Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



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17. Traduções gregas e afins


Durante as campanhas de Alexandre, o Grande, os judeus foram alvo de considerável favor. À medida que ele avançava em suas conquistas, ia estabelecendo centros de populações e de administradores que cuidassem dos novos territórios que ia conquistando. Muitas dessas cidades receberam o nome de Alexandria, transformando-se em centros de cultura, em que os judeus recebiam tratamento preferencial. Assim como os judeus haviam abandonado sua língua materna, o hebraico, trocando-a pelo aramaico, no Oriente Próximo, abandonaram o aramaico a favor do grego, em cidades grandes como Alexandria, no Egito.

Logo após a morte de Alexandre, em 323 a.C, seu Império foi dividido pelos seus generais em várias dinastias. Os ptolomeus ficaram com o controle do Egito, os selêucidas dominaram a Ásia Menor, os antigonidas ficaram com a Macedônia e surgiram, então, vários reinos de menor importância. No que diz respeito à Bíblia, a dinastia do Egito, sob os ptolomeus, é de importância primordial. Essa dinastia recebeu seu nome de Ptolomeu I Sóter, filho de Lago, governador de 323 a 305 e rei de então até sua morte, em 285. Foi sucedido por seu filho Ptolomeu II Filadelfo (285-246), que se casou com a irmã, Arsínoe, seguindo o costume dos faraós.

Durante o reinado de Ptolomeu II Filadelfo, os judeus receberam privilégios políticos e religiosos totais. Também foi durante esse tempo que o Egito passou por um tremendo programa cultural e educacional, sob o patrocínio de Arsínoe. Nesse programa inclui-se a fundação do museu de Alexandria e a tradução das grandes obras para o grego. Entre as obras que começaram a ser traduzidas para o grego, nessa época, estava o Antigo Testamento hebraico. De fato, era a primeira vez que o Antigo Testamento estava sendo traduzido para outra língua, como dissemos no capítulo 16. Nosso tratamento agora gira em torno dessa tradução e de outras que a ela se relacionam.

A Septuaginta (lxx)


Os líderes do judaísmo em Alexandria produziram uma versão modelar do Antigo Testamento em língua grega conhecida pelo nome de Septuaginta (lxx), palavra grega que significa setenta. Embora esse termo se aplique estritamente ao Pentateuco, que foi o único trecho da Bíblia hebraica que se traduziu totalmente durante o tempo de Ptolomeu n Filadelfo, essa palavra viria a denotar a tradução para o grego de todo o Antigo Testamento. A própria comunidade judaica mais tarde perdeu o interesse de preservar a sua versão grega, quando os cristãos começaram a usá-la extensivamente como seu Antigo Testamento. Exclusão feita ao Pentateuco, o resto do Antigo Testamento provavelmente foi traduzido durante os séculos II e III a.C. É certo que se tenha concluído antes de 150 a.C, porque a obra é discutida numa carta de Aristéias a Filócrates (c. 130-100 a.C).

Essa carta de Aristéias relata como o bibliotecário de Alexandria persuadiu Ptolomeu a traduzir a Tora para o grego, para uso dos judeus dessa cidade. E prossegue dizendo que seis tradutores de cada uma das doze tribos foram selecionados, terminando o trabalho em apenas 72 dias. Embora as minúcias desse acontecimento sejam pura ficção, pelo menos mostram que a tradução da Septuaginta para uso dos judeus alexandrinos é confiável.

A qualidade da tradução dos Setenta não é a mesma, uniformemente, em toda a obra, o que nos leva a várias observações básicas. Primeira: a lxx abrange desde transliterações literais, servis, da Tora, a traduções livres do texto hebraico. Segunda: deve ter havido um propósito em vista, para a produção da lxx, diferente dos propósitos da Bíblia hebraica; esta, por exemplo, servia para leituras públicas nas sinagogas, enquanto a lxx apenas representaria uma obra especializada dos escribas. Terceira: a lxx foi um esforço pioneiro na tradução do texto do Antigo Testamento, e um excelente exemplo de tal empreendimento. Finalmente, a lxx de modo geral é fiel ao texto do Antigo Testamento hebraico, como dissemos no capítulo 12.

No entanto há uma questão grave no que concerne à Septuaginta; há passagens em que ela difere do Texto massorético; e outras em que os rolos do mar Morto concordam com a Septuaginta, em oposição ao texto hebraico. Podem-se indicar várias passagens que sublinham essa constatação, como Deuteronômio 32.8, Êxodo 1.5, Isaias 7.14, Hebreus 1.6(KJV), que cita Deuteronômio 32.43. Além disso, os rolos do mar Morto também contém alguns dos livros e textos apócrifos do Antigo Testamento, como o salmo 151, só conhecidos mediante a lxx. A partir das evidências dessas variantes de vários textos, podemos observar três tradições básicas do Antigo Testamento: a massorética, a samaritana (v.cap.16) e a grega (lxx). Em geral o Texto massorético é o melhor, mas em várias" passagens a lxx o supera. O Pentateuco samaritano reflete diferenças sectárias e culturais em relação ao texto hebraico, e a lxx é uma tradução não um texto original. No entanto, quando ambos concordam entre si, contra o Texto massorético, é provável que reflitam o texto original.

É preciso lembrar todavia, que a lxx em geral é fiel ao Texto massorético como também são fieis os rolos do mar Morto. Uma comparação das variantes num dado capítulo da Bíblia pode ilustrar isso. Em Isaías 53, e.g., temos 166 palavras, e entram em questão somente 17 letras. Dez dessas letras são simples questões de grafia, não influindo de modo algum no sentido da passagem. Outras quatro letras são o resultado de mudanças estilísticas de pouca monta, como conjunções acrescentadas pelos escribas. As três letras remanescentes compreendem uma única palavra, “luz”, que se acrescenta ao versículo 11 sem influir muito no sentido. Essa palavra tem o apoio da lxx e do rolo do mar Morto ia Isb? Esse exemplo e típico do manuscrito integral de Isaías a. Ele força o leitor a observar a confiabilidade do texto do Antigo Testamento de tal modo que reconheça que nem mesmo todas as variantes conseguem mudar nossa compreensão do ensino religioso da Bíblia.

Graças a essa qualidade, a importância da lxx é facilmente observável Ela serviu de ponte religiosa sobre o abismo existente entre os judeus (de língua hebraica) e os demais povos (de língua grega), uma vez que atendia as necessidades;dos judeus de Alexandria. A LXX serviu também para cobrir o lapso histórico que separava os judeus do Antigo Testamento dos judeus e dos cristãos de língua grega que adotaram a LXX como seu Antigo Testamento, usando-a ao lado do Novo Testamento. Além disso, a lxx representou um precedente importante para os missionários e para os estudiosos cristãos para que produzissem traduções de toda a Bíblia em varias línguas e dialetos. Sob o aspecto textual, a lxx elimina o vazio que separava o Antigo Testamento hebraico dos grandes códices da igreja ,a (Àlefe, a, b, c e outros). Ainda que a lxx não reflita a excelência do texto hebraico, pelo menos demonstra sua pureza.


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