Notas do tradutor douglas wile



Baixar 369.2 Kb.
Página5/6
Encontro29.07.2016
Tamanho369.2 Kb.
1   2   3   4   5   6

Uma Nota Crítica
Algumas pessoas proclamam que professores, sejam acadêmicos ou marciais, sempre retêm conhecimento ao transmitir seus ensinamentos. Minha opinião é diferente. Tanto no campo acadêmico quanto nas artes marciais, independentemente do fato de ensinar amigos ou alunos, há duas coisas a considerar. Um amigo de longa data desenvolverá grande respeito, e um aluno lembrar-se-á de seu mestre por um século. Portanto, não seria de maneira alguma natural que um mestre não desse o máximo de si para seus estudantes. Ocorre que os aprendizes das artes marciais consideram-se virtuosos em seu próprio juízo, e freqüentemente abandonam seus estudos no meio do caminho. Alegar que seu instrutor não deseja compartilhar seus segredos ou que ele retém conhecimento exclusivamente para si é uma teoria muito peculiar. Na verdade, a essência do T'ai-chi não encontra-se nas posturas externas, mas sim nos princípios internos, na energia e no ch'i. Somente quando o praticante dominou os princípios e cuidadosamente os apreendeu e assimilou, ele pode afirmar que sua arte é completa.
Os Oito Portais e os Cinco Passos
Posições Oito Portais
Aparar ( sul ) K'an

Puxar para Trás ( oeste ) Li

Pressionar ( leste ) Tui

Empurrar ( norte ) Chen

Puxar para Baixo ( noroeste ) Hsün

Tangenciar ( sudeste ) Ch'ien

Atacar com o Cotovelo ( nordeste ) K'un

Atacar com o Ombro ( sudoeste ) Ken

As posições e os portais representam o princípio do yin e yang em posições reversas. Eles movem-se dando voltas, num círculo contínuo. É indispensável a compreensão dos quatro lados e quatro cantos do quadrado. Aparar ( peng ), Puxar para Trás ( ), Pressionar ( ji ) e Empurrar ( an ) são técnicas dos quatro lados. Puxar para Baixo ( lie ), Tangenciar ( cai ), Ataque com o Cotovelo ( zhou ) e Ataque com o Ombro ( kao ) são técnicas dos quatro cantos diagonais. Combinando técnicas de cantos e lados, obtemos os oito trigramas dos portais ( pa kua ) e as posições. Os passos correspondem aos Cinco Elementos; eles fornecem o controle sobre as oito direções. Avançar ( fogo ), Recuar ( água ), Olhar para a Esquerda ( madeira ), Olhar para a Direita ( metal ) e Equilíbrio Central ( terra ) são os Cinco Elementos. O Equilíbrio Central age como um ponto de eixo, pois contém os oito trigramas para os pés e os Cinco Elementos para as mãos e os passos. O número é, portanto, oito mais cinco, que gera o treze. O número treze deriva da natureza. Por esta razão, as Treze Posturas também são chamadas de Oito Portais e Cinco Elementos.
Como Trabalhar nos Oito Portais e Cinco Passos
Os oito trigramas e os Cinco Elementos são parte dos dons naturais do homem. É necessário primeiro compreender a base do trabalho: o movimento consciente. Somente após conquistar o movimento consciente somos capazes de interpretar energia, e somente depois de interpretar energia podemos chegar ao nível do esclarecimento espiritual. Portanto, o primeiro estágio é o entendimento da movimentação consciente, pois ainda que ela seja um dom natural, é extremamente difícil de dominar.
O Acima e o Abaixo do T'ai-chi Podem Ser Chamados de Céu e Terra
As quatro técnicas e o acima e abaixo

Podem em Céu e Terra ser divididos.

Puxar para Baixo, Tangenciar e Ataques

Com o Ombro e o Cotovelo

A cada um origem e objeto são atribuídos.

Puxar para Baixo é o Céu e

Ataque com o Ombro é a Terra,

Eles respondem mutuamente um ao outro.

Com o que deveríamos nos preocupar

Se Céu e Terra não se complementassem um ao outro?

Se Tangenciar e Ataque com o Cotovelo

Forem aplicados longe demais,

Perder-se-á do Céu e da Terra a relação,

Não deixando de se lamentar jamais.

Esta teoria fornece dos planos

Do Céu e da Terra a explicação.

Usando Tangenciar

E Ataque com o Cotovelo no avançar,

Os braços com o ideograma de “homem”

Devem se assemelhar14


Explanação das Oito, Cinco e Treze Posturas e do Boxe Longo
No processo de treinamento, depois de dominarmos as posturas individualmente, devemos conectá-las em uma série contínua e fluente. Esta é a razão de serem chamadas Boxe Longo. Contudo, se não adquirimos a habilidade de interpretar energia, existe sempre a possibilidade de cairmos num "estilo mole" ou, talvez, num "estilo duro". Portanto, mantenha a suavidade a qualquer custo, além da unidade do corpo todo, do espírito e da mente e o ch'i como raiz. Depois de um tempo, você alcançará maestria e atingirá qualquer objetivo ao qual se propõe. Que resistência será capaz de nos deter?

Em combate, há quatro palavras de importância primária; elas derivam-se dos Oito Portais e dos Cinco Passos. Seguindo quatro técnicas, as mãos se movem como pedras de moinho em rotação. Há quatro técnicas para o Avançar e o Recuar, para o Equilíbrio Central, o alto e o baixo; há quatro técnicas para o Céu, a Terra e o Homem que ascendem do fundo para o alto, e quatro técnicas para o Boxe Longo. Quando suas extensões e contrações forem completamente livres, você certamente chegará aos níveis de habilidade intermediário e avançado. Ainda que seja suave, você possui força.



Explicação da Reversão do Yin e do Yang no T'ai-chi
Yang é o trigrama Ch'ien, o Céu, o sol e o fogo. Li é o desprendimento, afastamento, emissão, oposição, um subordinado, aplicação, materialidade, carne, corpo e as artes marciais (tudo acima tem relação com a vida estabelecida). Yin é o trigrama K'un, a terra, a água e a lua. O trigrama K'an é a ondulação, a penetração, acumulação, espera, combinação, o regente, os ossos, a essência, princípio, mente e os assuntos civis (tudo acima refere-se à efetivação da natureza pessoal). Inalação e recuo15 representam o princípio de reversão do yin e do yang.

Ao examinar as palavras água e fogo , entenderemos com maior clareza. As chamas do fogo tendem a subir, enquanto que as águas sempre buscam pelo nível mais baixo. Se, todavia, colocamos o fogo sob a água, estaremos revertendo suas posições; mas se não empregarmos algum método para regulá-los, não haverá sucesso. Ora, se colocarmos então a água em um pote sobre o fogo, ela será aquecida pelo fogo. Nessas condições, não só ela não afundará, como ainda absorverá calor do fogo. Ao mesmo tempo, ainda que as chamas tenham tendência a subir, o pote impõe limite ao fogo, impedindo-o de queimar sem controle, e possibilitando à água ser destilada continuamente. Isto é chamado de princípio da água e do fogo complementando-se um ao outro, ou princípio de reversão.

Ao permitirmos que o fogo ascenda e a água abaixe, eles separam-se. Esta é a razão de procurarmos mantê-los em uma relação complementar. Este é, portanto, o princípio de separar em dois e recombinar em um. Por isso costuma-se dizer "do um o dois, e do dois o um". Em suma, este princípio é o conceito do três, ou seja, Céu, Terra e Homem. Compreendendo a reversão do yin e do yang, é permitido começar a falar do Tao. Entendendo sem lapsos o Tao, podemos começar a falar do homem16. Só é possível ampliar o conceito de Tao através do homem; saber o que é o Tao não é uma coisa à parte do homem. Depois poderemos começar a discutir a unidade do Céu e da Terra. O Céu está acima, a Terra abaixo; o homem ocupa o centro. Se pudermos explorar o Céu e contemplar a Terra unida com o sol e a lua, unificada com as cinco montanhas sagradas, quatro grandes rios, aurora e crepúsculo, alternância das quatro estações, participando do florescimento e reprodução de árvores e ervas, permeada pelo destino por deuses e espectros, e se pudermos compreender a ascensão e queda dos eventos humanos, então podemos falar de Ch'ien e K'un como o Céu macrocósmico, e a Terra e o Homem como o Céu microcósmico e a terra.

Estenda sua ciência e investigue o mundo através da sabedoria e dos dons do Céu e da Terra. Isto, então, pode ser chamado de sabedoria e habilidade inatas do homem. Se nossos pensamentos jamais se afastam da verdade, eles terão um efeito poderoso. Se nosso grande ch'i for adequadamente nutrido e não danificado, ele durará para sempre. Isto é o que pretendemos significar quando comparamos o corpo humano com o Céu e a Terra em miniatura. O Céu é a natureza pessoal, e a Terra é a vida pessoal. A luz e a sensitividade no homem são seu espírito. Se o espírito não é puro, como preencher o papel de terceiro participante entre o Céu e a Terra? Qual o significado da existência, se não exploramos a natureza pessoal, cultivamos a vida, expandimos o espírito e não nos desenvolvemos positivamente, com plenitude?


Avaliando o Oponente
Em combate com o adversário, primeiro observe se o seu físico é grande ou pequeno. Se é grande, é provável que ele tenha uma força bruta considerável, fazendo com que eu responda com superior habilidade. Se ele tem uma constituição leve, ele deve ser habilidoso, sendo necessário atacá-lo com vigor. Deste modo, supero o fraco com o forte, e o poderoso com a esperteza. Independentemente do tamanho, se o combatente adota posturas elevadas, devo primeiro lançar mão das posturas rebaixadas, para só depois empregar as elevadas. Este é o método do acima e abaixo, do yin e do yang.

Examinando os movimentos do adversário, primeiro reparo em seus olhos, depois no corpo e nas mãos. Se o atacante pretende golpear com os punhos, observo primeiro seus ombros ou o seu recuo; se a intenção dele é chutar, seu corpo inclinará antes, denunciando sua intenção. Tudo isso vendo ao avançar, como pode-se falhar em prevalecer? Se o oponente aproxima-se com um semblante amigável, primeiro neutralizo-o com suavidade; mas se ele avança com um olhar feroz, isto indica suas intenções maléficas, e será necessário empregar toda a minha força para golpeá-lo. Deste modo, só lhe dou em retorno exatamente o mesmo que ele me oferece. Praticantes de T'ai-chi ch'üan são refinados a princípio, tornando-se agressivos somente quando pressionados.

Combatendo, verificamos ainda que diversos oponentes variam quanto à velocidade. Se suas mãos são lentas, devo penetrar, aderir, juntar e acompanhar; mas se suas mãos são velozes e o atacante golpeia com selvageria, devo manter a mente calma, a coragem forte e observar a explosão final dos golpes, conforme ele se aproxima. Concentrando em um ponto, neutralizo à direita e à esquerda, provocando o retorno do ataque. Há um ditado assim: "somente a mão sensitiva pode ser como o bode andando sobre a corda bamba". Este é o princípio do T'ai-chi ch'üan de responder à velocidade com velocidade, e de acompanhar a morosidade com a lentidão.

Há mais de um método de combate. Se meu oponente ainda não se aproximou, primeiro conecto com as mãos, enquanto avanço com os pés. Neutralizo e penetro, penetro e neutralizo. Se o adversário é habilidoso ao escapar, não ouso persegui-lo, mas adoto uma das treze posturas, aguardando; eu não o sigo em seu encalço, mas sou como o tigre na moita, esperando por sua presa. Quando os movimentos do combatente são irregulares e imprevisíveis, permaneço no centro da Grande Polaridade; enfatizo a serenidade e a estabilidade, enquanto que ele enfatiza a movimentação e a ansiedade; o fogo da ansiedade tudo incendeia e não conhece precedentes, mas eu ataco com boa e plena compostura. Este é um exemplo de mútua produção e destruição. Não encontro dificuldade em penetrar na defesa interna do oponente. A Grande Polaridade dá nascimento ao yin e yang, aos quatro duogramas e aos oito trigramas. Isto é fixo e eterno.


Introdução à História da Transmissão da Lança de T'ai-chi
O Mestre Imortal Chang San-feng estava praticando as artes Taoístas nas montanhas Wutang. Ao descansar, ele meditava treinando seu espírito, voltando à Fonte Original. Quando ativo, ele vagava pelas Três Montanhas e pelos Cinco Picos. Toda manhã, o Imortal restaurava-se em uma local isolado no topo de uma montanha, aonde ele recolhia os mais refinados elementos e o ch'i do Céu e da Terra, fazendo-os circular com exercícios respiratórios.

Certo dia, repentinamente, o Imortal avistou uma explosão de luz dourada, onde as nuvens encontravam-se com os picos ocultos pela neblina. Mil raios de magnificente ch'i giravam e dançavam no Grande Vazio. O Imortal imediatamente correu para o lugar, mas não viu nada. Ele pesquisou o local onde estava a luz dourada, encontrando uma passagem e uma caverna. Ao aproximar-se da boca da caverna, duas serpentes douradas e de olhos brilhantes emergiram. O Imortal brandiu seu espanador e a luz dourada veio abaixo. Ele fixou sua vista nela e descobriu que havia duas lanças longas de 2,25 m cada. Elas aparentavam ser feitas de rattan17, mas não eram de rattan; pareciam de madeira, mas não eram de madeira. Sua qualidade era tal que não poderiam ser lesadas pela espada. Poderiam tornar-se suaves ou duras, conforme o desejo; também emanava delas um raro brilho. Olhando mais para o fundo, ele encontrou um livro. Seu título era "Lança de Penetrar e Aderir do T'ai-chi", e seu destino era ser transmitido ao mundo todo. Ele dominou os princípios contidos no livro e analisou todas as suas maravilhas. Todas as instruções eram escritas na forma de poemas. Atualmente não podemos compreender todos os princípios e maravilhas da lança, mas Mestre Chang extraiu o significado de cada palavra, transformando-as numa série de posturas. Agora todos os homens podem aprender e estudar esta arte.


Uma Exposição do Marcial, do Civil e dos Três Níveis do T'ai-chi
Ao falar-se do Tao, não há por onde começar, a não ser o cultivo de si mesmo. O método de auto-cultivo pode ser dividido em três ensinamentos. Cada ensinamento representa um nível de desenvolvimento. O nível mais alto é o do grande desenvolvimento e o mais baixo é o do pequeno desenvolvimento; o médio é o da sinceridade. Há três níveis de desenvolvimento, mas a realização é única.

O civil é cultivado internamente e o marcial, externamente. A cultura física18 é interna e as artes marciais são externas. Quando o cultivo do interno e do externo resultam em conquistas superiores, este é o nível mais elevado de realização. Se desenvolvemos a arte marcial através da cultura física e do aspecto civil, ou se desenvolvemos o aspecto civil e a cultura física através da arte marcial, este é o nível médio de desenvolvimento. O nível mais baixo é, portanto, saber a cultura física sem o aspecto marcial, ou somente praticar artes marciais sem a cultura física.


Uma História de Mestre Yang Lu-Ch'an
Uma vez recebida a transmissão, Mestre Yang Lu-ch'an demonstrava uma natureza tranqüila e um caráter leal e generoso. Quando sua família ganhava um pouco a mais, distribuía generosamente entre os amigos. Certo dia, um de seus amigos pediu uma determinada quantia emprestada para uma viagem, comprometendo-se a devolvê-la posteriormente. Mestre Yang deliberadamente divertiu-se às suas custas, dizendo: "já que você toma este dinheiro emprestado, pode fazer-me um favor? Segure na ponta de minha lança para que eu possa atirá-lo para cima do telhado. Se você não pousar bem apoiado sobre seus pés, meu bolso estará vazio". O homem concordou. Mestre Yang utilizou sua mente para mobilizar o ch'i e arremessou-o para o topo do telhado. O homem caiu completamente pasmado e duro, como uma estátua de madeira, com o corpo dobrado para a frente. O Mestre rindo, tratou de arranjar-lhe uma escada. Ao descer, o homem declarou que estava realmente espantado. O Mestre riu novamente, dizendo que aquilo era apenas uma brincadeira, e deu o dinheiro ao homem. O homem partiu, muito satisfeito com o ocorrido.
Uma História do Tutor Imperial Yang Ch'ien-hou
Há muito tempo atrás, havia um proeminente oficial de nome Chi Su, amante das artes marciais e muito aplicado em tais estudos. Ao ouvir falar que Mestre Yang havia recebido a transmissão secreta de Wutang, viajou para a capital para convidá-lo para uma estadia em sua casa. Em pouco mais de um mês, ele se introduziu nas técnicas de mão e nas aplicações de espada e lança. O Mestre sempre discorria para ele sobre a superioridade da suavidade e tranqüilidade. Como resultado, a fama de Lu-ch'an espalhou-se mais do que nunca.

Em Shensi, havia um homem chamado Wang da Grande Espada, cujo apelido era Bravo da Estalagem Vermelha. Ele podia levantar 250 Kg e cobrir 500 Km em um dia. Ele era excelente no manejo do facão e amava a prática com lança. Ele era o artista marcial mais famoso de Shensi e tinha mais de quinhentos alunos. Ao ouvir falar do ch'i de Mestre Yang, reagiu com ceticismo e resolveu desafiá-lo para um confronto. Mestre Yang, no entanto, declinou do convite, dizendo: "Mestre Wang, você treinou diligentemente por muito tempo. Receio não pertencer ao mesmo nível que o seu". Wang tomou o Mestre por covarde, pressionando-o com as seguintes palavras: "Há muito tempo venho ouvindo falar do T'ai-chi ch'üan, mas tenho minhas dúvidas se a lança de T'ai-chi pode ser colocada em uso prático".

O Mestre, sentindo que não teria escolha, deixou seu assento sorrindo e apanhou sua lança, entrando no pátio. Wang investiu contra o peito do Mestre, mas este rodou seu corpo e puxou-o para trás. Wang firmou sua lança e começou a aplicar pressão, mas Yang permaneceu vazio. Quando Wang recolheu sua lança e preparava-se para matá-lo, o Mestre tomou vantagem de sua energia de aproximação e usou a técnica de "esgotar", para atordoá-lo. Sem saber o que aconteceu, a lança de Wang voltou tão reta quanto uma vareta de incenso, fazendo com que ele golpeasse a sua própria face. Ele caiu voltado para cima, a seis ou sete passos de distância. Levantando, ele desculpou-se: "a partir de agora, eu respeito seu poder miraculoso". Ele abandonou completamente seus próprios métodos e seguiu Mestre Yang. Muito conscientemente, estudou por muito tempo. Tendo encontrado seu superior, ele foi capaz de estudar sem ciúme e sem vergonha de ser humilde, o que rendeu grande reputação a si mesmo.
MISCELÂNEA DE COMENTÁRIOS
Havia um homem que queria estudar as artes marciais e resolveu questionar qual era o sistema melhor, interno ou externo. Eu respondi que todos os sistemas legados por mestres ancestrais são bons, tudo é uma questão de receber ou não uma verdadeira transmissão. Eis que ele perguntou novamente: "qual a melhor escola, Shaolin ou Wutang?" Eu lhe disse que, se ele queria aprender Wutang, deveria treinar T'ai-chi ch'üan, e se ele queria treinar Shaolin, deveria treinar Shaolin. Todos deveriam seguir suas próprias inclinações.

Em seguida, ele ainda quis saber quantos anos eram necessários para aprender T'ai-chi ch'üan. Eu respondi: "meu amigo, no que se refere às artes marciais, não se pode falar em termos de anos. Um instrutor pode usar o mesmo método para transmitir seu conhecimento, mas a capacidade de cada aluno é diferente. Alguns aprendem em um ano ou dois; outros, em cinco ou seis meses. Há também aqueles que fracassam na compreensão, mesmo após dez ou vinte anos. Nesta arte, excelência não é uma questão de estatura ou de idade, mas exclusivamente de inteligência individual. Tenho estudado esta arte por mais de quinze anos, mas freqüentemente sinto a necessidade de apelar para instrutores”.


O Segredo do Estudo das Artes Marciais
Respeite a arte e respeite o instrutor,

Com a verdadeira transmissão

Você será contemplado.

Desrespeite a arte e desrespeite o instrutor,

Melhor é a consideração

De que seu tempo é desperdiçado.


Uma História de Yang Lu-ch'an
Quando Mestre Yang lu-ch'an estava na capital, havia um lutador que era adepto do uso de pontos de pressão. Este homem ouvira falar do Mestre e desejava desafiá-lo. Quando ele tentou testar sua arte, Mestre Lu-ch'an agarrou seu pulso e usou a técnica de "avaliação dos tendões". O oponente foi incapaz de estender seus dedos. Mestre prosseguiu, levantando seus pés do solo. Mestre então disse a ele: "não se envergonhe de sua habilidade. Lembre-se dos seus muitos anos de prática com seriedade. Se não fosse por eles, você seria gravemente lesado". Desta forma, Mestre Yang recebeu então seu mais profundo respeito.

Tardiamente, Mestre Wang Tsung-yüeh difundiu sua arte através das regiões do leste, Chekiang e Honan, mas Chekiang a perdeu em tempo muito breve. Em Ch'en-chia-kou, Honan, ela foi passada para Yang Lu-ch'an. Após cinquenta anos e várias gerações, a maioria dos praticantes de T'ai-chi ch'üan pertence ao estilo Yang. Por que razão, poderia se perguntar, teria a família Yang mantido um completo monopólio no Condado de Yung-nien? Ainda que encontremos outros bons praticantes, eles estão entre os dez peculiares alunos de Yang Pan-hou. Portanto, entre os praticantes de T'ai-chi ch'üan não há nenhum que não tenha sido auxiliado pelos mestres Yang.

Alguns dizem que o T'ai-chi ch'üan não tem uso prático. Outrora, Pequim foi um magneto para todos os heróis marciais da China. Todos chamavam Yang Pan-hou de "Yang, o imbatível". Se você diz que não pode atirar alguém longe com o T'ai-chi, isto acontece simplesmente porque sua habilidade ainda não amadureceu. Jamais diga que o T'ai-chi não tem aplicação prática. Não tema qualquer pessoa que seja, mesmo se ela for tão forte quanto um touro. Se o poder interno não puder superar oponentes fortes, então por que incomodar-se em estudá-lo? Quando 500 kg de força apóiam-se em nada, eles são inúteis.
O Método Secreto de Tung Ying-chieh
Para usar o T'ai-chi , devemos saber a hora do dia, ter informações sobre o terreno e conhecer a harmonia humana.

O método que diz respeito à hora do dia significa que não devemos encarar o leste pela manhã, nem o sul durante o meio-dia e nem o oeste pela tarde, ao entrar em combate. Isto porque devemos evitar encarar o sol.

Quanto ao terreno, primeiro faça um reconhecimento de seu relevo, analisando o espaço disponível e a elevação. Quando lutamos, é mais vantajoso ocupar o solo mais rebaixado.

O método da harmonia humana diz o seguinte: ainda que você esteja envolvido em uma disputa, seja polido e jamais perca a sua dignidade.





  • Há um grande número de estilos de T'ai-chi atualmente, o que torna muito difícil para os estudantes a distinção entre o bom e o ruim. Permitam-me respeitosamente recomendar um método. Se eles são capazes de utilizar tanto a suavidade quanto a dureza e, além disso, de relaxar os músculos e revigorar o sangue, então eles são corretos, independentemente do aspecto individual ou da transmissão. Mas há também um outro método, baseado nos aspectos civil e marcial. Observe seus braços; se a pele é muito suave e os ossos e a carne estão bem relaxados e pesados, isto é correto. Este é o método civil para avaliar a qualidade. Agora, quando trata-se de aplicações de defesa pessoal, devemos olhar atentamente para a habilidade de empregar métodos e posturas do T'ai-chi sem confusão, e a capacidade de atirar longe os adversários sem perder a naturalidade. Este é o método marcial para avaliar a qualidade. Se o indivíduo usa força e golpeia com selvageria, ele pode até ser vitorioso, mas não passa de pura sorte; isto não é uma verdadeira transmissão e não é, de maneira alguma, um método. Assim será fácil para os estudantes o reconhecimento da verdadeira arte.



  • No T'ai-chi ch'üan, a habilidade do cultivo pessoal física e espiritualmente, mas não da auto-defesa, é a realização civil. A capacidade de defesa pessoal, mas não do auto-conhecimento, é a realização marcial. O verdadeiro método do T'ai-chi é suave. A habilidade de instruir pessoas, tanto no aspecto civil quanto no marcial, é o T'ai-chi completo, civil e marcial.



  • Os fatores mais importantes na determinação da força ou da fraqueza de alguém são o ch'i e o sangue. O estilo de Mestre Yang é suave, aberto e relaxado; além disso, é o mais adequado para alongar os músculos e revigorar o sangue. Se aqueles que são fracos praticarem o estilo de Mestre Yang, verão resultados espantosos.



  • Há técnicas de "romper tendões" e de "quebrar ossos" no T'ai-chi; encontramos ainda "pontos de pressão", "mão yin e mão yang", "mãos dos Cinco Elementos", "penetração dos ossos", "martelo de arrancar o coração", "cotovelo olho de tigre", "ombro da montanha aderente", "perna de pato mandarim", "agarrar sorrateiramente" e "abater o touro do outro lado da montanha". Esta última técnica não significa abater literalmente um touro, mas sua aplicação, sem causar dor na pele, provocará grandes danos internos.



  • T'ai-chi ch'üan é um sistema interno ( nei-chia ch'üan ). Ele é conhecido popularmente como "Boxe Interno". ( nei-kung ch'üan ). O sistema interno é o mais perigoso dentre as artes marciais. Depois de adquirir maestria, torna-se da máxima importância permanecer gentil e suave. Não empregue facilmente sua força plena para atacar alguém, pois isso fará com que o legado dos mestres ancestrais caia em desgraça.




  • O T'ai-chi ch'üan desfruta de grande popularidade na China contemporânea: entre os artistas marciais, todos muito valorizam a sua prática. Todavia, cada estudante tem um objetivo diferente. Se a intenção é simplesmente treinar um exercício físico, qualquer instrutor servirá. Mas se a meta é aprender a defesa pessoal, então um mestre superior é indispensável.




  • A prática do T'ai-chi pode fortalecer o fraco e rejuvenescer o velho. Para quem deseja ter resultados em um breve período, aconselho evitar o álcool, tabaco e sexo, além de treinar um número considerável de horas. Restrinja todas as formas de hábitos nefastos.




  • A transmissão das artes marciais começa com duas grandes escolas: Wutang e Shaolin. Nos dias atuais, elas permanecem distintas. Entre os estilos originais do Templo Shaolin, surgiu um diverso número de sistemas. Também aqueles das Montanhas Wutang tiveram suas subdivisões. Dizer que eles são todos iguais é impossível. Se falarmos apenas de T'ai-chi ch'üan, a maioria das escolas valem-se da transmissão de Yang Lu-ch'an. No presente, houve divisão entre Escola do Oriente e Escola do Ocidente, sendo que cada qual louva aos céus a si própria. Os iniciantes encontrarão grande dificuldade em determinar os méritos relativos. Eu posso dizer que a minha arte é a melhor, mas em última análise, quem poderá dizer? O ideal é ter consciência a respeito das diferentes posturas. Alguns dizem que deve-se enfatizar a força nelas, outros acentuam a habilidade; seja qual for o caso, só deve haver um único conjunto de princípios. Sem a verdadeira transmissão, ninguém pode entender a razão disto.



  • Há dois métodos para aprender as artes marciais. Pode-se treinar com amigos de idade aproximada ou pode-se procurar um instrutor. Com perseverança, ambos serão bem sucedidos.



  • Nas artes marciais, a questão de quanto o instrutor tem a oferecer recai completamente sobre o estudante, e não sobre o professor. Explicarei brevemente. Muita gente aprecia o valor do T'ai-chi ch'üan e deseja realmente aprendê-lo, mas a maioria torna-se cética quando trata-se de saber se o instrutor recebeu ou não a verdadeira transmissão. Mesmo antes de cruzar o portão eles já receiam trinta por cento. Ora, ainda que o instrutor pretenda passar seu conhecimento, o que pode ele fazer? Também é comum vários estudantes desistirem no meio do curso, reclamando que seu professor não quer compartilhar de seu conhecimento; mas isto eles o fazem sem questionamento dos seus próprios hábitos de aprendizado. Isto deveria ser uma advertência para aqueles que levantam acusações contra seus instrutores19. Comparo tudo isso ao general dos Três Reinos, Liu Pei, que requeriu os serviços de K'ung Ming, mas sem sequer perguntar se ele tinha interesse de abandonar sua reclusão. Ele o solicitou uma, duas, três vezes, mas K'ung Ming não queria sair de seu isolamento. Como poderia Liu Pei valer-se de seu talento, agindo dessa forma? Que isso sirva de lição para os estudantes. Tenho esperança de que os colegas que difundem a arte do T'ai-chi pensem muito a esse respeito.




  • Para aprender algo de bom, você deve usar um pouco a sua mente.




  • Quando você absorver algo de valor de algum livro, jamais diga que você o inventou por seus próprios méritos, pois isto mostra a sua ingratidão para com o autor de tão duro trabalho.




  • Mestre Yang era bastante aberto ao transmitir sua arte. Ele ensinava a todos igualmente. Mas então por que alguns realizavam tanto e outros tão pouco? Isto deve-se às diferenças de disposição e inteligência e, como conseqüência, da compreensão do ensinamento, pois os princípios do T'ai-chi são extremamente profundos e não podem ser assimilados em um único dia. Há estágios de desenvolvimento e o método de ensinar é avançar passo a passo, até o ápice. Abandonar o estudo antes de alcançar o nível mais elevado e acusar o professor de ser um impostor é pura insensatez. Esperar contemplar pepitas de ouro depois de poucos dias e mínimo esforço, também não é nem um pouco realista. Mantenha-se firme no estudo e não haverá razão para o instrutor não abrir mão livremente de seu conhecimento.




  • Certo dia, Mestre Yang estava com a disposição de divertir-se, enquanto demonstrava algumas aplicações práticas. Ele praticava o Tui Shou com Wang Pao-huan. Usando a técnica de Empurrar, ele atirou Wang a mais de três metros de distância. Foi realmente impressionante20. A auto-defesa do Mestre no Tui Shou era tal, que parecia que ele não tinha raízes nos pés e que não poderia manter-se fixo. No entanto, sua expressão era perfeitamente composta e controlada, e suas mãos e pés eram leves e sensitivos; tudo o que ele tinha a fazer era levantar a mão para que o oponente voasse como uma flecha atirada pelo arco. Sua arte era, de fato, maravilhosa. Ninguém deixava de respeitá-la.




  • T'ai-chi ch'üan é um sistema interno. Se as posturas são corretas e os princípios interiores compreendidos, então isto é T'ai-chi ch'üan. Mas se as posturas não são corretas nem os princípios entendidos, então até pode haver semelhança com o T'ai-chi, mas não há diferença alguma dos sistemas externos.




  • Os tesouros das artes marciais ancestrais certamente não foram transmitidos intactos. No futuro, se todos aqueles que tendem a esquecer os seus professores continuarem, com perseverança, a desenvolver os ensinamentos que receberam, então certamente receberão a transmissão verdadeira. Isto é indubitável.




  • Aprender as aplicações de auto-defesa é indispensável no T'ai-chi ch'üan. Estudantes com interesse primário nos exercícios físicos devem também estudar as aplicações. Se eles não o fazem, tornam-se muito estúpidos e lerdos e, ainda por cima, acabam por desistir. De fato, ignorar as aplicações é também um obstáculo para o fortalecimento do corpo.



  • O propósito de dominar as aplicações de defesa pessoal não é espancar as pessoas, mas sim estudar seus maravilhosos princípios com os amigos. Você ataca e eu neutralizo, eu golpeio e você responde. Isto continua mais e mais, sem fim. Todo tipo de mudança pode tomar lugar, sem exaurir as possibilidades. Quando percebemos que as variações do T'ai-chi ch'üan são infinitas, com suas mãos dançantes e passos diversos, o interesse aumenta diariamente. Com a prática através dos anos, esse contínuo e inesquecível prazer grandemente fortalece o corpo. Treinar o corpo é muito importante no estudo das aplicações e é mais importante ainda, se você pretende enfrentar adversários. Portanto, caros amigos, é absolutamente necessário estudar as aplicações.


1   2   3   4   5   6


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal