No território da Educação Física outros olhares para o corpo: uma proposta de pesquisa com o cotidiano



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“No território da Educação Física – outros olhares para o corpo: uma proposta

de pesquisa com o cotidiano”



COPOLILLO, Martha – Universidade Federal Fluminense1

Na história, temos visto com freqüência, infelizmente, que o possível se torna impossível e podemos pressentir que as mais ricas possibilidades humanas permanecem ainda impossíveis de se realizar. Mas vimos também que o inesperado torna-se possível e se realiza; vimos com freqüência que o improvável se realiza mais do que o provável; saibamos então, esperar o inesperado e trabalhar pelo improvável”. (Morin,2000 p.92).

No campo da Educação Física inúmeras pesquisas têm se debruçado sobre o corpo. Discutir, problematizar, investigar, conceituar, historiar por meio de vertentes antropológicas, sociológicas, biológicas, etc., em muito contribuem, fazendo avançar bastante, essa área de conhecimento e, ressaltando a importância da compreensão dos processos de constituição e de significação dos corpos na sociedade.

No bojo dessas discussões, minhas reflexões vêm me instigando a mergulhar nas questões do corpo buscando novas tensões e enfrentando rupturas que historicamente se fazem presentes, como a dicotomia corpo/sujeito. Sigo esse caminho com NAJMANOVICH (2001), e ao pensar em investir com novos sentidos para buscar um estado constante de questionamento em relação a essa dicotomia “abro as portas ao pensamento complexo para produzir uma abordagem que permita pensar uma mente corporalizada e um corpo cognitivo emocional” (p.10), ou seja pensar num “corposujeito” 2

Como diz SANTOS(2002), “a existência esgota as possibilidades da existência e portanto há alternativas susceptíveis de superar o que é criticável no que existe”(p.23).

Dessa forma, trouxe para essa pesquisa um desejo de mergulhar com todos os meus sentidos”3 em investigações que marcam as relações que se estabelecem entre a Educação Física e o corpo a partir de alguns sujeitos que as tecem, ou seja, os(as) professores(as) que vivenciam diversas experiências no dia-a-dia de suas “açõesreflexões” cotidianas.

MARTIN-BARBERO, um pesquisador latino-americano, me ajuda a caminhar redesenhando minhas reflexões mostrando que é preciso mudar o lugar do qual as perguntas são formuladas. Esse mesmo estudioso diz que a tendência se faz em avançar tateando, tendo apenas um “mapa noturno”, ou seja “um mapa que sirva para questionar as mesmas coisas a partir do outro lado, um mapa que reconheça a situação a partir da mediação e do sujeito” (1997, p.287.) O que eu acrescentaria aqui é que devemos nos arriscar também, nas possibilidades de nos aventurarmos por outras indagações que as múltiplas redes de conhecimentos irão nos trazer.

Mapeando o território a ser explorado

Como professora de Educação Física, venho ao longo dos anos “mergulhando” nas múltiplas questões que cercam os processos de constituição dos corpos na sociedade.

Sigo com NÓVOA (1995), compreendendo que o interesse por essa trama está enredado na minha “dimensão pessoal” que indissociável da minha “dimensão profissional” vão trançando os diversos percursos que dão sentido a minha “dimensão práticateoriaprática”.4

Nesse caminhar dei início a uma pesquisa que desenvolvi no Mestrado, na qual professores(as) de Educação Física falaram, como sujeitos telespectadores, acerca das concepções de corpo que ganham visibilidade na mídia televisiva, problematizando os modelos e padrões de uma estética corporal na atualidade.

Essa pesquisa não teve a pretensão de apresentar um resultado, pois pensando com MORIN (2000),busquei elaborar uma compreensão do que vivi a partir do “paradigma da complexidade”, onde as verdades definitivas saem de cena para dar lugar as provisórias, abrindo muitas possibilidades de leituras dessas narrativas e diferentes recortes da realidade.

Assim sendo, nesse exercício de me fazer pesquisadora, não cheguei a uma conclusão, apontei apenas o que chamei de alguns caminhos possíveis, caminhos esses pelos quais optei sabendo que toda opção implica em perdas e ganhos.

Esses caminhos foram me dando algumas pistas que me instigam a caminhar por outras trilhas e atalhos, para (re)pensar algumas questões que giram em torno dessa temática e, que me desafiam cotidianamente no exercício contínuo da “profissão professora pesquisadora”.(GIROUX, 1998).

Foi pensando assim que decidi continuar...

Durante esse meu caminhar dentro das lógicas dos cotidianos trago à tona um importante suporte teórico que vem me dando sustentação, que é a “noção de rede”(ALVES E GARCIA,1997)
empregar a metáfora das redes é assumir uma forma de pensar que entende a realidade como relações, agendas pessoais e coletivas que se relacionam, sem continuidade, sem permanência, mas sempre em relação com este ou aquele, afirmando-o ou negando-o, e neste processo criando conhecimentos que podem ou não ser registrados, oralmente ou pela escrita, mas que serão acumulados na medida em que tiverem sentido para os que participam de sua tessitura, mesmo quando negados pelo poder. Estes conhecimentos podem ser “perdidos” em algum ponto da trama, mas como nela os caminhos vão e vêm, jamais em linha reta, podem ser reencontrados em algum outro momento, nos caminhos descaminhos, atalhos e pausas que se façam”(p.26 e 27.
Como foi importante provar e saborear desse entendimento, não tomando-o como conceito, mas compreendendo-o, por conseguir enxerga-lo nos meus cotidianos. Foi então, que dele me fartei, como quem abre uma caixa de bombons variados e vai tirando um a um, sabendo que uns são doces e outros mais amargos. Assumindo os prazeres que essas guloseimas nos dão, mas sabendo também que comer muitos chocolates nos expõe a alguns riscos; e com isso me permitindo até optar por não comer alguns bombons ou deixar alguns bombons pela metade, sem comê-los por inteiro, e sem sentir culpa por isso, pois entendo que, às vezes, achamos que queremos e não queremos, achamos que podemos e, na verdade não podemos... E mais do que tudo, (re)criando, nesse caminhar, conhecimentos que estão enredados em outros contextos de conhecimentos já visitados e que, ao mesmo tempo, nos solicitam visitar uma multiplicidade de contextos de conhecimentos que antes achávamos que desconhecíamos, e perceber como todos esse contextos estão imbricados.

A constituição das história cotidianas: os corpos em foco

Parto do princípio que quando falo de corpo, não estou falando somente de um conjunto de ossos, músculos e nervos...,mas sim de um corpo que tem uma história, que é produto e produtor de cultura e, que sobretudo traz registros e marcas sociais dos múltiplos contextos com os quais esta se constituindo . A partir desse posicionamento, me inclino a dizer que não existe uma história do corpo e sim histórias, bem como, não existe uma concepção, e sim concepções, portanto não há um corpo e sim corpos.

No entanto, o que vivemos e esbarramos a todo momento é com um esforço contínuo de produção social de um modelo, um padrão de corpo que ganha visibilidade nos ambientes familiar, de trabalho, de lazer, na mídia, no espaço escolar... Modelo esse, geralmente de um corpo jovem, branco, magro, com musculatura definida ..., que não só assume um lugar de destaque e prestígio social, como também se associa, de forma linear e direta ao sucesso e a felicidade. E mais, passa a ser referência para desqualificar e hierarquiza corpos que se diferenciem desse padrão.

Não podemos negar as relações de poder que permeiam o tecido social e, especificamente, as que trabalham no sentido de conformar os estereótipos corporais, esforçando-se para constituir uma concepção hegemônica de corpo.

Mas, ao “mergulharmos” com todos os sentidos na vida cotidiana percebemos que o cotidiano vivido é aquele que não comporta generalizações e que nos coloca constantemente frente a muitas interrogações. Então, pensando com FOUCAULT (1997), o poder para ser exercido precisa se infiltrar e dessa forma se encontra tecido nas múltiplas redes, em todo e qualquer espaço cotidiano, contudo, essas redes, sempre em movimento, vão nos dando indícios de que o poder não se absolutiza, porque nessas redes existem também os movimentos de resistências e criações CERTEAU(1998). Dito dessa forma, penso que onde há poder, há também resistência, portanto esse processo de convencimento não se dá de forma tranqüila, sem conflitos e embates.
Das falas da Professora NILDA ALVES junto ao Grupo de Pesquisa que coordena e no qual venho me colocando ”à deriva”, como se “fosse um barco que vem se reconstruindo em pleno mar” (SANTOS,2001),5 vou compreendendo porque vou vivendo que nos estudos “dos com” os cotidianos a centralidade das questões não se coloca nos poderes exercidos e sim como e de que de que maneiras o poder é transgredido, burlado. Ou seja, como é que nesses “espaçostempos” apropriados por modelos e padrões corporais, outros modelos e padrões continuam sendo produzidos e criados.

Parto do pressuposto que é nesse campo de tensões que devemos refletir acerca de como determinados corpos são construções históricas/culturais e vão se legitimando como representações corporais aceitas socialmente, enquanto outros corpos não.

Nesse sentido, a Educação Física enquanto área de conhecimento e prática social, bem como nós, professores(as) que trabalhamos com a cultura corporal de movimento, precisamos ler criticamente essas representações corporais ditas hegemônicas, e procurar desnaturalizar o que nos parece dado como sendo “natural”, “normal”, ao pensarmos nos modelos e estereótipos corporais.

Sabendo que existem muitas lógicas, entre os muitos caminhos possíveis, referendada por ALVES (2001), assumi para essa pesquisa, o que evidencia que é preciso ouvir os professores(as) e registrar a memória que eles(as) têm das múltiplas experiências que viveram/vivem nos processos de criações e (re)criações das histórias de seus próprios corpos. Ainda pensando com essa professora pesquisadora “nos/dos/com” os cotidianos, os sujeitos pensam muito além daquilo que lhes é imposto, o que nos remete a CERTEAU (1994), quando em nossas memórias de professoras(es) nos lembramos das “táticas de praticantes” que nossos(as) alunos(as), e nós mesmas, criamos para conviver os aprisionamentos cotidianos.

Quando opto por seguir esse caminho, estou apostando que ao trabalhar com narrativas, memórias e imagens de docentes de Educação Física, colocando o processo de auto-reflexão no centro dessas reflexões que se tecem a partir das “dimensões pessoais/profissionais/práticas”, estou abrindo possibilidades de questionamentos, problematizações e ressignificações de estereótipos e preconceitos relacionados a modelos e padrões corporais que estão postos na nossa sociedade.

Os estudos com os cotidianos não pretendem responder as questões que se colocam; o que está posto é a busca por compreender como cada um e todos os sujeitos se movimentam, ou seja, o importante para essas pesquisas é como que as pessoas vão dialogando, tecendo relações e (re)criando valores. 6

Os trabalhos com os cotidianos exige de nós uma disponibilidade de nos colocarmos em buscas, de nos abrirmos as pluralidades e, de imersas nesse ousado processo mostrar os caminhos que optamos por percorrer, bem como as dúvidas que emergem a partir das nossas opções.

Como pesquisadora reconheço as múltiplas limitações desse estudo, mas tenho como proposta dialogar co as histórias de vida de um grupo de professores(as) de Educação Física que a partir de suas dimensões “pessoais/profissionais/práticas”, (re)criem as histórias dos seus próprios corpos.

Acredito que nessas falas, nessas narrativas, diferentes concepções de mundo vão aparecer e, conseqüentemente, diferentes concepções de corpos. Bem como, acredito que o difícil exercício de ouvir/dialogar com essas histórias irá contribuir para potencializar uma discussão coletiva em torno do espaço escolar público, que é um campo fértil para a construção de uma proposta político-pedagógica emancipadora da Educação Física, que numa luta contra-hegemônica compreenda que as diferenças estão no mundo e que é necessário que ao invés de tentarmos o que é impossível, ou seja, igualá-las, e quem sabe ainda pior, inferiorizá-las, o que precisamos é aprender a conviver com elas.

As história de vidas de professores(as) de Educação Física são histórias que também se fizeramfazem nos cotidianos das escolas e das suas aulas. Essas histórias vão tecendo uma rede de significados e significantes no passado, com o presente e para o futuro. Essa tessitura ata e desata nós, mostra a dimensão vida em suas múltiplas possibilidades e limites, inclusive nas possibilidades de potencializar uma nova vida para a Educação Física enquanto prática social e, para uma prática docente que resista as simplificações e rompa com modelos instituídos para fazer acontecer uma outra Educação Física, a “Educação Física da desordem”.7


] “Para uma Educação Física da desordem: as(os) professoras(es) e as “táticas” do cotidiano – alguns caminhos possíveis”
“Pesquisar com o cotidiano escolar é, assim, um trabalho de busca de compreensão das táticas e usos que os(as) professores(as) desenvolvem no seu fazer pedagógico, penetrando astuciosamente, a cada momento, no espaço do poder” (OLIVEIRA, 2001 p, 187).

Ao longo da minha trajetória pessoal/profissional, desde os tempos de professora no espaço escolar até os dias de hoje puxo os fios que vão me ajudando a tecer uma trama, que de diversas formas vem me mostrando que os(as) professores(as), apesar das desvalorizações que sofrem tanto do ponto de vista financeiro, quanto do ponto de vista do reconhecimento de suas múltiplas possibilidades de trabalhos, estão interessados em buscar espaços para refletirem, discutirem sobre suas práticas e dar continuidade aos seus processos de formação.

Tomo como um dos exemplos possíveis para justificar a minha fala anterior o Curso de Especialização em Educação Física Escolar do Departamento de Educação Física da UFF, que se encontra a caminho da sua décima sétima edição. A oportunidade que tenho de trabalhar no referido curso, enriquece o meu processo de formação cotidianamente.

Nas relações de trocas das nossas “açõesreflexões” e das experiências vividas, potencializa-se um espaço de relações dialógicas onde compartilhamos nossas dúvidas, dificuldades, os impasses, e, também os saberes, as criações e as alternativas que se produzem no cotidiano escolar e que apesar do instituído fazem a escola acontecer.

Estes docentes criam, inventam, (re)inventam e, dessa forma, movidos pela sensibilidade e pelo desejo de resistir e buscar uma prática pedagógica mais conseqüente, produzem “novas maneiras de fazer”. É o que Certeau (1998), vem chamar de “táticas” que vão produzindo movimentos e dando indicativas de outras formas de “usos” do que está posto, produzindo cotidianamente saberes e criando “maneiras de fazer”. Esses cotidianos de que falo são os “lugares praticados’; é o dia-a-dia que se tece e se retece nos impedindo de senti-lo como mesmices e banalizadas repetições para se mostrar a todo o momento novo e surpreendente. São cotidianos como “espaçostempos” que não são só de reproduções mas, também, de produções.

Escrevendo isso, me vem à memória uma fala da professora Regina Leite Garcia, que num Seminário na UERJ8, disse que “as marcas do cotidiano são sa imprevisibilidades”. E, apesar do cenário configurado, produzido pelo discurso oficial e por quem faz as políticas públicas educacionais, sempre pensando na escola de forma reducionista e homogênea, essas marcas do que é imprevisível, do que é vida estão lá. Ainda dito pela mesma pesquisadora, venho concordando que “se existe alguma norma essa norma é a diferença”


A escolha do percurso metodológico
Cotidiano é movimento, é construção social e histórica da ação humana” (Pérez 2003, p.117)
A pesquisa “com nos” cotidianos vem me conquistando cada vez mais que vou compreendendo, porque vou vivendo, a complexidade que se mostra mutante e imprevisível nos processos das relações sociais e, conseqüentemente nos processos das relações que se tecem nas práticas pedagógicas escolares.

Os percursos que percorremos e os que ainda vamos percorrer nos estudos com os cotidianos são grávidos de complexidades e nos desafiam como nos coloca MORIN (2000), ao exercício para o “pensamento multidimensionalbuscando, sobretudo, caminhos para o “pensamento dialógico”. Neste momento, penso com o autor já citado que os métodos com os cotidianos são como o método da complexidade que:

...pede para pensarmos nos conceitos, sem nunca dá-los por concluídos, para quebrarmos as esferas fechadas, para reestabelecermos as articulações entre o que foi separado, para tentarmos compreender a multidimensionalidade, para pensarmos na singularidade com a localidade, com a temporalidade, para nunca esquecermos a totalidade integradora”( p.192).
Essa constatação me aproxima de um modo de fazer pesquisa que se afasta das concepções positivistas das ciências clássicas, que com base num paradigma cartesiano separa sujeito/objeto, sentimento/razão, e trabalha com uma pretensa neutralidade que visa o alcance de um rigor científico que não nos permite “esperar o inesperado”(MORIN,2000).

Foi a partir das minhas vivências “pessoais/profissionais” que fui fazendo as escolhas para caminhar no processo de “tessitura” dessa pesquisa. Sei que muitos fios foram puxados de uma adolescente gordinha que optou por fazer Educação Física e, junto com tantos outros professores(as) passou por maus e bons momentos no exercício da prática docente cotidiana em interação constante com outros contextos de vida.

Na minha opção de dialogar com os meus pares, essa “pretensa neutralidade” não existe, como pesquisadora sou professora e, portanto sujeito da minha própria pesquisa, bem como, sei que ao ouvir as falas dos(as) professores(as), buscando respeitar as histórias narradas por eles(as), estou me pondo em diálogo com as mesmas. Quando escolho algumas falas, quando destaco fragmentos de uma história, como pesquisadora também estou ali, nessas palavras, no que foi dito e naquilo que dito não foi evidenciado. Faço uma leitura de um recorte da realidade, sabendo que estou trazendo interpretações envolvidas em sentimentos diversos, que ao longo dos anos a ciência positivista insistiu em não considerar. Penso com JESUS (1998), que “esta metodologia exige que o(a) pesquisador(a) esteja aberto para que o contexto vai responder, que tenha sensibilidade para dialogar com o contexto e com o que ele traz” (p.12). Então, o inesperado brota e pode nos trazer questões que nos possibilite tencionar modelos e situações que temos cristalizados.

Como diz ALVES (2005), a pesquisa com o cotidiano é como uma “bordadura”, e em meio a tantas possibilidades de linhas diferentes, qual escolheria para iniciar esse bordado? Então retomo um primeiro desenho que comecei a fazer na minha dissertação de mestrado e me vem à linha das imagens.

Olhando para o caminho que venho trilhando nesse exercício contínuo de pesquisadora da temática corpo, me chama a atenção o espaço que ocupa no cotidiano das vidas das pessoas a “cultura da imagem”, o que abala a hegemonia da “cultura escrita” que ainda prevalece no ambiente escolar, e nos aponta para a necessidade de ampliação do conceito de “textos”. ALMEIDA(1998), citado por GOELLNER E MELO(2001), nos fala que:
A imagem, uma gravura, uma pintura, uma fotografia revela-se de uma só vez. Permite que o olhar delimitado somente pelas bordas, comece a vê-la a partir de qualquer ponto, vagueie por ela em diferentes direções, permaneça onde quiser, imagine. A forma imagem, com suas linhas, superfícies, perspectivas, manchas, é também a forma de pensar o que a imagem mostra. Os significados das imagens são também os significados de como elas se mostram. E aí as imagens tornam-se signos. Então, também, se lê uma imagem. Uma imagem é um texto”(p,122).

Recordo-me que quando coloquei em foco a problematização das concepções de corpos, o fiz a partir da evidente utilização das imagens de corpos que circulam nos múltiplos contextos de vida. Bem, se quero que um grupo de professores(as) (re)criem as histórias de seus próprios corpos, por que não fazer isso a partir de suas próprias imagens?

Retratos: -os antigos, os guardados já quase amarelados pelas marcas do tempo quantas histórias! Lembranças, recordações, boas ou más aparecerão aquelas que de alguma forma nos marcaram, pois como nossa memória é seletiva, algumas virão à tona outras manteremos no fundo do baú, mas contudo, com as que se evidenciam ou com as que se silenciam estaremos construindo e (re)criando uma história.

E os mais novos, os atuais –mudanças, movimentos, transformações,comparações, e mais uma história! Outra e outra... quantos sabores, gostos, cheiros, olhares, trocas, opções, alegrias, tristezas, orgulhos, arrependimentos, medos, desejos, frustrações, modelos, rebeldias,... enfim quantos sentimentos e sensações diferentes porém não independentes se fazem presentes nesse processo.

Quantas possibilidades essas diversas histórias, desses sujeitos do mundo, estarão abrindo espaços para reflexões acerca das concepções hegemônicas de corpos que circulam nos contextos sociais e, conseqüentemente estão também nos cotidianos das escolas, em nossas aulas. Ainda mais, o quanto essas diversidades possibilitarão também o nosso entendimento de que essas concepções, que apesar de serem vistas como hegemônicas não são as únicas.

Ao longo desse percurso, faço mais uma escolha. Quem seriam os meus pares? Opto então, por trabalhar com alguns professores e professoras que estão cursando a Pós-graduação em Educação Física Escolar no Departamento de Educação Física da UFF. A proximidade que tenho com esses docentes, por atuar no referido curso, me permite dizer que os (as) professores(as) que atuam no espaço escolar público e se envolvem nesse processo, sempre inacabado, de formação assumem o desejo de lutarem por uma educação pública de qualidade e se abrem ao desafio de discutir, a partir de suas vivências e experiências, as complexas relações que se tecem em seus cotidianos, como as que se configuram quando falamos de “corpos” nas aulas de Educação Física.

Todas as escolhas que venho fazendo ao longo da apresentação dessa pesquisa mostram quem sou e para aonde quero ir. Mas e agora? Preciso dizer onde estou. Esse trabalho conta uma pesquisa em andamento que teve inicio em março desse ano, quando ingressaram os alunos(as)-mestres que foram aprovados para fazer o XVI Curso de Pós-Graduação em Educação Física Escolar na UFF.

Como temos duas turmas, com quinze alunos em cada uma, foi feito por mim, um convite para uma primeira reunião para que eu pudesse explicar a minha intenção de pesquisa e então a partir daí, os interessados em participar se colocaram como voluntários. Feito dessa forma chegamos a um grupo de professores(as) que se engajaram na proposta e, desde então, estamos todos, sujeitos dessa pesquisa construindo juntos uma dinâmica de trabalho, que mesmo agora, ainda muito embrionária motiva a todos nós, nos da prazer e nos mostra possibilidades de ricas discussões acerca dessa temática.

A experiência desse processo tem nos mostrado que negociações são possíveis quando existe diálogo, respeito ao outro(a), companheirismo, solidariedade e vontade política de realizar em busca de uma outra sociedade, mais feliz e menos preconceituosa.

O que trago para esse texto é uma proposta de pesquisa em andamento e apenas um dos muitos trabalhos possíveis, que estando em processo, abro ao diálogo com tantos outros(as) sujeitos do mundo, que assim como eu, estamos interessados em abrir processos de tessituras de conhecimentos comprometidos com um projeto de sociedade mais solidária, na qual os diferentes não sejam desconsiderados e desrespeitados.



Referências bibliográficas:

ALVES, Nilda , GARCIA, Regina Leite (Orgs.) O Sentido da Escola. R.J.: DP&A, 1999.

ALVES, Nilda. A formação da professora e o uso de multimeios como direito, In: FILÉ, Valter(Org.) Batuques, fragmentações e fluxos: zapeando pela linguagem audiovisual escolar. R.J.: DP&A, 2000.

___________. Decifrando o pergaminho – o cotidiano das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de, ALVES, Nilda (Orgs.). Pesquisa no/do cotidiano das escolas – sobre as redes de saberes. R.J.: DP&A,2001.

BRUHNS, Heloisa Turine e GUTIERREZ, Gustavo Luis (Orgs). O Corpo e o Lúdico. Campinas. S.P.: Autores Associados,2000.

CERTEAU, Michel de. A invenção do Cotidiano. Artes de Fazer. Petrópolis, R.J.: Vozes, 1998.

ESTEBAN, Maria Teresa. O que sabe quem erra? Reflexões sobre avaliação e fracasso escolar. R.J.: DP&A,2001.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis, R.J.: Vozes, 1987.

GIROUX, Henry ª McLAREN, Peter – Por uma pedagogia crítica da representação. In:SILVA, Tomaz Tadeu da, MOREIRA, Antonio Flávio (Orgs.). Territórios Contestados – O currículo e os novos mapas políticos culturais. Petrópolis, R.J.: Vozes,1995.

GOELLNER, Vilodre Silvana, MELO, Andrade Vitor de. A Educação Física e a História: A literatura e a imagem como fontes. In: CARVALHO, Yeda Maria da, RUBIO, Kátia (Orgs.) Educação Física e Ciências Humanas. S.P.: Hucitec, 2001.

JESUS, Regina de Fátima de. Professores de Escola Pública – Por que ficam? Uma história a contar. Dissertação de Mestrado – UFF, 1998.

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MARTIN-BARBERO Jesus, Comunicação Plural: Alteridade e Sociabilidade. In: Revista Comunicação & Educação. S.P. (13): 7-14, set/dez. 1997.

NAJMANOVICH, Denise. O Sujeito encarnado.Questões para pesquisa no/do cotidiano. R.J.: DP&A,2001.

NÓVOA, Antonio (Org.). Vida de Professores. Portugal, Editor Porto Editora, 1995.

SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências. Edições Afrontamento, 2001.



1 Professora do Departamento de Educação Física da UFF

Coordenadora do Curso de Especialização em Educação Física Escolar



2 Essa forma de escrita vem sendo usada por pesquisadoras que “com” os cotidianos buscam, segundo ALVES (2005) chamar atenção para o problema que se apresenta quando o pensamento é marcado por dicotomias, e separa-se o que não deve ser separado, posto que um só faz sentido com o outro, como por exemplo “teoriaprática”, “espaçotempo”, “corposujeito”...

3 “mergulhar com todos os sentidos” é uma forma de expressão que trago para esse texto com referência nas pesquisas desenvolvidas pela Professora Drª Nilda Alves em seus escritos e, na oportunidade que tenho de participar do seu grupo de pesquisa na UERJ, com o qual tenho vivenciado esse “mergulho”.

4 Como nos coloca Alves(1999), sabemos que não existem disciplinas eminentemente práticas, mas sob essa terminologia os conhecimentos práticos aparecem na escola em todos os níveis.

5 BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS, na Conferência “O novo milênio político”, realizada no dia 18 de maio de 2001, organizada pelo Laboratório de Políticas Públicas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

6 Segundo a pesquisadora DRª NILDA ALVES “valores são conhecimentos especiais que nos levam a ações...”(2005).

7 A palavra desordem é usada dentro da lógica que lhe atribui Morin(2000), quando desenvolve a idéia de que “ordem demanda um diálogo com a desordem, ...e que uma e outra podem ser duas faces do mesmo fenômeno”(p.202). O que quero dizer que ao mesmo tempo que penso no caos que se instala quando falo do que vivi na educação física nas escolas, sei que é mergulhando nesse contexto que posso perceber que ordem e desordem caminham juntas em busca de uma outra forma de organização da educação física escolar.

8 Conferência “O novo milênio político”, realizada no dia 18 de maio de 2001, organizada pelo Laboratório de Políticas Públicas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.




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