Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



Baixar 0.88 Mb.
Página22/45
Encontro19.07.2016
Tamanho0.88 Mb.
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   45

Os livros questionados por alguns — antilegomena


De acordo com o historiador Eusébio, houve sete livros cuja autenticidade foi questionada por alguns dos pais da igreja, e por isso ainda não haviam obtido reconhecimento universal por volta do século IV. Os livros objeto de controvérsia foram Hebreus, Tiago, 2Pedro, 2 e 3João, Judas e Apocalipse.

A natureza dos antilegomena


O fato de esses livros não terem obtido reconhecimento universal o início do século IV não significa que não haviam tido aceitação por parte das comunidades apostólicas e subapostólicas. Ao contrário, esses livros foram citados como inspirados por vários estudiosos primitivos (v. caps. 3 e 9). Tampouco o fato de terem sido questionados, em certa época, por alguns estudiosos, é indício de que sua presença no cânon atual seja menos firme do que a dos demais livros. Ao contrário, o problema básico a respeito da aceitação da maioria desses livros não era sua inspiração, ou falta de inspiração, mas a falta de comunicação entre o Oriente e o Ocidente a respeito de sua autoridade divina. A partir do momento em que os fatos se tornaram conhecidos por parte dos pais da igreja, a aceitação final, total, dos 27 livros do Novo Testamento foi imediata.

O número dos antilegomena


Cada livro sofreu questionamento por razões particulares. Nesta altura de nossa pesquisa, cabe uma breve exposição sobre os porquês das objeções que cercaram cada livro e sua aceitação definitiva.

Hebreus. Foi basicamente a anonimidade do autor que suscitou dúvidas sobre Hebreus. Visto que o autor não se identifica e não afirma ter sido um dos apóstolos (Hb 2.3), o livro permaneceu sob suspeição entre os cristãos do Oriente, que não sabiam que os crentes do Ocidente o haviam aceito como autorizado e dotado de inspiração. Além disso, o fato de os montanistas heréticos terem recorrido a Hebreus em apoio a algumas de suas concepções errôneas fez demorar sua aceitação nos círculos ortodoxos. Ao redor do século IV, no entanto, sob a influência de Jerônimo e de Agostinho, a carta aos Hebreus encontrou seu lugar permanente no cânon.

O fato de o autor da carta aos Hebreus ser anônimo deixou aberta a questão de sua autoridade apostólica. Com o passar do tempo, a igreja ocidental veio a aceitar que Hebreus era oriundo da pena de Paulo, o que evidentemente resolveu a questão. Uma vez que o Ocidente estava convencido do cunho apostólico desse livro, nenhum obstáculo permaneceu no caminho de sua aceitação plena e irrevogável no cânon. O teor do livro é claramente confiável, tanto quanto sua reivindicação de deter autoridade divina (cf. 1.1; 2.3,4; 13.22).



Tiago. A veracidade do livro de Tiago foi desafiada, tanto quanto sua autoria. Como no caso da carta aos Hebreus, o autor da carta atribuída a Tiago não afirma ser apóstolo. Os primeiros leitores e os que se lhes seguiram puderam atestar que esse era o Tiago do círculo apostólico, o irmão de Jesus (cf. At 15 e Gl 1). Todavia, a igreja ocidental não teve acesso a essa informação original. Também havia o problema do ensino a respeito da justificação e das obras, conforme Tiago o apresenta. O aparente conflito entre seu ensino e o de Paulo, sobre a justificação pela fé, representou um peso contra a carta de Tiago. Até Martinho Lutero chegou a chamar Tiago de "carta de palha", colocando-a no fim do Novo Testamento. No entanto, em decorrência dos esforços de Orígenes, de Eusébio (que pessoalmente recomendava a aceitação de Tiago), de Jerônimo e de Agostinho, a veracidade e a apostolicidade dessa carta vieram a ser reconhecidas pela igreja ocidental. Dessa época até o presente, Tiago vem ocupando sua posição canônica no cristianismo. É claro que sua aceitação baseia-se na compreensão de sua compatibilidade essencial com os ensinos paulinos a respeito da justificação do crente pela fé.

Segunda carta de Pedro. Nenhuma outra carta do Novo Testamento ocasionou maiores dúvidas quanto à sua autenticidade do que 2Pedro. Parece que Jerônimo entendeu o problema; ele afirmou que a hesitação em aceitá-la como obra autêntica do apóstolo Pedro deveu-se à dessemelhança de estilo com a primeira carta do apóstolo. Há algumas diferenças notáveis de estilo entre as duas cartas de Pedro, mas, não obstante os problemas lingüísticos e históricos, há mais do que amplas razões para que aceitemos 2Pedro como livro canônico.

William F. Albright, chamando a atenção para as similaridades com a literatura do Qumran, data 2Pedro anteriormente a 80 d.C. Isso significa que essa carta não é fraude forjada no século II, mas carta que se originou no período apostólico. O Papiro Bodmer (p72), recentemente descoberto, contém uma cópia de 2Pedro oriunda do Egito, do século IIi. Essa descoberta também revela que 2Pedro estava sendo usada com grande respeito pelos cristãos coptas, em época bem primitiva. Clemente de Roma, bem como a obra Pseudo-Barnabé, dos séculos i e n respectivamente, citam 2Pedro. Temos além disso os testemunhos de Orígenes, de Eusébio, de Jerônimo e de Agostinho, do século III ao v. Aliás, há mais comprovações de 2Pedro que de alguns clássicos do mundo antigo, como as obras de Heródoto e de Tucídides. Finalmente, há evidências internas a favor da confiabilidade de 2Pedro. Há na carta características e interesses doutrinários notadamente petrinos. As diferenças de estilo podem ser explicadas facilmente, por causa do emprego de um escriba em 1Pedro, o que não ocorreu em 2Pedro (v. 1Pe 5.12).



Primeira e segunda cartas de João. As duas cartas mais curtas de também foram alvo de questionamento quanto à autenticidade. O escritor se identifica apenas como "o presbítero"; por causa dessa anonimidade de sua circulação limitada, as cartas não gozaram de ampla aceitação, ainda que fossem mais amplamente aceitas do que 2Pedro. Policarpo e Irineu haviam aceito 2João como confiável. O Cânon muratório e a Antiga latina continham ambas. A semelhança em estilo e em mensagem com 1João, que havia sido amplamente aceita, mostrou ser óbvio que as outras duas vieram do apóstolo João também (cf. 1Jo 1.1-4). Quem mais seria tão íntimo dos primitivos crentes asiáticos, de tal modo que pudesse escrever com autoridade sob o título afetuoso de "o presbítero"? O termo presbítero (ancião) era usado como título pelos demais apóstolos (v. 1Pe 5.1), pelo fato de denotar o cargo que ocupavam (v. At 1.20), enquanto apostolado designava o dom que haviam recebido (cf. Ef 4.11).

Judas. A confiabilidade desse livro foi questionada por alguns. A maioria da contestação centrava-se nas referências ao livro pseudepigráfico de Enoque (Jd 14,15) e numa possível referência ao livro Assunção de Moisés (Jd 9). Orígenes faz ligeira menção desse problema (Comentário sobre Mateus, 18,30), e Jerônimo declara especificamente ser esse o problema (Jerônimo, Vidas de homens ilustres, cap. 4). No entanto, Judas foi suficientemente reconhecida pelos primeiros pais da igreja. Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano aceitaram a confiabilidade desse livro, como o fez o Cânon muratório. As citações pseudepigráficas têm uma explicação, a qual se valoriza muito pelo fato de tais citações não serem essencialmente diferentes das citações feitas por Paulo de poetas não-cristãos (v. At 17.28; 1Co 15.33; Tt 1.12). Em nenhum desses casos os livros são citados como se tivessem autoridade divina, tampouco as citações representam aprovação integral de tudo que os livros pagãos ensinam; os autores das cartas bíblicas meramente citam um fragmento de verdade encravada naqueles livros. O Papiro Bodmer (p72), recentemente descoberto, confirma o uso de Judas, ao lado de 2Pedro, na igreja copta do século III.

Apocalipse. Esse livro havia sido considerado parte dos antilegomena no início do século IV, pelo fato de alguns haverem levantado dúvidas quanto à sua confiabilidade. A doutrina do quiliasmo (milenarismo), achada em Apocalipse 20, foi o ponto central da controvérsia. O debate em torno do Apocalipse provavelmente durou mais que qualquer outro debate sobre outros livros neotestamentários. A controvérsia chegou até fins do século IV, É de estranhar, contudo, que o Apocalipse tenha sido um dos primeiros livros a ser reconhecidos entre os escritos dos primeiros pais da igreja. Havia sido aceito pelos autores do didaquê e do pastor, por Papias e por Irineu, bem como pelo Cânon muratório. Todavia, quando os montanistas agregaram seus ensinos heréticos ao livro de Apocalipse, no século III, a aceitação definitiva desse livro acabou sofrendo uma demora mais longa. Dionísio, o bispo de Alexandria, levantou sua voz influente contra o livro de Apocalipse, em meados do século III. Mas essa influência se desvaneceu quando Atanásio, Jerônimo e Agostinho ergueram-se em defesa do Apocalipse. A partir do momento em que se tornou evidente que o livro de Apocalipse estava sendo mal usado pelas seitas heréticas, embora houvesse saído da pena do apóstolo João (Ap 1.4; v. 22.8,9), e não dentre os hereges, assegurou-se o lugar definitivo desse livro no cânon sagrado.

Em resumo: alguns pais da igreja haviam-se posicionado contra os antilegomena. Isso ocorrera por causa da falta de comunicação, ou por causa de más interpretações que se fizeram desses livros. A partir do momento em que a verdade passou a ser do conhecimento de todos, tais livros foram aceitos plena e definitivamente, passando para o cânon sagrado, da forma exata como haviam sido reconhecidos pelos cristãos primitivos desde o início.


1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   45


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal