Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



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Outras versões gregas


A crítica judaica durante os primeiros séculos do cristianismo resultou numa reação dos judeus contra a Septuaginta. Tal reação judaica produziu nova onda de traduções do Antigo Testamento, como a tradução grega conhecida como versão de Áqüila e mais uma, conhecida como versão de Símaco; e chegou até a provocar o surgimento de uma grande obra de crítica textual em meados do século III, os Héxapla, de Orígenes. Todas essas obras desempenham papel importante no estudo da crítica textual, visto estarem mais próximas dos autógrafos do que muitas cópias de manuscritos hebraicos ainda existentes.

F. F. Bruce acredita que há duas grandes razões pelas quais os judeus rejeitaram a lxx nos primeiros séculos da igreja. Primeiramente, a lxx havia sido adotada pelos cristãos como seu Antigo Testamento, e usavam-na livremente na propagação e na defesa da fé cristã. Em segundo lugar, foi criada ao redor do ano 100 d.C. uma edição revista do texto modelar hebraico. De início continha o Pentateuco e mais tarde passou a incorporar o resto do Antigo Testamento. O resultado dessa revisão foi o estabelecimento do Texto massorético. Por não existir um texto básico aceitável tanto por cristãos como por judeus, os estudiosos judeus decidiram corrigir a situação fazendo novas traduções gregas de suas Escrituras hebraicas.



A versão de Áqüila (c. 130-150 d.C). Fez-se uma nova tradução do Antigo Testamento para os judeus de língua grega, durante a primeira metade do segundo II. Quem a empreendeu foi Áqüila, que, segundo se diz, teria sido parente do imperador Adriano, tendo mudado de Sinope para Jerusalém como funcionário público. Estando em Jerusalém, Áqüila converteu-se ao cristianismo, mas viu-se incapaz de libertar-se de suas idéias e hábitos pré-cristãos. Foi repreendido em público pelos presbíteros da igreja, ficou ofendido e abandonou o cristianismo, tornando-se adepto do judaísmo. Como prosélito judeu, teve como mestre o famoso rabi Aquiba, e traduziu o Antigo Testamento para o grego.

Grande parte dessa história sem dúvida foi inventada, mas Áqüila provavelmente foi um prosélito judeu da região do mar Negro, homem de grande prestígio durante a primeira metade do século II. Ele produziu uma nova tradução para o grego, do Antigo Testamento, a partir do texto hebraico. Esse é o Áqüila erroneamente associado ao Targum de Onquelos, como mencionamos no capítulo 16. A versão do Antigo Testamento feita por Áqüila é obra servil, rigidamente acorrentada ao texto hebraico. Ainda que usasse palavras gregas, o padrão de pensamento as estruturas de linguagem prendem-se às regras hebraicas de composição. No entanto, o texto de Áqüila veio a tornar-se a versão grega oficial do Antigo Testamento usado pelos judeus não-cristãos. A obra sobreviveu apenas em fragmentos e citações.



A revisão de Teodócio (c. 150-185). O próximo trabalho importante de tradução do Antigo Testamento para o grego é atribuído a Teodócio. Há controvérsia quanto ao exato lugar e data em que ele executou seu trabalho; parece que foi uma revisão de uma versão grega anterior: ou a lxx, talvez a de Áqüila, ou possivelmente outra versão grega qualquer. A opinião mais factível é que Teodócio, natural de Éfeso, é quem teria realizado a obra; esse autor teria sido prosélito judeu ou cristão ebionita. Sua revisão é mais livre do que a versão de Áqüila e, em algumas passagens, substitui algumas das expressões antigas da lxx. A tradução que Teodócio fez de Daniel logo substituiu a versão da lxx entre os cristãos, e alguns dos primitivos catálogos das Escrituras. Sua tradução de Esdras-Neemias teria substituído a que se encontra na lxx.

A revisão de Símaco (c. 185-200). Símaco aparentemente seguiu a Teodócio tanto no tempo como no engajamento teológico, embora alguns datem seu trabalho antes do de Teodócio. Jerônimo acreditava que Símaco era um cristão ebionita, mas Epifânio afirma que ele era um samaritano convertido ao judaísmo. Para nossos propósitos, esse desacordo não faz grande diferença, visto que o objetivo do trabalho de Símaco era produzir uma tradução idiomática do texto para o grego. O resultado é que Símaco ocupa o lugar oposto ao de Áqüila como tradutor. Ele estava preocupado com o sentido de sua tradução, e não com a exatidão do texto. Tendo isso em mira, no entanto, devemos notar que Símaco mostrou elevados padrões de exatidão que exerceram profunda influência sobre os tradutores da Bíblia que viriam mais tarde. Ele foi capaz de transformar expressões hebraicas em expressões gregas excelentes, perfeitamente idiomáticas, o que coloca Símaco muito perto de qualquer tradutor de hoje, segundo o conceito moderno dos deveres de um tradutor. Curiosamente, Símaco exerceu maior influência sobre a Bíblia latina do que sobre as traduções gregas posteriores, visto que Jerônimo fez uso considerável desse autor enquanto esteve compondo sua Vulgata.

Os Héxapla de Orígenes (c. 240-250). As traduções da Bíblia hebraica para o grego resultaram nas quatro traduções textuais diferentes, por volta do início do século III d.C: a lxx, a versão de Áqüila e as revisões de Teodócio e de Símaco. Essa situação tumultuada abriu espaço para a primeira tentativa realmente válida e de realce para a crítica textual. Esse trabalho foi empreendido por Orígenes de Alexandria (185-254). Por causa das muitas divergências existentes entre os vários manuscritos da lxx, das discrepâncias existentes entre o texto hebraico e o da lxx e das várias tentativas de revisar as traduções gregas, Orígenes aparentemente decidiu apresentar um texto grego satisfatório do Antigo Testamento para o mundo cristão. Por conseguinte, seu trabalho foi essencialmente uma revisão, em vez de versão, pois corrigiu as corrupções textuais e tentou unificar os textos hebraicos e gregos. Ele tinha um objetivo duplo: mostrar a superioridade das várias revisões do Antigo Testamento sobre o texto corrompido da lxx e prover uma visão comparativa dos textos hebraicos corretos, contra os textos divergentes da lxx. Ele seguia a idéia de que o Antigo Testamento hebraico era na verdade uma "transcrição inerrante" da verdade revelada ao homem.

Os Héxapla (compostos de seis partes) dividiam-se em seis colunas paralelas. Cada coluna continha uma versão particular do Antigo Testamento, o que fazia que a obra fosse sumamente volumosa. Na primeira coluna, Orígenes colocou o texto hebraico. Na segunda coluna vinha uma transliteração grega do texto hebraico. A tradução literal de Áqüila aparecia na terceira coluna, com a revisão idiomática de Símaco na quarta coluna. Orígenes colocou sua própria revisão da lxx na quinta coluna, e acrescentou a revisão de Teodócio na sexta coluna.

Em seus Héxapla dos Salmos, Orígenes acrescentou outras três colunas, mas em só duas delas inscreveu traduções diferentes. Ele também produziu um trabalho separado chamado Tétrapla, que eram os próprios Héxapla em que ele omitiu as colunas número um e dois. A tremenda obra de Orígenes não sobreviveu às agruras do passar do tempo, embora Eusébio e Panfílio publicassem a quinta coluna (a tradução feita pelo próprio Orígenes da lxx) com adições. Essa obra sobreviveu no Códice sarraviano (g) do século IV ou V, que contém trechos de Gênesis a Juizes. Trata-se da única edição grega de alguma importância, a qual se preservou, embora haja uma versão siríaca dos Héxapla que data do século VII, e alguns manuscritos individuais que também sobreviveram.

A realização grandiosa de Orígenes pode ser avaliada pelo que tem sido descoberto e revelado a respeito de suas técnicas voltadas para a crítica textual. Ele descobriu muitas corrupções, omissões, adições e transposições nas cópias da lxx de sua época. Muitas dessas descobertas foram feitas quando se compararam as várias revisões do Antigo Testamento grego, mas Orígenes estava preocupado primordialmente em fazer que os textos da lxx ficassem em maior harmonia com o texto hebraico da primeira coluna de seus Hixapla. Ele desenvolveu um sistema bem elaborado de marcações críticas a fim de revelar os problemas encontrados, ao chegar até sua própria tradução na quinta coluna. Isso possibilitava ao leitor ver as corruptelas que Orígenes havia corrigido, as omissões e as adições que ele havia feito e os lugares em que certas palavras haviam sido transpostas entre os vários textos gregos.

Orígenes usava um óbelo (— ), ou traço horizontal, a fim de indicar que certa palavra ou expressão aparecia na lxx, mas não existia no texto hebraico original. Quando certa expressão constava do texto hebraico, mas havia sido omitida na lxx, Orígenes a acrescentava, conforme a revisão de Teodócio, e marcava seu início com um asterisco (x ou +). Ele indicava o final dessas correções com o metóbelo (y). Quando transcrevia passagens curtas, Orígenes as colocava no mesmo lugar em que apareciam na lxx, e indicava-as com uma combinação asterisco-óbelo (x ou — ) no início e um metóbelo no final. Nas transposições de passagens longas a ordem hebraica era restaurada, numa tentativa de fazer que a lxx ficasse em maior conformidade com o texto hebraico.

É verdade que a obra de Orígenes teve importância monumental, mas cumpre observarmos que seu objetivo principal era diferente dos objetivos do crítico textual de nossos dias. O propósito de Orígenes era prover uma versão grega que correspondesse intimamente, tanto quanto possível, ao texto hebraico. O crítico textual de hoje esforça-se por recuperar o texto original da própria lxx, como evidência de como era o texto hebraico antes do desenvolvimento do Texto massorético. A transmissão da lxx de Orígenes, desacompanhada das marcações diacríticas que ele próprio produziu, levou à disseminação de um texto grego do Antigo Testamento corrompido, em vez de contribuir para a produção e para a preservação de uma versão da Septuaginta que se conformasse ao texto hebraico daqueles dias. Se os Héxapla de Orígenes houvessem sobrevivido até nossos dias, seriam um tesouro de valor incalculável, pois seriam a cópia do texto hebraico modelar do século III d.C. e nos ajudariam a resolver a disputa a respeito da pronúncia das palavras hebraicas, fornecendo informações a respeito das versões e dos textos gregos dos dias de Orígenes. Só uma tradução da quinta coluna sobreviveu, em grande parte pelo trabalho do bispo Paulo de Tela, no texto siro-hexaplárico, numa cópia do século VIII, que neste momento está guardada no museu de Milão.



Outras recensões da Septuaginta. No início do século IV, Eusébio de Cesaréia e seu amigo Panfílio publicaram suas próprias edições da quinta coluna de Orígenes. O resultado foi que deram projeção à lxx, que se tornou a edição em muitos lugares. Dois outros estudiosos também tentaram fazer uma revisão do texto grego do Antigo Testamento. Hesíquio, bispo egípcio, martirizado em 311, fez uma recensão que só se preservou em citações do texto feitas por autores da igreja no Egito. A recuperação de seu trabalho dependeu de citações de autores como Cirilo de Alexandria (m. 444). As obras de Crisóstomo (m. 407) e de Teodoreto (m. 444) podem ser usadas a fim de recuperar outra recensão do Antigo Testamento grego conhecida como Recensão de Luciano. Luciano era morador de Samosata e de Antioquia, também martirizado em 311.

Essas duas revisões, acopladas às obras de Áqüila, de Teodócio, de Símaco e de Orígenes, deram aos cristãos o Novo Testamento grego, no norte da Síria, na Ásia Menor, na Grécia, no Egito e em áreas de Jerusalém e da Cesaréia. Tudo isso se realizou antes da época de Jerônimo. No que concerne ao estudioso textual moderno, as várias traduções do Antigo Testamento são testemunho valioso do texto hebraico.


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