Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



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Os livros aceitos por alguns — apócrifos


A distinção que se faz entre os apócrifos do Novo Testamento e os livros pseudepigráficos não é autorizada. Estes, na maior parte, não haviam sido aceitos pelos pais primitivos e ortodoxos da igreja, nem pelas igrejas, não sendo, portanto, considerados canônicos; mas os livros apócrifos gozavam de grande estima pelo menos da parte de um pai da igreja.

A natureza dos apócrifos do Novo Testamento


Os apócrifos do Novo Testamento quando muito tiveram o que Alexander Souter chamou "canonicidade temporal e local".16 Haviam sido aceitos por um número limitado de cristãos, durante um tempo limitado, mas nunca receberam um reconhecimento amplo ou permanente. O fato de esses livros possuírem mais valor do que os "pseudepígrafos" sem dúvida explica a mais elevada estima de que gozavam entre os cristãos.

Há diversas razões por que são importantes, e faziam parte bibliotecas devocionais e homiléticas das igrejas primitivas: 1) revelam os ensinos da igreja do século II, 2) fornecem documentação da aceitação dos 27 livros canônicos do Novo Testamento e 3) fornecem outras informações históricas a respeito da igreja primitiva, no que concerne à sua doutrina e liturgia.


O número dos apócrifos do Novo Testamento


Enumerar os livros apócrifos do Novo Testamento é tarefa difícil, porque depende da distinção que se faz entre apócrifos e pseudepígrafos. Se o critério for a aceitação por pelo menos um dos pais ortodoxos ou as listas dos primeiros cinco séculos,** está armado o debate.

Epístola do Pseudo-Barnabé (c. 70-79). Essa carta, que teve ampla circulação no século I, encontra-se no Códice sinaítico, sendo mencionada no sumário do Códice Beza (d), nos remotos anos de 550. Foi mencionada como Escritura tanto por Clemente de Alexandria como por Orígenes. Seu estilo é semelhante ao de Hebreus, mas seu conteúdo é mais alegórico. Alguns têm questionado se esse documento realmente é do século I. Mas, como disse Brooke Foss Westcott: "A antigüidade da carta está firmemente comprovada, mas sua confiabilidade é mais do que questionável".17 O autor da carta é um leigo que não reivindica autoridade divina (cap. 1), e obviamente não é o Barnabé que se nomeia entre os apóstolos do Novo Testamento (At 14.14).

Epístola aos coríntios (c. 96). De acordo com Dionísio, de Corinto, essa carta de Clemente de Roma havia sido lida publicamente em Corinto e em outros lugares. Também se encontra do Códice alexandrino (a), por volta de 450, e Eusébio nos informa que essa carta havia sido lida em muitas igrejas (História eclesiástica, 3,16). Provavelmente o autor teria sido o Clemente mencionado em Filipenses 4.3, mas a carta não reivindica inspiração divina. Nota-se o emprego um tanto fantasioso de declarações do Antigo Testamento, e o apócrifo Livro da sabedoria é citado como Escritura no cap. 27. O tom da carta é evangélico, mas seu espírito é indubitavelmente subapostólico. Nunca houve ampla aceitação desse livro, e a igreja jamais o reconheceu como canônico.

Homília antiga. A chamada Segunda epístola de Clemente (c. 120-140) havia sido erroneamente atribuída a Clemente de Roma. Foi conhecida e usada no século II. No Códice alexandrino (a) consta no fim do Novo Testa mento, ao lado de 1Clemente e de Salmos de Salomão. Não existem evidências de que esse livro em certa época haja sido considerado canônico. Se isso aconteceu, certamente teria sido em pequena escala. O cânon do Novo Testamento o exclui até hoje.

O pastor, de Hermas (c. 15-140). Foi o livro não-canônico mais popular da igreja primitiva. Encontrava-se no Códice sinaítico (X), no sumário de Beza (d), em algumas Bíblias latinas, sendo citado como inspirado por, Irineu e por Orígenes. Eusébio relata que esse livro era lido publicamente nas igrejas e usado para instrução na fé. O pastor, de Hermas, é grande! alegoria cristã e, à semelhança do peregrino, de John Bunyan, posteriormente ficou em segundo lugar em relação aos livros canônicos em circulação na igreja primitiva. Como outro livro, Sabedoria de Siraque (Eclesiástico), dentre os apócrifos do Antigo Testamento, O pastor tem valor ético e devocional, mas nunca foi reconhecido pela igreja como canônico. A nota no Fragmento muratório sintetiza a classificação do pastor na igreja primitiva: "Deve ser lido; todavia, não pode ser lido na igreja para o povo, nem como se estivesse entre os profetas, visto que o número destes já está completo, tampouco entre os apóstolos, até o fim dos tempos".18

O didaquê, ou Ensino dos doze apóstolos (c. 100-120). Essa obra primitiva também gozou de grande prestígio na igreja primitiva. Clemente de Alexandria a mencionava como Escritura, e Atanásio afirma ser ela usada na instrução ou catequese. No entanto, Eusébio a colocou entre os "escritos rejeitados", como o fariam os primitivos pais mais importantes, depois dele, e a igreja em geral. Todavia, o livro tem grande importância histórica, como elo entre os apóstolos e os pais primitivos, com suas muitas referências aos evangelhos, às cartas de Paulo e até ao Apocalipse. No entanto, jamais foi reconhecido como canônico em nenhuma das traduções oficiais e listas produzidas pela igreja primitiva.



Apocalipse de Pedro (c. 150). Trata-se de um dos mais velhos dos apocalipses não-canônicos do Novo Testamento, tendo circulado em larga escala na igreja primitiva. É mencionado no Fragmento muratório, no sumário de Beza (d) e por Clemente da Alexandria. Suas imagens vividas do mundo espiritual exerceram forte influência no pensamento medieval, de que derivou o Inferno, de Dante. O Fragmento muratório foi questionado a respeito de sua confiabilidade, havendo quem reclamasse do fato de o livro não ser lido publicamente nas igrejas. A igreja universal nunca reconheceu como canônico.

Atos de Paulo e de Tecla (170). É livro mencionado por Orígenes, estando no sumário do Códice Beza (d). Se despido de seus elementos mitológicos, trata-se da história de Tecla, senhora proveniente de Icônio, supostamente convertida pelo ministério de Paulo segundo consta em Atos 14.1-7, Muitos estudiosos acreditam que esse livro traga uma tradição genuína, mas a maioria inclina-se a concordar com Adolf von Harnack em que o livro contém "forte dose de ficção e pouquíssima verdade". Essa obra jamais chegou perto de obter reconhecimento canônico.

Carta aos laodicenses (século IV?). É obra forjada já conhecida por Jerônimo, a qual aparece em muitas Bíblias do século VI ao XV. Assim observou J. B. Lightfoot: "Essa carta é um punhado de frases paulinas costuradas entre si sem nenhum elemento conector definido, e sem objetivo claro".19 Não apresenta peculiaridades doutrinárias, sendo tão inócua quanto pode ser uma obra falsificada. Esses elementos combinam-se com o fato de haver um livro com o mesmo título, mencionado em Colossenses 4.16, resultando em tal obra vir a aparecer muito tarde nos círculos cristãos. Ainda que o Concilio de Nicéia n (787) tenha advertido a igreja contra esse livro, chamando-o "carta forjada", ele reaparece na época da Reforma, em língua alemã e também nas Bíblias inglesas. Apesar disso, jamais obteve reconhecimento canônico.

O Fragmento muratório menciona um livro com esse mesmo título, mas alguns estudiosos julgam tratar-se de uma referência à Carta aos Efésios ou a Filemom, que Paulo chamava "carta de Laodicéia". Tal confusão explica a persistente reaparição desse livro não-canônico, que, sem sombra de dúvidas, não é de fato canônico.



Evangelho segundo os hebreus (65-100). Provavelmente esse é o evangelho não-canônico mais antigo que exista, o qual sobreviveu apenas em fragmentos encontrados nas citações feitas por vários pais primitivos da igreja. De acordo com Jerônimo, alguns o chamavam verdadeiro evangelho, mas isso é questionável, tendo em vista o fato de a obra apresentar pouquíssima semelhança com o Mateus canônico; é livro em muitos aspectos de natureza mais pseudepigráfica que apócrifa. Os primitivos pais da igreja provavelmente o usavam mais como fonte homilética, não tendo jamais obtido categoria de livro bíblico canônico.

Epístola de Policarpo aos filipenses (c. 108). Policarpo, discípulo do apóstolo João e mestre de Ireneu, constitui elo importante com os apóstolos do século I. Policarpo não advogou inspiração divina para sua obra; disse que apenas ensinava as coisas que havia aprendido com os apóstolos. Há pouca originalidade nessa epístola, visto que tanto o conteúdo como o estilo foram tomados por empréstimo do Novo Testamento, de modo especial da carta de Paulo aos filipenses. Embora a carta de Policarpo não seja canônica, é fonte valiosa de informações a respeito de outros livros do Novo Testamento que ele próprio cita como canônicos.

Sete epístolas de Inácio (c. 110). Essas cartas revelam familiaridade incontestável com os ensinos do Novo Testamento, de modo especial com as cartas de Paulo. No entanto, o estilo das cartas é mais joanino. Irineu cita a carta escrita aos efésios, e Orígenes cita tanto a Epístola aos romanos como a enviada aos efésios. Inácio, que segundo a tradição teria sido discípulo de João, não reivindica para si a virtude de falar com autoridade divina. Aos efésios, por exemplo, ele escreve: "Não dou ordens a vós, como se eu fora personagem importante [...] Falo-vos como co-discípulo que sou de vós" (cap. 3). Sem dúvida as cartas são autênticas, não, porém, apostólicas e, por isso, não canônicas. Esse tem sido o consenso da igreja ao longo dos séculos. Os escritos genuínos do período subapostólico são os mais úteis, sob o aspecto histórico, visto que revelam o estado da igreja e o reconhecimento dos livros canônicos do Novo Testamento.

Podemos resumir tudo isso dizendo que a grande maioria dos livros do Novo Testamento jamais sofreu polêmicas quanto à inspiração, desde o início. Todos os livros originariamente reconhecidos como inspirados por Deus, que mais tarde sofreriam algum questionamento, chegaram a gozar plena e definitiva aceitação por parte da igreja no mundo inteiro. Certos livros não-canônicos, que gozavam de grande prestígio, que eram muito usados e que tinham sido incluídos em listas provisórias de livros inspirados, foram tidos como valiosos para emprego devocional e homilético, mas nunca obtiveram reconhecimento canônico por parte da igreja. Só os 27 livros do Novo Testamento são tidos e aceitos como genuinamente apostólicos. Só esses 27 encontraram lugar permanente no cânon do Novo Testamento.


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