Não há visitante que, passando por Cruzeiro, não se encante com um majestoso prédio, imponente, recentemente restaurado e que se destaca dos demais. É o Teatro Capitólio



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INTRODUÇÃO

Neste estudo, que toma fundamentos na teoria que Roger Chartier (1990) desenvolve sobre representações simbólicas, expressas nas manifestações culturais de uma sociedade em um tempo específico, pretende-se estudar parte do processo de formação da sociedade cruzeirense a partir da leitura de um ícone social estabelecido na década de 30.

Não há visitante que, passando por Cruzeiro, não se encante com um majestoso prédio, imponente, recentemente restaurado e que se destaca dos demais. É o Teatro Capitólio. Procura-se, ao longo das reflexões desenvolvidas nesta pesquisa, resgatar e destacar, dentro de um determinado período histórico, os aspectos de representação simbólica, expressão de identidade e significado social do Teatro Capitólio que o levam para além de sua dimensão como patrimônio cultural, num método de análise que permite fazer, segundo Michel de Certeau, de “resíduos, papéis, legumes, até mesmo de geleiras e de ‘neves eternas’” história (CERTEAU apud LE GOFF & NORA, 1995:53).

A metodologia utilizada para a construção deste trabalho encontra-se, portanto, fundamentada nas propostas da História Cultural, um dos ramos originados na historiografia francesa da Escola dos Annales1. O trabalho está dividido em três capítulos, dos quais no primeiro procura-se desenvolver considerações teóricas sobre a questão da representação social que Roger Chartier aborda. No segundo capítulo, faz-se um breve histórico da cidade de Cruzeiro, procurando contextualizar o desenvolvimento político e econômico da sociedade em formação e as implicações que envolvem o Teatro Capitólio, aproximando sempre do período da década de 1930, estabelecida como recorte temporal para este trabalho. No terceiro capítulo pretende-se estabelecer as relações do desenvolvimento da sociedade cruzeirense e as possíveis características deste processo registradas no prédio do Teatro, que se transforma, assim, numa expressão simbólica e numa representação social.



1. O TEATRO CAPITÓLIO ENQUANTO UMA REPRESENTAÇÃO SOCIAL

Há diversos modos de olhar um prédio e, no caso especial do Teatro Capitólio, essa regra não muda. Pode ser que um transeunte apressado pela agenda diária passe na frente do Teatro sem ao menos perceber sua diferença se comparado com as outras construções que o rodeiam. Algum outro passante pode admirar-se com sua beleza e imponência, mas para o olhar do historiador, que não admite a indiferença e vai além dos aspectos formais, o Teatro Capitólio apresenta-se como um documento. E ao vislumbrá-lo lê em sua arquitetura um documento dinâmico.

Seria retórico perguntarmo-nos o que seria um documento, mas esta acepção nos traz uma gama de possibilidades, levando-nos a refletir sobre a palavra.

Em história, tudo começa com o gesto de selecionar, de reunir, de, dessa forma, transformar em ‘documentos’ determinados objetos distribuídos de outra forma. Essa nova repartição cultural é o primeiro trabalho. Na realidade ela consiste em produzir tais documentos, pelo fato de recopiar, transcrever ou fotografar esses objetos, mudando, ao mesmo tempo, seu lugar e seu estatuto. Esse gesto consiste em isolar um corpo, como se faz em física. (CERTEAU apud LE GOFF & NORA, 1995:61).


Questionar a noção de documento e buscar ampliar a concepção deste é pressupor que, o mesmo, vai além do que está registrado, podendo se encontrar em diversas fontes. De resíduos, papéis, legumes, até mesmo de geleiras e de neves eternas, o historiador faz outra coisa: faz deles história. (CERTEAU apud LE GOFF & NORA, 1995:53).

Assim, o Teatro Capitólio vai além dos aspectos físicos de sua arquitetura, transformando-se num documento histórico, segundo os conceitos desenvolvidos por Marc Bloch e Lucien Febvre, da primeira geração Annales, na década de 1920, que questionavam a flexibilidade e as possibilidades de um documento. Uma vez que Marc Bloch apresenta documento como sendo o instrumento para a busca conhecimento histórico, busca realizada através da pesquisa de vestígios, portanto, através da arquitetura do Capitólio, marca perceptível aos sentidos, um vestígio, pode-se fazer história (BLOCH, 2001). É possível, portanto, conjugar a singularidade do Teatro Capitólio com as estruturas que caracterizam as relações sociais que permeiam sua constituição histórica.

A singularidade do Teatro Capitólio revela-se na concretização de um sonho de uma família que veio para o Brasil na condição de imigrante. No entanto a sua presença em Cruzeiro pode ser vista com um registro da contribuição da cultura italiana na cidade, e por extensão no Vale do Paraíba, através da iniciativa da família Navarra que teve em Domingos Navarra um mecenas, financiador e administrador da construção do prédio, e precursor da arte européia em Cruzeiro.

Tais aspectos podem ser percebidos na arquitetura de ares italianos, embora eclética, do Teatro, inspirada em escala devidamente menor num dos mais respeitados teatros da Europa do início do século XX: o Scala de Milão. Mas muito além de sua fachada imponente, o interior também guarda um enorme requinte, sendo considerado uma das mais luxuosas casas de cultura e lazer da cidade e do Estado na época.

As relações sociais são marcadas, dentro do período delimitado para este trabalho, pelo contexto de 1930 no Brasil e em Cruzeiro. Permeava no cenário nacional uma concepção de modernização e progresso, em todos os aspectos políticos, econômicos e sócio-culturais, acarretando, todavia, numa maior preocupação com a produção de cultura genuinamente brasileira, influenciada diretamente pelo Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, em 1928. As questões políticas foram abaladas com fim da política do “Café com Leite”, derrocada das oligarquias, e ascensão de Getúlio Vargas ao poder, que apoiará este ideário de modernização do Brasil com objetivos econômicos de industrializá-lo.

A cidade de Cruzeiro também sofrerá transformações em suas relações sociais com a chegada, a partir de 1930, das oficinas da Estrada de Ferro Rio-Minas, deixando ainda mais evidente a sua característica principal, de uma população transitória, devido ao grande fluxo de pessoas, que iam e vinham, conforme as ofertas de emprego, e também de núcleo estritamente de cunho urbano, constituindo, pois, uma sociedade basicamente de elementos exógenos e com aspectos demográficos imunes aos preconceitos raciais e religiosos.

A investigação aqui desenvolvida remete, portanto, a estudos sobre representações sociais, manifestações culturais e simbólicas – arte, discurso, arquitetura – que representam a sociedade cruzeirense.

Representação, do latim repraesentatio, é um termo carregado de significado e é de suma importância para o desenvolvimento atual das Ciências Humanas, que visa a um estudo conceituado e de significado para sociedade, com a participação da mesma no conceito de representatividade2.

A função de representação é exatamente a de tornar presente à consciência a realidade externa, tornando-a um objeto da consciência, estabelecendo assim a relação entre a consciência e o real3, conforme coloca Japiassu e Marcondes (1991).

A sociedade em estudo estaria, portanto inserida neste processo de apreensão, apropriando-se da estrutura do teatro e da produção cultural que de certa forma seria a personificação desta mesma sociedade, ou sua representação.

Esta noção, de representação, segundo a Filosofia, tem um papel central no pensamento moderno, sobretudo no racionalismo cartesiano e na filosofia da consciência.
O racionalismo pode consistir em considerar a razão como essência do real, tanto natural quanto histórico, sustenta a primazia da razão, da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade, pressupondo uma hierarquia de valores entre as faculdades psíquicas, ou a posição segundo a qual somente a análise lógica ou a razão pode propiciar desta forma o desenvolvimento da análise científica, do método matemático, que passa a ser considerado como instrumento puramente teórico e dedutivo, que prescinde de dados empíricos, aplicados às ciências físicas que levaram a uma crescente fé na capacidade do intelecto humano para isolar a essência no real e ao surgimento de uma série de sistemas metafísicos fundados na convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo, cuja ordem interna, aliás, teria um caráter racional (DESCARTES, 1991:77)
Sob vários aspectos, entretanto, a relação de representação parece problemática, sendo por vezes entendida como uma relação causal entre o objeto externo e a consciência, por vezes como uma relação de correspondência ou semelhança. A principal dificuldade parece ser o pressuposto de que a consciência seria incapaz de apreender diretamente o objeto externo (JAPIASSU, 1991), mas a concepção de representação vem mostrar a possibilidade da apreensão desse objeto externo.

Chartier em seu estudo sobre as representações afirma ter como objeto principal identificar a forma como em diferentes lugares e momentos uma realidade social é construída, pensada, dada a ler, conforme o contexto local/regional (CHARTIER, 1990).



Desta forma pode-se pensar a história cultural do social tomando por objeto a compreensão das formas e dos motivos, isto é, partindo das representações do mundo social, na qual os atores que dela fazem parte podem traduzir as suas posições e interesses de forma objetiva, e que de forma paralela, descrevem a sociedade tal como pensam que ela seja, ou como gostariam que fosse (CHARTIER, 1990), havendo, neste sentido, uma participação efetiva da sociedade nos processos de sua própria compreensão. Verifica-se assim o entendimento da História Cultural diretamente relacionada à História Social, posto que suas representações são produzidas a partir de papéis sociais.

Chartier, afirma seu entendimento de que não há real oposição entre mundo real e mundo imaginário. O discurso e a imagem, mais do que meros reflexos estáticos da realidade social podem vir a ser instrumentos de constituição de poder e transformação da realidade.

Partindo deste conceito, houve uma transformação da representação do Teatro, após a sua restauração e inauguração, pois outrora, havia sido ou não um cabaré, como discutiremos posteriormente, ganhando uma outra conotação na realidade cruzeirense, acabando por influenciá-la, pois houve de fato, uma participação da sociedade na sua transformação como representação social. Com iniciativas de projetos culturais a serem realizados no local, desvinculando a imagem devassa ou não, que tivera. Desta forma, a representação do real, o imaginário, é em si, um elemento de transformação do real e de atribuição de sentido ao mundo (CHARTIER apud ANNALES, 1989).

Todavia ao analisarmos as influências sócio-culturais na formação do Capitólio como representação social, encontramos todo um contexto propício para tal, pois, a década estudada, 1930-1939, é considerada dourada, segundo historiadores que escrevem sobre Cruzeiro4, devido à inauguração das novas oficinas da Estrada de Ferro Rio-Minas, que possibilitaram um maior desenvolvimento e autonomia da cidade, coincidindo, entretanto com a inauguração e restauração do Cine Teatro Capitólio.


2. UM BREVE HISTÓRICO E A DÉCADA DE 30

2.1. A FREGUESIA DO EMBAÚ

No ano de 1560 chegou à região a primeira expedição sertanista chefiada por Braz Cubas5 e pelo minerador Luiz Martins que, após descer o Vale do Paraíba até o porto da Cachoeira, passando pelo Embaú, onde encontra um aldeamento indígena de Puris6, localizado à margem esquerda de um poço – atualmente conhecido como “poço da Figueira” – prosseguiu pelo vale formado pelos rios Passa Vinte e Batedouro, rumo à região sul mineira.

Esta região era parte de uma importante via de comunicação para a região das minas auríferas, e se caracterizava como fim de uma primeira etapa que consistia na descida do Vale do Paraíba, e início da travessia da Serra. Neste ponto de intercessão entre vale e serra, à beira do caminho, nasce o Embaú, último pouso frente às gargantas que davam acesso à região mineira, e aos poucos se transforma em florescente povoação.

O nome Embaú tem várias acepções, mas o significado mais conciso seria o de derradeira aguada, pois para o bandeirante de fala tupi, o relevante não era lembrar a excelência do local, e sim suas características mais importantes relativas às grandes jornadas. Todavia, foi sob a égide da comunicação com a região mineira e, conseqüentemente, sob o influxo do ouro das Minas Gerais que se desenvolveu o povoado.

A importância estratégica do local para as entradas e explorações é notável, pois já em meados do século XVII foi erigido um curato, circunscrito ao de Lorena (GUIMARÃES, 1951:20), e pelas proporções da Igreja Nossa Senhora do Embaú construída ali no lugar, pode-se concluir que a população nesta época já devia ser numerosa.
Sabemos que era um centro de grande atividade comercial, servindo de escoadouro ao sul da Capitania de Minas Gerais. Numerosas tropas desciam e subiam a serra, passando todas elas pela povoação para onde afluíam, também os negociantes da região. Ponto forçado de negócios, havia ali a animação comum das feiras e dos grandes centros comerciais. Por meio do Embaú é que se despejava o comércio das Gerais para o litoral através do – caminho dos Guaianazes – que passando por Guaratinguetá e Cunha (antiga Facão) chegava até Parati. (GUIMARÃES, 1951:14).
Devido a esse crescente comércio, o Embaú desenvolveu-se o bastante para ser elevado à categoria de Freguesia, em 19 de Fevereiro de 1846, e um quarto de século depois, a 06 de Março de 1871, ser elevado à Vila, com o nome de Nossa Senhora da Conceição do Cruzeiro, nome este devido ao marco divisório em forma de cruz colocado para sinalizar a fronteira entre Minas Gerais e São Paulo.

Por volta de 1880 a vila do Embaú possuía 11.000 habitantes e exportava, das suas 55 fazendas, cerca de 30.000 arrobas de café. Seus estabelecimentos comerciais chegavam à casa dos vinte (GUIMARÃES, 1951). Entretanto, sua evolução é estagnada e a população decrescente, sendo absorvidos pelo núcleo urbano de Cruzeiro, que passa a se desenvolver, a partir de uma grande fazenda, particularmente devido às transformações históricas ocorridas na região no final do século XIX.



2.2. A FAZENDA BOA VISTA

A mais ou menos oito quilômetros do Embaú situava-se a Fazenda Boa Vista que, segundo consta dos mais velhos documentos encontrados em seu arquivo, tem sua formação localizada já em meados do século XVIII.

A princípio as terras da Fazenda Boa Vista eram devolutas, sendo adquiridas em posse por Manuel de Moraes Pinto, que as vendeu aproximadamente em 1778, ao Tenente Cel. Henrique Dias Vasconcelos. A esposa do tenente Vasconcelos, herdeira de seu espólio, troca estas terras com Joaquim Ferreira da Silva. Em 1836, falecendo Joaquim Ferreira, que já havia aumentado o patrimônio da família comprando terras contíguas até as proximidades de Lavrinhas, sua esposa e herdeira, Dona Fortunata casa-se, em 1837, em segundas núpcias, portanto, com o Capitão Antônio Dias Telles de Castro, que patrocina a construção da casa sede da Fazenda Boa Vista, à margem esquerda do Rio Paraíba.

Entretanto, no ano de 1866, Dona Fortunata, novamente viúva, contrai terceiras núpcias, com o Alferes Manoel de Freitas Novaes, que logo viria a se tornar major. Logo que o Major Novaes assume os negócios da fazenda, faz uma considerável reforma e ampliação. Tinha muitas idéias novas e logo as colocou em prática como a fundação de uma colônia de trabalhadores livres, organizada experimentalmente em três grupos distintos pela origem dos colonos, formados de espanhóis, jagunços e cearenses.



Sede da Fazenda Boa Vista. Ilustração 1; Fonte: ANDRADE, Carlos Borromeu de. Os Pioneiros da História de Cruzeiro. Centro Educacional Objetivo. Fundação Nacional do Tropeirismo. Cruzeiro, 1994.
O Major Novaes é uma personalidade ímpar na história cruzeirense, dono de uma personalidade peculiar - era ao mesmo tempo ambicioso e sincero, inteligente e teimoso, bondoso e turbulento, temido e respeitado. Porém, é sua grande amizade com o Imperador D. Pedro II que possibilita oportunidades para o desenvolvimento de Cruzeiro. Com sua dinâmica de administrador e político o Major Novaes consegue trazer para a cidade de Cruzeiro duas importantes ferrovias - a Estrada de Ferro D. Pedro II e a Estrada de Ferro Rio-Minas. É evidente que goza dos benefícios deste progresso, especialmente quanto ao desenvolvimento de sua fazenda, localizada à beira do caminho do ferro.

2.3. O DESENVOLVIMENTO DA CIDADE DE CRUZEIRO ATÉ A DÉCADA DE 30.

As condições políticas que possibilitaram o surgimento e desenvolvimento da cidade de Cruzeiro são caracterizadas por um tempo de paz, uma vez que a cidade nasce no final do século XIX, quando as condições econômicas do país são favoráveis, com o Império passando por um momento áureo de desenvolvimento.

A figura do Visconde de Mauá se sobressai neste contexto histórico do Brasil, pois seus admiráveis planos haviam revolucionado a economia nacional. A comunicação entre São Paulo e Rio, as duas maiores cidades do país, exigia melhores condições do que a via precária e rudimentar existente na época, o que leva a nascer no cenário nacional o transporte ferroviário.

Geograficamente, a região do Embaú tinha as condições indicadas para a formação de um povoado, especialmente a fazenda Boa Vista, que se encontrava numa espécie de entroncamento natural entre Rio e São Paulo, no centro de uma região econômica especial, formada pelos três maiores estados brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Assim, devido especialmente a esses fatores geográficos a região de Cruzeiro apresentava-se como um escoadouro da produção desses estados, principalmente de Minas Gerais, com a chegada da Estação Ferroviária Rio-Minas. É de se notar que hoje a economia cruzeirense é influenciada diretamente pela economia mineira.

Neste contexto que procurava viabilizar a melhor comunicação entre São Paulo e Rio, nasce a Estrada de Ferro D. Pedro II, que tem o seu início em Barra do Pirai, no Rio de Janeiro, e teria seu ponto final em Cachoeira Paulista, para então se articular com a Estrada de Ferro São Paulo-Rio. Entretanto, sob a influência direta do Major Novaes e suas relações de amizade com o imperador, a Estrada de Ferro veio passar em Cruzeiro, já que seu traçado original excluía a cidade, ligando Lavrinhas e Cachoeira em linha direta.

O senhor da Fazenda Boa Vista percebendo que as suas terras estavam excluídas das vantagens ferroviárias, trabalha para conseguir que a Estrada de Ferro fosse desviada para a margem esquerda do Rio Paraíba, e conseqüentemente, para suas terras, o que, por sua vez, proporcionou a oportunidade necessária para a criação da cidade.

Foi criada então a Estação do Cruzeiro, que traria um novo estímulo econômico para a região, sendo este o alento criador de Cruzeiro. Embora no local já existissem cabanas e casebres pertencentes a colonos da fazenda, é com a chegada dos trabalhadores da estrada em construção e dos agrupamentos instituídos nos alojamentos de madeira, em torno das obras da ferrovia, que se forma a cidade de Cruzeiro.

Assim, sob a égide do transporte ferroviário, o núcleo inicial da Estação do Cruzeiro rapidamente se desenvolve e em poucos anos já era necessária uma autoridade policial, obrigando a criação da primeira sub-delegacia da cidade.

O povoado crescia já a passos largos quando um novo fator veio apressar-lhe ainda mais o desenvolvimento: a chegada de uma nova estrada de ferro, que ligaria a Província do Rio de Janeiro a Minas Gerais: a Estrada de Ferro Rio-Minas. E novamente, por intervenção do Major Novaes, também esta estrada veio para Cruzeiro, pois em planos originais ela teria início em Queluz. Portanto, novo impulso recebeu a Estação do Cruzeiro, vendo aumentar consideravelmente o seu movimento e o número de habitantes (GUIMARÃES, 1951).

Mais uma vez, agora com a Proclamação da República, em 1889, uma nova fase se abre para o Brasil e para Cruzeiro, pois a Estrada de Ferro São Paulo-Rio, que completava o ramal ferroviário para São Paulo, ligando Cachoeira à Paulicéia, foi adquirida pelo governo e anexada à Estrada de Ferro D. Pedro II, formando agora a Estrada de Ferro Central do Brasil.

Devido à diferença de bitolas foi construído um trilho intermediário entre Cruzeiro e Cachoeira, para que os trens pudessem chegar até a Estação do Cruzeiro, assim a cidade ganhou como que uma terceira ferrovia, tornando-se parada obrigatória de cargas e passageiros, o que aumentou consideravelmente o fluxo de pessoas, sendo este um dos motivos principais pelo qual o desenvolvimento se processou.

Finalmente em 02 de outubro de 1901 que foi assinada a transferência da sede do município para junto da Estação de Cruzeiro. Assim, ao raiar do século XX nasce formalmente a cidade de Cruzeiro.

As três primeiras décadas do século XX foram de evolução política, com a formação de uma Câmara Municipal, transformações no cenário urbano, como com a instalação de iluminação elétrica pública. Há também um florescer da cultura em geral com o desenvolvimento da imprensa local e a abertura de casas de cinema. Na economia, Cruzeiro se desponta como cidade estritamente urbana, de cunho comercial e industrial, devido ao grande fluxo de pessoas na cidade e ao estabelecimento de pequenas indústrias, a despeito de sua originária vocação agrícola. Finalmente, no início da década de 30, a questão ferroviária vem transformar mais uma vez o cenário cruzeirense pois, com a transferência das Oficinas da Estrada de Ferro Rio-Minas, a cidade ganha um novo impulso desenvolvimentista.

2.4. A CULTURA NO BRASIL, SÃO PAULO E CRUZEIRO NA DÉCADA DE 30.

O Brasil em 1930 está imerso em um contexto de modernização já que, com a ascensão de Vargas ao poder, foram instituídas diversas medidas, em todos os setores, de cunho modernista.

Essas medidas refletiram na cultura brasileira de maneira a alcançar inclusive as camadas populares, havendo, nos anos 1930, uma série de manifestações culturais – rádio, cinema e música – de aspecto popular, sendo esta década chamada de “A Era da cultura de massas” (ORTIZ, 2003).

Esta popularização da cultura se deu devido à utilização de novos meios de comunicação, capazes de atingir simultaneamente grandes camadas da população. Toda esta dinâmica que invadia o Brasil neste período, tem sua representatividade no Movimento Modernista, iniciado em 1922 com a Semana de Arte Moderna, e que pode ser sentido diretamente na cidade de São Paulo, palco desta semana de arte e também centro no qual se encontravam grande parte dos idealizadores da arte moderna brasileira.

A década de 30 será então fortemente marcada pelo Manifesto Antropofágico, de 1928, lançado por Oswald de Andrade, que referia-se a produção de uma arte genuinamente brasileira.

Cruzeiro, nesta década, também pode sentir este intenso movimento cultural, apesar de já experimentar manifestações culturais da própria cidade. Assim, na década de 30, que se inicia com a inauguração e restauração do Teatro Capitólio, também na cidade encontra-se um contexto de busca de uma arte estritamente brasileira, no qual tem-se aberto um espaço para escritores, atores e personagens da cultura cruzeirense.

Há na cidade neste período uma grande preocupação cultural, pois a cidade chegou a possuir várias livrarias, organizações literárias e uma orquestra sinfônica local (SILVA, 1961).

Registra-se também neste período diversas salas de cinema dentre elas o Cine D’Luxo, na Av. Major Jorge Tibiriçá, em frente à Matriz de Santa Cecília; o Cine Teatro Odeon, inaugurado em 1923, na mesma avenida, em frente ao Jardim Público – atual Praça Nove de Julho; Cine Teatro Glória, na Rua Cap. Avelino Bastos, e o Cine Teatro Capitólio, inaugurado em setembro de 1930, na Rua Eng. Antônio Penido, rua no qual se encontrava a maior circulação de pessoas, sendo a principal via de acesso da cidade, por muitos anos. É evidente, portanto, devido à quantidade de salas de cinemas, que muitas vezes também eram palcos teatrais, a preocupação cultural da cidade.

Os jornais locais da época – O Momento, O Cruzeiro e O Cruzeirense – eram um meio importante de informação, tanto com o noticiário local quanto o nacional, mas também eram um meio de divulgação da programação cultural. Os filmes e as peças eram anunciados nos mesmos, sendo utilizadas muitas vezes páginas inteiras para sua divulgação.

É possível observar, portanto, que esta década é marcada por um contexto cultural intenso, no qual toda a população estava evidentemente inserida.



2.5. O CAPITÓLIO: CABARÉ E TEATRO

No acervo da Secretaria de Cultura e Turismo de Cruzeiro, há menção de que o prédio anterior a 1928 havia sido um cabaré (MOURA apud Secretaria de Cultura e Turismo de Cruzeiro), freqüentado por ilustres personagens. Entretanto, nas pesquisas realizadas para este trabalho, a partir dos arquivos do Museu Histórico Pedagógico Major Novaes e dos arquivos do próprio Teatro Capitólio, não foi encontrado nada que remetesse a este suposto cabaré.

Em conversa com o advogado Jaime Ribeiro da Silva, também escritor e apaixonado pela histórica de sua cidade, Cruzeiro, não foi relatado nada do gênero. Também nada se encontra nas bibliografias de escritores cruzeirenses7, sobre a cidade, ficando esta lacuna ainda a ser estudada da história de Cruzeiro.

Em 3 de setembro de 1930 foi festivamente inaugurado o Cine Teatro Capitólio, modelo de esplendor da arquitetura européia, de estilo eclético, com decoração inspirada no famoso teatro italiano Scala, de Milão.




Cine Teatro Capitólio. Ilustração 2; Fonte: Acervo da Secretaria de Cultura e Turismo de Cruzeiro.
A festa que inaugurou o prédio foi prestigiada por altas autoridades políticas da Província de São Paulo, personagens de grande projeção e toda alta sociedade de Cruzeiro (Moura apud Secretaria de Cultura e Turismo de Cruzeiro).
A firma Navarra e Bitteti, depois de ingentes sacrifícios, conseguiu inaugurar o sumptuoso edifícios do Cine Teatro Capitólio, que sem favor nenhum, é mais luxuoso e elegante do interior de São Paulo. É uma casa de diversões, que honraria a qualquer capital dado ao extraordinário gosto arquitetônico de sua construção e sumptuosidade de seu acabamento. Acaba está mesma firma a dotar a nova casa de diversão com moderníssimos aparelhos ‘vitaphone’ e ‘movietone’ ficando em condições de exibir qualquer fim sonoro e igualando-se definitivamente as melhores casas do gênero existentes nas grandes capitais de Estados e da República. (Jornal “O Cruzeiro” – 28/09/1930).

O Teatro possuía os melhores equipamentos sonoros, além de uma decoração invejavelmente luxuosa e requintada. Sua decoração interna respeitava o estilo da época, sua portas chamavam a atenção pelos mosaicos em vitral colorido, compondo desenhos bastantes elaborados. As cortinas de veludo bordô separavam o público do salão e a sala de espetáculos. O mesmo tecido era utilizado nas cortinas de boca de cena. Seus camarotes, individuais, eram iluminados por pequenas arandelas de luzes fracas, acrescentando um clima nostálgico e aconchegante (MOURA apud Secretaria de Cultura e Turismo de Cruzeiro).

Nos salões, grandes espelhos refletiam lustres com vários braços de luzes. Toda ou quase toda decoração seguia o modelo europeu de teatro, não só nas cores e materiais, como na similaridade de elementos. Pouca coisa ofuscava o luxo e o estilo do teatro, como é o caso, por exemplo, do bastidor, na parte superior do prédio, equipado com banheiro, sala de camarim, que se liga a uma escadaria construída em cimento vermelho e corrimão de madeira, de acabamento rústico e também a escada que dá acesso ao palco, a sorveteria no salão inferior tornam evidente a diferença do padrão de construção. Ainda assim, era a mais luxuosa casa de cultura e lazer da cidade de Cruzeiro (MOURA apud Secretaria de Cultura e Turismo).

Após sua inauguração o Teatro Capitólio passou a ser sede dos eventos mais importantes da cidade. Entretanto, apesar de sua exuberante fachada e do requintado luxo da decoração, a programação do Teatro Capitólio não discriminava as diferenças sociais, pois atraia e não intimidava o público de renda mais baixa, facilitando o acesso a toda população cruzeirense. Esta constatação pode ser feita com base na análise dos jornais da época onde se encontrava a referência Teatro Capitólio para todos, indicando assim uma abertura social. Outro registro de interesse sobre a importância do Capitólio é a exclusividade na exibição de filmes, que já eram sonoros:

No elegante Cine Theatro Capitólio serão exibidos os formidáveis filmes:

6a Feria – Correio a Cavalo.

Sábado – em bonificação – Tristeza de Satanaz.

Domingo haverá grande surpresa para os distintos freqüentadores do Cine Theatro Capitólio e muito breve o filme todo falado: Lágrimas do Amor. (Jornal “O CRUZEIRO” – 16/01/1932)


Conforme outros registros encontrados nos jornais pesquisados, os eventos promovidos no Teatro eram bastante diversificados e sua programação não se limitava à exibição de filmes, acontecendo periodicamente outros eventos como bailes de carnaval, bailes de formaturas e peças teatrais, nas quais os grupos locais sempre tiveram o seu espaço no palco. É esta programação que garantia o sucesso de público de todas as classes sociais da época.
Antonio Magina, diretor de teatro amador, de Cruzeiro, “Amigos Cordeaes”. Apresentava suas peças no Theatro de Cruzeiro (Cine Theatro Capitólio e Odeon). Trágico papel de Alfredo, dramas de três atos – Scenas de Misérias [...] (A SCENA, ano III, no 20, junho 1939, MOURA apud SECRETÁRIA DE CULTURA E TURISMO DE CRUZEIRO).
Após a instalação do Cruzeiro Futebol Clube, no piso superior o Teatro passa ser o abre-alas do carnaval cruzeirense.

Batalha de Confettes – como de outros annos correram animadíssimas as batalhas de confettes e lança-perfumes. No jardim público contava com a presença de muitas famílias de nossa sociedade. (Jornal “O CRUZEIRO” – 09/03/1937)



1934 – Bloco das Havaianas, do Cruzeiro CF – No salão superior do Capitólio. Ilustração 3; Fonte: MOURA, Jerson de. Cine Teatro Capitólio a marca da História. Acervo da Secretaria de Cultura e Turismo de Cruzeiro.
É nítida a estreita relação da sociedade cruzeirense da década de 30 com o Teatro Capitólio e como a mesma se apropriou do espaço para manifestar a sua cultura.

3. Cine Teatro Capitólio – símbolo social de modelo europeu

A década de 1930 foi considerada como década da Renascença Cruzeirense (ANDRADE, 1994), quando aponta as transformações que a cidade experimentou neste período.

A chegada das grandes oficinas de tratamento de insumos ferroviários promove acentuadas mudanças na economia urbana ao mesmo tempo em que, com a vinda de técnicos e operários deste setor industrial, ocorrem mudanças no perfil social da cidade.

Assim, além da chegada das novas oficinas da ferrovia – Rotunda, Prédio da Locomoção, Armazém do Tráfego próprio e abrigo para os carros – que possibilitaram um acentuado crescimento econômico, Cruzeiro experimenta também no decorrer desta década, uma autonomia política, pois, em 1934 a cidade passa a ser sede de comarca.



Rotunda situada em Cruzeiro. Ilustração 4; Fonte: ANDRADE, Carlos Borromeu de. Os Pioneiros da História de Cruzeiro. Cruzeiro: Centro Educacional Objetivo. Fundação Nacional do Tropeirismo, 1994




Vista exterior do Almoxarifado da Estrada, em Cruzeiro. Ilustração 5; Fonte: ANDRADE, Carlos Borromeu de. Os Pioneiros da História de Cruzeiro. Cruzeiro: Centro Educacional Objetivo. Fundação Nacional do Tropeirismo, 1994.


Vista exterior da Secção de Mecânica das Oficinas da 3a Divisão, em Cruzeiro. Ilustração 6; Fonte: ANDRADE, Carlos Borromeu de. Os Pioneiros da História de Cruzeiro. Cruzeiro: Centro Educacional Objetivo. Fundação Nacional do Tropeirismo, 1994.
Como uma decorrência, no setor político são realizadas mudanças quanto à organização e adequação urbana que acompanham o crescimento da população. Coincidentemente a rua mais importante de Cruzeiro era a Engenheiro Antonio Penido, onde está situado o Cine Teatro Capitólio.


Cruzeiro – Trecho da Rua Engenheiro Antônio Penido. Ilustração 7; Fonte: ANDRADE, Carlos Borromeu de. Os Pioneiros da História de Cruzeiro. Cruzeiro: Centro Educacional Objetivo. Fundação Nacional do Tropeirismo, 1994.
A localização geográfica também contribui significantemente para a vida econômica da cidade, que acabou por resultar de três fatores essenciais: entroncamento ferroviário-rodoviário; terras pouco adequadas à agricultura e proximidade a centros produtores e consumidores. Todos estes fatores juntos firmaram a vocação industrial e comercial da cidade pois, já no ano de 1934, Cruzeiro contava com 11 fábricas de banha, três usinas de laticínio, uma de cerâmica, um frigorífico, três cinemas e distintas fábricas de pequeno porte (GUSSEN, 1986).

A grande densidade urbana, comparada com a rala população rural, demonstra o vigor da sede, havendo na cidade sempre um grande fluxo de pessoas, o que acaba por se tornar uma característica peculiar que lhe advém dos recursos provenientes do comércio e da indústria. Calcula-se que 80% da população era constituída de operários e que também havia grande articulação do comércio, com cerca de 500 casas comerciais formando, entretanto, uma população flutuante e transitória de indivíduos que vinham e iam conforme as ofertas de trabalho (SILVA, 1961).

A vida social cruzeirense é um reflexo dessas condições, pois a sociedade, formada por elementos exógenos e com um número limitado do que pode se chamar de famílias tradicionais, ia adquirindo um aspecto demográfico absolutamente imune a barreiras raciais ou religiosas, inteiramente livre de preconceitos contra os que aqui vinham viver e que logo se estabeleciam na medida em que destacavam as suas qualidades (SILVA, 1961).

Ainda no contexto das transformações em desenvolvimento nesta década de 1930, associada às outras mudanças, na esfera da cultura há uma dinâmica especial assinalada em particular pela restauração e inauguração do Cine Teatro Capitólio, além da abertura de livrarias, formação e avivamento de organizações literárias e de uma orquestra sinfônica, mais a criação da Sociedade Cultural Artística de Cruzeiro, que tinha como ideário uma promoção cultural acessível a todos.

Ao analisar as representações constituídas pelo discurso encontrado nos diversos jornais locais editados no período8 – O Momento, O Cruzeirense e O Cruzeiro – particularmente com as menções feitas sobre o Cine Teatro Capitólio, observa-se uma sociedade consciente de seu papel, desvinculada de preconceitos, e especialmente orgulhosa de suas manifestações culturais. O fato de o Capitólio estar situado na rua mais movimentada e importante da cidade, junto com a atenção dada para sua restauração e embelezamento, assinala um relacionamento deste prédio como ícone representativo de um orgulho social, o que pode significar que o prédio foi transformado em uma expressão social a partir da realidade da própria rua – caminho de maior fluxo da população, centro de atenções e, portanto, lugar apropriado para um símbolo.

Há de se supor que a década de 30, experimentando um “boom” desenvolvimentista promovido por todo um contexto político-econômico nacional, tenha influenciado diretamente a produção artística local – teatro, música, poesia, artes plásticas, dança – que teve como palco do seu florescimento o Cine Teatro Capitólio.

Apropriando-se deste momento histórico de transformação nacional o Grupo Cruzeirense de Cultura, fundado em 1933, propõe-se a polarizar a vida cultural da cidade, ensejando condições propícias ao desenvolvimento e aproveitamento desses valores existentes que compunham a sociedade, ao mesmo tempo em que pretendia formar um movimento que buscava resgatar a história local (O MOMENTO, 1933).

A sociedade cruzeirense neste contexto, conforme demonstrado ao longo deste estudo, foi uma sociedade lúcida enquanto aos seus deveres de cidadania. Essas evidências são encontradas na produção do discurso observado nos jornais locais, principalmente no O Momento, de cunho socialista, que chamava a população, em sua maioria de operários da ferrovia, para a sindicalização da classe e em favor dos seus direitos; nas manifestações culturais, como a feita pelo Sr. Lírio Panicalli, junto com outras pessoas interessadas, para organizar uma sociedade de cultura artística, que pudesse abranger toda população local (O Momento,1933); e as manifestações políticas como a feita em praça pública, quando Eurico Pereira Penna é nomeado prefeito de Cruzeiro, e, não sendo filho da cidade, o comércio cruzeirense, protesta a nomeação, se mantendo fechado por três horas (O Momento, 1933).

Todas estas características peculiares da sociedade cruzeirense têm reflexos na produção cultural e no modo como esta produção se faz representar, especialmente ao apropriar-se da arquitetura neoclássica do Cine Teatro Capitólio, transformado em uma representação social, em um reflexo de um contexto e na personificação de uma época áurea, como Borromeu aponta.

Dentro deste contexto dinâmico e de desenvolvimento econômico, percebe-se então uma sociedade que busca organizar sua identidade refletindo o ideário do período: os anseios de progresso e modernidade, que permeavam todo o Brasil e tinham como referência a recuperação da Europa pós Primeira Guerra Mundial, são representados na recuperação do Cine Teatro Capitólio e na sua plena utilização.

Embora o cinema americano já fosse uma indústria em crescimento, a hegemonia cultural ainda pertencia à Europa. A re-inauguração do Capitólio significava a tomada do modelo europeu como símbolo do progresso a ser alcançado. Ao mesmo tempo, é evidente que ares europeus sopravam sobre os movimentos dos operários que estimulavam a sindicalização e a promoção cultural popular e não mais das elites – pouco representadas pelo número pequeno de famílias tradicionais de Cruzeiro.

Compreende-se então o Cine Teatro Capitólio como um ícone, um símbolo dos anseios sociais, voltados para o progresso, para a modernidade, em busca de uma identidade, mas tomando como modelo a Europa e seus estilos, neoclássicos ou ecléticos, mas uma referência ideal.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo das reflexões desenvolvidas neste trabalho procurou-se resgatar e destacar as características do Cine Teatro Capitólio que o levam para além de sua dimensão como patrimônio cultural, aplicando sobre esta magnífica construção o olhar próprio do historiador, considerando a natureza documental do edifício. Desse modo, procurou-se realizar mais a leitura de um documento histórico que a observação saudosista de um prédio da cidade de Cruzeiro. Esta prática, introduzida no mundo da história pela Escola dos Annales, ganhou amplitude maior com o desenvolvimento da Nova História, possibilitando o tratamento do prédio como um dinâmico e instigante objeto para o estudo histórico.

Além desta dimensão documental, o Teatro assume o sentido da representação social, traduzindo as características de uma sociedade nas suas expressões simbólicas e manifestações culturais. Teatro, cinema, bailes, arte e arquitetura – elementos culturais que identificam uma sociedade, registrados no prédio.

Assim, na leitura deste documento e de seu contexto histórico surgem aspectos da sociedade cruzeirense no processo de formação e definição de sua identidade. A cidade, desde a sua fundação, sempre experimentou um crescimento que girava em torno das ferrovias, mas o período da década de 1930 pode ser tomado como uma referência que permite identificar a relação da sociedade de Cruzeiro inserida no desenvolvimento nacional e tomando os modelos europeus de cultura e ideário.

Pensava-se no progresso tecnológico, no desenvolvimento econômico com base na industrialização, característica da administração Vargas, e numa possível organização social dos trabalhadores. Todas essas características sociais estariam representadas no Capitólio, na sua reedificação e utilização como símbolo social.

As obras de restauração e o reavivamento verificados hoje em dia demonstram que o aquele edifício ainda é um símbolo social de Cruzeiro, de importância especial, que exige estudos ainda mais extensos que os desenvolvidos para este trabalho de conclusão de curso. O Cine Teatro Capitólio encerra elementos históricos que ainda pedem maior exploração.




Teatro Capitólio após restauração em 2001. Ilustração 8; Fonte: Acervo da Secretaria de Cultura e Turismo de Cruzeiro.
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1 A célebre corrente historiográfica francesa dos Annales, conhecida como 'Escola dos Annales', foi uma das mais importantes vertentes de interpretação histórica do século XX. Um núcleo renovador dos cânones da disciplina na França nas duas primeiras décadas do século XX, que levou à criação, por Lucien Febvre e Marc Bloch, da famosa revista que deu nome à corrente historiográfica dos Annales.

2 Uma das acepções presentes no Dicionário Aurélio conceitua representação como: conteúdo concreto apreendido pelos sentidos, pela imaginação, pela memória ou pelo pensamento. (HOLANDA, 2001, p 583). Na Filosofia, como aborda Hilton Japiassu e Danilo Marcondes, em seu dicionário Básico de Filosofia, representação significa: operação pela qual a mente tem presente, em si mesma, uma imagem mental, uma idéia ou um conceito correspondendo a um objeto externo.

3 A noção de representação geralmente define-se por analogia com a visão e com o ato de formar uma imagem de algo.



4 Sobre a história de Cruzeiro ver, entre outros, ANDRADE, Carlos Borromeu. Os Pioneiros da História de Cruzeiro. Cruzeiro: Centro Educacional Objetivo. Fundação Nacional do Tropeirismo, 1994; GUSSEN, Pedro. História de Cruzeiro – Síntese Panorâmica. Cruzeiro: Edição CMC, 1986; GUIMARÃES, Joaquim de Paula. Síntese da História de Cruzeiro, Cruzeiro: Prefeitura Municipal de Cruzeiro, 1951; SILVA, Jaime Ribeiro. GUIMARÃES, Joaquim de Paula. CAMPOS, José. Antologia da Poesia Cruzeirense. Cruzeiro: Ed. Grupo Cruzeirense de Cultura – Prefeitura Municipal de Cruzeiro,1961.


5 Detentor de grandes propriedades na capitania de São Vicente foi encarregado pelo governador-geral do Brasil Mem de Sá de chefiar uma bandeira destinada a procurar ouro na região de Minas Gerais.

6 Habitavam grande parte do Vale do Paraíba concentrando-se principalmente entre as Serras do Mar e da Mantiqueira. Os Puris têm seus grupos distribuídos desde o Rio Paraíba até o Espírito Santo, penetrando na parte oriental de Minas Gerais.

7 Sobre a história de Cruzeiro ver, entre outros, ANDRADE, Carlos Borromeu. Os Pioneiros da História de Cruzeiro. Cruzeiro: Centro Educacional Objetivo. Fundação Nacional do Tropeirismo, 1994; GUSSEN, Pedro. História de Cruzeiro – Síntese Panorâmica. Cruzeiro: Edição CMC, 1986; GUIMARÃES, Joaquim de Paula. Síntese da História de Cruzeiro, Cruzeiro: Prefeitura Municipal de Cruzeiro, 1951; SILVA, Jaime Ribeiro. GUIMARÃES, Joaquim de Paula. CAMPOS, José. Antologia da Poesia Cruzeirense. Cruzeiro: Ed. Grupo Cruzeirense de Cultura – Prefeitura Municipal de Cruzeiro,1961.

8 A pesquisa revelou a evidência destes discursos nos seguintes jornais: O Momento, de jan/1933 a dez/1939; O Cruzeirense, de jan/1933 a dez/1939; O Cruzeiro, de jan/1934 a dez/1939.


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