Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



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As traduções do texto grego


Entre a multidão que se juntou no Dia de Pentecostes, em Jerusalém, estavam "partos, medos e elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia e Capadócia, Ponto e Ásia, Frígia e Panfília, Egito e parte da Líbia perto de Cirene, forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes" (At 2.9-11). Essas pessoas sem dúvida precisavam das Escrituras em suas línguas, para que pudessem estudá-las e usá-las a fim de propagar sua fé. Já discutimos a tradução dos textos do Antigo e do Novo Testamento para o siríaco (aramaico) no capítulo 16, por causa do íntimo relacionamento que essas traduções tinham com a tradução do Antigo Testamento por judeus que falavam o aramaico. Por essa razão, nossa atenção se dirigirá aqui a outras traduções do texto grego.

Copta


O copta é a última forma de escrita egípcia antiga. Seguiu-se aos desenvolvimentos anteriores como os hieróglifos, as escritas hierática e demótica (v. cap. 11). A língua grega, com sete caracteres demóticos que lhe foram acrescentados, tornou-se a forma escrita do copta, por volta do início da era cristã. Esse sistema de escrita tinha vários dialetos para os quais a Bíblia foi traduzida.

Saídico (de Tebas). O dialeto copta do sul do Egito (Alto Egito) era o saídico (de Tebas). Era falado na região da Tebas antiga, onde o Novo Testamento foi traduzido no começo do século IV. Os manuscritos desse dialeto representam as versões coptas mais antigas do Novo Testamento, que Pacômio (c. 292-346), o grande organizador do monasticismo egípcio, exigia que seus seguidores estudassem com toda a diligência. A data remota da Versão saídica transforma-a em testemunho importante do texto do Novo Testamento. Essa versão relaciona-se basicamente com o texto alexandrino, ainda que os evangelhos e Atos sigam o modelo ocidental.

Boaírico (de Mênfis). No Baixo Egito (ao norte), perto de Mênfis, na região do Delta, usava-se outra língua copta ao lado do grego. Era região próxima a Alexandria; sua localização central e sua importância na história da igreja primitiva refletem-se no fato de o copta boaírico ter-se tornado o dialeto básico da igreja no Egito. O fato de essa região estar próxima de Alexandria e o contínuo uso do grego nesse centro provavelmente explicam o porquê de as versões boaíricas do Novo Testamento terem aparecido depois das versões saídicas. O único documento boaírico primitivo que sobreviveu é o Papiro Bodmer, que contém o evangelho de João (Papiro Bodmer iii). O manuscrito está seriamente mutilado na parte inicial, estando em melhores condições onde se registra João 4 em diante. É um manuscrito que lança muita luz sobre dois problemas textuais: João 5.3b,4 e João 7.53 — 11 (v. cap. 15). A Versão boaírica aparentemente se relaciona com o texto de modelo alexandrino.

Dialetos do centro do Egito. A terceira área dos dialetos coptas é aquela que fica nos centros de Tebas e de Alexandria. Os dialetos centrais do Egito classificam-se em faiúmico, acmímico e subacmímico, segundo J. Harold Greenlee. Não existe mais nenhum exemplar do Novo Testamento nesses dialetos, embora João esteja quase completo. Um papiro do século IV contém um códice no dialeto faiúmico com João 6.11 — 5.11. A linguagem é mais próxima do saídico que do boaírico, o que o classifica como texto do modelo alexandrino. Todos os manuscritos do Antigo Testamento nos dialetos coptas seguem a Septuaginta.

Etíope


À medida que o cristianismo se espalhou pelo Egito e penetrou a Etiópia, surgiu a necessidade de outra tradução da Bíblia. Embora não se possa fazer nenhuma declaração autorizada a esse respeito, a tradução etíope do Antigo Testamento grego parece ter sido revista à luz do texto hebraico, com início no século IV. Ao redor do século VII essa tradução estava terminada, e a do Novo Testamento foi feita a seguir. A tradução completa para a língua etíope provavelmente foi realizada por monges sírios que se mudaram para a Etiópia durante a controvérsia monofisista(séculos V e VI) e o surgimento do islamismo (séculos VIII). A influência deles foi profunda, como mostra o fato de a igreja etíope ter-se mantido monofisista.

Nos séculos V e XII, fizeram-se recensões no Novo Testamento etíope. Posteriormente esse texto foi influenciado por traduções coptas e árabes; e é possível que na verdade se tenha baseado em texto de manuscritos siríacos, e não nos originais gregos. Os manuscritos etíopes provavelmente datam do século IV e V, o que reduz mais ainda a importância da Bíblia etíope tendo em vista a crítica textual. Os manuscritos sobreviventes revelam mistura textual, sendo porém de origem basicamente bizantina. O Antigo Testamento inclui o livro não-canônico de 1Enoque (citado em Jd 14,15) e o Livro do Jubileu. Isso mostra que a igreja etíope aceitava um cânon mais amplo que o aceito pelas demais igrejas. Sobreviveram mais de cem cópias manuscritas da Bíblia etíope, nenhuma porém anterior ao século XIII. É verdade que esses manuscritos merecem talvez maiores estudos, mas é provável que serão negligenciados em vista de serem relativamente recentes.


Gótica


Não está bem esclarecido em que época o cristianismo penetrou a área das tribos germânicas entre o Reno e o Danúbio. Essa região foi evangelizada antes do Concilio de Nicéia (325), visto que Teófilo, o bispo dos godos, já estava em atividade. Os godos situavam-se entre as principais tribos germânicas e desempenharam papel importante nos acontecimentos da história da Europa durante o século v. A primeira tribo a ser evangelizada foi a dos ostrogodos, na região do baixo Danúbio. O segundo bispo deles, Úlfílas (311-381), "o apóstolo dos godos", liderou seus convertidos até a área hoje conhecida como Bulgária. Ali ele traduziu a Bíblia grega para o gótico.

Esse empreendimento teve grande importância, sobretudo se Úfílas realizou de verdade a tarefa a ele atribuída. Consta que Úfílas criou um alfabeto gótico e a forma escrita dessa língua. Quer ele tenha de fato feito tal façanha, quer não, esse bispo empreendeu fidelíssima tradução para o gótico, no século IV (c. 350) a partir da recensão que Luciano fez do Antigo Testamento. Poucos fragmentos restaram desse Antigo Testamento, que Úlfílas não traduziu totalmente. Ele achava que os livros de Samuel e de Reis tratavam demais de guerras, para serem entregues às tribos góticas que amavam tanto as atividades bélicas.

São maiores os fragmentos que sobraram do Novo Testamento gótico traduzido por Úlfílas. Trata-se do monumento literário mais antigo que se conhece num dialeto alemão, não tendo sido encontrado, todavia, um único exemplar completo de uma cópia manuscrita. Sua tradução prende-se quase literalmente ao texto grego do tipo bizantino, pelo que diz pouca coisa ao crítico textual moderno. O principal valor da Versão gótica está em que se trata do mais antigo documento literário em língua do grupo germânico, a que pertence o próprio inglês. Sobreviveram seis fragmentos, dos quais o Códice argênteo, "o códice de prata", escrito em velino púrpura em letras prateadas e algumas douradas. Todos os demais manuscritos góticos são palimpsestos, exceto uma folha de velino de um códice bilingüe gótico-latino. O gótico, à semelhança do copta, é uma língua para a qual se criou a forma escrita com o único propósito de escrever as Escrituras Sagradas na língua do povo. Todos os seus manuscritos abrangem os séculos V e VI.

Armênia


À medida que as igrejas sírias desenvolviam seu ministério evangelístico, iam contribuindo para várias traduções secundárias da Bíblia. Tais traduções são chamadas secundárias porque derivam de outras traduções, e não dos manuscritos das línguas originais. Uma das mais importantes dessas traduções secundárias é a armênia, ainda que nem todos os estudiosos concordem que se trate de tradução da tradução.

Afirma-se em geral ter havido duas tradições básicas acerca da origem da tradução armênia. Diz a primeira que Mesrobe (m. 439), soldado que se tornou missionário, criou um novo alfabeto a fim de ajudar Saaque (Isaque, o Grande, 390-439) a traduzir a Bíblia a partir do texto grego. A segunda tradição afirma que sua tradução baseou-se num texto siríaco. Embora ambas as afirmativas tenham seus méritos, a segunda parece enquadrar-se melhor à realidade, derivada do sobrinho e discípulo do próprio Mesrobe.

As traduções armênias mais antigas foram revistas antes do século VIII, de acordo com alguns "códices gregos dignos de confiança", levados de Constantinopla depois do Concilio de Éfeso (431). Essa revisão obteve o máximo prestígio ao redor do século VIII e continua a ser hoje o texto armênio mais comumente usado. O manuscrito mais antigo que chegou até nós desse texto revisto data do século IX. O fato de ser tão antigo e sua estreita afinidade com os textos cesareenses ou bizantinos fazem que seja importante no que diz respeito à crítica textual. Embora a questão ainda não tenha sido resolvida, o texto dos evangelhos tende para o padrão cesareense.

A primeira tradução armênia do Antigo Testamento foi executada no século V e revela marcante influência exercida pela Siríaca peshita, A tradução baseada na revisão hexaplárica foi revista de acordo com a Peshita.


Geórgica (ibérica)


A Geórgia, região montanhosa entre o mar Negro e o mar Cáspio, ao norte da Armênia, recebeu a mensagem cristã no século IV. Aproximadamente em meados do século v, a Geórgia tinha sua própria tradução da Bíblia. Visto que o cristianismo se espalhou pela Geórgia a partir da Armênia, não é de surpreender que essa mesma rota tenha sido seguida na tradução da Bíblia. Então, se o Antigo Testamento armênio fosse tradução da lxx ou da Siríaca peshita, e o Novo Testamento fosse tradução da Antiga siríaca, teriam sido traduções secundárias. A tradução geórgica constituiu um passo para o lado, por ser baseada em tradução armênia. Ainda que a tradução armênia fosse feita a partir do original grego, a tradução geórgica seria secundária.

O alfabeto georgiano, à semelhança do armênio e do gótico, foi criado expressamente para o registro da Bíblia. Acompanhando o passo dessa dependência cultural, todos os manuscritos sobreviventes da Bíblia geórgica indicam que ela segue a tradição textual armênia.



A continuação das traduções da Bíblia pelo povo de Deus, à medida que ia seguindo o precedente estabelecido pelos judeus, que haviam produzido traduções em aramaico e em siríaco do Antigo Testamento, motivou as primeiras tentativas reais para colocar todo o Antigo Testamento em outra língua, o grego. A lxx foi produzida nos séculos m e n a.C. Ainda que a qualidade dessa tradução varie, ela dá informações valiosas ao crítico textual no que diz respeito ao texto hebraico do Antigo Testamento. Além disso, foi um exemplo a ser seguido pelos demais tradutores, à medida que iam procurando meios de comunicar a Palavra de Deus. Com a ascensão do cristianismo, os judeus deixaram de lado a lxx, e outras traduções e revisões foram aparecendo. Tudo isso culminou na grandiosa obra de Orígenes, os Héxapla. À medida que o cristianismo continuava a espalhar-se, outras traduções foram empreendidas. Afim de executar a tarefa de traduzir, os missionários desenvolveram a língua escrita de muitos povos. Esse fato por si só faz da Bíblia a maior força a dirigir a história; e oferece também a razão por que alguns estudiosos das Escrituras produziram traduções secundárias, enquanto muitos a traduziram diretamente das línguas originais do Antigo e do Novo Testamento.
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