Notas do tradutor douglas wile



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Clássicos do T’ai Chi Ch’üan


As transmissões secretas

da família Yang




CLÁSSICOS DO TAI CHI CHUAN

(T’ai Chi Touchstones – The Yang Family Secret Transmitions – Douglas Wile)

TRANSMISSÕES SECRETAS DA FAMÍLIA YANG

NOTAS DO TRADUTOR DOUGLAS WILE
As abordagens chinesas das origens do T’ai-chi ch’üan tendem a ser de dois tipos: centradas no mito ou no homem. A abordagem mítica ( yang ) aponta para a dádiva da arte por um sábio inspirado, enquanto que a abordagem humanista ( yin ) enfatiza o elaborado processo de evolução cultural. Mesmo os acadêmicos modernos diferem amplamente, tal como Ch’en Kung, que afirma:

Seja Chang San-feng ou outro, quem inventou esta profunda e sutil arte marcial deve ter sido não um homem comum, mas um venerável Taoísta tomado pela mais alta sabedoria

ou T’ang Hao:



Registros históricos e investigações do ramo provam que o T’ai-chi ch’üan foi criado no final da dinastia Ming e no começo da Ch’ing, ou seja, cerca de 300 anos atrás. Foram combinados e desenvolvidos diversos estilos de luta, populares entre civis e militares da era Ming. A estes foram adicionados o “tao-yin” e técnicas respiratórias, absorvendo a filosofia clássica, a teoria “yin-yang” e o conhecimento medicinal sobre a circulação do sangue e do “chi”, para formar uma arte marcial que treina tanto o aspecto externo quanto o interno.

A aproximação mítica é sempre focalizada na figura de Chang San-feng, enquanto que a humanista traça linhas de transmissão tanto de técnicas de desenvolvimento interior do período T’ang, quanto do general Ch’en Wang-t’ing, da era Ming, e seus descendentes. Outros simplesmente enxertam alguma versão histórica numa legendária, muito à maneira da historiografia tradicional chinesa. Há também aqueles que, à semelhança dos teólogos medievais que usavam Aristóteles para provar a existência de Deus, empregam métodos modernos para estabelecer a historicidade do Imortal Chang.

Permitam-me acrescentar algumas observações às dos estudantes da história do T’ai-chi:

Primeiro, abandone toda a esperança todo aquele que procura por exatidão. Os poucos documentos escritos existentes, apesar de encantadores, são excessivamente contraditórios. Não há um único detalhe de registros e compilações que não seja objeto de um amargo debate acadêmico. Não há duas genealogias congruentes e há pelo menos três definições completamente diferentes mesmo de termos básicos como “sistema interno” ( nei-chia ). Mesmo as datas das atividades dos personagens do século XX são inconsistentes em várias fontes.

Segundo, o amargor e a obliquidade do debate acadêmico nesta área deveria nos alertar para o fato de que há outro campo de batalha para os adeptos do interesse cultural. A presunção de historicidade e a omissão de pesquisa crítica dos tradicionalistas não faz mais para preservar a arte do que os céticos ao extrair o que é precioso nos mitos, esterilizando-os. A experiência humana é enriquecida por mitos e lendas, tanto quanto ela certamente não é empobrecida pelo conhecimento da história mundana. Tratar ambas as coisas como mutuamente exclusivas é como dizer que não há lugar no universo para a música e a matemática simultaneamente.

Terceiro, se Chang San-feng não existisse como pai do T’ai-chi ch’üan, seria necessário inventá-lo. A maioria das artes marciais na China gabam-se de origens mito-poéticas. Trata-se simplesmente de uma convenção. Estudantes deslumbrados sentiriam-se enganados pelas justificativas vulgares de homens suados trocando socos num quintal. Neste sentido, Chang San-feng bem pode ter sido o Imperador Amarelo do T’ai-chi. As lendas são, a seu próprio modo, tão esclarecedoras quanto a história objetiva e frequentemente fazem mais, ao comunicar a essência interior da experiência. Narrativas de Chang recebendo a arte num sonho ou na observação do comportamento dos animais lembram-nos de nosso relacionamento criativo com a natureza e com nosso subconsciente. O lirismo dessas lendas é um meio de inspirar nossos movimentos, assim como a música inspira a dança.

Quarto, a maioria dos trabalhos significantes da cultura chinesa, Tao Te King e I Ching por exemplo, não desfrutam de unanimidade quanto a suas origens e datas, o que não impediu a apreciação do valor da leitura durante séculos. Do mesmo modo, enquanto os acadêmicos atolam-se em problemas de “autenticidade” e “autoria”, os pés do praticante dançam sob a penetração e inspiração das palavras de tais textos. Nem precisará o leitor moderno ser convencido de sua antiguidade para aceitar sua autoria. Independentemente de quando ou quem, a natureza permanece como mestre definitivo; pois, para o artesão de cabos de machado, o modelo mais próximo é o de seu próprio machado.

Não podemos estar certos sobre a fase inicial do progresso do T’ai-chi , mas geralmente os estudiosos concordam que os benefícios devem, de alguma maneira, ter sido entregues às portas da família Ch’en, de Ch’en-chia-kou, Honan, para depois serem assimiladas por Yang Fu-k’uei ( Lu-ch’an ), no começo do século XIX. A maioria acha o caminho excessivamente frio e lamacento para que possa retornar ainda mais às origens com sucesso.

Ainda que a historicidade não seja posta em questão, alguns relatos sobre Lu-ch’an o descrevem como um entusiasta pelas artes marciais, que teria sido atraído pela reputação do clã Ch’en, de Hopei para Honan. Outros o tem como um servo nos domínios de uma certa família Wu, que o teria enviado para trabalhar como assistente em sua farmácia. Tendo estudado com Ch’en Ch’ang-hsing, retornou anos depois com um bem acabado e suave estilo de luta, que lhe valeu aclamação nacional através de apresentações à corte Manchu. Alguns o descrevem defendendo as portas da cidade, outros esgueirando-se por frestas de portas e janelas.

Seja qual for o caso, parece seguro afirmar que um homem de origens humildes, por meio de uma combinação de gênio e circunstância, pôs o T’ai-chi ch’üan em ascensão, do pátio de uma província para um lugar de proeminência na capital da nação, e treinou seus três filhos para serem seus valorosos sucessores.

Muito tem sido dito pelos comentadores chineses a respeito das características de estilo de várias gerações de Ch’ens e Yangs. Estas diferenças são dubiamente denominadas como “antigo”, “novo”, “longo”, “médio” ou “curto”. Ensaios reconstrutivos são interessantes, mas invariavelmente especulativos, impressionistas e mais atenuados a cada nova tentativa. Apesar disso, podemos dizer com alguma segurança que a família Yang tomou a liderança em adaptar o T’ai-chi para um novo mundo de armas de fogo e bombas, enfatizando seus benefícios de saúde e aplicação mais da defesa pessoal do que militar. Em geral, isto significou a eliminação de mudanças de ritmo, explosões irregulares de energia em chutes, saltos, quedas e intrincadas técnicas de mãos. O uso de chaves, quebras, pontos de pressão, etc., foi relegado a um segundo plano no currículo do T’ai-chi. Note-se que o capítulo 5 deste livro, contendo as instruções de Yang Pan-hou, é um pouco mais “duro” no tom do que os outros, já que ele ficou conhecido por manter mais das técnicas p’ao-ch’ui (canhão-martelo) ensinadas pelos Ch’ens. Mesmo a terceira geração da forma de Ch’eng-fu, que chegou em Shangai nos anos 20, ainda praticava chutes e golpes rápidos, antes que ele viesse a entender seu valor terapêutico e os meios de torná-lo mais acessível a uma classe polida.

Os anos de maior influência de Yang Ch’eng-fu, os anos 20 e 30, coincidiram com o falado Movimento Quatro de Maio, período da história moderna chinesa. Foi uma época de intensa busca espiritual, reavaliação da tradição e exploração das idéias ocidentais em todas as faces da vida. Para intelectuais conservadores, determinados em seguir uma linha contra ideologias alienígenas e uma completa ocidentalização, Yang parece ter representado uma figura de mestre nativo, e sua arte, um tesouro nacional. Da mesma maneira que um tardio segmento dos literatos da dinastia Ming abandonou o desdém pelas práticas marciais em face da agressão Manchu, um número de intelectuais do início do século XX adotou os kuo-shu (artes marciais chinesas) como parte de um programa de auto-fortalecimento, em contraponto ao imperialismo japonês e aos modelos de modernização ocidental.

Através do gênio próprio de Yang e da energia e prestígio de seus estudantes, o “estilo Yang” de T’ai-chi ch’üan afirmou-se como dominante do sistema de conhecimento interno na China. Ele tornou-se a base para o novo “T’ai-chi Chüan Simplificado”, adotado em 1956 pela China, para promoção nacional. A sua condensação em 37 movimentos, realizada por Ch’en Man-ch’ing , tornou-se a maior manifestação ultramarina desde então.

A literatura tem seu “Mente Literária e o Esculpir de Dragões”, a arte tem o “Manual de Pintura Jardim das Sementes de Mostarda” e a medicina, o “Clássico da Medicina Interna do Imperador Amarelo”. Eles compartilham um vocabulário comum - ch’i , yin e yang , os Cinco Elementos - que permitem ao escritor , pintor e terapeuta falarem a mesma linguagem. Também o T’ai-chi tem seus clássicos e, embora sejam mais fragmentados, possuem idênticos conceitos e princípios. Há o mesmo valor estabelecido na vitalidade orgânica e aquisição do máximo resultado através do mínimo esforço; a mesma aversão ao suor, força bruta e “pintar pernas em serpentes”.

Apesar da abundância de teorias, as pesquisas não foram capazes de estabelecer conclusivamente as datas e a autoria do punhado de pequenos ensaios que veio a ser chamado de “Clássicos do T'ai-chi ch'üan”. Eles começaram a surgir impressos na virada do século e foram reproduzidos em praticamente todos os livros de T'ai-chi ch'üan posteriores, com variações mínimas. Eles estão incluídos no material da família Yang, assim como comentários, alguns atribuídos a Yang Lu-ch’an e outros, obviamente, ao trabalho de alunos de Yang Ch’en-fu. O primeiro livro publicado sob o nome de Ch’en-fu foi o Método de Auto-defesa do T'ai-chi ch'üan, em 1931, distribuído por Shen-chou kuo-kuang-she. No entanto, os discípulos mais letrados de Yang ficaram embaraçados com a falta de lapidação de seu texto e ele acabou sendo rapidamente retirado de circulação. Contudo, ele foi reimpresso de inumeráveis maneiras, obtendo enorme desempenho com sua influência normativa no desenvolvimento contemporâneo desta arte.

Yang Ch’en-fu não foi um acadêmico. Normalmente assume-se que seu primeiro livro foi compilado por Tung Ying-chieh, e o segundo, Princípios Completos e Aplicação do T'ai-chi ch'üan ( 1934 ), por Cheng Man-ch’ing. Estes trabalhos contém, além da forma e das instruções de defesa pessoal, transcrições dos ensinamentos orais, poemas de treinamento mnemônico, ensaios, biografias, historias dos mestres Yang e lendas de Chang San-feng. Outros capítulos desta coleção são material da família Yang publicado posteriormente por estudantes, usualmente na forma de kou-ch’üeh, ou preceitos orais secretos transmitidos pelos mestres Yang. Ainda mais, várias das peças são anônimas; não sabemos quais foram recebidas pelos Yang de uma tradição anterior, quais são de sua própria autoria, nem qual a lista dos estudantes que escreviam incógnitos. Ocasionalmente encontramos anomalias, tal como a de Ch’eng-fu descrevendo um diálogo com seu avô. De acordo com datas universalmente aceitas, ele teria falecido onze anos antes do nascimento de seu neto.

Ainda que coligidos de várias fontes, estes fragmentos, tomados em conjunto e acrescentados ao contexto legendário, têm consistência tanto de princípios quanto de espírito. Por constituírem um esforço unificado que foi capaz de atravessar três gerações e um século de desenvolvimento, eles devem claramente ser tomados em conjunto. Esta coleção, portanto, abrangendo os registros escritos e fotográficos, foi empreendida para a comodidade dos colegas praticantes.

O T'ai-chi ch'üan estabeleceu-se como uma das maiores ciências de auto-conhecimento do mundo. Fundindo movimentos e metafísica, ele tomou seu lugar ao lado da Yoga e dos grandes sistemas de meditação que têm vindo à tona por todas as partes, desde um tempo imemorial. Há uma tendência entre chineses e estrangeiros para ver a cultura da China em retrocesso e para concluir que os pintores, pensadores e poetas de hoje não podem igualar-se aos dos velhos tempos. Embora os antigos não tivessem microscópios para perceber a realidade mais profundamente, da mesma maneira nós, modernos, não precisamos trabalhar sob auto-depreciação, nem adoração do passado. Isto é especialmente verdadeiro no que se refere à arte do T'ai-chi ch'üan. Ela atravessou classes, clãs e limites culturais e espera-se que floresça e desenvolva, através de um hibridismo vigoroso. No entanto, torna-se acentuadamente crítica a necessidade de maior quantidade de traduções, para que materiais originais das fontes possam ser mais acessíveis a estudantes não-chineses; só assim pode haver uma nutrição substancial e uma saudável continuidade com o passado. Neste exato momento, a dignidade da disciplina clama por um alto padrão e fidelidade da tradução dos trabalhos originais, além de integridade nas citações das fontes. Tradução é um matrimônio do sentido com a sonoridade. No caso do presente texto, as decisões foram tomadas sempre privilegiando o sentido, evitando paráfrases e interpretações pessoais. Confúcio caracterizou sua missão como “transmitir, mas não criar”, e este é o lema que guiou este trabalho.



Prof. Douglas Wile

Brooklin College

February, 1983.




CAPÍTULO 1

DISCUSSÃO SOBRE A PRÁTICA DO T’AI-CHI CH’ÜAN
Ditado por Yang Ch’en-fu.

Registrado por Chang Hung-k’uei em



Yang-shi T'ai-chi ch'üan

( T'ai-chi ch'üan Estilo Yang ).

Hong Kong: T’ai-p’ing

shu-chü, 1971;

Também de Yang Ch’eng-fu,

Yang-chia T'ai-chi ch'üan

t’i-yung ch’üan-shu

( Princípios Completos e Aplicações do

T'ai-chi ch'üan da Família Yang ).

Hong Kong: Hsin-wen shu-tien, n.d.



Embora as escolas sejam inumeráveis entre as artes marciais chinesas, são todas baseadas nos mesmos princípios filosóficos. Os antigos devotaram vidas inteiras a elas, sem serem capazes de esgotar suas maravilhas. Contudo, se os praticantes perdem um dia de esforço, eles colherão o benefício de um só dia. Depois de vários dias e meses, o objetivo poderá ser naturalmente atingido. Esta arte não é como os eventos de pista e arena do Ocidente, os quais são facilmente explicados e demonstrados e não requerem nenhum estudo profundo ou sutil.

T'ai-chi ch'üan é a arte de conciliar a dureza com a suavidade, como uma agulha no algodão. Sua técnica, fisiologia e mecânica, todas implicam em consideráveis princípios filosóficos. Portanto, os estudantes desta arte devem passar através de estágios definidos de desenvolvimento, através de um longo período de tempo. Ainda que a orientação de um instrutor superior e a prática com colegas sejam indispensáveis, a coisa mais importante é o treino individual diário. Pode-se discorrer ou sonhar muito, mas um dia, quando formos chamados a testar nossa arte, não teremos nada para mostrar, pois, sem a disciplina diária, permaneceremos sempre alheios à arte. Por esta razão disseram os antigos: “somente pensar é sem proveito; é muito melhor praticar”. Se praticarmos fielmente manhã e noite, verão e inverno, mantendo a forma sempre renovada, aí então, independentemente de idade ou sexo, o sucesso é assegurado.

Nos anos recentes, estudantes de T'ai-chi ch'üan viajaram do norte para o sul da China, do vale do rio Amarelo ao vale do rio Yangtze, e do Yangtze para o rio Pérola, em Kwangtung. Isto promoveu um aumento do número de entusiastas, o que é motivo para grande otimismo em relação ao futuro de nossas artes marciais nacionais. Nos próximos anos, não haverá limites para o número de estudantes sinceros e dedicados. Ainda que não haja escassez de alunos, a maioria cai em um dos dois procedimentos errôneos. O primeiro grupo é altamente bem-dotado, robusto, de pensamento excepcionalmente rápido e penetrante, mas, infortunadamente, fica satisfeito com pequenos sucessos. Rapidamente dominando o superficial, abandonam seus treinos, sem poder aprender muito. O segundo grupo consiste daqueles que são ansiosos por resultados imediatos e descuidados com detalhes. Antes que um ano se passe, terminam seu aprendizado das formas de mão, espada, facão ( sabre ) e lança. Eles são capazes de imitar os aspectos exteriores da forma, mas, na realidade, ignoram os aspectos interiores. Quando examinamos suas direções e movimentos, o subir e o descer, o dentro e o fora, descobrimos que eles todos não alcançam a medida própria. Se tentamos fazer correções, constatamos que cada simples postura requer correção e, mais ainda, que os acertos da manhã já são esquecidos pela noite. É por isso que frequentemente se diz que “as artes marciais são fáceis de aprender, mas difíceis de corrigir”. A origem deste ditado reside no desejo de resultados imediatos. Atualmente, erros são passados como ensinamentos. Isso leva a uma auto-desilusão e é causa de grande preocupação para o futuro de nossa arte.

No começo do aprendizado do T'ai-chi ch'üan, deve-se treinar primeiramente a forma. Treinar a forma significa a cuidadosa memorização e imitação de cada postura da seqüência, sob orientação de um instrutor. Os alunos devem acalmar seu ch’i, memorizar tranquilamente, ponderar e imitar as posturas: isto é o que se chama praticar a forma. Neste ponto, devem prestar especial atenção em distinguir entre o interno e o externo, entre subir e baixar. Aquilo que pertence ao interno é “usar a mente, e não a força”. Baixar quer dizer “conduzir o ch’i para o tan tien”, e subir refere-se à “energia leve e sensitiva no topo da cabeça”. O externo é a “leveza e sensibilidade por todo o corpo”, “a conexão desimpedida de todas as articulações”, “dos pés para as pernas, e destas para a cintura”, “baixar os ombros e dobrar os cotovelos”, e assim por diante. No início do estudo, estes ensinamentos devem ser meticulosamente entendidos e praticados dia e noite. Cada postura e movimento devem ser cuidadosamente analisados. Dedique-se a adquirir correção durante a prática. Quando dominar uma postura, vá para a próxima. Dessa maneira, obter-se-á toda a forma. Se as correções são feitas passo a passo, não haverá mudanças em princípios básicos, mesmo depois de longo período de tempo.

Ao praticar os movimentos, todas as juntas devem estar relaxadas. Em primeiro lugar, não se deve prender a respiração. Segundo, os quatro membros e cintura não devem usar força alguma. Estes dois princípios são recitados por todos os artistas marciais de sistemas internos. No entanto, tão logo os alunos começam a andar, virando o corpo, chutando ou rodando a cintura, perdem o controle da respiração e seus corpos oscilam. As causas são, invariavelmente, prender a respiração e usar a força.


1- A cabeça não deve inclinar, seja para frente, para trás ou para os lados. Isso é o que queremos dizer com “pendurar a cabeça como se ela fosse suspensa pelo alto, por um fio”, ou a idéia de equilibrar um objeto no alto da cabeça. Enfatizamos o conceito da suspensão a partir de cima com o objetivo de evitar uma postura vertical rígida. Ainda que a visão seja dirigida para a frente, às vezes ela acompanha a movimentação do corpo. Apesar de desfocada, ela é, sem dúvida, um importante movimento dentre o conjunto de mudanças, e suplementa deficiências nas técnicas do corpo e das mãos. A boca parece aberta, mas não está aberta; ela parece fechada, mas não está fechada. Inspire pelo nariz e expire pela boca, de um modo natural1. Se fluir saliva abaixo da língua, ela deve ser engolida, e não expelida.
2- O corpo deverá manter uma postura ereta, sem inclinação; a coluna e o cóccix devem ser mantidos em alinhamento vertical, sem sair do eixo. Iniciantes devem dedicar especial atenção a isto, conforme vão executando movimentos ativos envolvendo recepção e emissão, relaxamento do tórax e expansão das costas, baixar os ombros e girar a cintura. Caso contrário, tornar-se-ão tensos e, depois de um tempo, será difícil corrigi-los; mesmo dedicando muito tempo, haverá pouco benefício ou vantagem prática.

3- Todas as articulações dos braços devem estar completamente relaxadas, com os ombros abaixados e os cotovelos dobrados para baixo. A palma da mão deve ser suavemente estendida, e os dedos levemente curvados. Use a mente para mover os braços e permitir que o ch’i atinja a ponta dos dedos. Depois de vários dias e meses, a energia interna tornar-se-á extremamente sensitiva e maravilhas serão naturalmente manifestas.


4- Deve-se distinguir claramente o cheio e o vazio nas duas pernas. Ao ascender e abaixar, deve-se mover como um gato. Se o peso do corpo é apoiado na perna esquerda, então ela é cheia e a direita é vazia. Se o peso vai para a direita, então a perna direita é cheia e a esquerda vazia. Não queremos dizer que o vazio seja um vácuo, pois não há interrupção no potencial energético e a idéia de extensão e contração permanece. “Cheio” significa simplesmente que o apoio é substancial, e não que força excessiva é empregada, o que seria considerado força bruta. Ainda mais, ao flexionar as pernas, a perna dianteira não deve ir além da vertical; excedê-lo é também considerado excesso de energia. Quando, ao empurrar alguém, perdemos nossa postura vertical, nosso oponente tirará vantagem disto para contra-atacar-nos.
5- No que se refere aos pés, é necessário distinguir entre chutar com o bico do pé (como em Separar os Pés à Direita e à Esquerda e Estender os Pés à Direita e à Esquerda) ou com o calcanhar. Ao chutar com o bico, a atenção deve se voltar para os dedos do pé; com o calcanhar, dirija a atenção para a sola do pé. Aonde vai a mente, vai o ch’i, e aonde vai o ch’i, haverá naturalmente energia. No entanto, as articulações da perna devem estar completamente relaxadas, e o chute deve ser desferido com uniformidade e estabilidade. Nesta hora é fácil pecar por uso de força rígida fazendo o corpo balançar, perdendo a estabilidade e a potência do chute.

O currículo do T'ai-chi ch'üan consiste, primeiramente, em forma de mão (i. e., mão vazia), que é o T'ai-chi ch'üan propriamente dito, e a forma longa. Depois vem o Tui Shou de uma mão, Tui Shou fixo, Tui Shou com passos, Ta Lü e San Shou (treinos a dois). Por último, temos as armas: espada de dois gumes, facão (sabre) e lança (forma de treze seqüências).

Quanto à duração da prática, recomenda-se praticar duas formas pela manhã, ao levantar, e mais duas antes de ir para a cama. Deve-se praticar sete ou oito vezes por dia; em último caso, uma pela manhã e outra à noite. Porém, evite praticar depois das refeições e quando tomar bebidas alcoólicas.

Quanto ao lugar da prática, pátios, quintais ou salas vazias onde haja luz e ar fresco suficiente são os mais adequados. Evite ventos fortes e lugares escuros, úmidos e de mau cheiro. Isto porque, quando começamos os movimentos, nossa respiração se torna mais profunda. Se o vento forte ou o ar ruim penetrar no corpo, isto será injurioso para os pulmões e poderá facilmente nos levar à doença. Já as roupas, devem ter um talhe que permita os movimentos sem embaraço (largas), e os sapatos de tecido (sapatilhas) são os melhores, pois deixam os dedos do pé livres. Quando suar depois da prática, evite tirar as roupas, nudez e contato com água fria. Caso contrário, a doença é inevitável.



CAPÍTULO 2

DEZ PONTOS IMPORTANTES PARA O T'AI-CHI CH’ÜAN
Instruções orais de Yang Ch’eng-fu,

registradas por Ch’en Wei-ming em



T'ai-chi ch'üan shu

( A Arte do T'ai-chi ch'üan )

1o. publicado em 1925 pela escola Chen,

a Chih-jou ch’üan-she,

reeditado por Hsiang-kang wu-shu

chú-pan-she, Hong Kong, n. d. Também



Yang-chia T'ai-chi ch'üan t’i-yung ch’üan-shu

( Princípios Completos e Aplicações do

T'ai-chi ch'üan da Família Yang),

Hong Kong: Hsin-wen shu-tien, n. d.

1- A Energia no Topo da Cabeça Deve ser Leve e Sensitiva. “Energia no topo da cabeça” significa que deve-se manter a cabeça ereta, para que o espírito ( shen ) posso alcançar o cimo. Nenhuma força deve ser utilizada. Se a força for empregada, a nuca ficará tensa e sangue e c’hi não serão capazes de circular. Deve haver uma sensação de leve sensitividade e naturalidade. Sem esta energia leve e sensitiva, o espírito não pode ascender.


2- Recolher o Tórax e Expandir as Costas. “Recolher o tórax” é permitir um ligeiro recolhimento do peito, permitindo que o ch’i baixe para o tan t’ien. Evite absolutamente expandir o peito, pois isto causa a paralisação do ch’i no tórax, resultando em rigidez na parte superior do corpo. Isto tende a causar uma oscilação nas solas dos pés. “Expandir as costas” quer dizer que o ch’i projeta-se pelas costas. Recolhendo o peito, as costas naturalmente expandirão. As costas expandindo, a força será emitida a partir das costas, permitindo superar qualquer oponente.
3- Relaxe o Quadril (cintura). A cintura é o regente do corpo. Se a cintura está relaxada, nossos pés terão poder e nossa fundação será estável. Mudanças do cheio e do vazio, todas são provenientes da cintura. Por isto dizemos que ela é a área mais vital. Se perdemos potência, devemos procurar a causa na cintura.
4- Distinção do Cheio e do Vazio. Distinguir o cheio do vazio é o primeiro princípio do T'ai-chi ch'üan. Se o peso do corpo repousa sobre a perna direita, então ela é cheia e a esquerda é vazia. Se o peso se apóia na perna esquerda, então agora a esquerda é cheia e a direita é vazia. Somente após distinguir entre o cheio e o vazio, nossos movimentos se tornam leves, ágeis e sem esforço. Se não somos capazes de fazer tal distinção, nossos passos ficam pesados e rígidos; nossa postura será instável e seremos facilmente tirados do equilíbrio.
5- Baixar os Ombros e Dobrar os Cotovelos para Baixo. “Baixar os ombros” quer dizer que eles são capazes de relaxar e de se manterem baixos. Se eles não podem estar relaxados e abaixados, conforme eles levantam o ch’i sobe também, e o corpo inteiro fica sem potência. “Dobrar os cotovelos” significa que eles devem relaxar, flexionados para baixo. Os cotovelos subindo, a conseqüência é que os ombros não podem abaixar. Não seremos, então, capazes de empurrar nossos oponentes muito longe: estaremos cometendo o mesmo erro da energia interrompida dos sistemas externos.

6- Use a Mente, Não a Força. Isto é afirmado no “Tratado do T'ai-chi ch'üan”, e indica que devemos confiar exclusivamente na mente e não na força. Praticando o T'ai-chi ch'üan, todo o corpo deve estar relaxado. Se pudermos eliminar mesmo a mais leve inabilidade que cria obstáculos nos músculos, ossos e veias, restringindo nossa liberdade, aí então nossos movimentos serão leves, ágeis, circulares e espontâneos. Alguns imaginam como podemos ser fortes sem usar força. Os meridianos do corpo são como os cursos d’água da terra. Quando os cursos d’água estão desimpedidos, a água flui livremente; quando os meridianos estão livres, então o c’hi pode passar por eles. Se a tensão bloqueia os meridianos, o c’hi e o sangue serão obstruídos e nossos movimentos não terão agilidade; se até mesmo um fio de cabelo for puxado, o corpo inteiro será estremecido. Mas se, por outro lado, não usamos força e sim a mente, aonde for a mente, o c’hi a seguirá. Deste modo, se o c’hi flui desobstruído, diariamente penetrando por todas as passagens do corpo sem interrupção, então, depois de muita prática, teremos adquirido um verdadeiro poder interior. Isto é o que o “Tratado do T'ai-chi ch'üan” pretende significar com “somente da mais elevada suavidade pode vir a dureza”. Os braços daqueles que dominaram o T'ai-chi ch'üan são extremamente pesados e são como o aço oculto no algodão. Quando os praticantes dos sistemas externos usam a força, ela é aparente; mas quando eles têm força e não a estão aplicando, eles estão leves e oscilantes. É óbvio que a força deles é um tipo de energia externa e superficial. A força dos praticantes dos sistemas externos é muito facilmente manipulada e não merece elogios.


7- Unidade do Corpo Superior com o Inferior. A unidade do corpo superior com o inferior é o que o “Tratado do T'ai-chi ch'üan” quer dizer com “a raiz está nos pés, é emitida pelas pernas, controlada pela cintura e expressa pelas mãos”. Dos pés para as pernas, e destas para o quadril, deve haver um circuito contínuo de c’hi. Quando as pernas, o quadril e as mãos movem-se, o espírito (shen) dos olhos move-se em uníssono. É isto, então, que pode ser chamado de “união do corpo superior com o inferior”. Se apenas uma parte deixar de ser sincronizada com o todo, haverá confusão.
8- A Unidade do Externo com o Interno. O que o T'ai-chi ch'üan treina é o espírito. Portanto, é dito que “o espírito é o líder e o corpo está a seu comando”. Se fizermos o espírito ascender, nossos movimentos serão naturalmente leves e ágeis. As posturas não são mais do que cheio e vazio, aberto e fechado. O que entendemos por aberto não é limitado apenas às mãos ou aos pés, mas deve-se ter uma idéia de emitir também na mente. Da mesma maneira, o fechado também não é limitado a mãos e pés; deve-se ter a idéia de receber na mente. Quando o externo e o interno estão unificados como um único c’hi, não há interrupção por parte alguma.
9- Continuidade sem Interrupção. O poder dos estilistas externos é extrínseco e tosco. Podemos observá-lo iniciar e acabar, continuar e parar. A velha potência é exaurida antes que uma nova possa nascer. Neste ponto, eles podem ser facilmente derrotados por outros. Usamos a mente no T'ai-chi ch'üan, não a força. Do princípio ao fim não há descontinuidade. Tudo é completo e contínuo, circular e interminável. A isto se referem os Clássicos com “mover-se como um grande rio fluindo sem fim”, ou “mover a energia como o desenrolar da seda de um casulo”. Tudo isso expressa a idéia de unidade do c’hi.
10- Busque a Serenidade na Movimentação. Praticantes de estilos externos consideram pular e agachar como destreza. Eles exaurem seu c’hi, e depois da prática estão invariavelmente sem fôlego. T'ai-chi usa a tranqüilidade para contrabalançar o movimento. Quando estamos em movimento, permanecemos calmos. Portanto, ao praticar as posturas, quanto mais lento melhor será. Quando diminuímos o ritmo, a respiração torna-se lenta e longa, o c’hi pode descer para o tan-t’ien, e podemos naturalmente evitar os efeitos deletérios da pulsação elevada. Os estudantes que cuidadosamente deliberarem sobre nossas palavras estarão aptos a alcançar seu significado.

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CAPÍTULO 3

EXPOSIÇÃO DA TRANSMISSÃO ORAL
Do Cheng-tzu T'ai-chi ch'üan shih-san p’ien

( Treze Capítulos de Mestre Cheng sobre o

T'ai-chi ch'üan ) de Cheng Man-ch’ing.

Fotos da edição de 1950, L’an-hsi t’u-shu

ch’u pan-she, Taipei, 1975.


Como regra, os artistas marciais que atingiram uma técnica superior guardam-na em segredo, não a revelando a outros. Também é habitual transmiti-la somente aos filhos, e não às filhas. Contudo, nem sempre são os filhos valorosos, o que freqüentemente leva a uma perda das verdadeiras transmissões. Se, às vezes, o mestre tem um aluno favorito, ele o colocará a par de sua técnica, mas sempre mantendo algo somente para si, temendo contingências imprevistas. Se formos por este caminho, poderemos realmente ter alguma expectativa de florescimento das artes marciais de nossa nação?

Ainda que eu, Man-ch’ing, tenha estudado com Mestre Yang Ch’eng-fu, não ouso afirmar que recebi a transmissão completa. No entanto, eu estive retendo conhecimento sem tornar segredos públicos, pois isto seria como pilhar tesouros à custa da nação. Nesses últimos dez anos ou mais, sempre que desejei registrá-los no papel para ampliar sua popularidade, este sentimento tumultuou minha mente, fazendo com que eu desistisse de meu intento. Isso foi acontecendo mais e mais, pois eu temia que a transmissão alcançasse as pessoas erradas. Porém, depois de uma cuidadosa consideração, num espírito de generosidade e abertura, eu firmemente resolvi registrar de modo fiel os doze ensinamentos orais mais importantes. Mestre Yang não os transmitia a qualquer um. Toda vez que falava a respeito deles, ele exortava-nos, dizendo: “se eu não mencionar isto, mesmo que você treine por três vidas, ainda assim será difícil de aprender”. E uma vez que ouvi estas palavras, então passei a ouvi-las milhares de vezes. Isto mostra o quanto ele se importava profundamente, embora não pudesse realizar suas maiores expectativas; isto era causa de grande aflição para ele. Não obstante, eu espero prover os homens intrépidos e sábios do mundo com os meios de estudar e desenvolver a arte, e capacitar todas as pessoas a eliminar as doenças e desfrutar da longevidade. Isto seria um grande benefício para toda a raça humana.
1- Relaxamento. Todos os dias Mestre Yang repetia pelo menos umas dez vezes: “Relaxe! Relaxe! Fique calmo! Solte todo o corpo! Em outras ocasiões, dizia: “Você não está relaxado! Você não está relaxado! Não estar relaxado significa que você está pronto para receber um golpe!”.

Esta única palavra, “relaxar”, é o mais difícil de conseguir; todo o resto segue-se naturalmente. Permitam-me explicar a idéia principal das instruções orais de Mestre Yang, para torná-la mais compreensível aos estudantes leitores. O relaxamento requer o soltar de todos os tendões do corpo, sem o menor sinal de tensão.

Isto é o que conhecemos por deixar a cintura tão maleável que todos os nossos movimentos parecem sem ossos. Parecer sem ossos significa que há apenas tendões. Ora, os tendões têm a propriedade de serem soltos. Quando isto é compreendido, haveria alguma razão para não estar relaxado?
2- Baixar. Quando somos capazes de relaxar completamente, isto é abaixar. Quando soltamos os tendões, o corpo que os mantém é capaz de abaixar.

Fundamentalmente, relaxar e baixar são a mesma coisa. Ao baixarmos, não oscilamos: oscilar é um erro. Se o corpo é capaz de baixar, isto já é muito bom, mas é preciso também baixar o ch’i. Baixar o ch’i concentra o espírito, o que será de enorme utilidade.


3- Distinção entre o Cheio e o Vazio. Isto é o que afirmam os clássicos do T'ai-chi ch'üan: “o corpo, na sua totalidade, tem um aspecto de cheio e vazio”. A mão direita está conectada em uma linha de energia com o pé esquerdo, e da mesma maneira, a mão esquerda com o pé direito. Se a mão direita e o pé esquerdo estão cheios, então o pé direito e a mão esquerda estão vazios, e vice-versa. Em resumo, todo o peso do corpo deve pousar sobre apenas um pé. Se o peso é dividido entre os dois pés, isto é uma dupla sobrecarga. Ao girar, deve-se cuidar para manter o ponto wei-lü (na base da coluna) em alinhamento com a coluna, com o objetivo de evitar a perda do equilíbrio central. Isto é de uma importância crítica.
4- Energia Leve e Sensitiva no Topo da Cabeça. Aqui está dito simplesmente que a energia no topo da cabeça deve ser leve e sensitiva, ou seja, a idéia de “manter a cabeça suspensa a partir do alto”.

Manter a cabeça como se fosse suspensa a partir do alto pode ser comparado a uma trança de cabelo amarrada a um caibro. Desta forma, o corpo fica suspenso no ar, sem tocar o solo. Neste momento, é possível rodar todo o corpo. Se a cabeça é movida para cima, abaixo ou para os lados, independentemente, isto não será possível. Energia leve e sensitiva no topo da cabeça é simplesmente a idéia de suspendê-la a partir do alto. Isto é dizer tudo a esse respeito. Ao praticar a forma, deve-se induzir o ponto yü-chen, na base da nuca, a destacar-se, assim o espírito (shen) e o ch’i poderão alcançar o topo da cabeça sem esforço.


5- A Pedra de Moinho Roda, mas Não a Mente. Rodar a mó é uma metáfora da rotação do quadril. A mente não rodar é o equilíbrio central, resultante da condução do ch’i ao tan-t’ien.

“A pedra de moinho roda, mas a mente não roda” é um ensinamento oral dentre as transmissões da família. É similar a outras duas expressões dos clássicos do T'ai-chi ch'üan que comparam o quadril com um eixo ou com um estandarte. Isto é especialmente digno de nota. Minha própria arte progrediu rapidamente, após assimilar este conceito.


6- Alisar a Cauda do Pássaro é como Usar um Serrote. Quer dizer, o Aparar (peng), Puxar para Trás (), Pressionar (ji) e Empurrar (an) do tui-shou vão para frente e para trás, como a ação de um serrote para dois homens. Ao usar um serrote de dois homens, um de cada lado, cada qual deve aplicar igual quantidade de força; isto para que o movimento para frente e para trás seja relaxado e não ofereça resistência. Se houver a mais leve variação em qualquer dos lados, o serrote travará em algum ponto. Se meu parceiro faz o serrote engasgar, mesmo que eu use força, não conseguirei trazê-lo de volta. Somente empurrando conseguirei liberá-lo, reestabelecendo o equilíbrio da força. Este princípio tem duas implicações para o T'ai-chi ch'üan. O primeiro é desistir de si mesmo e seguir os outros. Seguindo a posição de nosso oponente, podemos conseguir o maravilhoso efeito de transformar e produzir energia. O segundo é que, ao mais leve movimento do adversário, podemos antecipá-lo e efetivar o primeiro movimento; isto é, quando o oponente procura atirar-nos longe com uma força de empurrar, antecipamo-nos a isto, usando uma força de puxar. Se o oponente deseja puxar-nos, passamos a empurrá-lo com antecipação.

A metáfora do serrote de dois homens é um princípio realmente profundo. É uma das autênticas lições orais da transmissão de família, que foi capaz de trazer-me um súbito esclarecimento. Aderir à antecipação do mais leve movimento do adversário implica no fato de que eu estou sempre com o controle da situação, e o oponente está sempre em desvantagem. O resto segue-se sem que seja preciso dizer mais.


7- Eu Não Sou um Gancho de Carne. Por Que Você Se Pendura em Mim? T'ai-chi ch'üan enfatiza relaxamento e sensitividade e tem aversão à rigidez e tensão. Se você pendura sua carne em ganchos de açougue, então você é carne morta. Como, deste modo, podemos desenvolver o ch’i sensitivo? Meu mestre detestava e proibia isto, e muito advertiu seus alunos, dizendo que não era um “gancho de carne”. Este é um ensinamento oral dos Yang. O conceito é muito profundo e deve ser conscienciosamente praticado.
8- Quando Empurrado, Não Se Deixe Cair, Como o “João-Bobo”.

O corpo todo é leve e sensitivo; a raiz está nos pés. Se o relaxamento e o abaixar não foram dominados, isto não é fácil de ser consumado.

O centro de gravidade do “João-Bobo”2 é situado na base. É isto que o T'ai-chi ch'üan descreve nos clássicos como “quando todo o peso é apoiado de um lado, há liberdade de movimento; uma dupla sobrecarga causa inflexibilidade”. Se os dois pés usam força ao mesmo tempo, não há dúvidas de que o praticante será derrubado ao primeiro empurrão. Em resumo, a energia do corpo todo, cem por cento dela, deve se apoiar sobre a sola de um único pé. O resto do corpo deve estar calmo e mais leve do que o deslizar do nado de um cisne.
9- Habilidade de Emitir Energia. Energia e força não são sinônimos. A energia provém dos tendões, enquanto que a força provém dos ossos. Portanto, energia é uma propriedade daquilo que é suave, vivo e flexível. Força é propriedade do que é duro, morto e inflexível. E o que nós queremos dizer com “emitir energia”? É como atirar uma flecha.

Atirar uma flecha depende da elasticidade do arco e da corda. O poder do arco e da corda deriva de sua vivacidade, suavidade e elasticidade. A diferença entre energia e força, entre a habilidade de emitir e não emitir, é prontamente percebida. Contudo, isto apenas explica a natureza da emissão de energia, mas não explica sua função com detalhes. Permitam-me acrescentar algumas palavras ao método de emitir energia, assim como foi explicado várias vezes por Mestre Yang. Ele dizia que deve-se sempre avaliar o momento e tirar vantagem disto. Ele também dizia que deve haver um único fluir de ch’i, dos pés para as pernas, e destas para a cintura. Ele contou-nos que seu pai , Yang Chien-hou, gostava de recitar estas duas regras. Todavia, avaliar o momento e tirar vantagem dele são idéias difíceis de assimilar. Eu sinto que a operação do serrote de dois homens contém o conceito de avaliação do momento e de tirar proveito da situação. Antes que meu oponente tente avançar ou recuar, eu já terei me antecipado. Isto é avaliar a oportunidade. Quando meu adversário já avançou ou recuou, mas caiu sob meu controle, isto é tirar vantagem. A partir deste exemplo, podemos começar a entender que a habilidade de unificar pés, pernas e cintura num único fluir do ch’i não somente concentra a potência e nos dá resistência, mas também evita que o corpo torne-se desunido e permite que a vontade seja focalizada. A discussão acima cobre a maravilhosa efetividade da emissão de energia. Os praticantes devem estudar este conceito fielmente.


10- Ao Mover, Nossa Postura Deve Ser Equilibrada, Vertical, Uniforme e Nivelada. Estas quatro palavras - equilibrada, vertical, uniforme e nivelada - são muito familiares, mas muito difíceis de compreender. Somente quando equilibrados e eretos podemos estar confortáveis e controlar todas as direções. Somente quando uniformes e nivelados nosso movimentos podem ser conectados uns aos outros, sem que apareçam interrupções. Isto é o que os clássicos do T'ai-chi chamam “permaneça ereto e equilibrado” e “energia deve ser movida como o desenrolar da seda”. Se não começamos a trabalhar a partir destas quatro palavras, então nossa arte não é uma verdadeira arte.
11- Deve-se Executar as Técnicas Corretamente. O “Poema do Tui-shou” diz: “em Aparar (peng), Puxar para Trás (), Pressionar (ji) e Empurrar (an), deve-se executar a técnica corretamente”. Se o conhecimento da técnica não é correto, tudo se tornará falso. Permitam-me então dizer que, se quando ao Aparar alguém toca o corpo do oponente, ou ao Puxar para Trás alguém tem o próprio corpo tocado, ambas as coisas são erros. Quando aparar, não toque o corpo do adversário; quando puxar para trás, não permita que seu próprio corpo seja tocado. Esta é a técnica certa. Durante o Pressionar e o Empurrar, deve-se reservar energia para que não se perca o equilíbrio central. Isto é o correto.

Eu li essas palavras, “deve-se executar a técnica corretamente”, muitas vezes nos “Clássicos do T'ai-chi ch'üan” sem que pudesse realmente compreendê-las. Somente depois de ouvi-las mais e mais, ditas por Mestre Yang, pude alcançar o método e a medida apropriada. Sem instrução oral é muito difícil de compreender, e há muitos exemplos deste tipo. Esta é uma autêntica lição secreta da transmissão de família. Os estudantes deveriam começar com ela e testá-la por si mesmos, para que possam alcançar a correta medida sem perder o equilíbrio central. Isto é supremamente importante.


12- Repelir 500 Kg com 100 gramas. Ninguém acredita que 100 gramas sejam capazes de repelir 500 quilos. O significado de “repelir 500 Kg com 100 g” é que somente 100 gramas de energia são necessárias para puxar 500 quilos e, em seguida, aplica-se o empurrar. Puxar e repelir são duas coisas diferentes. Não é verdade que alguém possa repelir 500 Kg usando apenas 100 g.

Explicando separadamente os termos “repelir” e “puxar”, podemos apreciar toda a sua maravilhosa efetividade. O método de puxar é semelhante a prender uma corda no nariz de um touro de 500 quilos. Com uma corda de 100 gramas, podemos puxar um touro de 500 Kg para a direita ou esquerda, conforme nosso desejo. O touro será incapaz de escapar. Mas a aplicação deve ser precisamente sobre o nariz. Puxar o chifre ou a pata não terá efeito. Portanto, se puxarmos de acordo com o método correto e no ponto certo, o touro de 500 Kg pode ser puxado com uma corda de 100 g. Poderá, no entanto, uma estátua de um cavalo ser puxada com uma corda fraca? Não! Isto porque há diferenças no comportamento dos seres animados e inanimados. Seres humanos possuem inteligência. Se alguém tenta atacá-lo usando uma força de 500 Kg e aproximando-se em uma certa direção, digamos na cabeça por exemplo, eu puxarei sua mão com 100g de energia, seguindo a direção de sua força, e o desviarei para longe. Isto é o que entendo por puxar. Depois de ser puxado, a força do adversário é neutralizada, e neste momento eu emito energia para repeli-lo. Esse oponente será atirado a uma grande distância. A energia usada para puxá-lo precisará ser apenas de 100 gramas, mas a energia para empurrá-lo deve ser ajustada de acordo com as circunstâncias. A energia usada para puxá-lo não deve ser muito pesada; caso contrário, o atacante perceberá nossas intenções e encontrará um meio de escapar. Em certas ocasiões, é possível apropriar-se da energia de puxar, mudar a direção e empregá-la num ataque. Em outras, o adversário percebe que está sendo puxado e não avança, reservando sua força. Ao reservar sua força, ele está pronto para colocar-se numa posição de recuo. Aí então, posso seguir o seu recuar, empregar minha energia de empurrar e tornar a atacá-lo. O oponente é invariavelmente derrubado pelas nossas mãos. Isto é um contra-ataque.

Tudo o que está dito acima foi transmitido oralmente a mim, Cheng Man-ch’ing, por Yang Ch’eng-fu. Eu não ouso manter tudo isto em segredo, mas desejo propagá-lo mais amplamente. Eu sinceramente espero que os espíritos afins possam avançar juntos.

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CAPÍTULO 4

MANUSCRITOS DA FAMÍLIA YANG COLETADOS

POR LI YING-ANG

Do T'ai-chi ch'üan shih-yung fa

( Aplicações de Defesa Pessoal

do T'ai-chi ch'üan ) , editado por

Li Ying-ang, Hong Kong,

Unicorn Press, 1977.


Princípios do Corpo
Relaxar o tórax. Soltar os ombros.

Expandir as costas. Baixar os cotovelos.

Rodear o Plexo Solar. Suspender o plexo solar.

Proteger o Rosto3. Ser evasivo.

Levantar a Cabeça. Evitar conflito.

Quatro Aspectos da Transmissão Secreta
Expandir - quer dizer que mobilizamos nosso ch’i expandindo-o sobre a energia de nosso adversário, prevenindo-nos de seus movimentos.
Cobrir - significa que usamos nosso ch’i para cobrir a investida do atacante.
Sentir4- usamos o ch’i para sentir a investida do oponente, avaliar sua intenção e procedermos uma evasão.
Envolver5- empregamos o ch’i para tudo envolver e neutralizar.
Estes quatro aspectos representam o que não tem forma nem som. Sem a habilidade de interpretar a energia e treiná-la até a mais elevada perfeição, eles não podem ser compreendidos. Aqui falamos exclusivamente de ch’i. Somente se o ch’i for corretamente cultivado, sem ser danificado, poderá ser ele projetado pelos membros. Seu efeito nos membros não pode ser descrito em palavras.

Poemas dos Oito Caminhos (atribuídos a T’an Meng-hsien)


  • Poema do Aparar

Como explicar a energia do Aparar?

É como a água um barco em movimento carregando.

Torne o ch’i substancial no tan-t’ien primeiramente,

Também deve-se a cabeça pelo alto suspender.

Todo o corpo tem de uma fonte o poder.

Claramente definidos devem ser Emitir e Receber.

Mesmo que mil quilos de força use o atacante,

Sem dificuldade flutuaremos, suavemente.


  • Poema do Puxar para Trás

Como explicar a energia do Puxar para Trás?

Permitindo seu avanço em nossa direção,

O oponente conduzimos,

Enquanto seguimos sua força de aproximação.

Até seu excesso continuando a condução,

Leves e confortáveis permanecemos,

Sem a postura vertical perdermos.

Ao gastar sua força,

Vazio naturalmente ele estará; e nós,

Se o centro de gravidade mantermos,

Nunca ser superados poderemos.




  • Poema do Pressionar

Como explicar a energia do Pressionar?

Os dois lados empregamos

Em certa ocasião,

Para receber diretamente

Uma simples intenção.

Encontrando e combinando

Em uma única ação,

Recebemos indiretamente

A força da reação.

É como a bola

Na parede rebatendo,

Ou como a moeda

No tambor se derrubando,

Com tom metálico ressoando.


  • Poema do Empurrar

Como explicar a energia do Empurrar ?

Quando aplicado,

É como água em movimento,

Mas em meio a suavidade,

Grande força é encontrada.

Quando o fluxo é ligeiro,

A força não é estagnada.

As ondas quebram-se nos lugares altos,

Mergulham fundo nos lugares baixos.

As ondas sobem e descem,

Mas um buraco encontrando,

Nele certamente avançarão.


  • Poema do Puxar para Baixo

Como explicar a energia do Puxar para Baixo?

Permitimos ao adversário

Liberdade para sua força,

Seja ela grande ou pequena,

Como se algo na balança pesássemos.

Depois de avaliado,

Seu peso ou leveza conhecemos.

Girando com poucas gramas,

Muitos quilos pesaremos.

Se pelo princípio subjacente perguntamos,

A função da alavanca descobrimos.




  • Poema do Tangenciar

Como explicar a energia do Tangenciar?

Revolvendo como um tornado,

Se algo contra ele é atirado,

A longa distância é arremessado.

Redemoinhos em ligeiras correntes aparecem,

E como espirais são as ondas encrespadas.

Se em sua superfície as folhas caem,

Nunca de nossa vista desaparecem.


  • Poema do Ataque com o Cotovelo

Como explicar a energia do Ataque com o Cotovelo?

Nosso método pelos Cinco Elementos

Deve ser considerado.



Yin e Yang acima e abaixo

São divididos,

Cheio e Vazio claramente devem

Ser distinguidos.

O oponente nosso contínuo movimento

Não pode agüentar,

E mais aterrador é o nosso

Explosivo golpear.

Quando meticulosamente dominadas são

As seis energias,

As aplicações infinitas serão.


  • Poema do Ataque com o Ombro

Como explicar a energia do Ataque com o Ombro?

Entre ombros e costas

O método é dividido.

Na postura Vôo Diagonal

O ombro é usado,

Mas entre os ombros

Há também as costas.

Quando repentinamente

A oportunidade se apresenta,

Ele golpeia em colisão,

Como a mão do pilão.

O centro de gravidade

Cuidadosamente manter devemos,

Pois se o perdermos,

Certamente falharemos.


Poemas dos Cinco Passos


  • Poema do Avançar

Quando é hora de avançar,

Sem hesitação deve-se avançar.

Se obstáculos não encontrar,

Continuamente deve-se avançar.

Falhando o avanço na hora certa,

A oportunidade é perda certa.

Avaliando a ocasião de avançar

Corretamente,

Vitoriosos seremos

Certamente.


  • Poema do Recuar

Se nossos passos seguem

Do corpo as mudanças,

então nossa técnica será

Perfeita e bem acabada.

Evitando o cheio,

Enfatizando o vazio,

Assim o oponente

Se apóia em nada.

Falhando em recuar,

Quando se pede recuar,

Nem sábio nem corajoso

Isto pode se chamar.

Verdadeiramente,

Recuar é avançar,

Se em contra-ataque

Ele pode se tornar.


  • Poema do Olhar para a Esquerda

Para a esquerda e para a direita,



Yin e Yang mudam

Segundo a situação.

Evadimo-nos pela esquerda

E atacamos pela direita,

Com passos firmes e convicção.

Operam juntos pés e mãos,

Joelhos, cotovelos,

Cintura também.

Nossos atos o oponente

Sondar não pode, e contra nós

Defesa não tem.
Poema do Olhar para a Direita
Com passos perfeitos,

Fingindo à esquerda, atacamos pela direita.

Seguindo a ocasião,

Golpeamos à esquerda, atacamos pela direita.

Tudo que é frontal evitamos,

E mudanças de condições avaliando,

Lateralmente avançamos.

Cheio e vazio, esquerda e direita

Sem falhas, use técnica perfeita.

Poema do Equilíbrio Central
Estáveis e serenos como a montanha,

Estamos centrados.

Nosso ch’i baixa para o tan-t’ien,

Somos como que suspensos pelo superior.

Nosso espírito é concentrado,

A composição é perfeita no modo exterior.

Energia emitindo e recebendo,

Ambos frutos de um instante operando.

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CAPÍTULO 5




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