Norma Silvia Trindade de Lima educaçÃo e psicodrama: possíveis práticas de singularizaçÃO?



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Norma Silvia Trindade de Lima

EDUCAÇÃO E PSICODRAMA: POSSÍVEIS PRÁTICAS DE SINGULARIZAÇÃO?


RESUMO

O trabalho apresenta reflexões sobre educação, modos de subjetivação e singularidade, a partir de uma oficina de psicodrama desenvolvida com alunos dos cursos de psicologia, pedagogia e serviço social, no Unisal, Unidade de Americana.


Palavras-chave:

psicodrama, educação, modos de subjetivação, singularidade.



ABSTRACT
The work presents reflections on education, ways of subjetivação and singularity, from a workshop of psicodrama developed with pupils of the courses of psychology, pedagogia and social service, in the Unisal, Unit of American.
Keywords :

psicodrama, education, ways of subjetivação, singularity.




INTRODUÇÃO
Por ocasião da Semana de cursos: Psicologia, Pedagogia e Serviço Social, no Unisal, Unidade de Americana, realizada em maio do corrente ano, uma oficina de psicodrama foi desenvolvida. O trabalho realizado teve um duplo propósito. Por um lado, proporcionar aos alunos uma vivência em “psicodrama”, a fim de apresentar uma metodologia de investigação, intervenção e produção de saberes pouco difundida academicamente.

Por outro, tratava-se de desenvolver uma atividade sociopsicodramática com a finalidade de integrar uma modalidade de atividade científica “Em cena” no 17º. Congresso Brasileiro de Psicodrama e 1º. Latino-Americano de Psicoterapia de Grupo e Processos grupais, entre os dias 05 e 07 de setembro de 2010, realizados pela Federação Brasileira de Psicodrama, em Águas de Lindóia. Para tanto, seria necessário que a atividade desenvolvida estivesse alinhada à temática do congresso - Tempo para o tempo.

A referida modalidade de atividade científica “Em cena” tem o sentido de resgate histórico do cunho político da obra de Moreno quanto aos propósitos de intervenção e transformação social, especialmente em sua fase inicial, na Europa, início do século XX. Para além da abordagem clínica, desenvolvida no âmbito da saúde mental por psicoterapeutas, sejam estes psicólogos e psiquiatras, a metodologia sociopsicodramática, valendo-se de uma ampla variedade de linguagens e recursos artísticos, operacionaliza investigação, intervenção e produção de saberes acerca de realidades e temáticas sociais.

Nesta perspectiva, a participação do “Em cena” no Congresso Brasileiro de Psicodrama implica em desenvolver intervenções sociopsicodramáticas alinhadas à temática do congresso com grupos em contextos e/ou espaços sociais diversificados, conforme a inserção social do psicodramatista. Assim, com o duplo propósito já mencionado, contemplando a grade científica do 17º. Congresso Brasileiro de Psicodrama, uma oficina de psicodrama foi proposta e realizada na semana de cursos da Psicologia, Pedagogia e Serviço Social do Unisal, Unidade de Americana, explorando a temática – “indagações sobre o tempo”. Buscou-se conhecer e discutir com as pessoas que integraram o grupo na manhã do dia oito de maio de 2010, como viviam e percebiam o impacto do tempo no cotidiano de suas vidas.

Cabe ressaltar e agradecer, com o devido reconhecimento, a colaboração das alunas: Keila Kumakura, do Programa de Mestrado em Educação, Luciana Bruscagin, aluna especial do Programa de Mestrado em Educação, Monica Susigam e Taize Alves, ambas do Curso de Psicologia, que aceitaram participar da oficina com a tarefa de registrar e comentar posteriormente o evento.

Dito isto, apresenta-se, a seguir, comentários preliminares sobre a metodologia sociopsicodramática, a fim de que o relato da oficina possa ser melhor compreendido, posteriormente são tecidas reflexões acerca da produção cênica do grupo, por ocasião da oficina, estabelecendo possíveis relações entre a temática protagonizada e a educação, fazendo-se referência ao âmbito da subjetividade, aos modos de subjetivação e às práticas de singularidade.


Comentários sobre a obra de Moreno e a metodologia sociopsicodramática
Um primeiro comentário deve-se ao esclarecimento de que o termo psicodrama é o nome genérico, popularmente conhecido da obra de Jacob Levy Moreno (1889-1974). A totalidade de sua obra denomina-se Socionomia, cujo método original de investigação foi uma modalidade de teatro, o teatro de improviso ou da espontaneidade, mais tarde chamado de teatro espontâneo. O psicodrama, a rigor, é um dos métodos de ação dramática entre outros na obra moreniana. Assim sendo, no escopo deste estudo, o termo psicodrama será usado no sentido lato.

Moreno, médico, romeno, no início do século XX, desenvolveu um campo de saber, a Socionomia, dedicando-se ao estudo das relações sociais, ou seja, a intersubjetividade. Inspirado e pautando-se numa crítica ao teatro convencional vienense, desenvolveu um original arcabouço metodológico de investigação, intervenção e produção de conhecimentos, centrado na ação dramática. Essa metodologia visa o desenvolvimento da espontaneidade e da co-criação dramatúrgica e representativa. Espontaneidade é um conceito central em todo o seu pensamento. Refere-se ao potencial humano de criar, a partir de contingências afetivas e sócio-culturais. Espontaneidade, nas palavras de Moreno (1993, p.52) “... é a resposta adequada a uma situação nova ou a nova resposta a uma situação antiga”. Nesse sentido, propôs um tipo de teatro para fomentar, potencializar ou, ainda, resgatar a espontaneidade nas relações sociais. O teatro espontâneo busca propiciar uma experiência subjetiva de construir coletivamente e improvisadamente algo que seja ou se torne significativo para as pessoas em questão. Dito de outro modo, implicar-se em uma criação coletiva e improvisada diante de uma tarefa comum.

A ação dramática é um dos principais recursos e linguagens, entre outros, que são utilizados. Nesse tipo de estratégia, não há script pronto. O importante é a possibilidade de improvisação por meio de uma relação que se estabelece, no momento daquele encontro, engendrando uma produção coletiva de uma nova história, pertinente ao momento, tema e grupo em questão. Considera-se, como Aguiar (1998), esse tipo de experiência transformadora, em seu potencial analógico.

Segundo Santos (1990) o conceito de ação dramática remete à influência do pensamento trágico na obra moreniana. A ação dramática sustenta e fundamenta a metodologia psicodramática, diferenciando-se de uma ação comum, linear. Trata-se de um agir próprio do drama que, em grego, indica ação realizada e se fazendo, “a ação dramática carrega necessariamente ambiguidade e contradição, e nesse movimento desvela e transforma” (SANTOS, 1990, p.136). Preocupada com a banalização e o reducionismo tecnicista da dramatização, esta autora ressalta a necessidade de uma articulação epistemológica entre o conceito de ação dramática e a visão trágica de mundo, “concepção esta que é vivida no conflito constante entre o destino divino e o desejo humano de auto-determinação. São dois aspectos distintos e, ao mesmo tempo, inseparáveis” (SANTOS, 1990, p.136).

Nesse sentido, a autora destaca que a ação dramática desvela a existência de discursos diversos e conflitantes que se referem à relação sujeito-mundo, ou seja, revela as múltiplas contradições e conexões contidas no drama protagonizado por um personagem que emerge como um semi-deus/semi-homem situado em um passado-presente.

A ação dramática, portanto, apoiada em uma visão trágica de homem fundamenta uma metodologia singular, a sociopsicodramática, cuja noção de protagonismo reelabora e operacionaliza a relação sujeito-mundo-sujeito.



Desta perspectiva podemos dizer que: a ação dramática se faz quando se reconhece o universo como contraditório, instável e ambíguo. O drama se faz quando questionando-se a tradição, o passado, problematiza-se o presente. A cena dramática se realiza quando um homem, perdendo a sua ilusão egóica de indivíduo desvinculado, protagoniza comprometido e comprometendo a sua rede de relações. (SANTOS, 1990, pg.140)
Dito isto, a ação dramática além de objetivar o subjetivo, rompe a dicotomia indivíduo/grupo, eu/outro, público/privado. Operacionalmente, a ação dramática é a possibilidade cênica de experimentação e criação de enredos e personagens no contexto dramático, um contexto específico e protegido, criado e estabelecido no momento da dramatização. Assim, o “particular” é encenado, questionado, recriado, inventado e socializado dadas as possibilidades da criação coletiva, do compartilhamento e da multiplicidade de identificações (LIMA, 2009).

De fato, a ação dramática, a dramaturgia e a representação de personagens encaminham uma abordagem diferenciada para explorar temáticas socioculturais, interpessoais e subjetivas. Essas linguagens proporcionam recursos técnicos de objetivação da subjetividade e seus conflitos, por meio da externalização e concretização em forma de personagens, cenas e enredos, promovendo a socialização, o compartilhamento e a reflexão de situações e valores presentes no cotidiano e conflitos pertinentes aos respectivos grupos sociais. Sendo assim, possibilita o questionamento e a construção de novos conhecimentos e sentidos, como possíveis versões, superando a dicotomia e a fragmentação de concepções que trabalham com ideal de verdade absoluta, causalidade e universalismo. O objetivo é potencializar a espontaneidade criadora de cada pessoa, no sentido de transformar algo em uma produção coletiva e criativa entre os participantes de uma sessão. Não se trata, simplesmente, de mais uma técnica de dinâmica de grupo, mas de uma metodologia original e própria de uma obra teórica, como já comentamos. Sendo assim, ministrá-la exige uma formação específica, uma especialização em Socionomia.

Dessa maneira, a metodologia moreniana pretende revitalizar a reflexão, o questionamento e a transformação de olhares, percepções e atitudes, função das inserções e posicionamentos no mundo social ao qual pertencemos e do qual participamos, de uma maneira ou de outra.

Apesar de uma “tecnologia do eu”, conforme discute Larrossa (1999), ao proporcionar uma experiência de si, pode possibilitar o questionamento e a crítica aos modos de subjetivação, intervindo nos modos de relação que se estabelecem entre os sujeitos e entre os sujeitos e as instituições, especialmente, as educacionais, por serem formadores de sujeitos. Nessa perspectiva, os recursos metodológicos morenianos ao encaminhar intervenção, engendrando olhares e saberes podem fomentar práticas de singularidade ao dar voz aos sujeitos, estimular expressões, manifestações criativas ou frações de criação coletiva, vivências de intensidade singulares. Ainda que fugazes, pois não se repetem, posto que são momentos de encontros existenciais. Sendo assim, não são passíveis de reproduções. Qualquer tentativa será frustrante. O personagem trágico, heróico, que se rebela frente ao “destino” estabelecido, pode ser assumido, potencializado, encarnado quando há continente, contexto e laço sócio-afetivo de sustentação. Isto pode, ou melhor, é desejável que aconteça no psicodrama, pois metodologicamente, essa é a finalidade do palco, do contexto dramático, do “como se”. Um espaço protegido para se experimentar/encenar livremente fantasias, desejos, conflitos, novas respostas, enfim, um exercício de espontaneidade. Isto pode ser um espaço de práticas de singularidade.

Nessa perspectiva, a contribuição da metodologia sociopsicodramática ao âmbito educacional, seja em contextos formais e/ou não formais, vem sendo discutida em trabalhos anteriores e em andamento. Por ocasião do IV Colóquio de Educação Sócio-comunitária, apresentou-se uma comunicação oral articulando o psicodrama ao conceito de inclusão (LIMA, 2008, 2009).

Feito este preâmbulo, apresentaremos o relato da oficina realizada.


Relato de um ato sociopsicodramático:

A oficina de psicodrama “indagações sobre o tempo”
No contexto do trabalho desenvolvido, a oficina de psicodrama realizou um ato sociopsicodramático, ou seja, uma intervenção pontual com início, meio e fim, concernente à metodologia moreniana. Cabe comentar que o ato difere de um trabalho processual sociopsicodramático que se desenvolve em vários encontros, promovendo certa continuidade, um processo que se estabelece.

Segue, então, a narrativa do ato sociopsicodramático – a oficina de psicodrama.



Foi estimulante e significativa a receptividade dos participantes no que diz respeito ao interesse em conhecer melhor o que eles chamavam de “psicodrama”. Eram vinte e cinco participantes, dois homens e vinte e três mulheres, alunos e alunas dos cursos de psicologia, pedagogia e serviço social.

A diretora, termo designado à psicodramatista que coordena a sessão ou ato sociopsicodramático, apresentou-se e compartilhou suas expectativas e intenção em relação ao tema da oficina “indagações sobre o tempo”, comentando a sua relação com a temática do congresso que seria realizado e do qual participaria.

A música “Oração do Tempo” de Caetano Veloso foi utilizada com o objetivo de propiciar aos participantes um momento de interiorização – percepção de si mesmo e mobilização de ressonâncias individuais a partir da música /temática cantada e ouvida.

