“Não vai entender de amor quem nunca soube amar”



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Encontro02.08.2016
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Formar politicamente os jovens

Alexandre Aragão

 

“Não vai entender de amor quem nunca soube amar”


Geraldo Vandré
Da companheira e filósofa Francisca Pereira, como resposta ao meu último artigo “Sem Perder a Maternidade”, recebi o incentivo de continuar relacionando minhas pequenas compreensões sobre a realidade política com a pessoa de Maria de Nazaré, pois, no seu entender, Maria representa o melhor que a humanidade produziu em termos de ação e discurso políticos.
No mesmo instante, ao abrir a correspondência eletrônica, pude ler o artigo de Frei Beto, “A Cultura Neoliberal Teme o Idealismo Dos Jovens”, enviado pela não menos amiga, a socióloga-doutora Teresa Nobre, no qual o autor denuncia três recursos utilizados pela ideologia em questão para neutralizar as motivações utópicas da juventude, a saber:
        Extirpação do caráter histórico do tempo.

        Redução da cultura ao mero entretenimento.

        O consumo (eu ampliaria para o Utilitarismo) como fonte de valor humano.

 

Sabe-se que ao receber o anúncio do anjo Gabriel como a escolhida para ser a mãe do Messias Libertador, Maria havia na época em torno de 15 anos de idade. Portanto, uma judia, em plena flor da juventude, por atributos especiais encontrara graça diante de Iaweh.


Com 15 anos de idade, o que a menina tem a revelar para jovens e adultos de hoje?
Primeiramente, uma atitude de profunda reflexão diante da vida. Diz o evangelista que, após o anúncio do anjo Gabriel, ela “inquietou-se com essas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação” (Lc 1,29). Sua reflexão não se dá apenas de uma forma interiorizada, individual, mas dialógica, através do colóquio mantido com o emissário divino. Ela não tem medo de perguntar, de questionar, para poder compreender melhor e claramente: “Como se fará isso?”. E logo após ter compreendido, a adesão, o compromisso com o fato histórico se dá imediatamente, mudando os planos iniciais que se propusera a si, potencializando a utopia da qual era possuidora. Ela reflete e age.
Em segundo lugar, um conhecimento cultural espantoso da história do seu povo e de sua história. Com apenas 15 anos de idade, na saudação que faz a sua prima – a também utópica Isabel - num dos mais belos encontros entre gerações, Maria revela-nos a potência de sua visão: “Olhou para a humildade de sua serva... Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes ... Saciou de bens os famintos e despediu os ricos com as mãos vazias”.(Lc 1, 46 – 56).
Por último a atitude de dom, não de consumo nem de utilitarismo. Ela foi às pressas estar com Isabel para ser-lhe solidária, em ação e discurso, com fatos e na verdade. A imagem literária de “subir as montanhas” é muito significativa porque no mesmo tempo em que indica o esforço-compromisso desprendido por Maria na visita a Isabel, impele-nos a contemplar a grandiosidade da ação fraterna e solidária, que eleva a todos aqueles que fazem de seu viver um contínuo dom.
Aristóteles, um dos grandes pensadores políticos de todos os tempos, tem a clara consciência do que está em jogo na política é a obra do homem enquanto homem: para sermos plenamente homens, precisamos ser políticos. Demócrito por sua vez aponta para o ensinamento que a arte política conduz: a produzir o que é grande e luminoso.
E de que é feita essencialmente a política?
De ação e discurso. Sem a ação para por em movimento no mundo um novo começo de que cada pessoa humana é capaz pelo simples fato de haver nascido, sem o discurso para materializar e celebrar as coisas novas que resplandecem e sem o poder como espaço para permitir a produção da ação e do discurso, “nada de novo haverá debaixo do sol”.
Mostesquieu já advertia que “a principal característica dos regimes tirânicos ou despóticos é o isolamento: isolamento do tirano em relação aos súditos, e dos súditos entre si através do medo e da suspeita generalizada”. E Heráclito afirmava: “o mundo é um só, comum a todos os que estão despertos; mas, quando alguém dorme, retira-se para o seu próprio mundo”.
A condição humana é a pluralidade: somos humanos porque existimos com outros iguais a nós e distintos, simultaneamente.
Talvez alguns aspectos, não ligados necessariamente à referida ação neoliberal de alienação, estejam afugentando a juventude da ação política.
Em primeiro lugar, uma falta de compreensão do que seja o poder, não fazendo a devida diferenciação da violência e da força. Nas palavras da cientista política Hannah Arendt, “é o poder que mantém a existência da esfera pública, espaço potencial da manifestação entre homens que agem e falam; e o que primeiro solapa e depois destrói as comunidades políticas é a perda do poder e a impotência final. O poder só é efetivado enquanto a palavra e a ação não se divorciam, quando as palavras não são vazias e os atos não são brutais, quando as palavras não são empregadas para velar intenções mas para revelar realidades, e os atos não são usados para violar ou destruir, mas para criar relações e novas realidades”.
Ao confundir o poder com a violência ou com a força, os jovens sedentos de luz e de obras grandiosas talvez sintam-se desmotivados ao engajamento. Portanto parece ser fundamental esclarecer não apenas teoricamente, mas numa práxis comprometida e comunitária, os jovens quanto à essência do poder como meio, pois, continua Hannah, “o único fato material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens; estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns aos outros que as potencialidades da ação estão sempre presentes; todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência, renuncia ao poder e se torna impotente, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam as suas razões”.
Em segundo lugar, os jovens precisam de uma elaboração teórica que seja consistente e pertinente à essência da política, que tem como objetivo o bem de todos, indistintamente. A história já nos revelou que a redução da realidade humana à simples dimensão ideológica de Classe, de Raça, de Nação-Estado, de Utilitarismo, de Apropriação da Riqueza Produzida, foram e são causadoras da violência, produtoras de extermínios infames e inesquecíveis.
O discurso e o ato precisam andar juntos. Os jovens são sedentos de verdade, de coerência, de beleza, de vida. A filosofia da História nos confirma que os meios precisam ser compatíveis com os fins; não se pode adotar o mal para querer-se atingir um pressuposto bem. Se a finalidade da política é o bem, ou como alguém já definiu, “a política é o amor dos amores”, o método de atuação política precisa ser um método amoroso, solidário, capaz de respeitar a pessoa e grupos humanos em toda a sua essência integral. Nas palavras da deputada federal italiana Lucia Crepaz, “se a liberdade inspira a normatização dos direitos e a igualdade dita as condições para a redistribuição da riqueza, a fraternidade define a relação social entre as pessoas, porque define a mim em relação ao outro e define o outro em relação a mim, dando-nos o nome de irmãos. A fraternidade revela-se como a única categoria capaz de corresponder à dimensão global que a política deve ter hoje”.
Quem sabe, ao assumirmos esse compromisso com os jovens teremos, num futuro próximo, infinitas Marias: contemplativas, reflexivas, comprometidas na ação, conhecedoras da história a ponto de captar os sinais dos tempos, vitalmente solidárias com todos os seres humanos e com toda a Criação, construtoras de um mundo novo de verdade!


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