Noções de Raça e Eugenia em Monteiro Lobato: vida e obra. Maria Ana Quaglino, Ph. D. in History ucla



Baixar 53.45 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho53.45 Kb.


Noções de Raça e Eugenia em Monteiro Lobato: vida e obra.
Maria Ana Quaglino, Ph. D. in History - UCLA.
Resumo: O objetivo deste trabalho é o de relacionar as representações de raça e eugenia apresentadas na obra de Monteiro Lobato com teorias e noções “científicas” que as inspiraram. Para explicar a passagem de fragmentos de um discurso tido então como científico para o universo do senso comum, através de um mediador privilegiado e de uma literatura produzida explicitamente para o mercado, considerarei a trajetória de vida do renomado escritor, analisando em particular a formação de seu habitus “racial” e as representações de raça e eugenia presentes em sua obra. Mais de 50 anos após a morte de Monteiro Lobato, sua obra infantil continua sendo reeditada com sucesso sem que se faça qualquer esforço para apresentá-la como um produto historicamente datado e que merece ser lido enquanto tal.
I - Introdução:

A obra infantil de Monteiro Lobato há muito envelheceu no que diz respeito a representações de raça, sem que suas reedições tenham o cuidado de alertar o leitor para o fato. A quase contínua presença de várias versões adaptadas das histórias do “Sítio do Pica-pau Amarelo” na televisão brasileira, desde os anos 1950, e o sucesso dos livros entre crianças de gerações passadas—hoje pais, avós e bisavós—impulsionam estas reedições, onde o editor não esquece de modernizar as ilustrações, de fracionar os livros em folhetos para diminuir o volume de texto a ser lido, de excluir os textos que contêm informações desatualizadas de história, geografia ou gramática, mas não lembra da fundamental tarefa de reeditar a obra contextualizando-a. As escolhas do que reeditar da obra não escondem—e nem devem, como tentam fazer os adaptadores de Lobato infantil na TV—uma característica da obra e do “habitus” deste autor: a presença de fragmentos de teorias e noções sobre raça e eugenia, que tratavam da identidade “racial” do brasileiro, hoje sabidamente equivocadas e que agora só tem a função de manter vivos preconceitos.

A bibliografia que analisa as questões de raça e de eugenia em Monteiro Lobato tende a analisar—quando chega a tanto—apenas parcialmente a vida e a obra do autor. Pouco ou nada trata a respeito da formação “filosófica” do autor e do impacto desta tanto na sua obra de adultos quanto na obra infantil. É muito comum encontrar trabalhos que tomam o episódio da revisão da imagem do personagem “Jeca Tatu”, inicialmente apresentado como “caboclo” e “degenerado,” como evidência de que Lobato abandonara ali—em virtude do seu contato com o movimento higienista, particularmente com Artur Neiva e Belisário Penna—as teorias de raça que bebera em Gustavo Le Bon, Hippolite Taine e Ernest Renan. Uma análise da correspondência do autor com cientistas da época (como os já mencionados, bem como Oliveira Vianna, Renato Kehl), literatos, editores estrangeiros, amigos e parentes, assim como da obra adulta e infantil do autor revelam que Lobato até o fim da sua vida, em 1948, não repudiou tais idéias e que estas estão presentes ao longo de sua obra.

Neste trabalho estarei apresentando, de forma condensada, alguns dos argumentos que desenvolvi na minha tese de doutoramento sobre raça, gênero e identidade nacional na vida e obra de Monteiro Lobato, bem como na primeira adaptação para a TV da obra infantil do autor. Utilizando como referencial teórico os conceitos de “habitus” e “disposição,” de Pierre Bourdieu, argumentarei, em primeiro lugar, que as disposições filosóficas1 de Monteiro Lobato, que informavam suas concepções de ciência, religião, história, raça, gênero, política e identidade nacional, se conformaram entre 1900 e 1904, embora sofrendo ajustes e reforços significativos até finais da década de 1920. Estas disposições no que tange a questão de raça, independente das oscilantes declarações do autor de fé ou de descrença nas teorias do branqueamento, se mantiveram em Lobato por toda a sua vida e aparecem, de forma mais ou menos fragmentada, tanto nas suas observações sobre o quotidiano quanto ao longo de toda a sua obra. Argumentarei também que predominaram no autor uma visão “pessimista” das teorias do branqueamento e da miscigenação, fundadas nas idéias de degeneração racial.

