Nota do autor



Baixar 134.45 Kb.
Página1/3
Encontro02.08.2016
Tamanho134.45 Kb.
  1   2   3





NOTA DO AUTOR
Brejo Santo, cidadezinha desenvolvimentista do Cariri, no Sul do Estado do Ceará, é a nossa terra natal. Por situar-se próxima à Serra Talhada (antiga Vila Bela, onde nasceu Lampião), desde menino ouvimos falar das vinditas, proezas, peripécias e estratégias desse bravo cangaceiro.

A estória que vamos contar, na verdade, é um misto de ficção e realidade. Ficção quando inventamos este encontro do Rei do Cangaço com os meninos ecologistas e realidade quando falamos da riqueza das nossas matas, como também da vida deste bravo cangaceiro. Criamos um grupo de crianças defensoras da Natureza, que, ajudado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, fabricava armadilhas, artefatos e outros meios engraçados para espantar os caçadores da Serra do Araripe.

Aproveitamos esta oportunidade e retratamos um pouco da riqueza que existia nessa serra, mais precisamente na região de Santa Rosa e Ladeira da Pinheira, sítios localizados no município de Missão Velha-CE, lugares aprazíveis dos nossos sonhos da infância.

O Encanto das suas matas, dos seus animais, principalmente das aves, é valorizado aqui de uma maneira singular, uma vez que fizemos o possível para descrevê-los exatamente como vimos nos velhos tempos de criança.

Dedicamos este trabalho aos nossos pais que sempre valorizaram a natureza, impingindo-nos um sentimento nato de amor aos animais.

Em algumas situações, registramos a linguagem regionalista para relembrar as expressões usadas na época.

Nossa modesta intenção com este conto é chamar atenção dos jovens e incentivá-los para uma nobre missão: a que têm os ecologistas de defender as maiores riquezas do Brasil: a fauna e a flora, através das quais poderemos viver tranqüilos conosco e com nossos irmãos.

O professor Evandir F.L. Costa nos ensina: - É chegada a hora de se afirmar a vida, o amor, celebrar a suprema aventura de viver; amar tudo que a vida contém: pessoas, pássaros, animais o dia, a noite, o sol, a chuva e as estrelas.



LAMPIÃO E OS MENINOS DO ARARIPE
(Defensores da Natureza)

A 10 de março de 1 910, na Serra do Araripe, sob os auspiciosos ventos de inverno, no sítio Pinheira, nasceu um menino amarelo e raquítico, que foi batizado com o nome de Francisco. Seu Pai Sebastião Canuto Canindé e sua mãe Maria da Silva Canindé não expressaram tanto contentamento, como fazem as famílias de outras classes, depois do nascimento do primeiro filho.

Quando falamos em classes de família, fica difícil situar uma pessoa que, anualmente, passa por uma mudança radical de vida. Antes e depois do inverno, este povo atravessa duas situações completamente opostas. Uma de real pobreza e outra de bastante fartura. Portanto, se formos classificá-lo, chamaríamos de “povo dependente de inverno”. Sim, porque esta gente excepcional, infelizmente, não está preparada para outras necessidades básicas importantes e imprescindíveis noutras classes sociais. Tendo a alimentação diária, já fica suficientemente alegre e feliz. Este povo para ter alegria basta Deus mandar chuva. Aí se vê os foles de oito baixos, os reco­-recos, os triângulos, as rebecas e os maracás roncarem nos pés de serra; as cantorias de viola nas feiras; todo mundo vestindo roupas limpas e brancas; jumentos e burros descendo a serra carregados de frutas, jarras, potes, beijus e tapiocas. Uma riqueza que desaparece no verão.

Para quem não conhece o ambiente em que viveu o buliçoso menino, explico: não pode existir riqueza natural mais bonita. Exatamente próximo da Ladeira da Pinheira, no alto da Serra do Araripe, já município de Missão Velha - Ceará, viveu o nosso pequeno guerreiro nos idos de 1 910 a 1 940, numa imensidão verde, de flutuação climática agradável, às vezes, até apresentando neblina - raridade na região Nordestina.

A Serra da qual nos referimos é um terreno plano, arenoso e branco coberto com mata espessa - totalmente fechada - na época, fazendo parte integrante da florestas tropicais. Nesse tempo, havia uma riqueza de microorganismos, insetos, plantas e animais de diversas espécies. Hoje, lamentamos profundamente o estado quase desértico em que se encontra a Serra do Araripe.

