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Encontro06.08.2016
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Nosso Lar Cap. 12




12

O UMBRAL
Depois de receber explicações tão importantes, fiquei ainda mais interessado em conhecer outros aspectos relativos aos vários problemas que Lísias havia levantado em nossa conversa. A alusão a espíritos do Umbral me deixava muito curioso. A falta de educação religiosa durante a vida física pode causar muitas perturbações complicadas. O que seria o Umbral? Eu só conhecia a idéia de inferno e purgatório, de que havia ouvido falar nos sermões das cerimônias católicas a que ía apenas por obrigação social. Mas do Umbral eu nunca havia ouvido falar.

Na primeira vez que encontrei com Lísias, fui logo perguntando. Ele me ouviu com atenção e respondeu:

- Ora, ora, você esteve lá por tanto tempo e não conhece a região?

Lembrei-me dos sofrimentos passados, sentindo arrepios de horror.

- O Umbral – continuou ele – começa na crosta terrestre. É a zona obscura para onde vão aqueles que não quiseram assumir e cumprir seus deveres morais, enfrentando por mais tempo os incômodos da indecisão e dos vários erros cometidos. Quando o espírito reencarna, promete cumprir o programa de serviços de Deus. Entretanto, quando está revivendo experiências no mundo físico, é mais fácil procurar o que lhe satisfaça o egoísmo do que cumprir esse programa. E assim se mantêm o mesmo ódio pelos inimigos e a mesma paixão pelos amigos. Mas o ódio não é justiça e a paixão não é amor. Tudo o que é exagerado e fica sem proveito acaba prejudicando a economia da vida. Pois então, toda a multidão de espíritos desequilibrados fica nas regiões nevoentas, que se seguem ao plano físico. O dever cumprido é como uma porta que atravessamos no infinito, que nos leva à sagrada união com Deus. É natural, portanto, que o homem que fugiu de suas obrigações justas, tenha essa bênção adiada por tempo indefinido.

Percebendo minha dificuldade para entender tudo o que me dizia e minha total ignorância dos princípios espirituais, Lísias tentou ser mais claro:

- Imagine que cada um de nós, renascendo no mundo, é portador de um acontecimento sujo que deve ser lavado no tanque da vida física. Essa roupa suja é o corpo espiritual, tecido por nós mesmos nas vidas passadas. No entanto, ao receber nova oportunidade de encarnação, nos esquecemos do objetivo principal e, em vez de nos esforçarmos para nos lavarmos e limparmos, manchamos ainda mais nossa roupa, criando novos laços e escravizando a nós mesmos. Ora, se ao voltarmos ao plano físico pretendíamos nos livrar da sujeira, por sabermos que não está de acordo com o meio elevado em que vivemos, como podemos voltar a esse mesmo meio em piores condições? O Umbral é, portanto, a região onde são eliminados os resíduos mentais; uma espécie de purgatório, onde as muitas ilusões humanas adquiridas por descaso com a oportunidade encarnatória , são queimadas a prestações.
A imagem não podia ser mais clara, mais convincente. Não havia como disfarçar meu espanto. Percebendo o bem que me faziam aquelas explicações, Lísias continuou:

- O Umbral é região de muito interesse para quem está encarnado. Ali se concentra tudo o que não serve para a vida superior. E veja que Deus foi muito sábio ao permitir que se criasse essa região em torno do planeta. Há multidões de espíritos indecisos e ignorantes que não são suficientemente maus para serem enviados a colônias de regeneração mais rígida, nem bons o suficiente para serem levados a planos mais elevados. São espíritos que vivem no Umbral, companheiros muito próximos dos homens encarnados, separados deles apenas por leis vibratórias. Não é de se estranhar, portanto, que lugares como estes se caracterizem por muitas perturbações. Ali vivem e se reúnem todos os tipos de revoltados, formando núcleos invisíveis de considerável poder, conseguido pela concentração dos mesmos desejos e tendências. Não há muita gente na Terra que fica desesperada quando o correio não chega ou quando o ônibus não aparece? Pois o Umbral está cheio de criaturas que se desesperam ao não encontrarem Deus à sua disposição depois da morte física e, percebendo que só os que trabalham para Ele é que alcançam realmente a glória da vida eterna, revelam-se e passam a alimentar idéias mesquinhas. “Nosso Lar” tem uma sociedade espiritual, enquanto esses núcleos possuem infelizes, malfeitores e vagabundos de vários tipos. É zona de carrascos e vítimas, de exploradores e explorados.

Aproveitando a pausa espontânea, falei impressionado:

- E como explicar isso? Lá não existe defesa ou organização?

Lísias sorriu e explicou:

- Organização é qualidade dos espíritos organizados. O que você queria? A zona inferior da qual estamos falando é como a casa onde não há pão: todos gritam e ninguém tem razão. O passageiro distraído perde o ônibus, o agricultor que não plantou não pode colher. Mas uma coisa é certa: apesar das sombras e angústias do Umbral, lá nunca faltou a proteção divina. Cada espírito permanece ali apenas o tempo que for necessário. Para isso, André, Deus permitiu que muitas colônias como esta fossem construídas, dedicadas ao trabalho e ao socorro espiritual.

- Então – observei – essa região quase se mistura ao plano dos encarnados.

- Isso mesmo, – confirmou o amigo – e é nessa zona que se estendem os fios invisíveis que ligam as mentes humanas entre si. Esse plano está cheio de desencarnados e de formas-pensamento de encarnados, porque, na verdade, todo espírito, onde quer que esteja, é uma fonte que irradia forças que criam, transformam e destróem, emitidas em vibrações que a atual ciência terrestre ainda não compreende. Quem pensa está sempre criando alguma coisa. E é pelo pensamento que os homens encontram, no Umbral, os companheiros que mais se afinizam com suas tendências. Toda alma é um ímã poderoso. Existe uma grande humanidade invisível ao lado da humanidade visível. No Umbral, as maiores missões do Ministério do Auxílio são compostas por dedicados colaboradores, porque, assim como é difícil a tarefa dos bombeiros nas grandes cidades físicas por causa das labaredas e da fumaça grossa que precisam enfrentar, os missionários que trabalham no Umbral encontram fluidos muito pesados, emitidos continuamente por milhares de mentes desequilibradas na prática do mal, ou muito destruídas por sofrimentos regeneradores. É preciso ter muita coragem e muita renúncia para ajudar quem não percebe o auxílio que lhe é oferecido.

Lísias interrompeu a explicação. Profundamente impressionado, exclamei:

- Ah, como eu gostaria de trabalhar com essas multidões infelizes, levando a eles o pão espiritual do esclarecimento!

O enfermeiro amigo me olhou com bondade e, depois de pensar um longo tempo em silêncio, disse-me , despedindo-se:

- Será que você se sente suficientemente preparado para um serviço como esse?


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