II - Monteiro Lobato: disposições filosóficas.

A pedido de seu amigo e futuro biógrafo, Edgard Cavalheiro, Monteiro Lobato escreveu, por volta de 1941, um pequeno texto sobre a sua formação filosófica. Em “Confissões Ingênuas”, Lobato relata a “crise mental” porque passou aos 18 anos ao ler “L’ Homme et les Sociètes” de Gustave Le Bon:

“O destino pusera-me nas mãos ‘L’Homme et La Sociète” (sic), puro tratado de ‘desasnamento’ em que Le Bon descortina aos olhos atônitos do leigo o panorama geral da concepção científica do mundo.

Que bombardeio aéreo! Que chuva de picaretas demolidoras me foi aquilo! Não ficou um só adobe do edifício de minha catolicidade caseira. De um momento para o outro me vi transformado em um montão de ruínas” 2


Além de conter uma concepção materialista do mundo, que rejeita a idéia de divindade na criação, a obra mencionada—publicada em 1881 e composta em dois volumosos tomos—pretendia oferecer uma concepção “científica” do mundo onde se afirma que nem todos os seres humanos foram criados iguais e que apenas alguns poderiam atingir a perfeição. Dividida em quatro “livros”, “L’ Homme et les Sociètes”3 discutia desde o nascimento do universo—onde tratava da questão da “causa primeira” atacando explicitamente as visões religiosas—, dos seres vivos e seu desenvolvimento até a formação e o “desenvolvimento físico” e “intelectual” das “raças humanas”, inclusive por sexo, utilizando conceitos ou noções de matéria, força, hereditariedade, seleção natural, evolução, caracteres adquiridos, atos reflexos, inteligência, sentimentos, influência do meio, dentre outros.

Gustave Le Bon (1841-1931), um dos adeptos e defensores da tese da poligênese do gênero humano, apresentava a miscigenação entre raças “desiguais” como fator de degeneração racial e política. Defendia ele que as raças humanas evoluíam de forma desigual e muitas desapareceriam, pois apenas as mais aptas ou fortes sobreviveriam. Dizia ele: “as raças inferiores desaparecem rapidamente ao contato com as raças superiores (...) e o resultado final é [que] uma raça bem dotada toma o lugar da que era menos”. Embora admitisse a miscigenação entre raças “semelhantes”, desaconselhava o “cruzamento” de raças muitos “desiguais” como “os Europeus e os Negros ou os Australianos (...) [pois com os cruzamentos] mantém a raça inferior, que melhora muito pouco, e finalmente, depois de algumas gerações, a raça superior terá decaído consideravelmente”.4

Para Le Bon, que também acreditava na teoria da hereditariedade por caracteres adquiridos, a escala evolutiva das raças se entrecruzava com a questão do gênero. Na sua escala, além da cor da pele ou das características do crânio (o que mediria a inteligência), o meio poderia interferir tornando uma característica social em herança biológica, através de “atos reflexos” repetidos por gerações. Segundo ele, este seria o caso, por exemplo, das mulheres que, necessitando proteger-se contra maus-tratos, teriam adquirido “por seleção” e conservado “por hereditariedade” “certos sentimentos [tais como “dissimulação”, “doçura”, e “o desejo de fazer-se agradável”]...que encontramos em um sexo e não no outro”.5 O autor ainda acrescenta que sobre estes sentimentos a educação teria pouca influência e que porque a mulher fora deixada ao longo dos tempos “sem cultura” a sua “inteligência não pode progredir” tornando, “gradativamente, a distância que a separa do homem, um verdadeiro abismo”.6 Baseado nestas idéias, Le Bon afirma no livro que mulheres, brancas ou negras, eram inferiores a homens negros.

Apesar do desconforto inicial que a teoria “científica” da desigualdade humana trouxe para Lobato—que tentou sem sucesso, lendo Comte e Spencer, se aproximar de alternativa “científica” que desse um prognóstico mais otimista para a humanidade como um todo, ao invés de apenas para algumas “raças”—as suas escolhas de leituras, nos quatro anos que se seguiram, indicam que ele rapidamente absorveu o determinismo racial que Le Bon propunha. Entre 1902 e 1904, Hyppolite Taine (1828-1893) e Ernest Renan (1823-1892) tornaram-se referências importantes para ele. Os livros do primeiro ocuparam então um lugar de destaque na estante de livros de Lobato, que os lia e recomendava a outros. Ao segundo, Lobato referir-se-ia como um “sereno evocador das verdades”. Os autores apreciados por Lobato eram poligenistas, acreditavam em submissão da ética a ciência e formularam conceitos “científicos” para gerar uma escala de “diferenças raciais” entre os homens que não pudessem ser superada pelas idéias de “evolução” cultural propostas por evolucionistas e positivistas.

Vejamos, por exemplo, o caso de Renan. Este autor formulou o conceito de “raças lingüísticas”, associando a categoria “línguas semíticas” ao conceito de raça, que era definido mais simplesmente então a partir do paradigma das diferenças físicas (cor da pele, tipo de nariz, tamanho do crânio, dentre outras). Este autor classificava as “raças humanas”, de acordo com os seus “níveis culturais” (ou lingüísticos) de ‘civilização’, ficando o critério das “diferenças físicas” como um complemento que emergia na ocasião de descrever de cada grupo “racial”. Na sua escala das “raças”, Renan colocava a “raça semítica” entre as “raças superiores”, porém a considerava inferior a “raça ariana” porque somente esta última teria sido capaz de produzir ciência. As “raças intermediárias” (Chineses, Japoneses, Mongóis e Tártaros) e as “raças inferiores” (Negros da Austrália e África e nativos da América) faltavam civilização, sendo que para as primeiras ainda previa a possibilidade de evoluir até certo ponto. Para Renan, os negros e os nativos estariam fadados a permanecer “bárbaros” devido a uma suposta “inferioridade mental”. Já as raças que fossem capazes de progredir deveriam sofrer transformações físicas. Vale notar que em seus escritos Renan vaticinou que o “reino do sufrágio universal” seria substituído pelo “reino da ciência”, a eugenia e os cientistas prevaleceriam. Estes seriam, segundo ele, uma aristocracia de seres superiores que governaria o mundo.

Juntamente com Gobineau, os filósofos mencionados que influenciaram fortemente Lobato (Renan, Taine e Le Bom) nesta fase constitutiva de suas disposições em filosofia, são os mais conhecidos representantes do Racialismo do século XIX. Segundo Tzevetan Todorov,7 o racialismo foi uma doutrina sobre raça, nascida no século XVIII, das discussões de Buffon e Voltaire sobre unidade e a natureza do gênero humano e que acabou desacreditada ao final da Segunda Guerra Mundial. Como indicarei a seguir, os princípios desta, que tiveram em Le Bon o seu maior vulgarizador, aparecem muito claramente nos comentários do autor sobre o assunto e na sua produção literária inicial.

III - Raça e Nação
Mais do que transformar o habitus de Lobato no que tange as suas disposições sobre religião e ciência, a leitura dos “filósofos” racialistas teve também como resultado introduzi-lo no debate que corria no Brasil de então sobre a formação de uma “raça brasileira”. Este debate foi parte de uma controvérsia política central entre as elites no durante as primeiras décadas do Brasil republicano: seria o Brasil uma nação viável?

Segundo Todorov, os conceitos de raça e nação tendem a aparecerem associados tanto em Taine quanto em Le Bon. Já no primeiro trabalho de Le Bon que Lobato leu—e que provocou a tal crise mental—encontram-se páginas onde esta associação está presente (o autor refere-se, por exemplo, a raça Inglesa).8 Em “História da Literatura Inglesa”, que Lobato também leu, em 1904, estuda-se a formação do “espírito” das nações entendendo que raça e nação são sinônimas, uma vez que o espírito ou caráter próprios da raça são transmitidos de geração em geração9.