As copas das árvores formavam um verdadeiro dossel. Aves, mariposas, lagartas, borboletas, macacos, não necessitavam procurar o solo para alimentação, tendo em vista a fartura de resinas, flores e frutos que as gigantescas árvores protegiam.

Chico Canindé ou Chico Pelado, apelido que ganhou dos seus amigos aos 12 anos de idade, uma vez que os seus cabelos teimavam em não aparecer, vivia uma vida normal, a bem dizer da verdade. Normal, em comparação a todos os filhos daquela exuberante serra. Não podemos comparar uma vida dessa, cheia de sujeições, destituída de educação formal, sem o trato da medicina legal e outras instituições necessárias, com a dos moradores citadinos.

Mas, um lugar saudável como a Santa-Rosa e a Ladeira da Pinheira é difícil de encontrar pelo mundo afora. Um verdadeiro presente dos céus. Chico Pelado, com referência a fauna e a flora, teve a grande felicidade de viver, ao longo de 30 anos, em convívio constante com a exuberância deste paraíso terrestre.

Menino alegre, peralta e esperto, logo se identificou com o mundo das florestas e dos animais, diferente de muitos que conhecemos - não maltratava nenhum deles, por menor que fosse, era um defensor ardoroso, e ai de quem tentasse, ao menos, assustar um dos seus irmãos menores, como ele denominava.

Por tudo isso, tinha um sonho ecológico; pretendia, um dia, formar um bando, contudo, para fazer justiça diferente; defender, com unhas e dentes, a sua região serrana dos desmatamentos e das matanças indiscriminadas de animais.

Quanto aos desmatamentos, doía-lhe ver tombar milhares de pequizeiros - razão maior da sobrevivência do seu povo - sob as ordens desmedidas dos patrões, para formar piquetes de engorda de bovinos. Com referência aos animais silvestres, a sua revolta era ainda maior, vez que, dezenas de amigos e correligionários dos coronéis abatiam, desmedidamente, por puro prazer, codornizes, gaviões, juritis, papagaios, macacos, onças, saguis, teiús, veados e outros.

Diariamente, ele e seus amigos saiam pelas matas da Serra do Araripe, escondendo-se atrás de robustos jatobazeiros, quando assistiam matanças cruéis de animais silvestres. Presenciaram cenas horripilantes de macacos e saguis tombando ensanguentados, com as mãos postas, como pedindo clemência aos brutais assassinos, que os apunhalavam sem a menor piedade.

Chico Canindé nunca foi contrário comer aves por necessidade fisiológica. Isto Zé Calixto, da Bica da Santa Rosa, sempre fez. Todos os meninos daquela região sabem disto. Mas, a sua revolta prendia-se aos desmatamentos desnecessários e às matanças indiscriminadas de animais.

Achamos até que Chico Pelado e todos os seus amigos foram bastante influenciados por Zé Calixto, no que tange ao apego e ao respeito pelos animais.
ZÉ CALIXTO
Calixto era um caboclo de estatura mediana, sempre barbado, morador da mata da nascente da Santa Rosa, sítio que pertencia ao coronel José Leite de Moura. Calmo, sereno, sempre de bom humor, não se afobava com nada neste mundo, parecendo saber instintivamente que “as pessoas são tão grandes como as coisas que as irritam”.

Desde muito cedo largou a família, ninguém sabe qual a razão. Ele vivia na floresta como se fosse o seu verdadeiro lar. Visitava os sítios circunvizinhos, esporadicamente. Chico descobriu posteriormente que Zé Calixto era um verdadeiro amante e defensor da Natureza, protegendo-a de forma inusitada.

Constantemente, Pelado e seus amigos encontravam com o Zé em diversas e diferentes situações engraçadas. Para eles, tinha esse significado hilariante, porém, para os caçadores vizinhos era motivo de assombração, justamente como Calixto pretendia, porque a sua intenção foi sempre expulsar os caçadores da sua mata predileta. Zé, um exímio arquiteto da mata, construía pequenas casas em toda floresta da nascente, de pau-a-pique, amarradas seguramente com embiras. (cascas de certas árvores que servem de cordas). As telhas eram de folhas de palmeira, babaçu ou buriti, as portas de palhas de coqueiro entrelaçadas de cipó. Quem andava na mata da Santa Rosa admirava-se com essas casinhas singelas, próximas umas das outras. O fato mais engraçado constituía-se do modelo da casa; na frente da mesma sempre existia um cata-vento fabricado com pedaços de cuia, zunindo... zunindo... Como levantava diversas casinhas no meio da mata, os cata-ventos faziam um barulho muito divertido, que, segundo ele, era para espantar os demônios e outros espíritos da floresta.

O principal entretenimento da garotada, quando encontrava com o Calixto, era conversar com ele:

- Bom dia Calixto!

- Bom dia, nhô sim!

- Não é nhô sim, Calixto! É sim senhor!... Então, repita sim senhor dez vezes, até aprender!

- Sim senhor... sim senhor... sim senhor...

Minutos depois...

- Aprendeu Zé?

- Nhô sim, seu moço!

Calixto plantava, para o seu próprio consumo, todos os cereais de primeira necessidade: arroz, feijão, milho, mandioca, jerimum andu, todavia, de uma maneira inteligente. Aos primeiros sinais de chuva, plantava uma roça, ao lado da mata, de cinco tarefas, aproximadamente. E bem próximo da nascente, plantava outro quadro pequeno, que ele pudesse aguar diariamente. Segundo Zé mesmo falava, a roça grande pertencia a Deus, a pequena era dele. Quando o Onipotente mandava chuva, muito bem, mas se não mandava, ele só podia garantir um pequeno quadro para a sua alimentação anual.

Pela inteligência do Zé, Chico Canindé dizia ser ele um verdadeiro sábio da floresta: defendia as árvores, os animais, da maneira mais engenhosa possível.

Calixto fabricava arapuca, laço, besta, mundéu, arco e flecha, para capturar animais, como o maior divertimento da sua vida. Na verdade, boa parte da sua existência se resumia nessa arte primitiva.

A natureza foi a sua única companhia. Chico, certa vez, verificou que ele armava diversas arapucas e pegava muitas juritis, no entanto, soltava quase todas. Passou muito tempo sem entender o porquê desse seu procedimento, até que seu pai explicou: - Zé, meu filho, aplica simplesmente os princípios de preservação da natureza. As aves que estavam chocas ele soltava.

Muito prudente a forma do velho Calixto agir. Considerado um louco, pelos seus familiares, porém, procedia com mais senso que todos eles. Não entendiam o sábio da floresta, que na opinião de Chico, por instinto, protegia a fauna e a flora, resguardando, ardentemente, todos os seus habitantes.

Zé, às vezes, assombrava. Ele nunca reclamava de nada. Entretanto, demonstrava insatisfação ao ouvir qualquer barulho na mata. Quando sentia a presença de pessoas estranhas apresentava-se, de repente, metendo medo aos transeuntes, da maneira mais interessante: vestido como espantalho. Colocava uma rodilha de melão-de-são-caetano na cabeça, os frutos vermelhos pendurados nas orelhas, os braços cobertos com ramos de mucunã e um cinturão feito de perobas (maracujás do mato) bem amarelinhas.

Ele possuía o seu jeito característico de proteger a Natureza, assustando, de vem em quando, os caçadores que por ali passavam. De longe ele pressentia a chegada deles e debochava com muita imaginação.

O pai de Chico contava uma estória engraçada do Calixto. Quando seu Sebastião era mais novo o Zé “ pregou uma peça nele” e em seu irmão mais velho. Numa caçada encontraram Calixto, mais ou menos às dez horas do dia, com o ouvido no buraco de uma estaca, escutando... escutando... O irmão do seu pai puxou Calixto de repente, e colocou também o ouvido no buraco da mesma estaca e esperou... esperou..., não ouvindo nada, disse grosseiramente para ele:

- Não estou escutando nada, seu besta!... Zé, respondeu calmamente:

- Desde que amanheceu está desse jeito, seu moço!...

Eles deram uma boa gargalhada. Calixto, naquele dia, estava querendo zombar dos predadores.

Certo dia, chegou um homem na casa do sinhô Sebastião, esbaforido, cansado de correr, muito assustado e gritando: - Sinhô Bastião... Sinhô Bastião..., eu vi um índio na mata da nascente!...

O pai de Chico conhecendo as presepadas de Calixto, perguntou:

- Como era ele?

- Baixo, com o corpo todo pintado, na cabeça tinha penas de papagaio e de seriema, com arco e flecha nas mãos e uma cinta larga nos braços.

- Hummm... mata perigosa, né?... É preciso ter muito cuidado! ... - Disse o Sinhô Bastião..

O pobre homem saiu e Bastião se divertiu a valer. Era mais uma das peripécias do Zé Calixto para afugentar os intrusos.

Um dos passatempos prediletos de Zé Calixto, além de fabricar armadilhas, era tocar uma pequena flauta de bambu-jardim. Sentava ao pé de um frondoso jatobazeiro, tendo ao seu lado a nascente da Santa Rosa escorrendo... escorrendo... abundantemente, aquela água chorosa e cristalina. Com sua flautinha tocava músicas alegres e pueris, sempre acompanhado dos trinados e sibilos dos pássaros ribeirinhos.

O velho Zé amava a natureza mais do que ninguém. Tratava os animais com muito carinho, como se fossem seus próprios filhos. Constantemente, o povo encontrava raposa com colar de cuia, sagui de brinco, veado com chocalho, tudo que ele pegava com as suas armadilhas. Quem tinha o prazer de ver, divertia-se muito com as suas brincadeiras.

Calixto foi realmente um índio, um caboclo do mato. Seu sangue indígena tinha tudo a ver com a amplidão das florestas e serranias. A proteção pelos animais fazia parte integrante da sua índole. Cada palavra, cada gesto, cada verso aprendido por ele, Deus sabe onde, mostrava que nasceu das entranhas da Terra e nela depositava todos os seus sentimentos. Foi difícil entender uma de suas canções prediletas:

“Seu moço aprenda a lição

Que a Natureza nos dá,

Não mate campina, nem canção,

Bem-te-vi ou sabiá.

Esses quatro passarinhos,

Fazem parte de um jogo,

Acabando com os bichinhos,

A natura pega fogo”.
Só após muito tempo, Chico Pelado compreendeu a grandiosidade da singeleza desses versos. O bem-te-vi, como pássaro, faz um importante controle ecológico, pegando insetos, evitando, assim, uma proliferação desenfreada dos mesmos. O cancão, a nossa gralha nordestina, além de plantar as sementes na mata, alerta os animais para qualquer predador que se aproxime. O campina e o sabiá, pássaros canoros por excelência, alegram o ambiente com seus trinados suaves e bonitos, além de conduzir, também, pequenas sementes para o seio da floresta, fazendo desse modo o equilíbrio ecológico, tão vital para a sobrevivência da fauna e da flora, como do próprio homem.

Chico chorou de tristeza quando Calixto faleceu. Ele foi encontrado morto ao pé do jatobazeiro, junto à nascente, que, com as suas águas cristalinas e chorosas, acalentou os seus últimos suspiros. Ao seu lado, estavam a pequena flauta de bambu-jardim, o arco, a flecha, o cachimbo e mais alguns dos seus pertences. Morreu como viveu: - sorrindo, cantando e tocando a sua flauta, sempre acompanhado do coro dos passarinhos.

Sinhô Sebastião, ali mesmo no pé do jatobazeiro, enterrou o sábio da floresta, para o mesmo escutar, eternamente, o trinado dos pássaros, o choro da nascente e o farfalhar das folhas silvestres.

Para Chico Canindé, Zé Calixto foi um grande defensor da Natureza. Sem dar um tiro sequer, sem mencionar uma palavra rancorosa, ensinou: “o riso alegre e espontâneo é, realmente, a melhor atitude que a natureza nos deu.”

Ele nos ensinou uma lição de sabedoria, apesar de ter sido o mais humilde dos mortais. Ensinou que “em todas as coisas existe o lado positivo, alegre e repleto de luz e que tudo neste mundo pode parecer positivo, alegre e gratificante, ou triste e sombrio, dependendo de como você observa o mundo.”

Hoje, quando Chico vai à nascente do Calixto, parece vê-lo todo coberto de melão-de-são-caetano, tendo na cintura as perobas bem amarelinhas e cantando:


“Pise no chão seu moço,

Pise bem devagarinho,

Não acorde a juriti,

Que tá choca no ninho.


Pise no chão seu moço,

Vá andando devagar,

O sabiá tá cantando,

Ninguém deve perturbar.



CONTATOS COM LAMPIÃO
Com o passar dos tempos, Chico Pelado raciocinou assim: - ora, se Calixto que nunca estudou foi um defensor da Natureza, quanto mais nós, alunos da escola de Dona Francisquinha... Com este pensamento acertado, incutiu na cabeça de formar um bando verdadeiro, como o do famoso cangaceiro Lampião, o qual transitava livremente por aquelas paragens, “amando, gozando e querendo bem”. Todavia, o seu bando seria constituído para defender a Natureza e sem violência, como fazia o velho Calixto.

Chico Pelado, andava pelos 12 anos, quando encontrou pela primeira vez com o ardiloso cangaceiro, por quem mantinha grande admiração. Já sabia, inclusive, a verdadeira razão de Virgulino ter caído nas graças do cangaço.

Certa vez, sob as gargalhadas de Lampião, Chico enumerava as suas queixas e os seus sonhos. O famoso cangaceiro ouvia e aconselhava entre risos: - Pelado, isso não é brincadeira de menino, ainda mais por uma causa que não se intende! Passarin, mato?... home, você tará brincando comigo! - E começava a caçoar dele.

Tornaram-se amigos, e quando Lampião retornava de Juazeiro do Pade Ciço, passando pela Ladeira da Pinheira, lembrava sempre: - Ô Candeeiro, chame ali o Pelado, pra ver se ele já tomou juízo!

Em um desses encontros, Chico admirou-se bastante do cangaceiro Juriti, quando ele comentou: - “negoço sero mermo é meu padim pade Ciço. Eu, pru meu Padim, vou inté pru inferno, quanto mais pru sumitéro que é logá sagrado!” O garoto achou engraçado e até se admirou de tamanha devoção.
Chico Canindé, após cada encontro com Lampião, relembrava, às vezes, o seu antigo patrão, quando o mesmo arrotava um ar de perversidade e arrogância, destratando o seu pai e sua mãe, como se tivesse “ um rei na barriga”. Nunca esqueceu quando foram escorraçados do sitio Pitombeira pelo coronel Zé Duda, depois de sua família ter trabalhado cinco anos sob o comando daquele crápula. Aquilo lhe ficou marcado na alma, como se fora uma ferradura quente, chamejante, lhe imprimindo na pele um I maiúsculo de injustiça. Jamais se lhe apagou da memória aquela humilhação terrível, quando, muitas vezes, engolia as lágrimas para não demonstrar fraqueza.

As experiências sofridas de criança e de adolescente contribuíram veementemente para este sentimento insopitável de revolta e de insatisfação para com as autoridades municipais e os patrões.

Com referência as matas e aos animais que foram dizimados, queimados e destroçados, a mando deles, sem nenhuma piedade, ele nunca esqueceu, pois ficaram gravados na mente e no coração do pequeno Chico, causando-lhe mais revolta do que propriamente os dissabores da expulsão do sitio Pitombeira. Definitivamente formaria um bando para acabar com essas injustiças! A admiração, o zelo e o carinho demonstrado por Chico para com os animais constituía um sentimento nobre, herança do Calixto véio de guerra.

Na verdade, Chico acreditava que as aves na floresta, nas campinas, nos serrados, diferentemente das engaioladas, cantavam sob as benignas asas da liberdade. O trinado delas parecia outro: era solto, alegre, prazeroso; não guardava nenhuma semelhança, comparando com os cantos das aves presas! Só uma pessoa insensível não atinava para aquela enorme diferença.

Ademais, achava ele o seguinte: - quando criamos aves em cativeiro, estamos tolhendo-lhes as possibilidades de acasalamento a seu modo, suprimindo-lhes o direito de ir e vir para onde quiserem - Isso, não há gaiola de ouro nenhuma que possa compensar!

Causou-nos espécie aquele sentimentos extemporâneos, tanto do Calixto como do Chico Pelado, vez que, não existia, àquela época, similar pensamento, pelo menos em termos de Brasil, porque tivemos por berço uma formação colonial errônea. Ainda hoje perdura no espírito do nosso povo a ganância da apropriação de riquezas e de recursos naturais.

De onde teria saído aquela idéia sistêmica, ecológica? Só uma razão nos convenceu: - a do nascimento de líderes fora de época. - Portanto, estamos diante da história de dois grandes lideres que de uma maneira singular, há mais de 70 anos, lutaram, inteligentemente, por razões diferentes, mas, com bravura e destemor.

Apesar das injustiças cometidas pelos coronéis, régulos tirânicos inigualáveis da época, Chico não pretendia vingá-los. A sua ideia maior concentrava-se em defender a Natureza, lugar tão sagrado para ele, como eram sagradas as palavras do Pade Cíço Romão Batista para Lampião e seus cangaceiros.


FORMAÇÃO DO BANDO
Na mente de Chico Canindé, o bando já estava formado. De inicio, precisaria somente de seis guerreiros como ele. Conversaria com o Zé Cisco, filho de seu Totonho; Pedro Malagüeta, que só tinha avô, de nome Paulo; João Bigorna, filho do ferreiro Mané Bigorna, da vila Goianinha; Antônio Cancão, filho do velho Cancão e Cícero Bagaço, neto de Dona Biloca, do sítio Baião e Pedro Corneta, filho de João Ferreiro e D. Joaquina Lavaderra. Pronto, decidiu, o bando seria assim formado. Constituído de rapazotes fortes, valentes e dispostos a defender a mesma ideia: combater as injustiças praticadas contra a Natureza, naquela região.

Os seis companheiros foram escolhidos, a dedo, por Chico Pelado, pois comungavam com os mesmos ideais do chefe, a respeito da preservação da fauna e para com todas as espécies de animais, seus irmãos, com sangue e padecendo das mesmas injustiças. Precisamos salientar que todos eles sabiam ler e escrever, pois frequentavam a escola de Dona Francisquinha, filha do coronel José Leite de Moura, do sítio Santa Rosa, ausente da Pinheira não mais do que dois quilômetros, lugar onde discutiam juntos as depredações praticadas pelos parentes e amigos do coronel Catunda.


CHICO CANINDÉ
Inicialmente apresentamo-lhes o chefe Chico Canindé, ou Chico Pelado, no tempo em que formou o bando. Rapazote de seus 16 anos, desprovido de cabelos, sobrancelhas amareladas, olhos grandes e claros, nariz sardento e adunco, boca pequena e lábios finos. Bem reparando, nunca tirava o seu chapéu de couro da cabeça para encobrir a sua careca. Possuía um pescoço curto e um corpo bem gordinho. Ligeiro no falar e decisivo nas opiniões. A sua paixão era a Natureza. Morria por ela em qualquer circunstância. Apegado aos pássaros, mantinha uma admiração incrível pelos seus gorjeios, arrulhos, pipios e trinados. Conhecia todos, sem distinção, dando-lhes, às vezes, apelidos interessantes. O sofreu ele denominava de “curioso”; a garrincha ele chamava de doidinha; o cancão era o vigia.

Chico nasceu poeta, gostava de improvisar e tinha a língua solta, ou melhor, levava jeito para falar com emoção daquilo que gostava. Comentava costumeiramente que, quando o pássaro se vê enclausurado entre as quatro paredes de palitos de uma gaiola, impedido dos vôos livres que a Natureza lhe proporcionou, debate-se fervorosa e ardentemente, numa ânsia inconsolável de liberdade. Constantemente, sem medir esforços, procura frestas, vasculha buracos, torce a cabeça por entre os palitos da prisão, ficando com o corpo todo ensanguentado. Abatido e cansado, respira sôfrego e se detém por minutos, até recuperar os ânimos, para novas investidas desesperadas. Por dias, mantém incontinente a busca incessante pela amplidão celeste. Pouco a pouco vai se desvencilhado destas tentativas violentas de fuga, como se perdesse paulatinamente a esperança de liberdade. O tempo o faz triste e calado, revoltado com a injusta clausura. Com o passar dos dias, ensaia alguns “versos” medrosos, mostrando que a conformação começa a fazer parte integrante da sua vida; não adianta mais debater-se, é impossível vencer os obstáculos.

Então, começa a outra fase da sua vida: - a fase do “choro” triste, macambúzio e magoado.

Quem conhece os pássaros, dizia ele, sente imediatamente o quanto à prisão não lhes faz bem, apesar de todo conforto em que aparenta viver. Portanto, ele só canta para esquecer os dissabores da prisão. Nunca mais é o mesmo. As suas penas revelam esta verdade: - perdem o brilho, esmaecem, ficam foscas e sem tonalidade. Para o resto de sua existência cantará saudoso dos dias fagueiros que tivera. Se por acaso, tempos depois, lhe dão a liberdade, olha desencantado para os céus e não encontra mais a coragem de arriscar vôos majestosos, como antigamente – está atrofiado moribundo! Agora é um pássaro dependente do homem, é um ser que a liberdade já não lhe faz nenhum sentido. Por tudo isto, para evitar, como ele chamava “a injustiça dos animais”, seria capaz de tudo para libertá-los.



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal