Nome da seção “Mémoria’ a história da revista brasileira de ciência do solo



Baixar 29.06 Kb.
Encontro28.07.2016
Tamanho29.06 Kb.

Nome da seção “Mémoria’

A HISTÓRIA DA REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIA DO SOLO




Este artigo foi um exercício de memória espontânea. A redação do Boletim pediu que os dois primeiros editores da RBCS (Igo Lepsch e Antonio Carlos Moniz) e o presidente da SBCS na época de sua criação (Luiz Bezerra de Oliveira. ) colocassem no papel as suas lembranças das fases de criação e efetivação da Revista. Os três contribuíram prontamente com tópicos de memória. O texto abaixo é uma compilação destas lembranças espontâneas. Registrar a história ajuda a refletir sobre o presente e o futuro. A RBCS, hoje consolidada e de grande utilidade para todos nós, começou com uma máquina de escrever, pouquíssimos recursos, papel, caneta e carbono. Naquele ano de 1977 ainda não se ouvia falar em computadores, técnicas avançadas de impressão, internet e cds. O gigantesco trabalho manual dos primeiros colaboradores engrandece ainda mais os idealizadores da Revista. É sempre assim mesmo difícil no começo, mas se o sonho é bom, vale a pena insistir.

A RBCS - Revista Brasileira de Ciência do Solo foi conseqüência natural da estruturação da Sociedade que começou com a transferência da sede para Campinas, em 1973. Com a instalação da Secretaria Executiva, foi iniciada a cobrança bancária das anuidades. Dessa forma, a SBCS passou a ter uma sede, recursos financeiros e um grupo de pessoas que respondiam por ela.

A consolidação da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo é um mérito inegável da equipe do IAC. Foi também em Campinas, durante o XV CBCS, em 1975, que a Sociedade definiu os rumos e as bases para o seu futuro. Até mesmo a organização de um Congresso Científico era um desafio para a jovem equipe de Campinas. Graças à experiência de participação de Antonio Moniz em um Congresso da Sociedade Americana de Ciência do Solo em Oklahoma-EUA, em 1966, o Congresso deu certo e serviu de parâmetro para a organização dos próximos Congressos da SBCS.

O Congresso de Campinas culminou com o lançamento dos Anais . Uma publicação vistosa, com 616 páginas em papel couchê e impressão de boa qualidade parecia sinalizar que esta seria uma prática comum nos próximos eventos, mas, na verdade, o que se desejava era encerrar definitivamente esse tipo de publicação, notoriamente de valor questionável. O lançamento foi mesmo a morte anunciada dos Anais em grande estilo.

Até a realização do Congresso de Campinas, a Sociedade era itinerante ficava sediada sempre onde seria o próximo Congresso. Com a decisão de fixar a sede em Campinas, foi preciso alterar o Regimento Interno da SBCS criando uma Secretaria Executiva que seria responsável pela edição da Revista. A secretaria era formada pelo 2º Vice-Presidente, Secretário e Tesoureiro, todos obrigatoriamente residentes em uma mesma localidade. Com a extinção dos Anais, os trabalhos seriam apresentados nos Congressos, sob a forma de resumos e divulgados em painéis. A opção de publicação do trabalho na íntegra ficaria por conta do autor, que o submeteria ao Conselho Editorial, para publicação na Revista, segundo as normas estabelecidas.

Em 1975, mesmo com pouco dinheiro em caixa, a equipe de Campinas lançou o Boletim Informativo. Ao mesmo tempo tocava em frente o projeto de elaboração de uma Revista científica que seguisse padrões internacionais e que servisse de referência aos pesquisadores de solos. Coube a Antonio Carlos Moniz trabalhar no projeto inicial. A idéia era acompanhar um formato similar ao Soil Science American Journal. O layout da capa com faixas horizontais vermelhas e brancas, lembrando horizontes do solo foi elaborado com a ajuda dos colegas Dora Regina Duarte, Lourdes Brunelli e Lourenço Minicucci, da CATI /SP.

O projeto da RBCS foi lançado então, oficialmente, no segundo número do Boletim, em 1976. A edição já trazia as normas para envio dos artigos, definia a periodicidade quadrimestral da Revista e o financiamento com recursos próprios da SBCS. A Sociedade comemorava então, 30 anos de existência. Com a saída de Moniz para realizar programa de pós-graduação nos EUA, Igo Lepsch assumiu o cargo de Editor e fez um excelente trabalho de estabelecimento definitivo da Revista.

Na época, o Editor e Editores Assistentes não tinham uma idéia precisa do que representava essa grande aventura, dos caminhos que iriam trilhar e do significado maior dessa iniciativa. Esse duro aprendizado exigiu muita persistência para vencer os obstáculos e levar a Revista a uma posição de destaque, entre as congêneres do Brasil.

Nesta primeira fase, Igo Lepsch destaca o apoio fundamental dos pesquisadores do IAC: Francisco Grohmann, José Maria Silva Valadares, Álvaro Zingra do Amaral e Francisco da Costa Verdade. Para o primeiro número, foi pedido à pesquisadora Johanna Dobereiner uma revisão de literatura sobre fixação de nitrogênio em gramíneas. O aceite da Dra. Johanna e a rapidez na preparação do artigo animou os editores que, segundo Igo Lepsch, “passaram a implorar, no corpo a corpo, novos artigos de colegas que ainda não acreditavam no sucesso da Revista”.

A meta principal era lançar a Revista no XVI CBCS, em São Luiz, Maranhão, em abril de 1977. Não foi tarefa fácil. Para o primeiro número, as provas foram revistas dentro de um pequeno e escuro cubículo da própria Gráfica Ave Maria, em Piracicaba.

A impressão do primeiro número ficou pronta apenas alguns dias antes do Congresso e os pacotes embrulhados com barbante foram distribuídos entre os colegas que estavam embarcando para São Luiz. Em sua memória, Igo Lepsch lembra-se bem da alegria de Luiz Bezerra, então presidente da SBCS, ao ver as Revistas, chegando no dia marcado em São Luiz.

Neste primeiro número foi publicado um editorial de Luiz Bezerra de Oliveira. Depois de muita saliva gasta no convencimento dos autores, a primeira edição da Revista acabou saindo com 12 artigos já separados em cinco comissões, posteriormente denominadas de seções. Hoje, cada edição comporta, em média, 30 artigos.

Voltando ao Brasil, em 1981, Moniz reassumiu a edição da Revista, permanecendo até 1997, com a transferência da sede da SBCS para Viçosa.

Desde o início,as dificuldades para publicação da RBCS foram uma constante: baixa arrecadação de anuidades, atrasos de pagamentos, custo de impressão, falta de financiamento, atraso na liberação de recursos, deficiência de pessoal e de infra-estrutura.

Luiz Bezerra lembra-se bem de uma visita à Secretaria Executiva da Sociedade, em 1976, onde encontrou Verdade, Grohmann, Lepsch e Moniz, reunidos, nas suas horas fora do expediente, à frente de uma "Remïngton", preparando material para a Revista. Ao mesmo tempo, Valadares corria de uma lado para outro com listas de associados para cobrança de anuidades

A principio, a Comissão Editorial era formada por um Editor Responsável, Editores Assistentes e Consultores Científicos. Posteriormente, foi ampliada com Revisão, Secretaria e Publicidade. Atualmente, é formada por Editor Responsável, Co-editores, Editores Assistentes, Revisão e Secretaria.

Nestes 25 anos de história vale salientar, especialmente, a participação voluntária e eficiente dos Consultores Científicos e das centenas de autores e co-autores, que acreditaram na Revista e que se fizeram presentes nos seus 26 volumes já publicados.

Pode-se verificar que, entre 1976 e 1977, a Comissão Editorial era formada por 77 Consultores que revisaram e deram parecer em 118 trabalhos científicos. Em 2002, estão relacionados cerca de 80 Editores Assistentes.Uma comparação feita entre as duas listagens, registra a participação dos seguintes sócios: Bernard van Raij, Egon Klant, Flávio Luiz F. Eltz, Heitor Cantarella, João Kaminsck, José Luiz I. Demattê, Neroli P. Cogo e Paulo L. Libardi, que merecem também o registro e a homenagem da SBCS.

De 1976 a 1984, os artigos que compunham um fascículo da Revista, passavam por todas as etapas de avaliação pelos pares, além de uma rodada de revisão e correções pelos autores, até a aprovação pelo Editor, num trabalho conjunto com o Editor Assistente. No final, fazia-se a revisão do vernáculo e só então os artigos eram aprovados e encaminhados às gráficas. Esse esquema funcionou a contento até que a gráfica de Piracicaba, que fazia esse trabalho, cessou suas atividades. Procurou-se uma substituta em Campinas, mas não se encontrou nenhuma à altura. Naquela época, os artigos ainda não eram recebidos já digitados em disquete. Esse trabalho era feito pela secretaria da Revista. Normalmente, os contratados para fazer a datilografia dos artigos não cumpriam prazos e cometiam erros que obrigava a reduzida equipe a aumentar o número de correções. Com limitados recursos financeiros, não era possível trabalhar com gráficas de primeira linha, o que inviabilizaria a impressão da Revista.

Em Ribeirão Preto, a Revista Brasileira de Genética foi pioneira: fazia internamente a sua própria editoração e a impressão ficava por conta de gráficas contratadas. Francisco Alberto de Moura Duarte, Editor da RBG, era quem dirigia esse programa. Nesta época, Moniz sonhava em ter aprópria equipe para digitar os artigos e prepará-los até a sua arte-final.

Em Londrina (PR), Moniz ficou sabendo que um jornal local estava vendendo suas máquinas “Composer” para substituí-las por outros equipamentos. Não pensou duas vezes. Adquiriu uma dessas máquinas, em uso já há bastante tempo, e a levou para Campinas. A “Composer” imprimia com letras de imprensa, o que propiciava um bom acabamento ao trabalho. Apesar desta vantagem, o operador desse equipamento tinha uma dificuldade muito grande, já que a máquina não justificava automaticamente o texto. Isso era feito manualmente. Outro grande inconveniente: as máquinas mecânicas necessitavam de ajustes constantes. Por estarem fora de linha, os estoque de peças estavam rareando e corria-se o risco de ficar sem o equipamento. Foi um período de espera. Os equipamentos mecânicos estavam condenados à extinção e a era da editoração eletrônica ainda não tinha chegado, já que dependia de impressoras de qualidade que ainda não haviam sido lançadas no mercado.

Nesta época, Moniz foi com um grupo de colegas pilotos do Aeroclube dos Amarais, em Campinas, participar, nos EUA, de um evento aeronáutico, na cidade de Oshkosh, norte de Wisconsin, onde se reuniam cerca de 15 mil aeronaves, muitas delas construídas pelos próprios pilotos. A programação consistia em conhecer a imensa variedade de aviões presentes, a reconstrução de alguns aviões da Segunda Guerra e em uma série de shows aéreos. No final dessa programação, estava prevista uma ida a Disney World pelo grupo. Moniz se lembra que teve que perder esse passeio, embora tivesse a passagem aérea nas mãos, para esperar, em Raleigh -NC, a encomenda de peças de reposição para a máquina “Composer”.


A Revista, pela sua envergadura, é o produto mais nobre que a SBCS oferece, envolvendo muitas pessoas para a sua edição. A partir da iniciativa do autor em submeter o artigo para publicação, são acionados, para dar andamento ao processo de editoração, revisores, editores e funcionários da SBCS. A preocupação do Editor é manter a periodicidade e melhorar a qualidade dos artigos, condições necessárias para que o periódico possa conquistar o respeito da comunidade.

Em 1991, uma pesquisa patrocinada pela FAPESP, apontou a RBCS como uma das13 publicações prioritárias da área de Ciências Agrárias entre 554 títulos.Apenas 37 deles (6,7%) foram considerados relevantes. O bom desempenho da Revista se confirmou em 1996 ao ser convidada pela FAPESP/BIREME a participar de um grupo de 11 Revistas que passaram a ser editadas, também eletronicamente, em 1997.

No momento em que comemora-se os 25 anos da RBCS é preciso também relembrar e render homenagens às pessoas que foram imprescindíveis à história e a consolidação da Revista na época de Campinas. Pela maior permanência na Secretaria Executiva, quatro funcionárias merecem reconhecimento: Nilza, Silvia, Raquel e Lígia. Segundo Moniz, o trabalho de Nilza Oliveira Pacheco, que atuou como primeira secretária, e trabalhou por nove anos, cuidando do recebimento de anuidades e do envio das publicações foi muito importante. Numa fase posterior, a Revista e o Boletim foram publicados graças ao trabalho de três funcionárias: Maria Silvia P. Carvalho, Raquel de Oliveira Ferreira e Lígia Abramides Testa, que trabalharam com Moniz respectivamente, há 14, 13 e 20 anos. Silvia era encarregada de receber e registrar os artigos e de manter a correspondência com os autores, revisores e Editores Assistentes. Ela também cuidava das correções das figuras que precisavam de retoques, trabalho indispensável à boa apresentação da Revista. À Raquel coube a responsabilidade de fazer a composição e diagramação da Revista e do Boletim. O valor de uma publicação não se restringe a seu conteúdo, mas também por uma boa diagramação e arte-final refinadas, que ficaram ao cuidado de ambas, sob a orientação de Lígia Abramides Testa, encarregada também da correção do vernáculo e de verificar se as correções das provas tipográficas foram feitas apropriadamente.

A partir de 1983 foi preciso solicitar auxílio financeiro ao CNPq-FINEP para a impressão da Revista, o que nunca havia acontecido. Antes, a arrecadação das anuidades dos sócios cobria as despesas de impressão da Revista e do Boletim Informativo. A FAPESP custeava a impressão de número limitado de fascículos que ficaram, momentaneamente, sem a cobertura das agências principais.

O êxito em manter o nível e a periodicidade da Revista deveu-se, sobretudo, à equipe que editorava a Revista, aos membros do Conselho Diretor da SBCS, e, principalmente, aos Editores Associados que sempre deram todo o apoio e estímulo para manter em andamento os trabalhos da Revista, assim como também o apoio abnegado de Editores Assistentes de outros Estados. O trabalho de publicar a Revista aumentava com o passar do tempo, já que crescia o número dos que se interessavam em procurá-la. O apoio recebido das inúmeras Diretorias do IAC e de outras instituições de São Paulo foi fundamental enquanto a RBCS foi editada em Campinas.

Em 1997,a SBCS foi transferida para o Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa e a RBCS assumida pelo professor Roberto Ferreira de Novais. Ai começa uma nova etapa de modernização da Revista e da Sociedade que deve ser contada por estes novos agentes desta história que se renova sempre. Como deve ser!.


Texto de Luiz Bezerra de Oliveira, ex-presidente da SBCS. O texto foi produzido em 2004 e é de responsabilidade do autor.





©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal