, enquanto lugares onde os sentidos são negociados, sem dúvida, mais que ‘eficientes’, foram imprescindíveis para o estudo. O cotidiano trouxe aspectos importantes para o processo de recepção: o corpo, a origem, a faixa etária, dados reveladores do ‘repertório compartilhado’ e do ‘sensorium’ dos receptores, que se configuram em influências determinantes na negociação do sentido das mensagens. A linguagem radiofônica considerada em um quadro mais amplo de ‘oralidade secundária’ trouxe à tona a hibridização dos gêneros e revelou as estratégias dos emissores e as respostas dos receptores”.

É interessante considerar que o Toque Retoque, em princípio não era o objeto que Ronizia Gonçalves pretendia estudar. A pretensão inicial da então mestranda era investigar a recepção do programa Viva a Vida, produzido pela Pastoral da Criança e levado ao ar semanalmente pela Rádio Difusora Acreana. Este, um programa de meia hora, voltado para informações sobre a saúde e os direitos de mães de crianças de 0 a 6 anos. “Por fazer parte da equipe de produção do programa, considerei que o estudo de sua recepção seria profícuo para mim como agente envolvida, para o grupo de rádio que reflete sua atuação, bem como para o público, que merece programas sempre melhores”, diz Ronizia.

Delimitada a área a ser estudada (um bairro periférico de Rio Branco), a pesquisadora elaborou um questionário, cuja pergunta básica era saber qual o programa que a comunidade ouvia no horário do Viva a Vida. Como Ronizia sabia quais os programas que iam ao ar no horário, a lista que aparecia no questionário se limitava a estes. Para sua surpresa, entretanto, além da constatação da baixíssima audiência do Viva a Vida, o programa mais citado se chamava Toque Retoque, que nem estava incluído no questionário.

“(...) Ele era citado espontaneamente como resposta à pergunta ‘Qual desses programas você já ouviu mais de uma vez?’. A resposta era Toque Retoque ou, com muita intimidade, identificado pelo nome da sua apresentadora, ‘o da Eliane’. Foi assim que o Toque Retoque atravessou a pesquisa”, afirma Ronizia.

A descoberta do aparente fracasso do Viva a Vida, um programa considerado de bom nível e voltado para uma causa educacional, teve o poder de decepcionar e frustrar a mestranda. Ainda mais, considerando que o Toque Retoque, de tanto sucesso e penetração popular, preconceituosamente era rotulado como um programa de puro nonsense e bobagens, descartável, mero entretenimento sem maiores pretensões. Mas aí, o lado pesquisadora aflorou e ela resolveu se debruçar sobre o novo objeto.



A dissertação Rádio no Beco Cotidiano e Linguagem divide-se em quatro momentos distintos. No primeiro capítulo, sob o título Cotidiano como Mediação, Ronizia se debruça sobre o universo da pesquisa, com dados históricos da área; no segundo capítulo, sob o título O Rádio na Vida Cotidiana, são trabalhados os dados de recepção, especialmente de rádio, mas também de TV, tendo em vista sua presença no cotidiano familiar”, relata a pesquisadora na introdução do trabalho; no terceiro capítulo, intitulado Recepção de Rádio, é feita a análise da linguagem radiofônica como mediação, a partir das estratégias de linguagem de três rádios (Difusora Acreana, Gazeta FM e Acre FM) e dos dois programas investigados (Viva a Vida e Toque Retoque); e, finalizando, no quarto momento, as Considerações Finais, onde Ronizia faz uma leitura mais intimista (angústias e prazeres perpassam o texto) do seu trabalho.

4. A força da palavra escrita
O texto abaixo, publicado em A Gazeta, no dia 05.09.2003, é um exemplo da transposição das histórias do programa Toque Retoque para o jornal impresso.



Mulheres exploradas

Eliane Sinhasique

Estou ficando assustada. Tenho recebido um número crescente de reclamações de mulheres que estão sendo exploradas financeiramente pelos seus homens. Os casos são os mais escabrosos possíveis e só dá para acreditar porque conheço, pessoalmente, algumas vítimas.

Gisele é manicura, tem 24 anos e está casada há seis. Seu marido tem três filhos de outro casamento que ela assumiu como mãe. Gisele é do interior e não sabia lidar com a tecnologia bancária e por isso dava todo o seu dinheiro para o marido depositar na conta dele. Tudo ia muito bem até ela pedir para ele sacar o dinheiro, pois ela queria comprar uma moto para facilitar sua vida.