Entre 1905 e 1918, período em que Lobato refina seu estilo literário lendo e dissecando literatura estrangeira (francesa, inglesa, russa, portuguesa e americana) ou nacional e escrevendo versões preliminares e definitivas dos seus primeiros contos publicados em na imprensa de grande circulação e em livro, Lobato utiliza o instrumental produzidos por aqueles autores para se manifestar sobre o Brasil e os brasileiros.

Em correspondência de 1905, dirigida ao amigo Tito, do seu grupo literário dos tempos de estudante de direito em São Paulo, Lobato opina sobre a possibilidade de “corrigir” e “civilizar” o Brasil. Para ele esta era uma tarefa impossível “devido ao fatalismo das inclinações, dos pendores, herdados com o sangue e depurados pelo meio.” Como Le Bon afirmava, Lobato defendia não adiantava ter as melhores instituições (as leis, a ciência, a educação) e os “homens mais sábios” para civilizar o Brasil se estes esforços fossem aplicados em filhos de negros. Para ele, a “mesma lei que a criança filha do negro sair, em quaisquer condições do meio e da cultura em que seja colocada, com a pele do pai, faz também uma raça conservar sempre os característicos morais dos seus antepassados. (...) A educação... não operaria na essência do homem, e sim na superfície.” A saída para “civilizar” o Brasil estaria na “emigração” e na conseqüente fusão do brasileiro com “sangue da raça mais superior.” Na carta, Lobato chamava ainda de “patriota” ao que se casava com “italiana ou alemã, indo trabalhar como mouro nos campos a fazer bons filhos, sacudidos e espertos”. 10

Três anos mais tarde, em 1908, em carta ao amigo e correspondente literário Godofredo Rangel, Lobato condena a miscigenação entre brancos e negros, tal como Le Bon, dizendo que este fato produzira uma classe de “corcundas de Notre-Dame”, ao invés da “beleza grega,” entre as classes populares dos subúrbios do Rio de Janeiro. Estas observações, além de deixar clara associação que Lobato fazia entre miscigenação entre “raças” “muito desiguais” e degeneração física, embutiam uma crítica aos intelectuais da época que gostavam de apontar a existência de padrões gregos de beleza em mulatos ou neles mesmos. Ainda nesta carta, Lobato admite que o regime de segregação adotado nos Estados Unidos fosse a atitude correta para evitar a miscigenação entre brancos e negros no Brasil. No entanto, considera que talvez o preconceito racial, que existia em certas regiões geográficas e em certas classes, e a imigração de europeus fossem suficientes para consertar aquela “anti-Grécia” que era o Rio de Janeiro.11

Em fins de 1914 e até 1918, Lobato passa a também poder expor suas idéias sobre o Brasil e suas “raças” na imprensa, quer como intelectual jornalista quer como literato. Nos dois primeiros artigos que publicou sobre o “caboclo”—o trabalhador rural mestiço de diferentes raças, que o autor opõe a figura do mulato—Lobato condenou as misturas de raças, embora estabelecesse uma escala entre os mestiços. O caboclo descrito nestes artigos, que mais tarde se tornou o personagem “Jeca-Tatu”, era descrito como um tipo racial inferior—nulo até em arte e cultura popular—e degenerado. Os sinais dessa degeneração eram a preguiça, a bebida e o seu estilo de vida semi-selvagem. Comparados com os caboclos, Lobato julgava os mulatos superiores porque tinham uma cultura e arte popular—herdada do sangue negro—que sabiam manifestar e também porque estes tinham nas veias “sangue europeu recente”. 12

Depois do sucesso dos seus artigos sobre o caboclo degenerado, Lobato decide publicar em forma de conto uma história que vinha tentando tornar em um romance há anos. O personagem principal, que dá nome ao conto, era um negro que só fica conhecido na trama pelo nome de “Boca-Torta”. Este personagem era também a imagem da degeneração física e moral. Com este conto, que foi publicado na Revista do Brasil em 1916, Lobato pretendeu aumentar o seu prestígio como “homem de letras”, mas produziu o resultado oposto, pois a receptividade do leitor ao texto foi baixa. Na história, “Boca-Torta”, filho de uma ex-escrava, nasceu deformado. Era um monstro cuja feiúra inspirava medo e nojo. Ele vivia numa choupana miserável localizada na mata que pertencia aos ex-donos de sua mãe, escondendo de todos a sua feiúra. Apaixonado pela filha do fazendeiro, que morre subitamente, Boca-Torta viola o túmulo da moça branca, tornando-se um necrófilo. O Boca-Torta, descoberto pelo pai e pelo noivo da falecida, acaba sendo assassinado por estes. 13

IV - Eugenia racial e Miscigenação

Sete anos depois de ter regenerado publicamente o “Jeca-Tatu”, em apoio à campanha dos higienistas de São Paulo, Lobato decide escrever um romance—que foi o seu único—onde futuros hipotéticos para o Brasil (bem como o de outras nações de mestiços) e para os Estados Unidos são delineados a partir, respectivamente, de uma visão pessimista da miscigenação entre raças muito desiguais, e de uma perspectiva favorável à eugenia, na sua versão anglo-saxônica, na solução do conflito racial nos Estados Unidos. Ao escrever “ O Presidente Negro”,14 pouco antes de sua estada de quatro anos em Nova York, Monteiro Lobato não só sinalizou que continuava esposando as idéias de raça que absorvera de Le Bon mas que também acrescentara a elas, pelo menos, o filantropismo à moda de Henry Ford. Embora não se possa afirmar com certeza que Lobato apoiasse as medidas de eugenia racial (esterilização em especial) propostas no livro—pois escrevia para o mercado americano tentando calcular o que seria bem recebido lá—é inegável que conhecia o assunto com profundidade.

“O Presidente Negro” foi publicado pela primeira vez no Brasil com o sugestivo título “O Choque das Raças:um romance americano do ano 2228”, o que define e delimita de pronto do que trata o livro. No principal fio condutor da trama, Doutor Benson, um cientista brasileiro de origem americana, educado na Europa, e sua filha, Jane, dividem um segredo com Ayrton Lobo, um brasileiro sem grandes ambições e formação, dois segredos: a existência de uma máquina, inventada pelo doutor, que possibilita ver a “história”, no futuro, do conflito final entre negros e brancos na América. No ano distante de 2.228, nos Estados Unidos, se passa o segundo fio-condutor do romance. Através da narrativa de Jane, o leitor fica sabendo houve uma divisão política entre os brancos—feministas contra homens brancos—que permitiu ao líder da “raça negra” vencer as eleições para presidente. Profundamente ressentidos com a vitória de Jim Roy, os homens brancos se vingam do fato criando uma tecnologia que ao alisar os cabelos dos Afro-americanos também os esterilizava, sem que estes soubessem. O primeiro presidente negro eleito dos Estados Unidos não chega a tomar posse morrendo na noite anterior a sua posse, logo depois que toma ciência da situação, que não chega a ser revelada para nenhum outro membro da sua “raça”. Em consequência, são convocadas novas eleições e os brancos recuperam o controle do país.

È na descrição das atitudes, qualidades e defeitos dos personagens líderes das facções em conflito que Lobato reproduz a escala de inferioridade e superioridade racial e de gênero proposta por Gustave Le Bon. O líder dos brancos, o presidente Kerlog, é descrito como protótipo da raça superior. Ele é o “sol” que se sobrepõem a Jim Roy com “cruel mas leal” manobras e que conquista o amor da linda, porém psicologicamente instável, líder do Partido Feminino, “Miss Evelyn Astor”. Jim Roy, por sua vez, é descrito como tendo um “caráter nobre,” mas intelectualmente inferior ao dos homens brancos. Muito embora ele tivesse sido capaz de conceber um plano para ganhar as eleições, ele foi incapaz de antecipar o ataque fatal maquinado pelos homens brancos. È interessante notar também que no romance, os negros, a exceção de Jim Roy, são descritos como uma massa incapaz de pensar racionalmente. No romance, Lobato nos leva também a concluir que o “negro superior”, Jim Roy, tinha um comportamento psicológico similar ao das mulheres brancas — sentimentais, intuitivos e capazes de forjar truques. Ambos, porém, abaixo do Presidente Kerlog, que era classificado como seguro, racional e psicologicamente estável.

