Não disseste faz pouco tempo que tinha sido uma mulata?



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Encontro29.07.2016
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O Mentiroso

Mentia pra todo mundo e se divertia com isso. Ronaldo era um grande contador de histórias, todas aumentadas, alteradas e complementadas de forma que não condissessem com a realidade. Para cada grupo que convivia, criava uma versão diferente dos fatos, de forma que sempre fosse o mais interessante possível para o ouvinte, para sua platéia. Era dotado de uma memória invejável. Nunca tropeçava em suas contradições, e qualquer ato falho era imediatamente remediado com uma outra história.

- Rapaz, peguei uma loira fenomenal esse fim-de-semana. Tinha umas pernas que ó, desse tamanho, sem contar que sambava que era uma beleza.

- Não disseste faz pouco tempo que tinha sido uma mulata?

- Essa é outra, a loira foi no domingo, a mulata no sábado. A galega ainda tinha um namorado que parecia um armário e queria arranjar briga. Como não sou homem de fugir, dei-lhe uma surra que perdeu toda a brabeza.

- Vá contar lorota em outro lugar!

- Te juro sobre o caixão da minha amada mãe.

- Papagaio.

Como já jurara tantas vezes sobre o caixão da mãe e em todos os casos fora mentira, ele considerava que o pecado era um só, já que, se sua mãe morresse, seria um só caixão, além do que, coração de mãe sempre perdoa, isso é, caso ela chegasse a descobrir as falsas juras.

Não era homem de levar culpa, e as histórias sempre ajudavam, mas, se caísse, levava quem podia junto, sem contar que lembrava de favores e promessas nos momentos mais inoportunos.

- Me empresta aí 50 mangos, te devolvo na semana que vem.

- Porra, Ronaldo, tô mais liso que bunda de velho e tu vem pedir dinheiro? Tô duro como uma vara, sem contar que a mulher tá pra ter neném de novo.

-É assim? E quem foi que, mesmo mal, mesmo cheio de dívidas, te deu respeito e emprestou o que não tinha pra que tu comprasse a tua aliança de casamento? Fiquei 3 dias sem comer, tudo pra ver meu amigo Borges, meu irmão, sorrindo.

- Tu é um safado mesmo, né? Toma essa coisa aqui, tô fodido mesmo. E tu não passaste 3 dias com fome porque no outro dia eu te paguei de volta, seu pilantra.

- É que os outros dois dias foi de jejum pra pedir pra São Expedito abençoar tua nova vida. Sou um homem religioso e, por um amigo, faço qualquer coisa. Semana que vem eu pago. Juro.

Não pagou. Enrolou tanto que Borges até desistiu.

Achava-se o mais malandro, capaz de sair de qualquer fria. Quando pequeno, teve pais extremamente rigorosos com condutas morais, de maneira que, sob severa punição, Ronaldo era obrigado a ser um verdadeiro santo. Quando mentiu pela primeira vez, tinha comido uma sobremesa antes do almoço. Sua mãe se dirigiu a ele para dar-lhe uma bronca pela traquinagem, e ele acusou o cachorro. A mãe acreditou, afinal, filho dela não mente. Ele ganhou gosto pela coisa e nunca mais parou.

Era um solitário, mas detestava sua condição. Precisava se reafirmar com novas histórias e causos, precisava sair no fim-de-semana, precisava contar o número de mulheres que conhecia, e posteriormente dobrar o número e a beleza destas para contar para os que não viram. O que vale para ele é a imagem. Tudo pela imagem. E se ele diz que é feliz, de que importa a verdade?

Tinha um amigo, o Julião, que conhecia Ronaldo e suas lorotas, sabia de suas hipérboles e fantasias, mas o sujeito, quando não era inconveniente, era divertido. Saíam e bebiam quase todas as noites. Vira e mexe, Ronaldo dizia:

- Ó, no churrasco hoje, confirma para o pessoal que a gente ganhou uma briga ontem.

- Que mentira, rapaz! A gente nem saiu ontem.

- Mas ninguém precisa saber. Além do que, é só uma história boba.

E Julião, a contragosto, confirmava a mentira.

Um dia, Julião chegou com uma novidade:

- Tô de caso sério com uma mulher.

- Mentira – respondeu o amigo.

- Sério. Um doce. Dessa vez é pra valer, nunca senti coisa igual. Por essa, coloco a mão no fogo.

- Se é assim, eu te ajudo a bater em quem der em cima dela – prostrou-se o amigo.

Julião, que sempre fora um libertino, estava completamente apaixonado, conheceu até família da garota. O casal não discutia por nada. Acompanhando o amigo e a nova namorada, Ronaldo sempre saia com eles para todos os lugares.

Ronaldo sempre dava abraços mais longos na namorada do amigo, apertava a barriguinha e fazia gracinhas pra a mulher rir.

Um dia, o casal se desfez. Ela acabou com Julião sem dar maiores satisfações:

- Não dá mais. Não quero.

E, sem entender, o rapaz caiu na bebida e no cigarro como nunca fizera antes. Estava arrasado, derrotado pelo tal sexo frágil.

- Ela não vale nada, é uma vadia – respondia Ronaldo ao amigo. – Sempre achei que ela era de baixo escalão pra ti. Sorte que sou teu amigo, sozinho tu não fica. Deixa a megera lá sozinha que aqui a gente vai beber até cair.

Um dia, no escritório, um colega de Julião comenta:

- Não era tu que tava namorando a morena da rua de cima?

- Terminamos – Respondeu, cabisbaixo.

- Aquele teu amigo lá tava no maior amasso com ela. Só faltou tirarem a roupa.

A mente de Julião queimou, sentiu-se idiota, traído, devia saber, devia ter percebido o sacana que Ronaldo era, deixara passar. Ligou para ele:

- Ia me contar quando?

- Do que é que ‘cê ta falando, camarada?

- De que ‘cê ta pegando a minha ex.

Silêncio do outro lado da linha. Ronaldo já emendou uma desculpa.

- Tô pegando uma prima dela, que é idêntica, uma graça, mas sem o gênio besta da prima.

- Não me faz de otário que eu te apago.

- Tô te falando. Juro pelo túmulo da minha mãe.

Julião ignorou, fingiu acreditar. Seguiu Ronaldo no dia seguinte para vê-lo aos beijos e abraços com a sua ex-amada. Foi pra cima e quase bateu no amigo, não fosse a intervenção de uns trabalhadores de uma construção próxima, alarmados com a gritaria.

Nos dias seguintes, Ronaldo utilizou de todas as suas ladainhas para acalmar o amigo, nenhuma funcionou. Lembrou de quando esse também tinha feito uma besteira, cobrou dívidas que estavam perdoadas, disse que homem que é homem ouve amigo pedir desculpas, chamou de covarde, e jurou dez vezes que não queria mais nada com ela.

Uma semana depois, Julião encontrou Ronaldo na rua e teve uma idéia. O traído cumprimentou Ronaldo e disse ser bobagem toda aquela confusão, que mulher nenhuma devia ficar no meio da amizade dos dois.

- É o que eu te digo, rapaz. Aquela lá não presta nem de troco. Confia em mim que a gente se dá bem. Saímos os três e a gente fala umas verdades pra aquela biscate – disse Ronaldo.

No fim de semana, foram ao bar. Quando estavam os três parados na porta, Julião comentou:

- Isso foi uma coisa que aprendi contigo, companheiro.

- O que? A perdoar? Se Jesus perdoou nossos pecados, quem sou eu pra não perdoar? – comentou Ronaldo, de braços abertos.

- Não tava falando disso.

- Aprendesse o quê, então?

- A mentir.



Sacou a pistola e deu dois tiros em Ronaldo. A mulher nem teve tempo de gritar, e, ao pensar em fazê-lo, jazia morta no chão.


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