Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



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Manuscritos do Novo Testamento


A integridade do Antigo Testamento foi confirmada em primeiro lugar pela fidelidade do processo de transmissão, posteriormente confirmada pelos rolos do mar Morto. Por outro lado, a fidelidade do texto do Novo Testamento baseia-se na multiplicidade de manuscritos existentes. É fato que do Antigo Testamento restaram apenas alguns manuscritos completos, todos muito bons; mas do Novo possuímos muito mais cópias, em geral de qualidade mais precária. Chama-se manuscrito um documento escrito a mão, em contraste com uma cópia ou exemplar impresso. Como dissemos no capítulo anterior, o Novo Testamento foi escrito em letras de imprensa, conhecidas pelo nome de unciais (ou maiúsculas). A partir do século vi esse estilo caiu em desuso, sendo gradualmente substituído pelos manuscritos chamados minúsculos. Estes predominaram no período que vai do século IX ao XV.

Outros testemunhos sobre a fidelidade do texto do Novo Testamento procedem de outras fontes básicas: manuscritos gregos, antigas versões e citações patrísticas. Os manuscritos gregos são a fonte mais importante, e podem ser divididos em três categorias. Essas categorias de manuscritos comumente recebem o nome de papiros, unciais e minúsculos, em vista de suas características diferenciadas.


Os papiros


Os manuscritos classificados como papiros datam dos séculos n e m, quando o cristianismo ainda era ilegal, è as Escrituras Sagradas eram copiadas nos materiais mais baratos possíveis. Existem cerca de 26 manuscritos do Novo Testamento em papiro. O testemunho comprobatório que esses manuscritos proporcionam ao texto é valiosíssimo, visto que surgiram a partir do alvorecer do século II, apenas uma geração depois dos autógrafos originais, e contêm a maior parte do Novo Testamento.

Vamos comentar aqui os representantes mais importantes dos manuscritos de papiro. O p52 ou Fragmento de John Rylands (117-138) é o mais antigo e genuíno que se conhece traz um trecho do Novo Testamento. Foi escrito de ambos os lados e traz partes de cinco versículos do evangelho de João (18.31-33,37,38). O p45, o p46 e o p47, os Papiros Chester Beatty (250), consistem de três códices que abrangem a maior parte do Novo Testamento. O p45 compreende trinta folhas de um códice de papiro que contêm os evangelhos e Atos. O p46 traz a maior parte das cartas de Paulo, bem como Hebreus, faltando, porém, algumas partes de Romanos, 1Tessalonicenses e toda 2Tessalonicenses. O p47 contém partes do Apocalipse. O p66, o p72 e o p75, os Papiros Bodmer (175-225), compreendem a mais importante descoberta de papiros do Novo Testamento, desde o Papiro Chester Beatty. O p66 data de 200 d.C; contém algumas porções do evangelho de João. O p72 é a mais antiga cópia de Judas e de 1 e 2Pedro que se conhece; data do século III e contém vários livros, alguns canônicos, outros apócrifos. O p75 contém Lucas e João em unciais cuidadosamente impressos, com toda a clareza; data de 175 a 225. Por isso, é a mais antiga cópia de Lucas de que se tem notícia.


Os unciais


Os mais importantes manuscritos do Novo Testamento como um todo são considerados em geral os grandes unciais, escritos em velino e em pergaminho, nos século IV e V. Existem cerca de 297 desses manuscritos unciais. Descreveremos a seguir alguns dos mais importantes desses manuscritos. Os mais importantes deles, o X, OB, OA e OC, não estiveram à disposição dos tradutores da Bíblia do rei Tiago. Na verdade, só O D esteve à disposição desses tradutores, que o utilizaram pouco. Bastaria esse fato para que se exigisse uma nova tradução da Bíblia, depois que esses grandes documentos unciais foram descobertos.

O Códice Vaticano (B) talvez seja o mais antigo uncial em velino ou em pergaminho (325-350), sendo uma das mais importantes testemunhas do texto do Novo Testamento. Foi desconhecido dos estudiosos bíblicos até depois de 1475, quando foi catalogado na Biblioteca do Vaticano. Foi publicado pela primeira vez em 1889-1890 em fac-símile fotográfico. Contém a maior parte do Antigo Testamento grego (LXX), o Novo Testamento grego e os livros apócrifos, com algumas omissões. Faltam também nesse códice Gênesis 1.1-46.28; 2Reis 2.5-7,10-13; Salmos 106.27-138.6, bem como Hebreus 9.14 até O fim do Novo Testamento. Marcos 16.9-20 e João 7.58-8.11 foram omitidos do texto de propósito; o texto todo foi escrito em unciais pequenos e delicados, sobre velino fino.

O Códice sinaítico (a, Álefe) é o manuscrito grego do século IV considerado em geral a testemunha mais importante do texto, por causa de sua antigüidade, exatidão e inexistência de omissões. A história de sua descoberta é das mais fascinantes e românticas da história do texto bíblico. O manuscrito foi descoberto por Tischendorf, conde alemão, no Mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai. Em 1844 ele descobriu 43 folhas de velino que continham porções da Septuaginta (1Crônicas, Jeremias, Neemias e Ester), num cesto cheio de fragmentos usados pelos monges com o fim de acender fogueiras. O conde apanhou esses fragmentos e os levou para Leipzig, na Alemanha, onde até hoje permanecem com o nome de Códice Frederico-Augustanus. Numa segunda visita, em 1853, o conde Tischendorf nada encontrou de novidade, mas em 1859 partiu para sua terceira visita, sob a direção do czar Alexandre II. Quando ele estava prestes a partir, voltando para casa, o mordomo do mosteiro mostrou-lhe uma cópia quase completa das Escrituras e mais alguns livros. Todas as peças foram subseqüentemente entregues ao czar como "presente condicional". Esse manuscrito é conhecido hoje como Códice sinaítico; contém mais da metade do Antigo Testamento (LXX) e todo o Novo (com exceção de Mc 16.9-20 e Jo 7.58— 8.11), todos os livros apócrifos do Antigo Testamento, a Epístola de Barnabé e O pastor, de Hermas. O texto foi escrito em excelente velino, feito de peles de antílopes. O manuscrito sofreu várias "correções" de escribas, as quais se denominam K. Em Cesaréia, no século VI ou VII, um grupo de escribas introduziu outras alterações textuais conhecidas como Xca ou Xcb. Em 1933 o governo inglês comprou o Códice sinaítico por cem mil libras esterlinas. E depois foi publicado num volume intitulado Scribes and correctors of Codex Sinaiticus [Escribas e corretores do Códice sinaítico] em 1938.

O Códice alexandrino (A) é um manuscrito do século v, muito bem conservado, que se posiciona logo depois de B e de Álefe, como representante do texto do Novo Testamento. Embora alguns tenham datado esse códice em fins do século IV, provavelmente é o resultado do trabalho de um escriba de Alexandria, no Egito por volta de 45 d.C. Em 1078 esse códice foi dado de presente ao patriarca de Alexandria, que lhe deu a designação que ostenta até hoje. Em 1621 foi levado a Constantinopla, antes de ser entregue a sir Thomas Roe, embaixador inglês na Turquia, em 1624, para apresentação ao rei Tiago I. Ele morreu antes de o manuscrito chegar à Inglaterra, pelo que foi entregue ao rei Carlos i, em 1627. A ausência do manuscrito nesses anos todos impediu que o documento fosse consultado pelos tradutores da Bíblia do rei Tiago, em 1611, embora todos soubessem de sua existência na época. Em 1757, Jorge n ofertou o manuscrito à Biblioteca Nacional do Museu Britânico. Contém integralmente o Antigo Testamento, exceto algumas partes que sofreram mutilações (Gn 14.14-17; 15.1-5,16-19; 16.6-9; 1Rs [1Sm] 12.18— 14.9; SI 49.19— 79.100 e a maior parte do Novo Testamento, faltando apenas Mt 1.1— 25.6; Jo 6.50— 8.52 e 2Co 4.13— 12.6). O códice contém 1 e 2Clemente e Salmos de Salomão, com a ausência de algumas partes. Suas grandes letras quadradas, unciais, estão escritas em velino muito fino; o texto é dividido em seções mediante o emprego de letras maiores. O texto é de qualidade variável.

O Códice efraimita (c) provavelmente se originou na Alexandria, no Egito, por volta de 345. Foi levado à Itália ao redor de 1500 por John Lascaris e depois vendido a Pietro Strozzi. Catarina de Mediei, italiana, mãe e esposa de reis franceses, o comprou em 1533. Após sua morte, o manuscrito foi colocado na Biblioteca Nacional de Paris, onde permanece até hoje. Falta a esse códice a maior parte do Antigo Testamento, constando dele partes de Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos dos Cânticos e dois livros apócrifos — Sabedoria de Salomão e Eclesiástico. Ao Novo Testamento faltam 2Tessalonicenses, 2João e parte de outros livros. O manuscrito é um palimpsesto (raspado, apagado) reescrito em que originariamente estavam gravados o Antigo e o Novo Testamento. O texto sagrado foi apagado para que nesses pergaminhos se escrevessem sermões de Efraim, pai da igreja do século IV. Mediante reativação química, o conde Tischendorf foi capaz de decifrar as escritas quase invisíveis dos pergaminhos. Esse manuscrito está guardado na Biblioteca Nacional de Paris, e deixa à mostra sinais e evidências de duas fases de correções: a primeira, c2 ou cb, foi realizada na Palestina, no século vi, e a segunda, c3 ou Cc, foi acrescentada no século IX, em Constantinopla.

O Códice Beza (d), também chamado Códice de Cambridge, foi transcrito em 450 ou 550. É o manuscrito bilíngüe mais antigo que se conhece do Novo Testamento, escrito em grego e em latim, na região geral do sul da Gália (França) ou do norte da Itália. Foi descoberto em 1562 por Teodoro Beza, teólogo francês, no Mosteiro de Santo Irineu, em Lião, na França. Em 1581 Beza deu-o à Universidade de Cambridge. Contém os quatro evangelhos, Atos e 3João 11— 15, com variações tiradas de outros manuscritos, nele indicadas. Há muitas omissões no texto, tendo permanecido apenas o texto latino de 3João 11— 15.

O Códice claromontano (d2 ou dp2) é um complemento do século vi do códice d, datado de 550. Contém grande parte do Novo Testamento que está faltando em D. D2 aparentemente originou-se na Itália, ou na Sardenha, tendo recebido seu nome de um mosteiro de Clermont, na França, onde foi descoberto por Beza. Após a morte de Beza, o códice ficou na posse de vários indivíduos, até ser comprado pelo rei Luís XIV, para integrar a Biblioteca Nacional de Paris, em 1656. Foi publicado integralmente pelo conde Tischendorf em 1852. Esse códice contém todas as cartas de Paulo e Hebreus, embora estejam faltando Romanos 1.1-7,27-30 e 1Coríntios 14.13-22, em grego, e 1Coríntios 14.8-18 e Hebreus 13.21-23, em latim. Esse manuscrito bilíngüe foi escrito de modo artístico, em velino finíssimo, de alta qualidade. O grego é bom, mas a gramática latina em alguns trechos é inferior.

O Códice washingtoniano(w) data do século IV ou início do V. Charles F. Freer, de Detroit, em 1906, o havia adquirido de um negociante do Cairo, no Egito. Entre 1910 e 1918 foi editado pelo professor H. A. Sanders, da Universidade de Michigan, estando hoje na Instituição Smithsoniana, em Washington, dc. Esse manuscrito contém os quatro evangelhos, porções das epístolas de Paulo (exceto Romanos), Hebreus, Deuteronômio, Josué e Salmos. A ordem dos evangelhos é: Mateus, João, Lucas e Marcos. Marcos contém o final mais longo (Mc 16.9-20); entretanto, acrescenta uma inserção após o versículo 14. E um códice volumoso, feito de velino, cujos tipos de letras são misturados de modo curioso.


Os minúsculos


As datas dos manuscritos minúsculos (do século IX ao XV) mostram que em geral são de qualidade inferior, se comparados aos manuscritos em papiros ou unciais. A importância desses manuscritos está no relevo dispensado às famílias textuais e não à sua quantidade. Somam 4 643, dos quais 2 646 são manuscritos e 1 997, lecionários (livros antigos que a igreja usava no culto). Alguns desses manuscritos minúsculos mais importantes estão identificados abaixo.

Os minúsculos da família alexandrina são representados pelo ms. 33, "rei dos cursivos", datado do século IX ou X. Contém todo o Novo Testamento, menos o Apocalipse. É propriedade da Biblioteca Nacional de Paris.

O texto cesareense emprega um tipo que sobreviveu na Família 1, dentre os manuscritos minúsculos. Essa família contém os manuscritos 1, 118,131 e 209, e todos datam do século XII até o XIV.

A subfamília italiana do tipo cesareense é representada por cerca de doze manuscritos conhecidos por Família 13. Tais manuscritos haviam sido copiados entre os séculos XI e XV. Incluem os manuscritos 13,69,124, 230, 346, 543, 788, 826, 828, 983, 1689 e 1709. Julgava-se de início que alguns desses manuscritos tinham texto de tipo sírio.

Muitos dos demais manuscritos minúsculos podem ser colocados em uma ou outra das várias famílias textuais, mas sustentam-se por seus próprios méritos e não por pertencerem a uma das famílias de manuscritos mencionadas acima. Entretanto, no todo, foram copiados de manuscritos minúsculos ou manuscritos unciais primitivos, e poucas evidências novas acrescentam ao Novo Testamento. Proporcionam uma linha contínua de transmissão do texto bíblico, enquanto os manuscritos de outras obras clássicas apresentam brechas de novecentos a mil anos entre os autógrafos e suas cópias manuscritas, como se pode ver nos exemplos das Guerras gálicas, de César, e das Obras, de Tácito.




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