Por último vale destacar que no romance o Brasil do futuro seria o de um país que perdera a sua unidade territorial em virtude miscigenação de raças muitos desiguais. Nos diálogos entre “Miss Jane” e Airton Lobo, argumenta-se que a miscigenação entre brancos e negros no Brasil “arruinou as duas raças” porque o “caráter racial” era uma sedimentação de características físicas e psicológicas que se fazia de forma bem lenta. A miscigenação no Brasil, segundo Miss Jane, estaria produzindo também um “caráter racial” instável que destruiria a nação. No ano de 2228 o Brasil já estaria dividido em duas partes. A primeira parte, o “ Brasil Temperado”, que se juntaria a República do Paraná — composta pelo antigo sul do Brasil, Argentina e Paraguai. A segunda, o Brasil Tropical, seria uma nação de mestiços — tropical e degenerada — composta pelo antigo norte e nordeste do país originário.

V - Concepções de raça na obra infantil

Nem sempre Monteiro Lobato mostrou-se refratário com relação aos teóricos de raça que admitiam a regeneração racial de um povo de “mestiços”. Não foi por acaso que certa vez afirmou ter sido Oliveira Vianna um de seus gurus nos assuntos de raça quando aplicados ao “caso brasileiro”. Por volta dos anos 20, Lobato conheceu Vianna, suas idéias e publicou através de sua editora as primeiras obras deste sobre populações do Brasil meridional e a evolução do povo brasileiro. Vianna argumentava que as previsões catastróficas de Le Bon, Gobineau e Lapouge para o Brasil que o viam uma como nação em processo de degeneração racial estavam incorretas porque não haviam considerado um aspecto importante da teoria do alemão Otto Ammon: os “cruzamentos felizes”.15 Segundo ele bastaria, de um lado, miscigenar “negros superiores” ou “índios superiores” com brancos para produzir alguns “mulatos superiores” e “mamelucos superiores”. Através de um processo contínuo de seleção e imigração o Brasil chegaria a ser uma sociedade “branca por seleção”. De outro lado, os processos de seleção social e degeneração racial se encarregariam de eliminar os negros e mestiços inferiores. Esta última idéia ele resgatara do próprio Lapouge, só que invertendo o sentido do seu efeito. Como se pode concluir da teoria de Vianna, degeneração e regeneração racial seriam processos complementares e necessários que produziriam um branqueamento por seleção.

Embora em nenhum ponto da obra infantil de Monteiro Lobato se encontre uma defesa explícita do racialismo ou da eugenia racial que encontramos, por exemplo, em “O Presidente Negro”, as histórias do sítio do Pica-pau Amarelo estão carregadas de imagens, expressões, diálogos e narrativas que traduzem degeneração, classificam de forma escalonada as “raças”, definindo critérios de beleza e feiúra, ou mesmo descrevem a “história” das raças.

Nas histórias do sítio, “sangue” e cor da pele, associadas a outras características fenotípicas (cabelo liso ou “carapinha”, cor dos olhos), definem as “raças”. Dona Benta ensinava a seus netos que os “Indo-Europeus” ou “Arianos” — uma das “três famílias, ou ramos, dos quais se originaram todos os atuais povos brancos” — vieram da Ásia Central, onde eles tinham uma língua comum.16 Segundo Dona Benta, as outras duas famílias da raça branca eram os Semitas—Judeus e Árabes—e os “Hamitas” (egípcios). Os arianos teriam formado a Europa e todas as “grandes raças”. Para ela, a família Ariana era a mais importante dentre os brancos porque eles teriam sido os que primeiros a “criar as bases da civilização pastoril”.17 No entanto, considerava sua opinião suspeita, implicitamente reconhecendo-se como Ariana, porque “se eu fosse semita, talvez tivesse uma opinião diferente”.18

Dona Benta também dividia os “brancos” em dois grupos distintos geográfica e fenotipicamente: os “do mar mediterrâneo” e os “teutões”. No primeiro grupo todos eram morenos, segundo ela, mesmo que fossem de descendência ou “sangue” “Ariano”, “Semita” ou “Hamita”. Os gregos da história antiga, por exemplo, seriam de descendência Ariana e representariam para Dona Benta beleza física e “civilização” pelo seu conhecimento de filosofia, arquitetura e conhecimento artístico. Em um dos episódios, Dona Benta viaja no tempo para a era clássica da história grega—a da democracia ateniense sob Péricles—e não se cansa de elogiar aqueles aspectos. A admiração de Dona Benta, porém, parava naquele tempo porque segundo ela os gregos modernos não seriam os mesmos porque haviam “se misturado demais”. O “povo grego”, explica ela aos netos, havia se tornado “uma colcha de retalhos de raças”.19 Vemos aqui emergindo a idéia de desvantagem na miscigenação.

Ao analisar as viagens no tempo e no espaço de Dona Benta com os netos e demais personagens pelo mundo visitando lugares e povos, análise que não vamos prosseguir por falta de espaço20, chega-se a conclusão que há embebida na narrativa destas aventuras, que descrevem as diferenças fenotipicas dos povos de cada região, uma escala etnocêntrica, tanto em termos de “biológicas” quanto em termos de cultura, que valoriza os brancos do Mediterrâneo e os Teutões bem acima dos negros africanos. Em termos de herança “biológica”, Dona Benta, Narizinho, Emília e até tia Nastácia consideram o povo grego da era clássica como o modelo de beleza. Tia Nastácia, que também visitou a Grécia Clássica, ficaria murmurando ao assistir a parada das jovens atenienses: “Que moças lindas!”21 Narizinho, por sua vez, naquela aventura expressaria uma ansiedade de Lobato quanto à miscigenação nos “povos modernos”—inclusive no caso do Brasileiro. Esta inquietude se manifesta numa observação da menina sobre a degeneração no formato dos “narizes”, particularmente o dela mesmo. Ao constatar que o seu nariz arrebitado não era bonito como o dos gregos clássicos conclui que a modernização—isto é, a miscigenação—os havia “degenerado muito”.22 Vale contrapor, que entre os “povos modernos”, Lobato considerava as “crianças inglesas” como padrão de beleza. No livro “Memórias da Emília” o narrador as categoriza como “anjos” sem asas. Eles teriam então: “cabelos louros de todos os tons, bochechas coradas, olhos azuis e pele branca como a neve”. 23

Nas histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo, os negros foram colocados fora do padrão humano de beleza. Ao contrário, são sempre apontados como exemplo de feiúra e do grotesco. Nas histórias, são “Tio Barnabé” e “Tia Nastácia”, os principais personagens negros, que tem partes do seu corpo ou comportamento animalizado através de expressões que definem diferentes partes do corpo de animais. Nas histórias, é Emília a que mais utiliza tais expressões. Para ela Tia Nastácia seria “beiçuda”, uma expressão que os netos de Dona Benta e a própria Emília reconhecem em outras circunstâncias para definir lábios de animais apenas. Tio Barnabé, por sua vez, é categorizado como um grande “mono”, palavra que têm, na verdade, um duplo sentido—“macaco” e “feio”. Ao contrário dos personagens brancos, a identidade dos personagens negros nas histórias do sítio é reduzida a estereotipo e “marcas”. Neste caso, especialmente a cor da pele. Ao invés de chamá-los pelo nome, Lobato—como narrador—os identifica exaustivamente através de expressões como “a negra”, “o negro”, “o negrinho”, “a negra velha” ou ainda, “o negro velho”.

É importante observar que na época em que Lobato escrevia os seus livros era comum este tipo de animalização das características do negro era também praticada pelo discurso científico da época. Oliveira Vianna era um dos que assim fazia quando analisava o processo de miscigenação. O padrão de beleza era atribuído aos brancos. “Raças inferiores”, particularmente certas “tribos”, não se enquadravam nele. Daí então, de acordo com o gradual de características do branco encontrados nestas “tribos” cada era identificada com “símios” ou homens.24




1 Lobato começou a adquirir opiniões próprias sobre questões ontológicas por volta dos 18 anos, através de uma variedade de leituras que podem ser classificadas como sociologia, psicologia, história, além de filosofia. Estou empregando a expressão “disposições filosóficas” no sentido de princípios que forjaram sua concepção adulta do mundo. Nos seus escritos, Bourdieu define “habitus” como um sistema de disposições que são princípios ou estruturas mentais que geram, ajustam e organizam as percepções, representações e práticas dos “agentes”. Seguindo Bourdieu, eu também entendo que os indivíduos—definidos por ele como “agentes” para marcar uma posição teórico-metodológica diferenciada das versões mecanicistas do marxismo e do estruturalismo – e suas “consciências” não são o epifenômeno das forças materiais e sociais. Na verdade, os indivíduos modelam, até certo ponto, a realidade social através de concepções e representações anteriormente produzidas sobre o mundo. Pierre Bourdieu.The Field of Cultural Production. New York: Columbia University Press, 1993. 1-25, 162-163, 181-182, 234, e 269.

2 Este texto foi publicado em 24 de abril de 1955 em “O Estado de São Paulo” e encontra-se reproduzidos em José Bento Monteiro Lobato. Conferências, Artigos e Crônicas. São Paulo: Brasiliense, 1964. p. 221.

3 Gustave Le Bon. L’Homme et les Sociètes. Paris: J. Rotchild Editeur, 1881. 2v.

4 Le Bon, L’Homme et les Sociètes. p.200.

5 Le Bon, L’Homme et les Sociètes p.413

6 Le Bon, L’Homme et les Sociètes 2: 299.

7 Tzvetan Todorov. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Rio de Jameiro: Zahar, 1993

8 Le Bon, 2: 129,134.

9 Todorov, 167-168.

10 José Bento Monteiro Lobato. Cartas Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1964. p. 75-77.

11 Esta carta de 03/02/1908 só existe na edição de 1944 de José Bento Monteiro Lobato. A Barca de Gleyre. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1944. p.133. Ver sobre a questão dos gregos em José Brito Broca Vida Literária no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, Departamento de Cultura da Guanabara, 1975. p. 103-108, 155-173.

12 “Velha Praga” e “Urupês”, um cogumelo que cresce em madeira morta, foram os títulos dados aos dois artigos. A idéia de degeneração, portanto, já era apresentada no título. José Bento Monteiro Lobato, Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1951. p. 231-256.

13 Veja o conto em Lobato, Urupês, 179-196.

14 José Bento Monteiro Lobato, Onda Verde e o Presidente Negro. São Paulo; Brasiliense, 1951.

15 Francisco José de Oliveira Vianna. Evolução do Povo Brasileiro. São Paulo, 1933. p.161. Francisco José de Oliveira Vianna. Populações Meridionais do Brasil. Belo Horizonte:Itatiaia, Niterói: Editora da UFF, 1987. p. 14.

16 José Bento Monteiro Lobato. História do Mundo para Crianças Sâo Paulo: Brasiliense, 1955. p.150-151

17 Lobato. História do Mundo para Crianças p. 18.

18 Lobato. História do Mundo para Crianças p. 18.

19 Lobato. Geografia de Dona Benta Sâo Paulo: Brasiliense, 1955. p. 225.

20 Esta análise está completa em minha tese de doutoramento. Maria Ana Quaglino. From Literature to TV: National Identity, Race and Gender in Monteiro Lobato´s Yellow Woodpecker Farm Stories. Los Angeles, Ph.D Dissertation, University of California Los Angeles, 2003. p. 301-317.

21 José Bento Monteiro Lobato.O Minotauro Sâo Paulo: Brasiliense, 1955. p.247


22 José Bento Monteiro Lobato. O Minotauro. P. 190-191.

23 José Bento Monteiro Lobato. Memórias da Emília. São Paulo: Brasiliense, 1955. p. 34

24 Esta idéia da similaridade está em Maria Cristina Gouvea Mundo da Criança: a construção da infância na literatura”, Tese de Doutorado, Universidade Federal de Minas Gerais, 1997. 273-274. Ver também Oliveira Vianna. Evolução do Povo Brasileiro, 139, 149.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal