Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós



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As traduções secundárias


Em meados do século IX, formou-se na Europa centro-oriental o Império Morávio. Esse reino foi tomado pelo cristianismo, e seus líderes eclesiásticos usaram o latim em sua liturgia. Os leigos não conheciam o latim, e Rostislav, fundador do reino, solicitou que se enviassem sacerdotes eslavônicos para realizar os cultos na igreja na língua do povo. Nessa época só o eslavônico era falado nessa região da Europa.

Em resposta à solicitação de Rostislav, o imperador Miguel m enviou dois monges à Morávia saídos de Bizâncio (Constantinopla). Os monges eram os irmãos Metódio e Constantino, naturais de Tessalônica. Constantino mudou seu nome para Cirilo ao ingressar no monastério. A fim de executar sua tarefa, os irmãos criaram um novo alfabeto, conhecido como alfabeto cirílico. Compõem-se de 36 letras e é ainda o meio de escrita do russo, do ucraniano, do servo-croata e do búlgaro. O alfabeto cirílico suplantou o alfabeto local, o glagolítico, no século X.

Logo após entrarem na região, Cirilo e Metódio começaram a traduzir os evangelhos para o antigo eslavônico. Depois, esses "apóstolos aos eslavos" começaram a traduzir o Antigo Testamento. Acreditou-se em certa altura que a tradução fora da lxx, mas evidências recentes mostram que na verdade fora executada a partir do latim. O Novo Testamento segue o texto bizantino, embora com muitas interpretações ocidentais e cesareenses. A maior parte dos manuscritos eslavônicos se compõe de lecionários, e a primeira tradução em si pode ter sido na forma de lecionário.

Das demais traduções fundamentadas no texto latino, somente as traduções anglo-saxônica e frâncica requerem informações. O texto anglo-saxônico será tratado no capítulo 19, e a tradução frâncica foi publicada em edição bilíngüe. É conhecida por um fragmento de manuscrito do século viu com trechos de Mateus ao lado de um texto latino.


19. As primeiras traduções para o inglês


A corrente saída de Deus até nós toma novo rumo dessa vez. O texto bíblico nas línguas originais e nas primeiras traduções dão lugar à transmissão particular do texto na língua inglesa. Embora u Antigo Testamento tenha sido escrito sobretudo em hebraico, e o Novo tenha sido escrito basicamente em grego, existem mais traduções modernas da Bíblia em inglês que em qualquer outra língua.

Traduções parciais para o antigo e para o médio inglês


O inglês é uma espécie de dialeto-apêndice do baixo-alemão, que em si pertence ao ramo teutônico ocidental do grupo teutônico de línguas da família indo-européia. A fim de colocá-lo no seu devido cenário é preciso traçar um esboço dos antecedentes da língua inglesa e do lugar que nela ocupa a Bíblia.

O desenvolvimento recente da língua inglesa


Não se sabe com certeza como a língua inglesa se desenvolveu, mas a maioria dos estudiosos segue a orientação de Beda, o Venerável (c. 673-735), que data seu início em cerca de 450 da era cristã. O período de 450 a 1100 é denominado anglo-saxônico, ou do antigo inglês, por ter sido dominado pela influência dos anglos, dos saxões e dos jutos em seus vários dialetos. Apos a invasão normanda de 1066, a língua sofreu a influência de dialetal escandinavos, e o período do médio inglês apareceu de 1100 a 1500. Esse foi o período de Geoffrey Chaucer (1340-1400) e de John Wycliffe. Após a invenção da prensa móvel por Johann Gutenberg (c. 1454), o inglês entrou em seu terceiro período de desenvolvimento: o do inglês moderno (1500 até o presente). Esse período de desenvolvimento foi precipitado pela grande mudança vocálica no século que se seguiu à morte de Chaucer e precedeu ao nascimento de William Shakespeare. Com esses antecedentes em mente, nosso levantamento das várias traduções da Bíblia para o inglês deve ser mais significativo.

As traduções parciais para o antigo inglês (450-1100)


A princípio, apenas quadros, pregações, poemas e paráfrases eram usados para comunicar a mensagem da Bíblia aos britânicos. As primeiras traduções de partes das Escrituras basearam-se nas traduções da Antiga latina e da Vulgata, e não nas línguas originais, o hebraico e o grego, e nenhuma delas continha o texto da Bíblia toda. Não obstante, elas ilustram a maneira pela qual a Bíblia entrou para a língua inglesa.

Cedmão (m. c. 680). A história de Cedmão é encontrada na História eclesiástica, de Beda. Dela faz parte um trabalhador pouco talentoso do mosteiro de Whitby, em Yorkshire, na Nortúmbria, que deixou uma festa certa noite por medo de ser intimado a cantar. Mais tarde nessa noite, ele sonhou que um anjo lhe ordenara que cantasse sobre como as coisas foram criadas no princípio. Outras paráfrases e poemas cantados por Cedmão incluíram a história completa do Gênesis, o êxodo de Israel do Egito, a encarnação, a paixão, a ressurreição e a ascensão do Senhor, a descida do Espírito Santo, os ensinamentos dos apóstolos etc. Sua obra tornou-se a base para outros poetas, escritores e tradutores, pois transformou-se na Bíblia popular dos seus dias para o povo. Conseguintemente, os cânticos de Cedmão eram decorados e disseminados por todo o país.

Aldhelm (640-709). Aldhelm foi o primeiro bispo de Sherborne em Dorset. Logo depois do ano 700, ele traduziu o Saltério para o antigo inglês. Foi a primeira tradução direta de qualquer parte da Bíblia para a língua inglesa.

Egberto (fl. c. 700). Egberto da Nortúmbria tornou-se arcebispo de Iorque pouco depois da morte de Beda. Ele foi também o mestre de Alcuíno de Iorque, que foi mais tarde chamado por Carlos Magno para estabelecer uma escola na corte de Aix-la-Chapelle (Aachen), Por volta de 705, Egberto traduziu os evangelhos para o antigo inglês pela primeira vez.

Beda, o Venerável (674-735). Maior estudioso da Inglaterra e um dos maiores de toda a Europa dos seus dias, Beda residiu em Jarrow-on-the-Tyne, na Nortúmbria. De lá, ele escreveu sua famosa História eclesiástica e outras obras. Entre essas obras encontrava-se uma tradução do evangelho de João, cujo propósito foi provavelmente o de suplementar os três outros traduzidos por Egberto. Segundo relatos tradicionais, Beda terminou a tradução na hora da morte.

Alfredo, o Grande (849-901). Alfredo foi um estudioso de primeira, além de ter sido rei da Inglaterra (870-901). Durante seu reinado, a Lei Danesa foi estabelecida sob o Tratado de Wedmore (878). O tratado continha somente duas estipulações para os novos súditos: batismo cristão e fidelidade ao rei. Juntamente com sua tradução da História eclesiástica de Beda do latim para o anglo-saxão, ele também traduziu os Dez mandamentos, excertos do Êxodo, 21— 23, de Atos, 15.23-29, e uma forma negativa da Regra áurea. Foi durante o seu reinado que a Inglaterra experimentou um reavivamento do cristianismo.

Aldred (fl. c. 950). Outro elemento foi introduzido na história da Bíblia inglesa quando Aldred escreveu um comentário nortumbriano entre as linhas de uma cópia dos evangelhos escrita no latim do final do século VII. É da cópia latina de Eadfrid, bispo de Lindisfarne (698-721), que a obra de Aldred recebe seu nome, os Evangelhos de Lindisfarne. Uma geração depois, o escriba irlandês MacRegol fez outro comentário anglo-saxônico conhecido como Evangelhos de Rushworth.

Aelfric (fl. c. 1000). Aelfric foi bispo de Eynsham, em Oxfordshire, Wessex, quando traduziu partes dos sete primeiros livros do Antigo Testamento. Essa tradução e outras partes do Antigo Testamento que ele traduziu e citou em suas homilias basearam-se no texto latino. Mesmo antes da época de Aelfric, os Evangelhos de Wessex foram traduzidos para o mesmo dialeto. Esses elementos constituem a primeira tradução existente dos evangelhos para o antigo inglês.

As traduções parciais para o médio inglês (1100-1400)


A conquista normanda (1066) deu-se graças à disputa em torno do trono de Eduardo, o Confessor. Com ela, o período do domínio saxônico na Inglaterra chegou ao fim, e um período de influência normando-francesa se fez sentir sobre a língua dos povos conquistados. Durante esse período de domínio normando foram feitas outras tentativas de traduzir a Bíblia para o inglês.

Orm ou Ormin (fl. c. 1200). Orm foi um monge agostiniano que escreveu uma paráfrase poética dos evangelhos e de Atos acompanhada de comentário. Essa obra, o Ormulum, é preservada em um único manuscrito de 20 000 palavras. Embora o vocabulário seja puramente teutônico, a cadência e a sintaxe mostram a influência normanda.

Guilherme de Shoreham (fl. c. 1320). Shoreham freqüentemente recebe o crédito de ter produzido a primeira tradução em prosa de uma parte da Bíblia para um dialeto sulista do inglês, embora exista alguma dúvida quanto a ele ter sido realmente o tradutor dessa obra de 1320.

Ricardo Rolle (fl. c. 1320-1340). Rolle é conhecido como o "Eremita de Hampole". Foi responsável pela segunda tradução literal das Escrituras para o inglês. Vivendo perto de Doncaster, em Yorkshire, fez sua tradução da Vulgata latina para o dialeto inglês do norte. Sua tradução do Saltério foi amplamente divulgada e reflete o desenvolvimento da tradução da Bíblia inglesa até a época de John Wycliffe.

As traduções completas para o médio inglês e para o inglês moderno em fase inicial


Embora não houvesse nenhuma Bíblia completa em inglês antes do século XIV, diversos indícios apontavam para o aparecimento iminente de uma. A ampla circulação do Saltério literal de Rolle na exata época em que a corte papal passava por lutas se associou ao chamado cativeiro babilônico (1309-1377). Esse acontecimento e suas conseqüências formaram o pano de fundo para a obra de outros tradutores bíblicos.

As traduções da Bíblia dos séculos XIV e XV


John Wycliffe (c. 1320-1384). Wycliffe, a "Estrela d'Alva da Reforma", viveu durante o cativeiro babilônico, tempo em que viveram Geoffrey Chaucer e João de Gaunt. Em seu recuo contra a apatia espiritual e a degeneração moral dos clérigos da Inglaterra, ele foi forçado à notoriedade como oponente do papado. Wycliffe afastou o latim escolástico como veículo de comunicação e dirigiu seu apelo ao povo inglês na língua comum. Seu apelo foi dirigido por meio dos lollardos, ordem de pregadores itinerantes também conhecidos como os "sacerdotes pobres". Esses lollardos cruzaram o país pregando, lendo e ensinando a Bíblia em inglês. Para poder ajudá-los em sua tarefa, era necessária uma nova tradução da Bíblia. A tradução do Novo Testamento foi completada em 1380, e o Antigo Testamento apareceu em 1388. Embora essa tradução completa seja atribuída a Wycliffe, ela foi terminada depois de sua morte por Nícolas de Hereford.

As traduções foram feitas a partir de manuscritos da época da Vulgata latina. Os manuscritos sobre os quais essas traduções se basearam refletem uma qualidade e uma tradição textual geralmente inferiores, mas serviram de base para a primeira tradução completa da Bíblia em inglês. Com a tradução que Wycliffe fez da Bíblia, uma nova época na história da Bíblia foi instaurada. Um dos princípios básicos de Wycliffe foi estabelecido por Hampole, a saber, que os tradutores não buscariam nenhuma palavra estranha e usariam o inglês mais fácil e mais comum, que fosse o mais parecido com o latim, a fim de que aqueles que não soubessem latim pudessem, por intermédio do inglês, chegar a muitas palavras latinas.



João Purvey (c. 1354-1428). João Purvey desempenhou o ofício de secretário de Wycliffe e é reconhecido por ter feito uma revisão da primeira Bíblia de Wycliffe em 1395. Essa revisão é comumente conhecida como a Versão posterior de Wycliffe, e aquela como a Primeira versão de Wycliffe, embora o termo versão não se aplique estritamente a nenhuma delas.

A revisão feita por Purvey substituiu muitas construções latinas por expressões inglesas nativas. Ela também substituiu o prefácio de Jerônimo por um extenso prólogo escrito por Purvey. O resultado final foi o contínuo enfraquecimento da influência papal sobre o povo inglês. Na forma mais ampla, a primeira Bíblia inglesa completa foi publicada, revisada e circulada antes da obra de João Huss (c. 1369-1415) na Boêmia. Ela foi também publicada antes da invenção de Johann Gutenberg (c. 1454), desenvolvimento revolucionário que teve efeito refreador na disseminação das traduções de Wycliffe.


As traduções da Bíblia do século XVI


A transformação da Inglaterra e também de toda a Europa seguiu-se à Renascença e à característica que a acompanhou: o reavivamento literário, a elevação do nacionalismo e o espírito de exploração e de descoberta. O ressurgimento dos clássicos seguiu-se à queda de Constantinopla em 1453, Johann Gutenberg (1296-1468) inventou a prensa móvel e papel mais barato foi introduzido na Europa. Em 1456 foi publicada a Bíblia Mazarin. A língua grega começou a ser estudada publicamente na Universidade de Paris em 1458, a primeira gramática grega surgiu em 1476 e um vocabulário grego foi publicado em 1492. Em 1488, a Bíblia hebraica foi publicada, a primeira gramática hebraica saiu em 1503 e o primeiro vocabulário hebraico apareceu em 1506.

Mesmo antes de 1500, havia mais de oitenta edições da Bíblia latina publicadas na Europa, a uma geração de distância da introdução em 1476, na Inglaterra, por Claxton, do novo método de imprensa. Aliás, o cenário era tal que se fez necessário um estudioso para moldar os originais hebraico e grego em inglês escorreito, pois nenhuma simples conversão do texto latino seria suficiente para satisfazer à demanda da situação.



William Tyndale (c. 1492-1536). William Tyndale foi o homem que podia fazer o que era necessário, e ele teve a fé e a coragem para perseverar a todo custo. Após tentativas malfadadas de fazer sua tradução na Inglaterra, embarcou para o Continente em 1524. Após outras dificuldades, finalmente imprimiu o Novo Testamento em Colônia, no fim de fevereiro de 1526. Seguiu-se uma tradução do Pentateuco, em Marburgo (1530), e de Jonas, na Antuérpia (1531). As influências de Wycliffe e de Lutero eram evidentes no trabalho de Tyndale e o mantiveram sob constantes ameaças. Além disso, essas ameaças eram tantas, que as traduções de Tyndale tiveram de ser contrabandeadas para a Inglaterra. Tendo chegado lá, exemplares foram comprados por Cuthbert Tunstall, bispo de Londres, que as fez queimar publicamente em St. Paul's Cross. Até mesmo sír Thomas More (1478-1535), humanista, presidente da Câmara dos Pares, na Inglaterra de Henrique VIII, e autor de Utopia, atacou a tradução de Tyndale por pertencer à mesma "seita perniciosa" da tradução alemã de Lutero.

Em 1534, Tyndale publicou sua revisão do Gênesis e começou a trabalhar numa revisão do Novo Testamento. Pouco depois de completar essa revisão, foi seqüestrado na Antuérpia e levado à fortaleza de Vilvorde, em Flandres. Ali continuou a traduzir o Antigo Testamento. Em agosto de 1536, foi condenado por heresia, destituído do seu ofício sacerdotal e entregue às autoridades seculares para ser executado. A execução deu-se no dia 6 de outubro. Na hora da execução, Tyndale clamou: "Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra". Naquela hora exata os acontecimentos na Inglaterra conspiravam para a realização do último pedido do tradutor.



Miles Coverdale (1488-1569). Miles Coverdale, assistente e revisor de provas de Tyndale na Antuérpia, tomou-se a peça-chave na impressão da primeira Bíblia completa em inglês. Essa obra foi pouco mais que uma revisão da tradução completa de Tyndale, acrescida de percepções extraídas das traduções alemãs.

Coverdale introduziu resumos de capítulos e algumas novas expressões no texto da sua tradução. Também estabeleceu o precedente de separar o Antigo Testamento dos livros apócrifos nas Bíblias traduzidas depois que a Vulgata latina atingiu sua posição de proeminência na igreja ocidental. A tradução de Coverdale foi reimpressa duas vezes em 1537, novamente em 1550 e mais uma vez em 1553. Não obstante, a verdadeira sucessora da edição de 1535 foi a Grande Bíblia de 1539. Falaremos sobre essa Bíblia em breve.



Thomas Matthew (c. 1500-1555). Thomas Matthew foi o pseudônimo literário de John Rogers, o primeiro mártir das perseguições sob o domínio de Mary Tudor. Ele também fora assistente de Tyndale. Em 1537, publicou outra Bíblia em inglês combinando os textos do Antigo Testamento de Tyndale e de Coverdale com a revisão de 1535 do Novo Testamento feita por Tyndale. Essa Bíblia não foi publicada de novo senão em 1549 e 1551. Em 1549, uma edição levemente revisada também foi publicada, e em 1551 apareceu uma Bíblia que trazia a inscrição "De Matthew" na página de rosto, mas continha o Antigo Testamento de Taverner e a edição de 1548 do Novo Testamento de Tyndale.

John Rogers se recusava a colocar seu nome verdadeiro em trabalho que tivesse sido feito por outros, embora os publicasse. Em vez disso, ele usava o pseudônimo literário, Thomas Matthew, e acrescentava copiosas notas e referências. Além das edições de Tyndale e de Coverdale, ele tomou muito de empréstimo das edições francesas de Lefèvre (1534) e de Olivetan (1535). Quando publicou sua edição de 1537, fê-lo com a permissão de Henrique VIII. Com a sua publicação, havia duas Bíblias inglesai) autorizadas, em circulação dentro de um ano após a morte de Tyndale. Seus assistentes haviam continuado o trabalho do companheiro martirizado, e outros seguiriam seus passos.



Richard Taverner (1505-1575). Taverner foi um leigo com grandes CCH nhecimentos do grego. Em 1539, aplicou seu talento a uma revisão da Bíblia de Matthew e produziu uma tradução que aproveitava muito mais o artigo grego. Não obstante, a obra de Taverner logo seria ultrapassada por ainda outra revisão da Bíblia de Matthew, a Grande Bíblia, de 1539.

Grande Bíblia (1539). As notes e os prólogos das duas principais traduções inglesa que circulavam em 1539, a de Coverdale e a de Matthew, constituíam uma afronta tão grande para tantos grupos da Inglaterra, que Henrique viu se viu freqüentemente intimado a providenciar uma nova tradução livre de interpretações. Thomas Cromwell (c. 1485-1540), presidente da Câmara dos Pares sob Henrique VIII, protestante, foi autorizado a dar prosseguimento a esse empreendimento. Com a aprovação adicional de Thomas Cranmer (1489-1556), primeiro arcebispo protestante da Cantuária, Miles Coverdale dispôs-se a preparar um novo texto para ela e usar o trabalho de outros homens no lugar do seu, publicado havia menos de dois anos.

Sob a direção de Coverdale, a Grande Bíblia foi oferecida como meio de acalmar as tensões advindas da situação da Bíblia na Inglaterra. Ela recebeu seu nome devido ao grande tamanho e formato, pois era maior que a de qualquer edição anterior e caprichosamente enfeitada. A página de rosto era uma fina xilogravura atribuída a Hans Holbein, que mostrava Henrique VIII, Cranmer e Cromwell distribuindo Bíblias ao povo que por sua vez bradava "Vivat Rex" e "Deus salve o Rei". A Bíblia não continha nenhuma dedicatória e apresentava apenas prefácios simples. Além disso, os livros apócrifos foram removidos do restante do texto do Antigo Testamento e colocados num apêndice intitulado "Hagiógrafa" (escritos sagrados). A situação ficou extremamente embaraçosa pelo fato de a maioria dos bispos da igreja ainda ser católica romana. Embora a Grande Bíblia recebesse autorização para ser lida nas igrejas em 1538, sua posição delicada ficou mais ameaçada ainda pelo fato de não ser nem uma versão, nem a revisão de uma versão, mas a revisão de uma revisão.



Bíblia de Cranmer (1540). Em abril de 1540, foi publicada uma edição especial da Grande Bíblia. Ela trazia um prefácio de Thomas Cranmer, então arcebispo da Cantuária, e algumas outras revisões baseadas na obra anterior de Coverdale. A essa seguiram-se cinco outras edições antes do final de 1541. Essas Bíblias são chamadas "de Cranmer" em razão do prefácio que ele escreveu para elas. Nesse prefácio encontra-se a declaração: "Esta é a Bíblia destinada ao uso das igrejas". A Bíblia de 1535 e a Bíblia de Matthew, de 1537, tinham sido permitidas, mas essa era uma tradução indubitavelmente autorizada, o que a tradução de 1611 nunca chegou a ser.

Na terceira e na quinta dessas seis edições da Bíblia de Cranmer, um aviso foi impresso na página de rosto dizendo que os bispos Tunstall e Heath haviam "supervisionado e examinado" a edição. É uma ironia curiosa o fato de que Tunstall, quando bispo de Londres, houvesse condenado Tyndale e sua obra. Agora ele autorizava oficialmente uma Bíblia que continha em grande parte a tradução de Tyndale e as revisões dela. Até 1547, a Bíblia de Cranmer atingiu uma policio predominante nas igrejas. Em 1549 e 1553, foi novamente reimpressa, e a ordem de Cranmer não foi revogada nem mesmo durante os breves e turbulentos anos do reinado de Mary Tudor (1553-1558).



Bíblia de Genebra (1557,1560). Durante a perseguição sob o comando de Mary Tudor, muitos reformadores fugiram para o continente em busca de segurança. Entre aqueles que se estabeleceram em Genebra encontravam-se estudiosos e amantes da Bíblia, como Miles Coverdale e John Knox (c. 1513-1572), os quais produziram uma revisão que viria a exercer grande influência no povo da Inglaterra. Em 1557, um do grupo, chamado Guilherme Whittingham, cunhado de João Calvino, produziu uma revisão provisória do Novo Testamento. Essa foi a primeira vez que o Novo Testamento em inglês se dividia em versículos, embora tivesse sido assim dividido no Novo Testamento grego de Estéfano, bem como em edições anteriores em latim e em hebraico. Longos prólogos foram acrescentados às traduções, juntamente com súmulas de capítulos e copiosas notas marginais. Foi introduzido o grifo na tradução para indicar lugares em que o inglês exigia palavras não encontradas no texto original.

Logo depois do Novo Testamento ter sido publicado em Genebra, foi iniciado o trabalho de revisar cuidadosamente toda a Bíblia. Em 1560, foram completados o Antigo Testamento e uma revisão do Novo que incluíam as mais recentes evidências textuais, e teve início a longa e movimentada história da Bíblia de Genebra. Em 1644, a Bíblia de Genebra já havia passado por 140 edições. Ela foi tão popular, que fez frente à Bíblia dos bispos (1568) e à primeira geração da chamada Versão autorizada (1611). Foi largamente usada entre os puritanos, citada repetidamente nas páginas de Shakespeare e usada até mesmo na mensagem extraída de "Os tradutores aos leitores", na tradução de 1611. Embora suas anotações fossem mais brandas que as de Tyndale, eram calvinistas demais tanto para Elizabete I (1558-1603) quanto para Tiago I (1603-1625).



Bíblia dos bispos (1568). A Bíblia de Genebra não foi patrocinada pela igreja oficial, mas tornou-se rapidamente a Bíblia de cada casa do reino. Seu sucesso imediato ocasionou uma nova revisão da Grande Bíblia, a Bíblia autorizada das igrejas. O trabalho foi confiado a um grupo de estudiosos que incluía cerca de oito bispos, daí o nome de Bíblia dos bispos. Eles usariam a Grande Bíblia como ponto de partida para sua revisão, e, conquanto a intenção fosse a de fazer apenas pequenas alterações, alguns bispos foram além das instruções recebidas. Os revisores tinham mais conhecimento do grego do que do hebraico, e seu trabalho no Novo Testamento é superior ao trabalho efetuado no Antigo.

A Bíblia dos bispos foi publicada em 1568, em Londres, "cum privilegio regiae majestatis". Sua parte do Novo Testamento foi publicada em papel mais espesso do que a do Antigo, a fim de suportar o maior uso. Ela continha dois prefácios, um de Cranmer e um de Matthew Parker, então arcebispo da Cantuária. Assim como a Grande Bíblia, ela continha poucas notas nas margens. A convocação de 1571 decretou que fossem distribuídos exemplares por todo o país, nas casas de cada bispo e arcebispo, em toda catedral e em toda igreja, se possível. De 1568 a 1611, essa tradução conciliatória era geralmente encontrada nas igrejas. Não obstante, a Bíblia de Genebra já havia conquistado os lares do país. Sua desvantagem insuperável, entretanto, não impediu que a Bíblia dos bispos fosse usada como base para a famosa revisão de 1611.


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