No século das Luzes a reflexão filosófica desempenha um importante papel e impregna a medicina



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O pensamento médico de Alexandre Rodrigues Ferreira

Ângela Porto

COC/Fiocruz
“No século das Luzes a reflexão filosófica desempenha um importante papel e impregna a medicina”.

Mirko Grmek


Este estudo pretende analisar o tratado sobre as febres de Alexandre Rodrigues Ferreira, memória intitulada “Enfermidades Endêmicas da capitania de Mato Grosso”, no que diz respeito à noção de doença e formas de tratamento, correlacionando com as idéias médicas do período. Observamos que o naturalista, formado pela Universidade de Coimbra, fundamenta suas idéias em mestres europeus, autores de obras clássicas em medicina, já nesse período, tais como Thomas Sydenham (1624-1689), Hermann Boerhaave (1668-1738) e Lorenz Heister (1683-1758), Willem Piso (1611-1678) e nos conhecimentos adquiridos com os habitantes das localidades da Colônia que percorre, e na experiência de “alguns cirurgiões mais ou menos ilustrados” (FERREIRA, [1791], p. 89), que legaram escritos de seus receituários.

Os historiadores da medicina observam que o século XVIII foi um período de estagnação em termos de grandes descobertas biomédicas, ou de conquistas terapêuticas. É, no entanto, uma época marcada pela revolução produzida pela filosofia natural, cujo ideal está na constante busca de integração de saberes. A medicina dos séculos XVII e XVIII tem seu percurso determinado pelo empirismo e pelo racionalismo, podemos dizer pelo método indutivo, preconizado por Bacon, baseado na observação e na experiência, e o dedutivo, de Decartes, fundamentado em conclusões lógicas (RUDOLPH, p.76).

A observação e pesquisa das leis da natureza, conseqüência da aproximação da medicina e da física, será um decisivo impulso nas ciências biológicas no final do século XVIII. A medicina desse período busca a influência dos fenômenos atmosféricos sobre a biologia. Dois aspectos desse interesse dos médicos pelo clima serão fundamentais e importantes, com reflexos na concepção de doença e terapêutica. Para eles o ambiente atmosférico estará intimamente associado à origem das doenças. Por outro lado, a crença dos mestres da medicina, tais como os aludidos por Ferreira, em características e constituições particulares a partir das diferenças de clima e modo de viver dos diferentes povos, leva-os a concluir pela necessidade de mudar métodos terapêuticos diante de condições atmosféricas diferentes.

Um dos autores mais citados por Ferreira, o médico inglês Thomas Sydenham “promove”, na medicina de sua época, o retorno a Hipócrates, no sentido de valorizar mais as observações clínicas e a terapêutica pragmática. Sydenham erigiu como método central de sua prática médica a análise dos sintomas clínicos para melhor definir as doenças e discernir as específicas. A partir dessas observações, constata que as doenças se apresentam sob a forma de sintomas agrupados, e que estes contém regularidades. Ao demonstrar que variedades de manifestações mórbidas podem se organizar em quadros clínicos típicos, Sydenham comprova o sucesso de tratamentos específicos. Publica em 1676 suas observações clínicas, descrevendo, sobretudo, as febres epidêmicas (varíola, sífilis, rubéola, tísica). Sua metodologia para a descrição das doenças se resume em 4 regras seguidas por Alexandre em “Enfermidades Endêmicas”:



  1. reduzir as doenças a espécies determinadas (como fazem os botânicos em suas classificações).

  2. Observar com exatidão os menores fenômenos.

  3. Distinguir sintomas próprios e constantes dos acidentais e estranhos.

  4. Observar a estação que favorece mais uma determinada doença, na qual ela aparece mais com regularidade.

Sydenham concebe as doenças como distintas uma das outras, mas apresentando uma escala de similitudes. Objetivava elaborar uma classificação nosológica natural, objetivo este perseguido por muitos autores até o século XIX. Sua grande contribuição à História da medicina será introduzir a concepção de constituição epidêmica. Ao contrário da constituição hipocrática, que seria fixa em cada local, Sydenham valoriza o momento e o lugar. Para ele os aspectos ambientais são protagonistas na produção de doenças. Daí a necessidade de aprofundar-se nos conhecimentos das leis naturais. Tal domínio de saber permitiria diminuir o impacto da natureza sobre as pessoas. Dessa forma, essa concepção de causalidade de doença estimulou enormemente a tarefa de reunir dados climatológicos e nosológicos nesse período (EDLER)

A prática médica pregada por Boerhaave caracterizou-se por descartar as primeiras causas, em geral induzidas pelas aparências e aplicar experiências químicas, mecânicas e anatômicas às observações. Esse seria, segundo ele, o fio condutor da profissão médica. Como professor na Universidade de Leyde, influenciou o ensino médico em toda a Europa. Sua obra, publicada em Paris por La Mettrie, em 1740, traduz e estimula a leitura dos clássicos da medicina, abrindo novas perspectivas, renovando o hipocratismo e a didática médica. Sua contribuição mais significativa é a química, que considera particularmente importante para a medicina. Mostra-se contra a visão limitada de fermentação e destilação, ou das dualidades ácidas e alcalinas dos corpos, e favorável a uma abordagem matemática e mecanicista no estudo dos líquidos e sólidos do corpo humano. Daí seu interesse pela dinâmica da circulação do sangue. Boerhaave considera que a estagnação do sangue ou pequenas obstruções de circulação podem ser a causa de doenças. Acreditava na comunicação recíproca entre espírito e corpo, resultado do equilíbrio de sólidos e líquidos e do fluxo regular desses. Sua terapêutica é descrita por medicamentos para os líquidos e para os sólidos ou para os dois.

Ao iniciar seu estudo Alexandre Rodrigues Ferreira cita “o ilustre Boerhaave”, concordando com seu parecer em relação ao trato distinto que se deve dar às enfermidades, mesmo que estejam indistintas à primeira vista. Declara: “(...) talvez não difiram essencialmente entre si, seriam diferentes graus de uma mesma enfermidade. Mas pedem clareza e ordem no curativo médico e cada uma delas deve se tratar como uma febre distinta e separada”. Como observa Grmek, no século XVIII se dá a expansão da nosologia classificatória, e essa é uma das características do estudo de Ferreira, que invoca os conhecimentos dos mestres europeus.

A missão das expedições científicas do século XVIII era, de acordo com as instruções recebidas pelos naturalistas, procurar obter novos conhecimentos. A chave do progresso no futuro estava no conhecimento da diversidade natural e, estudar as produções da natureza implicava em obter novos conhecimentos com os índios, tais como, antídotos contra as enfermidades, novas drogas e seus usos.

A origem das doenças, no século XVIII, é comumente atribuída às condições climáticas. Alexandre Rodrigues Ferreira inicia esse seu estudo com o que chama de “Noção Física do País”, que, segundo ele concorre para agravar os males reinantes. Acredita que, a partir do conhecimento do ”Céu e do Terreno” em que vivem os habitantes da capitania, estes poderão avaliar suas qualidades e defeitos e assim se tratar das enfermidades mais comuns. Baseado nas informações das “Notícias do Lago de Xarayes”, feita pelo demarcador Antônio Pires da Silva Pontes Lemos, em 1786 _ que constitui primeira descrição geográfica do Pantanal, segundo Fátima Costa _, Ferreira traça um primoroso quadro geográfico da região descrevendo rios, lagos, enxurradas, ventos... Faz uma descrição detalhada de Vila Bela, capital da capitania, cidade construída em terreno alagadiço e conhecida por sua insalubridade. Segundo Fátima Costa, o naturalista observa também em uma memória de 1790, pouco depois de sua chegada a essa localidade, que não havia condições, para os que ali viviam, de se manter sadio. Os habitantes conviviam com doenças de todo o tempo e com as epidemias sazonais, “muitos morriam aos punhados neste cemitério do Brasil, a que se dá o nome de Mato Grosso”. Ainda segundo Fátima Costa, o percurso feito por Alexandre Rodrigues Ferreira e os membros de sua expedição do Pará ao Mato Grosso, com duração de 13 meses, foi perigoso e acidentado. Além das dificuldades naturais para transpor cachoeiras e matas, ele enfrentou deserções, rebeliões e doenças e, ao chegar à cidade, esta se achava atacada por epidemias.

No enfrentamento de tais dificuldades, Ferreira se vale da experiência dos que o precederam e dos habitantes locais que acompanham a expedição. Situação já apontada por várias autoras (Júnia, Márcia, Cristina), o cirurgião tem que se voltar para os conhecimentos da natureza, buscar os recursos locais, por força de vários fatores, distâncias, falta de médicos, de boticas e medicamentos. Razões que levam também ao afastamento progressivo dos conhecimentos europeus e à aproximação dos conhecimentos locais.

Os cirurgiões-barbeiros que atuavam na Colônia, detentores de aprendizado mais empírico, foram duramente criticados pela reforma pombalina que, em vão tentou impor a regulamentação do exercício da medicina pelo Protomedicato. Tanto Luiz Gomes Ferreira, autor do Erário Mineral, (1735) como José Antônio Mendes, autor de O Governo de Mineiros, (1770), citados por Rodrigues Ferreira, eram cirurgiões-barbeiros e escreveram manuais, em que aconselham terapêuticas, ingestão de medicamentos e fórmulas de fabricação própria contrariando ordens da metrópole. Tensões entre médicos e cirurgiões eram constantes e ambos se desculpam no prólogo de suas obras, justificando não ser delito contribuir para o bem-estar, e ser necessária essa colaboração diante da carência de recursos de assistência médica em muitas localidades. Carência de médicos na Colônia era a principal razão pela qual não era coibida a prática médica de empíricos.

“O que se espera da medicina é que ela seja útil” (MAZZOLINI, p.95), disposição clara do naturalista e de muitos de seus contemporâneos. O caráter utilitário do empreendimento de Ferreira foi analisado por muitos de seus especialistas e está presente em várias de suas memórias. Angela Domingues, analisando as viagens do período Iluminista, observa que os cientistas-naturalistas tecem uma rede de informações com o objetivo de fornecer ao Estado português mais conhecimentos sobre seus domínios, destacando suas potencialidades econômicas. Para tanto, é solicitada a colaboração dos habitantes locais. Durante sua viagem, Ferreira contou com o auxílio de dois índios, mais tarde nomeados alferes como recompensa.

O autor do Erário incorporou logo à sua farmacopéia ervas e produtos locais, já conhecidos e usados. Luiz Gomes Ferreira compreendeu que havia especificidade nas doenças, que deveria tratá-las de forma diferente do que aprendeu, mas que também havia dificuldade de se conseguir os medicamentos “europeus”, que aqui chegavam caros e deteriorados. A medicina a seu ver requer um conhecimento dos moradores locais, percebe a relação existente entre o modo de viver e a profilaxia das doenças. Antônio José de Araújo Braga, cirurgião da Diligência de Demarcação de Limites, autor de um relatório dirigido a Alexandre Rodrigues Ferreira, Tratado das enfermidades usuais da capitania do Rio Negro, de 1786, faz observações sobre a falta de recursos médicos na capitania. O próprio naturalista observa com pesar a carência da assistência médica em Belém – 2 médicos e 7 cirurgiões para uma população de 11.000 habitantes, em Diário da viagem filosófica pela capitania do Rio Negro, e cita o uso de manuais elaborados por cirurgiões, como o de Luiz Gomes Ferreira, por curandeiros que assistiam as populações em localidades distantes para tratarem “toda e qualquer enfermidade” (apud WISSENBACH, p.142). A liberação de prática era solicitada muitas vezes pelas próprias autoridades locais. Braga enfatiza a atuação dos índios remeiros de notável familiaridade com as moléstias e as drogas da região, único recurso que se podia ter.

Alexandre se vale não só da experiência de empíricos mais ilustrados, como os citados, como do conhecimento dos índios e da gente popular em vários momentos. Cita José Antônio Mendes, como autor de obra vulgar, “Do Governo dos Mineiros”, reproduzindo a receita de pílula para tratar de obstrução, em geral dada à gente pobre, índios e negros. Faz uso constante de suas próprias observações, como ao mencionar os padecimentos que sofreram na viagem, ele e o desenhador José Joaquim Freire. Mas não abandona os mestres europeus, invocando constantemente seus conhecimentos. Alexandre tem clara a noção de que o saber médico europeu é insuficiente contra o enfrentamento de moléstias próprias de outro clima. Na situação colonial, em que se encontram diferentes etnias, diferentes condições de vida e de trabalho, diferentes patologias, há a necessidade de se incorporar os conhecimentos locais. Para tanto, aconselha duas terapêuticas no tratamento das febres: o método europeu e o americano.

Finalizamos com a observação de José Augusto de Pádua, segundo a qual, o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira é dotado de uma notável sensibilidade ambiental: por prever a necessidade de se regular o uso dos recursos naturais, mesmo que sua ação não visasse a proteção da natureza em si, mas sim o bem estar daqueles que atentavam contra ela. E uma citação das primeiras linhas do opúsculo, emblemático do que foi aqui analisado:

“Depois de eu ter observado, pelo espaço de dois anos, quais eram as enfermidades endêmicas da Capitania de Mato Grosso; e de ter ao mesmo tempo reconhecido, que a maior parte delas não se remediava, como poderia ser, em se vulgarizando os necessários conhecimentos médicos, para com eles se suprir a falta de livros, e de professores: assentei comigo de vulgarizar os que possuía, ou fossem próprios, ou alheios; e concluído que fosse esse opúsculo, franqueá-lo aos que quisessem ler, e tirar dele o proveito, que se lhes pode seguir”.

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BIBLIOGRAFIA


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Códice: 1,11,25 Seção de manuscritos da BN/RJ :



FERREIRA, Alexandre Rodrigues. “Enfermidades endêmicas da capitania do Mato Grosso”.


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