Em seguida, foram propostas estratégias de exploração ambiental, corporal/expressiva e relacional. Os participantes foram convidados a explorarem de vários modos o local onde estava sendo realizado o trabalho, como se sentiam ali, quais impressões, quem eram aquelas pessoas e o que queriam ou esperavam com aquela experiência. Indagou-se sobre quem já se conhecia, cursos e períodos frequentados, quais foram os critérios de chegada e escolha pela oficina, quais eram as expectativas, os desejos e as fantasias. Foi proposto que as pessoas construíssem e compartilhassem suas narrativas, criassem expressões cênicas e corporais. As narrativas de conteúdos pessoais foram socializadas em pares, depois em trios e, por fim, pequenos grupos. Por várias vezes, a constituição dos grupos era modificada, sendo pedido para trocarem de lugar e parceiros. Após circularem por várias possibilidades de grupamentos, propôs-se que pensassem individualmente sobre a dimensão do tempo em suas vidas, como cada um estava percebendo e lidando com o tempo em suas vidas cotidianas e compartilhassem em seu grupo. Quatro grupos foram constituídos. Cada grupo, a partir do relato compartilhado por cada integrante, criaria uma história comum para ser encenada, ou seja, cada grupo transformaria narrativas individuais em uma história coletiva e encenaria a sua história, construída coletivamente pelos seus integrantes.

Findada a encenação, pediu-se a nomeação de um título para a história encenada. Todos sugeriram nomes até finalizar em um melhor aceito pelos integrantes do grupo que havia encenado.

Quatro histórias foram encenadas e os respectivos títulos, seguem abaixo:






  1. “Segurar os ponteiros do relógio”,

  2. “Tempo para tudo, tempo para nada”,

  3. “Nós fazemos o tempo”

  4. “Liga do tempo”

Solicitou-se que a partir do que viram e ouviram cada um, individualmente, escolhesse uma história que não fosse a sua e/ou de seu grupo. A tarefa era escolher outra história que por algum motivo pessoal, tenha chamado a atenção entre as demais encenadas.

A história escolhida pela maioria foi “Liga do tempo”.

O grupo era constituído por mulheres.

A cena apresentava uma alusão à Liga da Justiça, um desenho animando, com vários super-heróis.
A dramatização.

Cada mulher, uma a uma, integrante do grupo, assumindo a personagem de super heroína, vai ao centro do palco, com uma postura altiva, de punho fechado e erguido ao alto, diz o seu nome e todas as suas atividades diárias.

As super-heroínas formam um círculo, com expressões de contentamento e poder, finalizando a cena.
As “Super Mulheres” afirmavam que apesar da correria do dia a dia, com trabalho, estudos, filhos etc., conseguiam ainda encontrar tempo e disposição para o lazer, enfatizando que há tempo para ser feliz. Orgulhavam-se de serem grandes guerreiras e darem conta do recado.
A cena escolhida foi dramatizada novamente pelas integrantes do grupo.
Após a dramatização, a diretora questionou a platéia, ou seja, os participantes que assistiram à dramatização foram indagados sobre as suas impressões, o que acharam, o que sentiram ao ver aquela cena.

Após algum tempo... algumas pessoas duvidaram da harmonia da cena, ou seja, a ausência de conflito e/ou sofrimento das personagens vigorosas, potentes, satisfeitas dando conta de tudo.

As protagonistas, as super-mulheres à imagem dos super-heróis foram questionadas.
A diretora perguntou quais eram as ressonâncias mobilizadas.
As pessoas compartilharam, desabafaram:

“...o dia a dia não é cor-de-rosa;



... no quarto, sozinha, a coisa é diferente; não é tão simples, fácil...,

... momentos de solidão, dúvida, insegurança...”
Outras ressonâncias foram compartilhadas.

Preconceitos.

Quais preconceitos?

Preconceitos com relação à escolha... caminhos... sexualidade... orientação...


Novas histórias, novos personagens, novos dramas, novas dramatizações.

As ressonâncias foram traduzidas em cenas.


um trabalhador em seu ambiente de trabalho é zombado por colegas pelo fato de cursar psicologia, um curso de mulher... isso não é coisa de homem...”;
Uma mãe critica a filha por cursar pedagogia; dizendo... estudar para ser babá...”.
Dramatizações.

Participações.

Ressonâncias.

Compartilhamento dramatizado.

Multiplicação de sentidos e significados.

Respostas, questões, dúvidas e certezas.

Afirmações.

Indagações.

Diferir.

Estranhar.

Surpresas.

Estar em grupo.

Sentir.

Falar.


Ouvir.

Ressoar...

Mudar? Ou Afirmar?

Voltar para o dia a dia.

Voltar?

Mas, o tempo não pára...





Ao final do trabalho, havia um clima gostoso, acolhedor, fraterno, solidário.

O trabalho foi considerado produtivo por todos, com uma avaliação bastante satisfatória dos participantes.

Eles e elas não conheciam o psicodrama e manifestaram interesse em dar continuidade à experiência.


Possíveis reflexões

A intensidade e a qualidade do vivido é uma experiência singular e impactante, um acontecimento. E, pelo que tudo indica, aconteceu.

Estar em grupo, manifestar, expressar, ouvir, compor, ensaiar, experimentar, brincar, fortalece, alegra, areja e alimenta.

Constatamos que são poucas as oportunidades de uma experiência como esta. Infelizmente.

Escolher é árduo, solitário e, por vezes, tenso, ambivalente, conflitivo quando contraria expectativas e padrões estabelecidos socialmente.

O julgamento depreciativo a respeito de escolhas e/ou manifestações alheias e a solidão, são fenômenos presentes, recorrentes no dia a dia, explicitados e discutidos pelos participantes durante o trabalho realizado.

As demandas, deveres, expectativas e controles, os mais diversos, alienam e capturam a subjetividade de cada um.

Neste fluxo, o tempo parece não nos pertencer.

Uns, apesar de se sentirem escravizados, subordinados, submetidos, compreendendo ou não do que se trata, questionam, resistem.

Outros se conformam à ordem vigente, identificando-se com personagens servis, viris, eficientes e idealizados como super-heróis ou imagens criadas diante das quais não há a menor possibilidade de diferir sem a sombra do fracasso, exclusão ou outra retaliação. Nesse caso, confirma-se uma identidade naturalizada e fixada em padrões de conduta prescritivos, normativos e, sobretudo, “normal” (DUSCHATZKY & SCLIAR, 2001).

Este parece o tempo dos tempos atuais.
A diferença é o desafio dos tempos!
Parece urgente a emergência e valorização de práticas de singularização, como discute Guattarri (2000), especialmente as que dialogam com o seu entorno social e cultural.

As práxis educativas desenvolvidas em espaços educacionais, formais e/ou não formais, em geral, preocupados com propósitos definidos a priori, exteriores aos sujeitos envolvidos, delineados por uma perspectiva técnica e instrumental pecam por pouco valorizar a qualidade das interações estabelecidas entre as pessoas, assim como, as experiências de vida, saberes, desejos e outros. Nesse enquadre, não escutam e/ou potencializam as vozes e/ou manifestações singulares dos sujeitos, destinatários envolvidos. Favorecem, assim, a lógica da produção de identidades naturalizadas, fixadas, por meio de modos de subjetivação massificantes, homogeneizadores, disciplinadores que embrutecem as relações, sujeitando os seres humanos. Forjam subjetividades identificadas com a conserva cultural, ou seja, reeditam o que está instituído, validado socialmente, pela norma e pelo controle. Em outras palavras, naturalizam um processo que é engendrado social e culturalmente, a produção de identidade e da diferença (SILVA, 2000).

Em contrapartida, a valorização, a legitimidade e o reconhecimento da singularidade são fundamentais enquanto norte de uma práxis educativa ao saber-se formadora/produtora de sujeitos.

A proposição de que a práxis educacional forme sujeitos críticos e sensíveis demanda saber-se parte de um processo, implicado em modos de subjetivação. Nesse caso, cabe questionar as relações de poder estabelecidas em torno dos saberes legitimados ou não no contexto do que se entende por educação, seja no âmbito escolar e/ou não-escolar. Dito de outro modo, as relações pedagógicas ou educacionais são estabelecidas no contexto de um regime de verdade, sendo assim, situadas numa circularidade entre poder e saber. Valorizam e reconhecem certas “verdades” e os sujeitos que as nomeiam e/ou as representam e desvalorizam outras e outros, como discute Foucaul (1998) e outros autores como Gore (1999).

Nesse sentido, o psicodrama enquanto perspectiva metodológica operacionaliza fóruns de questionamento, crítica e reflexão de temáticas muitas vezes não pensadas, avaliadas subjetivamente e coletivamente, como, por exemplo, a dimensão do tempo e o impacto nas vidas cotidianas.

Imagens, comportamentos, pensamentos e discursos são produzidos socialmente, culturalmente e politicamente tecendo uma subjetividade coletiva desfavorável à possibilidade de reflexão, oposição, resistência e escolha dos sujeitos sociais. Trata-se de modos de subjetivação propagados por várias instâncias e agentes sociais que eficientemente capturam as singularidades em padrões de comportamentos socialmente desejáveis, previstos e controláveis das formas mais sutis quanto o desenvolvimento das tecnologias do eu. Estas, dispositivos de produção de subjetividade e identidade são agenciamentos realizados, por muitos, mídia, moda, saberes, critérios de: seleção, inclusão e promoção, sejam estes, de formação acadêmica, profissional, cultural. Aparatos de controle sobre a possibilidade de diferir, de se distanciar das expectativas previamente estabelecidas, em outras palavras, prescrição do sujeito social, por meio de vários modos de controle e subjetivação, sobretudo, neste panorama, as relações pedagógicas em contextos formativos, escolares e não escolares.





Palavras finais
Considerando o que foi exposto, destaca-se o cunho político do psicodrama devido à peculiaridade metodológica de reconhecer, valorizar e legitimar a singularidade de cada criando canais de expressão frente aos acontecimentos. Sejam estes, da ordem que for. Em outras palavras, o propósito do psicodrama é afetar, evocar ressonâncias, sentidos e significados mobilizados dada à participação e autoria nos rumos da história que se escolhe, se repudia, se cria e se conta, e, a que não se conta. Ou seja, o sujeito é convocado a participar de uma construção coletiva, desafiando a sua capacidade de interagir socialmente e a criar por meio de uma linguagem peculiar, cênica e ficcional. Isso demanda estar em relação, ser afetado e afetar, diante da necessidade de que se articule um diálogo e/ou uma luta com o que efetivamente estiver acontecendo.

Afinal, participamos politicamente de algum lugar e de alguma forma, por meio de nossas inserções e práticas sociais. Em acordo com essa proposição, o conceito de político não está circunscrito a um formato institucional, exterior ao sujeito. Refere-se a um amplo campo de possibilidades, multifacetado e pulverizado no cotidiano das relações sociais, ninguém escapa. Nesta perspectiva, a cultura consubstanciada em suas práticas sociais, não é um campo derivado, um produto. Mas, o próprio processo de tessitura. Um campo simbólico e político de luta onde se criam significados, sentidos e onde se lutam por esses significados.

A metodologia sociopsicodramática é uma práxis social, educacional, portanto, um campo político de luta e de criação de sentidos e significados constantes. Criador, criação e criatura num movimento circular ininterrupto, no campo simbólico e cultural.

O potencial analógico, criativo e artístico dessa metodologia, pode favorecer a ruptura de padrões hegemônicos e normativos de relações humanas, por meio de enunciados que fazem aberturas à diferença, à participação, à expressão, à insurreição de saberes, contrariando um padrão normativo de condutas, sentidos, significados e verdades, tanto mais possibilite deslocamentos, multiplicação e criação de novas versões e múltiplas verdades.


Referências bibliográficas
AGUIAR, M. O teatro espontâneo e psicodrama. São Paulo: Ágora, 1998.

DUSCHATZKY, S.; SCLIAR, C.. O Nome dos outros. Narrando a alteridade na cultura e na educação. In LARROSA, J.; SCLIAR, C. (orgs) Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autência, 2001.

FOUCAULT, M.. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: edições Graal,1998.

GORE, J. M. Foucaul e educação: fascinantes desafios. In SILVA, T. T. da (org.). O sujeito da educação: estudos foucaltianos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

GUATTARI, F. As três ecologias. Campinas: Papirus, 2001.

LARROSA, J. Tecnologias do eu e educação. In SILVA, T. T. da (org.). O sujeito da educação: estudos foucaltianos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

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SILVA, T. T. A produção social da identidade e da diferença. In SILVA, Tomaz Tadeu da (org.) Identidade e diferença. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.


Mini currículo da autora - Norma Silvia Trindade de Lima

Psicóloga pela Universidade Santa Úrsula (1985), Psicodramatista-Didata pelo Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas (1997), Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1998, 2003). É docente no Programa de Mestrado em Educação e Curso de Psicologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo - UNISAL, membro do Laboratório de estudos e pesquisa em ensino e diversidade - LEPED/FE/UNICAMP. Tem experiência na área clínica, institucional e educacional, com ênfase em Inclusão e psicodrama. Principais temáticas de estudos, ações educativas e publicação: educação, psicodrama/teatro espontâneo, inclusão, formação de educadores, subjetividade, identidade e diferença.



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telefone: (19) 91052358


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