Noite na Taverna



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Encontro01.08.2016
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Noite na Taverna

Muito se tem falado a cerca de Álvares de Azevedo e de sua obra. A crítica, em geral, ressalta a genialidade precoce; os arroubos adolescentes; a intensa imaginação criadora; o estilo vacilante de quem não teve tempo suficiente para firmar o domínio sobre o instrumento de trabalho e a influência poderosa dos grandes mestres europeus, Byron e Musset, de quem o nosso vate frui o demonismo, o pessimismo, o tédio existencial e o sentido trágico da existência tão do agrado dos românticos da Segunda Geração.

Álvares de Azevedo escreveu intensamente, como se pressentisse a morte prematura. Seu texto é ágil, nervoso, ciclotímico e com um vocabulário e um estilo nem sempre apurados, como aliás é típico do Romantismo.

Noite na Taverna é um livro de contos trágicos — lembram perfeitamente os contos de horror de Edgard Allan Poe, o genial escritor do Romantismo norte-americano — em que o real e o fantástico fundem-se para criar uma atmosfera escurecida pela fumaça dos charutos e pela pátina do meio sono entorpecido dos bêbados, devassos e impenitentes, que, reunidos em uma taverna lúgubre, desfiam suas experiências existenciais em narrativas escabrosas. A palavra vai de um personagem a outro e a cada intervenção de um deles, uma nova história surge, sempre ligada ao sofrimento, ao incesto, ao adultério, ao canibalismo, à prostituição.

JOHANN


Bem ao estilo da segunda geração romântica, o Autor cria um texto fantástico em que coincidências trágicas unem-se para, num somatório incrível de desgraças e de desencontros existenciais, destruir quatro vidas jovens que tinham tudo para viver em harmonia.

O enredo, mesmo com toda a dramática tragicidade, é de grande simplicidade:

"Johann joga bilhar com um jovem, desentendem-se por motivos fúteis, partem para um duelo e o oponente – Artur – morre estupidamente; Johann apanha no corpo do adversário um anel e um bilhete com um endereço, comparece a uma entrevista e passa a noite com uma virgem desconhecida; ao sair, é atacado por um homem, consegue eliminá-lo e depois descobre que acabara de matar o próprio irmão; volta ao quarto e constata que a virgem com quem tinha estado era sua irmã, noiva do moço com quem jogara bilhar e matara em duelo."

Como se percebe, a visão trágica da existência e o senso do mistério são presenças marcantes no texto: Johann em uma mesma noite mata o noivo da irmã e seu próprio irmão. Ao lado desses dois crimes hediondos. Comete incesto — crime moralmente maior — com a irmã, em seqüência tenebrosa de acontecimentos sobre os quais não tem o mínimo controle. O acúmulo de coincidências fatais faz crer uma alma penada subjugada sob o fardo de seu carma. Não há, por conseguinte, qualquer possibilidade de redenção e Johann deverá consumir o resto de seus dias sob o peso esmagador de seus crimes e pecados.

Ressalte-se, ainda, o vocabulário e entonação reveladores da intensa emoção presente na fala da cada personagem. O tratamento cerimonioso, mesmo em situação crítica e explosiva, entre contendores prestes a se atracar confere, também, um clima de irrealismo e idealização excessivos que remete claramente para o gênero dramático. Tal texto, como já afirmou o grande escritor e crítico Adonias Filho, só poderia ter sido escrito no Romantismo, tal o grau de representatividade daquela estética abarcado por seus parcos limites.

SOLFIERI

Seguindo a linha da proposta da obra, este conto também fala da tragicidade da vida, da libertinagem e da depravação. O ambiente do narrado enquadra-se na perspectiva da preferência pelos lugares ermos, escuros, amedrontadores e os personagens que nele vagam são seres indefinidos dos quais apenas um impreciso contorno é mostrado. São mulheres e homens misteriosos e difusos num cenário também misterioso e difuso.

Solfieri, o narrador, é um dos boêmios reunidos na taverna e conta aos amigos a história fantástica por ele vivida na Roma misteriosa e perigosa das vielas e becos tortuosos. Numa noite, surge da janela escura de um palácio o vulto impreciso de uma mulher. Solfieri a segue até um cemitério e ali amanhece sozinho e desvairado.

Um ano depois reencontra a mulher dentro de um caixão, em uma igreja, despe o cadáver e o profana. Leva-o para casa. A mulher não está morta, mas apenas sofrera um ataque de catalepsia. Em casa ela se torna sua amante e morre louca. Ele a enterra em seu quarto, manda fazer uma estátua que a represente e coloca-a em seu leito de amante desesperado.

Hoje guarda como relíquia uma grinalda de flores murchas que arrancou da cabeça do cadáver da amada sem nome.

BERTRAM

Narrativa desordenada em que se mesclam o erotismo desenfreado, o assassinato, o canibalismo. Não há uma seqüência lógica e coerente dos fatos narrados, passando a idéia de um pesadelo nevoento em que os acontecimentos sucedem-se vertiginosamente sem que haja explicação lógica para eles. Bertram é o conto mais longo da obra Noite na Taverna e dá a impressão de que carecia de uma limpeza, ou seja, de uma depuração para que se tornasse mais compacto e menos cansativo.

Bertram, o protagonista, é um velho devasso com uma imensa carga de pecados e vícios para expiar. Relacionou-se, no passado, com três mulheres e nos três relacionamentos o amor físico é intenso, efêmero e de resultados devastadores.

A linguagem é tipicamente romântica, seguindo o tom declamatório e teatral de um longo solilóquio do protagonista-narrador.

CLAUDIUS HERMANN

Uma história absolutamente inverossímil em que Claudius Hermann apaixona-se por Eleonora, a duquesa, seqüestra-a e confessa seu amor. A seqüência narrativa é desordenada e caótica. Não há um nexo ou uma razão a justificar as ações do narrador-protagonista. Mais uma narrativa erótica e misteriosa como os vapores nevoentos dos castelos assombrados das narrativas de terror.

Ao final o duque Maffio, desonrado e enlouquecido com o rapto de sua esposa, mata-a e morre sobre o cadáver.

ÚLTIMO BEIJO DE AMOR

A obra Noite na Taverna, como sabemos, é constituída com a representação de um grupo de homens, bêbados e infelizes, a desfilar narrativas escabrosas de fatos de suas vidas. O presente conto é o coroamento da obra. Seguindo uma técnica narrativa peculiar ao livro de contos, esta última história é o fechamento da obra. É o clímax da orgia e da bebedeira desenfreada.

Os personagens estão adormecidos e espalhados pelo chão da taverna. Beberam além da conta e exaustos entregam-se à letargia do álcool. Eis que chega um vulto fantasmagórico de mulher. É a própria encarnação da morte. A descrição tétrica ajusta-se á figura tradicional da ceifadora iniludível. Procura entre os bêbados até encontrar Johann e o executa. Volta-se para Arnold (o Artur que participara do duelo com Johann e, surpreendentemente, não morrera) e revela quem era: Giorgia, a jovem virgem desgraçada pelo irmão na primeira narrativa da obra que volta para matar o profanador e entregar sua miserável vida ao descanso final.



CONCLUSÃO

Um livro excepcional que tem encantado gerações e gerações de leitores ávidos por uma literatura emocional e profundamente representativa de nossos anseios de emancipação cultural. O Autor não só produziu um livro de contos, como também, de certa forma, deu cunho de definitiva autenticidade à novelística brasileira. A grande aceitação popular, particularmente do público jovem, como se pode atestar facilmente no convívio diário com alunos do Ensino Médio, comprova o valor desse jovem genial que, mesmo morto aos 21 anos incompletos, deixou uma obra de valor inquestionável.


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