Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



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A Vulgata latina


Os numerosos textos da Antiga latina que apareceram ao redor da segunda metade do século IV induziram a uma situação intolerável. Em virtude desse problema, Dâmaso, bispo de Roma (366-384), providenciou uma revisão do texto da Antiga latina. O resultado desse esforço chama-se Vulgata latina.

O propósito da tradução


Dâmaso de Roma demonstrou profundo interesse pelas Escrituras, bem como pelos estudiosos de quem se tornara amigo e a quem patrocinava. Estava perfeitamente ciente da diversidade de versões, traduções, revisões e recensões bíblicas no século IV, e acreditava estar fazendo falta uma nova versão autorizada das Escrituras latinas.

Confusão de textos latinos. Como dissemos anteriormente, havia muita confusão a respeito dos textos latinos da Bíblia. Tal diversidade advinha do fato de o Antigo Testamento latino ser na verdade uma tradução da lxx; o Novo Testamento havia sido traduzido em ocasiões informais, não-oficiais. Exemplo disso pode-se ver na tradução latina usada por Tertuliano. Ele era bilíngüe, capacitado para ler e escrever em grego e em latim; usava o texto africano da Antiga latina até fazer sua própria tradução. Não havia fim para os problemas causados por tais traduções relâmpagos, de modo especial se outras pessoas tentassem comparar a autoridade textual subjacente à obra de Tertuliano.

As muitas traduções então existentes. Havia inúmeras traduções das Escrituras, mas o latim tornava-se rapidamente a língua oficial da igreja. Além das traduções mencionadas nos capítulos 16 e 17, houve dois textos básicos da Antiga latina no Ocidente. Não era de admirar que Dâmaso desejasse uma tradução nova, autorizada, sobre a qual se poderiam basear as doutrinas oficiais da igreja.

Heresias e controvérsias. Dentro do Império Romano passou a existir muitas controvérsias entre cristãos e judeus. Até mesmo dentro da igreja houve inúmeras controvérsias, logo depois do surgimento de grupos heréticos como os marcionitas, os maniqueus e os montanistas, que baseavam suas doutrinas em seus próprios cânones e traduções de livros da Bíblia. A controvérsia ariana ocasionou o Concilio de Nicéia (325), o de Constantinopla I (381) e o de Éfeso (431). A controvérsia em torno da tradução do Antigo Testamento por Jerônimo com base no original hebraico reflete não só os conflitos entre cristãos e judeus, mas a crença mais problemática ainda sustentada por muitos líderes cristãos, dos quais Agostinho, segundo a qual a lxx era verdadeiramente a Palavra inspirada, inerrante, da parte de Deus, em vez de mera tradução não-inspirada baseada em originais hebraicos.

A necessidade de um texto modelar. Havia outros fatores que exigiam uma tradução nova, autorizada: dentre esses, a exigência dos estudiosos de um texto modelar, autorizado e confiável, que fosse o veículo das atividades didáticas da igreja, de seus programas missionários e de sua defesa das doutrinas estabelecidas nos grandes concílios. A transmissão de exemplares das Escrituras às igrejas do Império exigia um texto digno da máxima confiança (fidedigno), mas essa situação real sublinhava tal exigência e necessidade.

O autor da Vulgata latina


Sofrônio Eusébio Jerônimo (c. 340-420) nascera de pais cristãos, em Estridão, na Dalmácia. Havia sido educado na escola local até sua ida a Roma, com a idade de doze anos. Durante os oito anos seguintes, Jerônimo estudou latim, grego e autores pagãos, antes de tornar-se cristão, com a idade de dezenove anos. Logo após sua conversão e batismo, Jerônimo devotou-se a uma vida de rígida abstinência e de serviço ao Senhor. Passou muitos anos perseguindo uma vida semi-ascética de ere-mita. De 374 a 379, empregara um rabino judeu para que lhe ensinasse o hebraico, enquanto estivesse residindo no Oriente, perto de Antioquia. Foi ordenado presbítero em Antioquia antes de partir para Constantinopla, onde passou a estudar sob a orientação de Gregório de Nazianzo. Em 382, foi convocado por Roma para ser secretário de Dâmaso, bispo de Roma, e nomeado membro de uma comissão para revisar a Bíblia latina. É provável que Jerônimo tenha aceitado o projeto em virtude de sua devoção a Dâmaso, pois sabia que as pessoas de menor instrução se oporiam fortemente a sua tradução.

A data e o lugar da tradução


Jerônimo recebeu a incumbência em 382 e iniciou seu trabalho quase imediatamente. A pedido de Dâmaso, introduziu uma ligeira revisão nos evangelhos, completada em 383. Não se sabe qual teria sido o texto latino que ele usou para fazer sua revisão; provavelmente teria sido do tipo europeu, o qual ele corrigiu de acordo com o texto grego do tipo alexandrino. Logo após ter terminado a revisão dos evangelhos, morre-lhe o mecenas (384), tendo sido eleito novo bispo de Roma. Jerônimo, que aspirava a esse cargo, já havia terminado uma revisão rápida do chamado Saltério romano quando regressou ao Oriente e se estabeleceu em Belém. No entanto, após sua partida, fez uma revisão mais superficial ainda do resto do Novo Testamento. Por ser desconhecida a data dessa revisão, alguns estudiosos acreditam que nem sequer ele fez o trabalho. De volta a Belém, Jerônimo voltou sua atenção a uma revisão mais cuidadosa do Saltério romano, que completou em 387. Essa revisão é conhecida como Saltério galileu, empregado atualmente no Antigo Testamento da Vulgata. Baseou-se de fato nos Héxapla de Orígenes, a quinta coluna, sendo mera tradução dos Salmos. Tão logo havia terminado sua revisão dos Salmos, Jerônimo iniciou a revisão da lxx, embora esse trabalho não fizesse parte de seus objetivos iniciais. Estando em Belém, Jerônimo havia Iniciado seu trabalho de aperfeiçoar seus conhecimentos do hebraico, de modo que pudesse executar uma nova tradução do Antigo Testamento diretamente das línguas originais.

Os amigos ao redor aplaudiram seus esforços, mas outros, muito longe, começaram a suspeitar que Jerônimo estaria judaizando; alguns se enfureceram quando Jerônimo lançou dúvidas sobre a "inspiração da Septuaginta". A partir dessa época, ele se tornou mais envolvido com sua tradução e com a supervisão dos monges de Belém. Traduziu o Saltério hebraico com base no texto hebraico usado na época, na Palestina. Na verdade, sua tradução jamais suplantou o Saltério galileu, nem o Saltério romano, no uso litúrgico, embora fosse calcada nas línguas originais e não em traduções. Jerônimo continuou a traduzir as Escrituras hebraicas a despeito da oposição e da saúde precária. Finalmente, em 405, completou sua tradução latina do Antigo Testamento hebraico, que não recebeu boa acolhida de imediato. Nos últimos quinze anos de vida, Jerônimo continuou escrevendo, traduzindo e revisando sua tradução do Antigo Testamento.

Jerônimo pouca atenção deu aos apócrifos; só com grande relutância produziu uma tradução apressada de algumas passagens de Judite, de Tobias e do resto de Ester, mais as adições de Daniel — antes de morrer. O resultado foi que a versão dos livros apócrifos, pertencente à Antiga latina, foi adicionada à Bíblia chamada Vulgata latina na Idade Média, sobre o cadáver de Jerônimo.

A reação perante a tradução


Quando Jerônimo publicou sua revisão dos evangelhos, fez-se ouvir acrimoniosa reação a ela. Como seu trabalho fosse patrocinado pelo bispo de Roma, a oposição silenciou-se. Sua relutância de prosseguir com a revisão do restante do Novo Testamento atesta a possibilidade de Jerônimo estar consciente da morte iminente de Dâmaso, seu patrocinador. O fato de Jerônimo ter saído de Roma apenas um ano após a morte do mecenas apóia essa crença, e as revisões mais brandas que fez quando de fato revisou o restante do Novo Testamento mostra sua preocupação de conquistar a aprovação da crítica. A adoção do Saltério romano pela igreja de Roma revela que lá se deu seu primeiro uso e que a perícia de Jerônimo já se fazia notória. Uma vez que o Saltério galicano foi aceito pelas igrejas de fora de Roma, parece que Dâmaso não foi tão influente na crítica da obra inicial de Jerônimo.

Quando Jerônimo começou a estudar o hebraico em Belém e ao traduzir o Saltério hebraico, suscitaram-se contra ele severos protestos de acusação. Foi acusado de presunção, de fazer inovações ilícitas e de cometer sacrilégio. Não sendo alguém que encarasse a crítica com tranqüilidade, ele usou os prefácios de suas traduções e revisões como ferramentas de contra-ataque, Esses elementos só puseram mais lenha na fogueira, e a tradução de Jerônimo foi rechaçada por muitas das mais importantes autoridades eclesiásticas. Entre esses críticos achava-se Agostinho, que se pronunciara contra a tradução do Antigo Testamento, mas sinceramente apoiava suas revisões do Novo Testamento após 398.

A posição de Agostinho nos fornece uma visão sintetizada do que ao longo da história ocorreu ao Antigo Testamento da Vulgata. Nos primeiros anos dessa tradução, Agostinho e a grande maioria das autoridades eclesiásticas influentes opuseram-se à tradução por não se fundamentar na lxx. Por sinal, Agostinho e os demais usaram a revisão neotestamentária de Jerônimo, embora insistissem com ele para que fizesse a tradução do Antigo Testamento tomando como base a lxx, que se julgava inspirada.

Imediatamente após a morte do grande estudioso, em 420, sua tradução do Antigo Testamento conquistou vitória absoluta sobre as demais traduções. Não é possível precisar com justeza se isso se deveu meramente ao peso da tradução, pois a crítica e a denúncia mordazes à sua tradução dificilmente seriam desconsideradas por conta de seus méritos. A Vulgata passou a ser o texto modelar da Bíblia, reconhecido extra-oficialmente, em toda a Idade Média. Somente no Concilio de Trento (1546-1563), entretanto, foi oficialmente elevada àquela posição pela Igreja Católica Romana. Entrementes, foi publicada em colunas paralelas, ao lado de outras traduções. Quando o latim se tornou a língua predominante dos estudiosos europeus, outras traduções e versões se desvaneceram, ficando em segundo plano em relação à Vulgata de Jerônimo.


Os resultados da tradução


De interesse primordial para o estudante da Bíblia moderna é o peso da Vulgata latina em comparação a outras traduções. Por essa razão, deve ela ser examinada à luz da história. Como se tem dito, o Novo Testamento da Vulgata era tão-só uma revisão do texto da Antiga latina, e não uma revisão crítica por assim dizer. O texto dos apócrifos contidos na Vulgata é de valor ainda menor, já que se trata simplesmente do texto da Antiga latina anexado à tradução veterotestamentária de Jerônimo, salvo exceções de pouca monta. O Antigo Testamento da Vulgata é matéria inteiramente diversa, entretanto, visto tratar-se na realidade de uma revisão do texto hebraico, e não apenas outra tradução ou revisão. O texto do Antigo Testamento é assim muito mais importante para os estudiosos da Bíblia que o do Novo.

Era inevitável que o texto da Vulgata se corrompesse na transmissão ao longo da Idade Média. Por vezes, essa corrupção resultava de uma transcrição inadvertida e da interpenetração de elementos do texto da Antiga latina qual era muitas vezes publicada. Em toda a Idade Média, tentaram-se nos monastérios várias revisões e recensões do texto da Vulgata. Isso gerou o acúmulo de mais de 8 000 manuscritos da Vulgata. Entre esses manuscritos, evidencia-se a maior quantidade de "transcontaminação" de tipos textuais. Além disso, o Concilio de Trento baixou um "Decreto concernente à edição e ao uso dos livros sagrados", segundo o qual "de todas as edições latinas [...] a dita antiga Vulgata [...] [é] tida como confiável".

É justo perguntar qual das 8 000 cópias manuscritas e qual edição da Vulgata em especial devem ser tidas como autoridade máxima. Por conseguinte, o Concilio de Trento ordenou que se preparasse uma edição confiável, da Vulgata. Convocou-se uma comissão papal para a tarefa, mas não pôde vencer as muitas dificuldades que tinha pela frente. Por fim, em 1590, o papa Sixto v publicou uma edição própria apenas alguns meses antes de morrer. A edição sixtina foi pouco aceita entre os estudiosos, sobretudo os jesuítas, e somente circulou por pouco tempo. Gregório XIV (1590-1591) ascendeu à cátedra papal e imediatamente estava pronto para revisar o texto sixtino drasticamente. Sua morte súbita teria levado a termo a revisão do texto sixtino não fosse o interesse renovado de seu sucessor, Clemente vi (1592-1605). Em 1604, publicou-se uma nova edição da Vulgata, confiável, conhecida como edição sixtino-clementina. Diferia da versão sixtina numas 4 900 variantes e passou a ser o texto predominante da Vulgata, suplantando até mesmo a edição de Gutenberg, impressa na Mongúcia entre 1450 e 1455. Desde 1907, uma revisão crítica do Antigo Testamento da Vulgata foi empreendida pela ordem beneditina. O Novo Testamento foi submetido a uma revisão crítica por um grupo de estudiosos anglicanos de Oxford. Foi encetada pelo bispo John Wordsworth e pelo professor H. J. White, entre 1877 e 1926, sendo concluída por H. F. D. Sparks, em 1954.

A coerência do texto da Vulgata é muito pouca desde o século VI, e seu caráter geral é algo imperfeito. Não obstante, a influência da Vulgata na língua e na cultura do cristianismo ocidental tem sido imensa, embora seu valor para a crítica textual não se lhe aproxime. Quando se descobre o texto de Jerônimo a partir de sua própria crítica textual, ele revela que o Novo Testamento de Jerônimo era uma revisão da Antiga latina de fins do século IV e seu Antigo Testamento era versão de fins do século IV ou começo do século v do texto hebraico em uso no Oriente. Os apócrifos mostram que Jerônimo não lhes destinava muito apreço, uma vez que só com relutância traduziu quatro livros, e que eram muito populares nos círculos católicos romanos. Só uns poucos indivíduos reconheceram seu erro em aceitar o Antigo Testamento da lxx como autorizado e inspirado, apoiando a precisão do texto hebraico que servia de fonte da versão de Jerônimo, a Vulgata. Entre eles, estava Agostinho, bispo de Hipo, que seria a voz predominante no séculos seguintes da história da igreja. Naqueles séculos, a Vulgata passou a ser a edição predominante da Bíblia na Idade Média. Também serviu de base para a maioria dos tradutores da Bíblia anteriores ao século XIX.


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