Nome: Silvio Sipliano da Silva



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Encontro29.07.2016
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OFICINA SEMINÁRIO USP

MOVIMENTO “DO PRAZER AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL


NOME: Silvio Sipliano da Silva

Graduado em Educação Física pela Universidade de Mogi das Cruzes

Graduado em Pedagogia pelo Centro Universitário Nove de Julho

Técnico em Recreação e Lazer pela Faculdade de Educação Física de Santo André

Professor de Educação Física da Rede Municipal de Ensino

Coordenador de esportes e Lazer do Centro de Lazer e Esportres do SESI AE Carvalho



PÚBLICO

Inscritos no Seminário

OBJETIVOS


A oficina pretende fazer com que as pessoas percebam que a dança, os diferentes ritmos e a expressão corporal manifestada através deles é um patrimônio histórico cultural e carrega consigo marcas também históricas, de resistência, de hegemonia de determinado gênero, de preconceitos (racial, gênero, religioso, etc.).

Pretende ainda através da vivência dos participantes demonstrar que os movimentos básicos dos diversos estilos são exatamente os mesmos, o que muda é o ritmo (cadência) e a intensidade, ou seja, os estilos foram e sempre serão ressignificados de acordo com o contexto e o momento histórico onde ele acontece..

JUSTIFICATIVA
Atualmente percebemos a hegemonia do esporte na prática da Educação Física escolar, isso é um indicativo da cultura corporal que existe hoje nas escolas, sobretudo nos mostra que alguns grupos exercem forças no sentido de manter uma determinada supremacia de uma situação em detrimento de outras, ou seja, os interesses de determinados grupos se manifestam como cultura corporal de um contexto e é legitimado erroneamente como sendo algo natural. Esta ação evidencia uma prática centrada em um universo pobre em experiências culturais, uma vez que não possibilita o surgimento de outros códigos e símbolos que poderiam gerar uma diversidade cultual mais ampla dentro da escola.

Nesta ótica torna-se mais fácil nos relacionarmos com alguns tabus que o mundo do esporte consolidou ao longo da sua história: futebol é coisa de homem, voleibol é jogo de mulher, em fim, quando entendemos e desvelamos a dimensão estética dos movimentos e das práticas corporais, fica mais fácil a quebra de paradigmas, ficamos mais abertos ao novo sem que isso nos custe um rótulo disso ou daquilo outro.

O esporte é um fenômeno sociocultural de forte apelo, isso explica-se pela facilidade que é veiculado via televisão ou rádio, também por ser de linguagem universal e de fácil entendimento, é uma atividade tangível, mesmo aqueles de regras mais complexas possui um marcador de identidade simples, universal que é o gol, a cesta, o ponto, o tempo, a melhor marca, etc. Em fim, as pessoas vibram junto com os participantes e identificam facilmente o que está acontecendo, daí a denominação de arte popular, paixão nacional, entre outras. Com uma tela de pintura, uma apresentação de dança, um livro por exemplo não é diferente, porém nem sempre existe acesso suficiente para popularizar seu entendimento, os custos são elevados deixando essas linguagens num plano intangível à maioria das pessoas, não despertando o interesse proporcional ao seu valor, esta se constitui em outra inclusão de faz de conta, uma mostra de dança ou exposição de obras de arte acontece em locais pontuais dificultando o acesso, para assistir uma apresentação teatral como o clássico Fantasma da Ópera por exemplo paga-se R$70,00 (setenta reais) no ingresso mais em conta. É assim também com shows musicais que acontecem em locais e preços fora da realidade da maioria da população, não permitindo a estas pessoas acesso e pertencimento destas atividades tão importantes na construção do patrimônio histórico cultural do homem.

Iniciei falando do esporte justamente para fazer um contra ponto a seu respeito, se é legítimo que as crianças tenham contato com a cultura esportiva na escola, também devemos atribuir importância a outras manifestações da cultura corporal. Neste trabalho vou centralizar minhas atenções para a dança (expressão corporal), entendo que saber dançar pode ser em determinado momento um conhecimento mais importante do que saber jogar futebol, isso vai depender do contexto em que isso vai se dar.

É muito comum ouvirmos as pessoas dizerem em determinadas atividades sociais (bailes, encontros, confraternização, etc.) que não sabem dançar, isso tem algumas explicações. A primeira é que a dança enquanto conhecimento histórico produzido pela humanidade não fez parte da cultura corporal daquela pessoa, a segunda é que as pessoas tem no seu inconsciente uma forma padrão de dançar (aquela que é passada pela mídia), assim as pessoas por uma razão ou por outra se acovardam e se privam de vivenciar a experiência da dança, seja ela qual for, vou me prender a estas duas explicações, pois as demais não são relevantes no desenvolvimento do trabalho proposto.

Preocupado com esta situação já venho a algum tempo inserindo no planejamento das minhas aulas uma iniciação à dança, com isso eu fui descobrindo que vários estilos musicais dançantes possuem uma marca, uma raiz de movimento básica que se alterna com a mudança de ritmo e intensidade, ou seja, os novos estilos nada mais são do que uma ressignificação de outros que marcaram época em outros contextos e tempo histórico, então como explicar o fato de que as mesmas pessoas que dançavam black music (sow) ou discoteca, alegam não saberem dançar forró, valsa ou dança de rua. A oficina vai procurar através da vivência dos participantes demonstrar que a base motora e cultural adquirida em um determinado estilo de dança serve de base para a participação em outro, as adaptações se dam em função do contexto presente.



Como professor crítico, sou um “aventureiro” responsável, predisposto à mudança, à aceitação do diferente. Nada do que experimentei em minha atividade docente deve necessariamente repetir-se. Repito, porém, como inevitável franquia de mim mesmo, radical, diante dos outros e do mundo. Minha franquia ante os outros e o mundo mesmo é a maneira radical como me experimento enquanto ser cultural, histórico, inacabado e consciente do inacabamento. Aqui chegamos ao ponto de que talvez devêssemos ter partido. O do inacabamento do ser humano. Na verdade o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento. Mas só entre mulheres e homens o inacabamento se tornou consciente.(1)

Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento sei que posso ser mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. Gosto de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo geneticamente e o que herdo social, cultural e historicamente, tem muito haver comigo mesmo.(2)

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  1. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa / Paulo Freire. – São Paulo: Paz e Terra, 1996 – (Coleção Leitura), p. 55.

  2. Idem, Ibidem, p .59.

Entendo ser importante citar um referencial teórico que da suporte a estas afirmações,

começo fazendo uma referência com os conceitos defendidos por Paulo Freire no livro Pedagogia da Autonomia, em seu livro ele nos aponta uma visão em relação ao ser inacabado (condicionado) e determinado, estas concepções de homem pode ser facilmente observada na prática pedagógica dentro das escolas, tanto em relação as condutas dos professores como dos alunos, acrescentando o próprio sistema burocrático que rege a educação em nossa cidade.

Ou seja, de fato constatamos que existe uma realidade muito forte nas redes públicas apontando para o ser determinado, aulas iguais, descontextualizadas, transmitidas de forma fragmentada, sem se preocupar em se relacionar com as possibilidades e necessidades dos alunos, logo uma prática reprodutora que alimenta um sistema falido que não tem dado conta de resolver os problemas da educação e da própria Educação Física. Esta metodologia menospreza a capacidade dos alunos, limitando as oportunidades e desmotivando seu desenvolvimento, não considera também que todos nós, inclusive os alunos somos oriundos de um determinado contexto histórico e ele não é desativado quando estamos na escola, no clube, na igreja, no lazer ou no trabalho.

No exemplo contrário que também existe, mesmo que em menor escala, percebemos o quanto pode ser rica uma proposta onde o aluno é entendido como um ser condicionado, ou seja, o meio em que se encontra, onde mora, estuda, brinca e troca relações será primordial ao seu desenvolvimento, logo quanto mais rico em possibilidades e oportunidades ele puder ser, melhor será o desenvolvimento das pessoas.

Indo além, quero abordar o conceito do inacabamento, ele nos aponta um horizonte de possibilidades, o eterno Vir a Ser, por mais utópico que pareça esta idéia é exatamente ela que faz toda a diferença, ou então vamos aceitar a máxima capitalista e fatalista que nos preparou a todos (pobres) para atuarmos como mão de obra barata em seus pólos de produção (indústrias, serviços, instituições financeiras, etc.).

Entender nossas crianças como inacabadas é um ponto relevante para refletirmos no momento do nosso planejamento e principalmente quando estamos ao lado delas desenvolvendo as atividades das aulas de Educação Física, para que isso possa acontecer é necessário nos percebermos inacabados e ao assumirmos esta condição praticar uma educação física que seja nesse mesmo sentido, também inacabada, cheia de possibilidades, isso se aplica a cultura escolar, e a própria vida. Minha experiência no desenvolvimento das aulas de educação física tem sido conduzida dentro desse conceito, muitas vezes parece ser difícil, porém, as saídas estão em coisas simples e não em métodos complicados e resultados inatingíveis. Falo da conversa, do trabalho em grupo, da reciprocidade com as crianças e seu familiares, do entendimento e aceitação da cultura corporal inerente a cada grupo e acima de tudo com nosso compromisso profissional e ético.



BIBLIOGRAFIA

Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa / Paulo Freire. – São Paulo: Paz e Terra, 1996 – (Coleção Leitura), p. 55.


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