O marido de Gisele virou uma fera. Disse que ela não tinha dinheiro nenhum depositado na conta dele. Alegou que ela morava com ele sem pagar aluguel e que o dinheiro que ela dava para ele, não devolveria porque ela usufruía dos bens que ele tinha. Gisele me contou que desde que foi morar com ele, cuidava das crianças, organizava a casa e fazia o almoço e só depois saía para trabalhar. Contou também que a feira semanal era dividida.

Gisele está arrasada. Alega que o ajudou, que nunca ganhou um presente bacana do marido, que foi usada como amante e como empregada doméstica e agora, que ela achava que já tinha dinheiro suficiente para comprar uma C100 Biz, não tem nada e está sendo expulsa da casa dele.

Joelma tem 33 anos, é sacoleira, já foi casada duas vezes e há um ano e seis meses conheceu um rapaz de 25 anos. Colocou o fulano na casa dela. Deu perfumes e roupas caras, café na cama e outros mimos. Resultado: o cara sempre arranja umas namoradas. Joelma arrumou o rapaz, o deixou bonito, perfumado e “joiado” para outras.

Quando Joelma pega o rapaz com outra mulher quebra o pau, arma o barraco e desce do salto. Ele some uns dias e depois chega pedindo perdão dizendo que ela é que é a mulher da vida dele. Ela o perdoa, fazem amor a noite inteira e depois a mesma rotina se repete. Ela contou que ele dorme até às 11 da manhã, acorda e almoça. Quando está disposto vai trabalhar e quando não, volta para a cama e assiste à televisão a tarde inteira.

Rogéria é uma mulher profissional liberal. Está casada há 11 anos com um homem que também tem ganhos superiores à média. Os dois têm em comum três filhos. Ele arranjou uma amante, há alguns anos, mas não quer se separar de Rogéria. Ele diz que só vai conceder a separação se ela der para ele uma casa, a metade do carro dela e a metade do empreendimento que ela tem. A casa em que eles moram foi construída só com a grana dela e o consórcio do carro dela é pago por ela. O cara já tem o carro dele, as motos dele e ganha um salário invejável. A vida de Rogéria está um inferno. Ela só conseguiu tirá-lo de casa com um mandato judicial e o caso está na justiça.

Paula tem 34 anos, é funcionária da iniciativa privada, tem um filho com o ex- marido. Ela foi casada com ele por mais de 10 anos e sempre “segurou as pontas”. Volta e meia o marido estava desempregado. Tomava todas e chegava atrasado no serviço. A grana que ele ganhava era para pagar a pensão alimentícia de um filho do primeiro casamento. O que sobrava era para a farra que ele não abria mão. Paula conseguiu uma casa num conjunto habitacional e aos poucos foi reformando. Depois começou a pagar um consórcio que agora já está quitado. É uma mulher da batalha.

Depois de muito sofrer com as “ausências” e de descobrir vários casos amorosos do marido, ela finalmente decidiu que não queria mais viver com ele. Para ele sair de casa, ela teve que dar o carro zerinho, que ela pagou com tanto sacrifício. Ele disse que se ela não desse o carro, ele ficaria com a casa e ela iria morar de aluguel com o filho deles. Hoje ela anda debaixo do sol escaldante, com o filho e as sacolas do supermercado nas mãos, enquanto ele passeia com a “outra”, feliz da vida, com o carro de Paula.

O que mais me impressiona é que, apesar de todos os avanços tecnológicos e educacionais, os seres humanos não estão se melhorando. A cada dia que passa estão se brutalizando e esquecendo valores éticos e morais salutares para uma convivência harmoniosa. Tem muita gente que não vê em sua cara metade um(a) parceiro(a), um(a) sócio(a) para o crescimento de ambos. O que vem prevalecendo é a lei da barganha desproporcional. Muitos homens precisam parar para uma reflexão mais ampla a respeito da mulher. Hoje as mulheres não podem continuar sendo vistas como “Amélias”. As mulheres, quer queiram os homens ou não, são força de trabalho que impulsiona a nação e minimiza o custo da manutenção do lar. A mulher saiu em busca do seu espaço e permanece com sua dupla jornada de trabalho. As mulheres só precisam de carinho e companheirismo. Não dá para dar uma força?

Trabalhar fora, estudar, cuidar da casa, dos filhos, das tarefas escolares, da comida, do supermercado, da conta bancária, das roupas, menstruar, ir ao ginecologista, fazer dieta e estar com os cabelos e as unhas perfeitas e ainda por cima estar cheirosa e disposta para o sexo, convenhamos, né brinquedo não!

Ressaltem a mulher como na canção “Maria Maria” de Milton Nascimento e Fernando Brant: “ Maria Maria é um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta/ Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta/ Maria Maria é um som, é a cor, é o suor, é a dose mais lenta/ De uma gente que ri quando quer chorar e não vive, apenas agüenta (...)”.

5. Do orvalho dos varadouros ao calor do asfalto

A história de vida da radialista Eliane Sinhasique, bem como a história do programa Toque Retoque dão margens a inúmeras conclusões e/ou percursos acadêmicos que, com absoluta certeza, não caberiam no espaço de um texto tão diminuto com este.

Da história da apresentadora, desde a sua adolescência na zona rural acreana, em um Projeto de Assentamento Dirigido coordenado pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra), até a conquista de um lugar ao sol na imprensa acreana, pode-se enveredar por diversas angulações. Perpassam pelos varadouros cobertos de orvalho e pelo asfalto quente, possibilidades infinitas de encontros com a antropologia, com a sociologia e com a história.

Quanto à história do programa, há dez anos no ar, com seus quadros mutantes e seus ouvintes cativos, várias possibilidades de teorias de comunicação poderiam ser aplicadas para um estudo detalhado de caso. Fato que não passou desapercebido pela antropóloga Maria Ronizia Pereira Gonçalves, que se debruçou sobre o Toque Retoque para escrever e apresentar na PUC-SP a sua dissertação de mestrado em Ciências Sociais.

Para concluir, ouso fazer duas afirmações. Uma sobre o processo de construção da história oral e outra sobre o fenômeno das transmissões radiofônicas.

Sobre a história oral, quero chamar a atenção, dados os fatos relatados neste trabalho, basicamente construído em cima de depoimentos de Eliane Sinhasique, para a questão do espectro infinito de determinações/relações criadas no espaço da vida de cada pessoa, que acontecem ao nosso redor e nos formulam um convite constante ao seu recolhimento/reconhecimento. E o que cada uma dessas pessoas traz (ou inventa) só pode ser repassado pelas próprias vozes, uma vez que tudo o que transformam ao dizer parece estar além de qualquer possibilidade positiva de determinação.

Sobre o fenômeno do rádio, a afirmação de que a verdadeira “era de ouro” do veículo é agora, no início do século XXI, diferentemente do que prega a história ao registrar que, no dizer de Melvin L. DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, em Teorias da Comunicação de Massa (Jorge Zahar Editor, 1997), “O rádio floresceu durante as décadas de 1930 e 1940 (...)”; “(...) Famílias que haviam aparentemente atingido o limite dos seus recursos financeiros raspariam o pouco que sobrara para mandar consertar o receptor de rádio quando quebrava (...)”. “(...) Nos meados da década de 1940, havia um e meio receptor em cada moradia dos Estados Unidos (...)”. O verdadeiro florescimento do rádio dá-se no presente, uma vez que além do veículo concorrer com outras mídias emergentes, ele se mantém extremamente necessário, inclusive se apropriando de espaços inusitados, criados exatamente pelos novos canais. O número de receptores por moradia é bem maior do que aquele registrado nos Estados Unidos nos anos de 1940. Muito mais pessoas ouvem o rádio hoje. E agora por escolha, não mais por questões circunstanciais ou por falta de opção.

6. Bibliografia

DEFLEUR, Melvin. Teorias da Comunicação de Massa / Melvin L. DeFleur e Sandra Ball-Rokeach; tradução da 5. edição norte-americana, Octavio Alves Velho. - Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 1993.

GONÇALVES, Maria Ronizia Pereira. Rádio no beco: cotidiano e linguagem / Maria Ronizia Pereira Gonçalves - dissertação de mestrado - São Paulo : Pontifícia Universidade Católica, 2004.

MONTENEGRO, Antônio Torres. História oral e memória: a cultura popular revisitada / Antônio Torres Montenegro – 3. ed. – São Paulo : Contexto, 2001.



SINHASIQUE, Eliane Pereira. Mulheres Exploradas / Eliane Pereira Sinhasique - artigo de jornal - Rio Branco : A Gazeta, 2003.

(*) Texto a ser apresentado no GT História da Mídia Sonora.

(**)

1 Francisco de Moura Pinheiro é coordenador do Curso de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior do Acre (Iesacre).



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